O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Diálogos do Jardim I

Imagem retirada do google

Se fechar os olhos e me calar, sei que posso, mesmo daqui deste torrão de terra, desta madeira velha serpenteando sobre antigas e atlânticas águas, ouvir o imenso som do mar. E o mar é um rumor. E há uma barca e há marinheiros que segredam alfabetos, sílabas deste país, e os atiram para o longe. Esse longe que nos chega no mesmo som e tem a antiga voz do mar. Eu digo que há pontes que se erguem sobre a estrutura funda da língua. Como uma sólida raiz. Uma identidade. E se nos sons arrastados de uma voz cantante para além do Tejo vemos o cimo, o canto da nossa fala; do outro lado do Atlântico uma cantiga, uma morna adormece nos braços de uma canoa. Temos aí um rosto que nos olha da distância do mar e tem na fala o que é português e Portugal. Como quem semeia arados, assim se escava a língua. Arar o mar, como só os poetas o sonham. Um mar para unir e não para separar. Uma ilha. A Língua, como as pontes atravessadas pela raiz. A eterna voz do mar. Por ela o atravessamos em barcas e navios de palavras e de rostos do longe e do perto; de cá e de lá: mares e palavras. Terá dito o poeta que viver não é preciso, o que é preciso é navegar. Nós dizemos que construímos pontes para as atravessar e afagar distâncias.Entre o trigo e o mar se cruzam e encontram os ancestrais rumores da língua: a fala, a raiz e a identidade. A reunião de várias e plurais vozes, cantando no mesmo e “gerundivo” sotaque, nota singular de uma mesma língua materna e matriz. A pluralidade de sementes e grãos semeados por um país maior do que o seu tamanho, levado pelo sonho de unir, mais do que de dividir, mais do que o de separar… A língua como chama. Sejam esses os cantos de uma solidariedade na unidade e diversidade que nos fortalece na tradição. Tronco e raiz de uma árvore; sopro de poeta, vozes de cá e de lá, poetas a semear singularidades nas diferenças, no respeito pelas palavras e vontades de cada um na construção de uma ponte por onde todos passaremos. Vozes lusófonas! Uma mesma matriz, tanto de cá, como de lá dos vários lados da ponte. Que melhor lugar para abrir os fundamentos dessa ideia de respeito e defesa de uma língua que é, além de pátria e mátria, o espaço onde se estruturam também os fundamentos da aceitação da alteridade, do outro, que, livremente, e de forma criativa e cooperante, constrói uma ponte de humana e fraterna civilidade. Uma outra ponte feita de sonhos de futuro e de esperança no Homem Novo: mais justo, mais fraterno e mais solidário.