terça-feira, 24 de março de 2009
Entrevista com David Bohm
segunda-feira, 23 de março de 2009
Curso "Fernando Pessoa" na Galeria Matos Ferreira
25 de Março a 20 de Maio / 2009
A GALERIA MATOS FERREIRA promove em parceria com a ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA um Curso sobre FERNANDO PESSOA.
OBJECTIVO
O curso partirá de uma abordagem plural e interdisciplinar, filosófica e literária, a alguns aspectos da obra de Fernando Pessoa. Dividir-se-á em três blocos temáticos, leccionados por Paulo Borges, Renato Epifânio e Duarte Braga. Dois dos módulos serão constituídos por três sessões, sendo o segundo módulo constituído apenas por 2. Com o recital de CARMEN FILOMENA, serão nove sessões ao todo.
PROGRAMA
MÓDULO I - Ilusão e Libertação, por Paulo Borges (25 Março, 1 e 8 Abril):
· Pré-existência e saudade na poesia inglesa;
· O vazio do sujeito e o jogo onírico/i-lusório do mundo (poesia ortónima e Bernardo Soares);
· O “Tratado da Negação” e “O Caminho da Serpente” (Raphael Baldaya).
MÓDULO II - Pessoa, o filósofo do outro, por Renato Epifânio (15, 22 Abril):
· Pessoa, o filósofo do "outro" do pensar;
· Pessoa, o filósofo do "outro" de todo o ser;
· Pessoa, o filósofo do "outro" de si próprio;
· Pessoa, o filósofo do "outro" de nós mesmos.
RECITAL DE POESIA DE FERNANDO PESSOA, por CARMEN FILOMENA (29 Abril).
MÓDULO III – Projecto poético e heteronímia, Duarte Braga (6, 13 e 20 Maio):
· A questão da Nova Poesia Portuguesa, a profecia do supra-Camões/supra-Portugal e as Índias Espirituais;
· Alberto Caeiro: ignorância e revelação; o poema VIII de Guardador de Rebanhos e a leitura agostiniana;
· Álvaro de Campos e o sensacionismo.
HORÁRIO, INSCRIÇÕES E PREÇO
As aulas serão realizadas em período pós-laboral às quartas-feiras, de 25 de Março a 20 de Maio, inclusivé, ou seja nos dias 25 de Março, 1, 8, 15, 22 e 29 de Abril, e ainda nos dias 6, 13, 20 de Maio, das 19h00 às 20h30.
O Curso tem um limite máximo de 20 (vinte) participantes. O seu custo é de EUR 90,00 (noventa euros), podendo ser pago em duas prestações de EUR 45,00 (quarenta e cinco euros) cada. A primeira prestação deve ser paga a 25 de Março e a segunda com cheque pré-datado para 29 de Abril. Inclui material de apoio.
Os interessados podem-se inscrever através do Tel 21 323 00 11, do Tlm 96 295 37 22 e do Email: mfgaleria@netcabo.pt. Em qualquer das opções deverão indicar sempre o número de telemóvel para eventual contacto.
Onde se está antes de lá chegar, onde se permanece depois de sair de lá
"Encaminharam-se para um imenso castelo, no frontispício do qual se lia: 'Não pertenço a ninguém e pertenço a todo o mundo. Vós aí estáveis antes de lá entrar e vós aí estareis ainda quando de lá saireis'"
- Diderot, Jacques le Fataliste et son Maître.
Edmond Jabès: Deixei uma terra que não era a minha
pour une autre qui, non plus, ne l'est pas.
Je me suis réfugié dans un vocable d'encre
ayant le livre pour espace ;
parole de nulle part, étant celle obscure du désert.
Je ne me suis pas couvert la nuit.
Je ne me suis point protégé du soleil.
J’ai marché nu.
D'où je venais n'avait plus de sens.
Où j'allais n'inquiétait personne.
Du vent, vous dis-je, du vent.
Et un peu de sable dans le vent…
tendo o livro como espaço;
palavra de lugar nenhum, sendo aquela obscura do deserto.
Não me cobri durante a noite.
Não tentei nunca proteger-me do sol.
Caminhei nu.
De onde eu vinha, não havia mais sentido;
Aonde eu ia não inquietava ninguém.
Vento, digo-lhes, vento.
E um pouco de areia no vento...
domingo, 22 de março de 2009
O Estrangeiro
- Hans Jonas, La Religion Gnostique, Paris, Flammarion, 1978, p.73.
sábado, 21 de março de 2009
sexta-feira, 20 de março de 2009
Do mar e das flores...feliz Primavera!
Ao longe, um sussurro de mar em jeito de prece. E assim conta a lenda que o mar amava as flores e que as ondas eram a sua tentativa para as beijar. Contudo, não as alcançava e daí que o marulhar fosse a sua canção de embalar. Secretamente, escutam-na as flores que de mil e uma cores, escondem as suas dores. No entanto, choram quando sentem que a água de sua raízes tem o sal de uma lágrima de mar, corres-lhe a nostalgia de um amor perdido, vasto, tão imenso que lhes (en)canta.
É por isso que em orvalho, de amanhacer e anoitecer, as flores se banham e purificam em toque cristalino de reflexo arco-íris; porque se projectam , em sonho, e abraçam o mar. As mais ousadas, soltam as suas pétalas e voam, livres, no vento. Fazem-se mágico momento. Sonham, fundem-se e são...fragmento de amor que se superou para além da dor.
Por vezes, temos de soltar as nossas pétalas para que possamos também voar e o nosso amor alcançar. Ainda que pareça tão longe, impossível e ingénuo, tudo é possível quando é Primavera em nós, em processo de renascimento e reflorescimento contínuos.
quinta-feira, 19 de março de 2009
Contemplação
Contemplação
Vejo passar o tempo, o rio calmo
Onde se afoga o desespero humano;
Imagino-lhe a foz, no trágico oceano
Da morte;
E a nenhum Sul ou Norte
Consciente
Consigo vislumbrar-lhe a lírica nascente.
Já caudaloso em cada latitude,
Em vão procuro a fonte
Que lhe dê começo:
A madrugada duma telha de água,
Hesitante
Antes do grande dia
Que toda a madrugada principia.
Ganges sagrado do desassossego,
Vem dos confins do nada
Em direcção ao grande mar vazio...
E à tona da barrenta omnipotência
Leva a cega inocência
Naufragada
De cada vida nele purificada.
Miguel Torga, Câmara Ardente.
"...tudo tem a Vertigem por essência"
- Raul Leal (Henoch), Sodoma Divinizada. Leves reflexões teometafísicas sobre um artigo, in Sodoma Divinizada, organização, introdução e croologia de Aníbal Fernandes, Lisboa, Hiena Editora, 1989, p.75.
Em homenagem a este imenso desconhecido do pensamento português, amigo próximo de Fernando Pessoa, que o defendeu perante o moralismo da "canalha", desigando-o como "alto génio especulativo e metafísico, lustre, que será, da nossa grande raça" - Ibid., p.125.
A Pessoa
e apesar disso sou um exilado da terra e do mar
sem falar do céu, com pés inchados.
Não falo nenhuma língua e não tenho nenhuma língua
somente um músculo sangrento e inchado
tanto de tentar falar e chupar a essência das coisas
todas perdidas como eu no espaço e no tempo
e no espaço do tempo que chamamos a vida.
Não, não falo nenhuma língua suficiente
pois sou incapaz de natureza e cheio do orgulho amargo
das minhas próteses e não falo a língua do ódio
pois a minha raiva é uma onda sem espuma
que não quebra as rochas da terra … Ai! Ai! Ai!
Veja as ondas do mar serena, raiva imortal da água e da lua.
Não, sou nada, nem um grau de areia
pedra incluído no ciclo eterno e esplendoroso das coisas
sou nada pois não sou nem coisa nem espectro
sou exilado como o vento mas somente no vento
uma pluma preta com a cor do asfalto e com o cheiro do alheio
do estrangeiro inimigo dos costumes quotidianos
que causa o medo nas ruas escuras das cidades
angustia tenho também, neste caminho sem fim.
Não, sou nada e não tenho nada
pois tudo é dono de mim, sou escravo da minha liberdade
e prisioneiro de uma ética duvidosa da verdade fugitiva
da tolerância cheia de crueldade com dentes e olhos
com palavras antropófagos e corpos carnívoros
com o fome das almas que se escondem e que se recusam
para o canto mais distante da larva mortal.
Palavras e palavrões destinados para confundir os povos
para sempre, para poder sobreviver como parasitas
para se multiplicar nas bocas humanas com mal cheiros.
Não, sou nada e apesar disso não falo nenhuma língua
pois as línguas falarão de me e me falam e me abrasam
não falo a língua do amor mas a minha carência de querer amor
é como um remoinho, um buraco preto, um querer que destrua tudo
o próprio ser e tudo que é e que quer ser, mesmo aqui e agora mesmo.
Não, sou nada e o nada que sou é como o nada
e o que eu sou, sendo nada, sou eu mesmo…Ai! Ai! Ai!
Lisboa 22.01.09
Seminário "O que é a vacuidade?"
Sede da União Budista Portuguesa
por Paulo Borges
O seminário visa introduzir à compreensão do que se designa como "vacuidade" (shunyata), noção-experiência fundamental e específica da tradição budista. Sujeita a muitos mal-entendidos, inconfundível com o mero "vazio" ou o "nada", a visão budista considera-a expressão da própria natureza primordial e última da mente e dos fenómenos, do indivíduo e do mundo. A sua compreensão e experiência conduz à extinção das causas do sofrimento - conceitos, emoções perturbadoras, karma - , à visão das coisas como são e ao desabrochar de uma sensibilidade, amor e compaixão incondicionais. Ou seja, ao Despertar.
Local: União Budista Portuguesa, Calçada da Ajuda, 246, 1.º dt.º, Lisboa
Contacto e inscrições: 21 3634363 (das 15h-21h); tlm 918728979 (deixar p. f. a mensagem com o nome e o contacto)
Email: sede@uniaobudista.pt
Indicações:Autocarros Carris 732, 729, Eléctrico 18 - sair em frente ao Jardim Botânico da Ajuda.
10º Encontro Inter-Religioso de Meditação
Centro de Estudos da Ordem do Carmo - R. St. Isabel, 128-130 (ao Rato)
É com muita alegria e empenho que a Comunidade Mundial de Meditação Cristã anuncia a realização do próximo Encontro Inter-religioso de Meditação.
Assim, convidamos todos os membros da CMMC, bem como os membros de outras tradições religiosas a virem viver de novo a experiência de procurarmos, no silêncio, e em profunda comunhão entre todos, o encontro com o mais sagrado e o mais pleno.
"Aprender a dizer o nosso mantra deixando para trás todas as outras palavras, imagens e fantasias, é aprender a entrar na presença do Espírito que nos habita em amor." John Main
A sessão iniciar-se-á às 19,30h, com breves leituras de textos espirituais de cada tradição, intervaladas por 2 min. de silêncio, seguindo-se 25 minutos de meditação silenciosa. Terminaremos com uma pequena prece colectiva pela paz e pela união entre todos.
A Comunidade Mundial de Meditação Cristã
Email: mcristinags@netcabo.pt ; manuel.lancastre@gmail.com
Tel: 218488259/Tm: 9194505775
http://meditacaocrista.weebly.com/index.html
O sol O muro O mar
destroçado pelas fúrias.
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para
manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento
azul sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência
intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos
pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e
atentos: silêncio vigiando
o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é
preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço
ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para
o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas
ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte,
os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso
amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa -- tinta que
se despinta -- porta aberta para o pátio de chão
verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e
espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto
para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de
manchas nebulosas e sonhadoras.
A porta desenha sua forma perfeita à medida do
homem: as cores do cortinado de fitas contam a
nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do
homem.
No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e
as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto
de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do
lugar sagrado.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ilhas, 1989
de Obra Poética III, Caminho, 2ª edição; 1996
João Aguardela despede-se da Música Portuguesa...
Uma perda de quem foi um ganho para a Música Portuguesa!!!
Um bem-haja, e até sempre.
Obrigada, João Aguardela.
quarta-feira, 18 de março de 2009
O Sal das Lágrimas
Parábola do professor
imagem google"Deus, o único ateu perfeito"
terça-feira, 17 de março de 2009
Da rosa e do (a)mar
da orla do silêncio, a companheira noite que nada mais fazia do que render-se à solidão dos tempos, ao vazio do espaço e ao amor, do ser, caminhante.
o quase-tudo em vestígio de nada quedava-se em lágrima, murmúrio, queda de anjo, cujas asas são ondas de mar, calmo e revolto, azul e verde, cuja espuma toca a face de ente perdido.
escuto devaneio...recolho-me em suspiro...e exalo o odor de um perfume de rosa a desabrochar em coração de (a)mar.
Camadas de Fé
segunda-feira, 16 de março de 2009
O Dissipador de Rebanhos
Que vemos nós senão o que ver cremos?
As coisas que não sentimos mas pensamos,
Sobretudo quando só a sentir
Sem pensar nos julgamos?
Pois onde já se viu coisa alguma
Ou alguém que a visse,
Senão pensando haver algo ou alguém
Conforme o crente humano rebanho
Religioso ou não
Unânime sempre o disse?
Pobre de ti que te crês ver
Sem estar a pensar.
Pobre de ti que julgas saber ver quando vês
Enquanto insciente em tudo concebes
O imaginário ente que te crês.
Desperta, desprende-te, desaprende-te!
Não pretendas livrar as partes do todo fazendo um todo de cada parte.
Não suponhas algo existir claramente,
Pois “algo” “existir” “claramente”
É o mais obscuro e místico poetar
Do mais confuso e de-mente do-ente.
Liberta-te de guardar rebanhos.
Desadoece de adoeceres outros por te pretenderes são.
Deixa de te fazer de criança, simples, inocente.
Deixa-te.
Larga-te da mão.
Larga-te da mão.
Pasma-te de te ver a sentir o que pensas.
Arrepia-te de dizer que não sabes o que amas
Mas sim o que é amar.
Abandona o ocultismo de falares de “coisas”, “existência”,
“Fora”, “dentro”.
Desilude-te da “eterna inocência”
De tanto pensando pensares “não pensar”.
Pois, ó intérprete, por isso falso, da natureza que não há,
Ó grande mestre de prestidigitação,
Ó grande ditador de tudo ditando nada pretenderes ditar,
Que és e as coisas que pensando sentes
Senão bolas de sabão
Que sempre instantâneas rebentam antes de as soprar?
Rebentam:
Explodem o ar.
- Fragmento de O Dissipador de Rebanhos.
domingo, 15 de março de 2009
Diálogos II
“Partir. Partir novamente. (…) Pois afinal não somos donos de nada. O que criamos separa-se logo de nós. As nossas obras ignoram-nos, os nossos filhos não são nossos filhos. Aliás, nada criamos. Nada de nada. Os seus dias estão para o homem assim como as peles estão para a serpente. Reluzem por momentos ao sol e depois desprendem-se dele. Deves então partir uma segunda vez, afastar-te ao teu primeiro afastamento. O mundo quer o sono.” Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, p. 103
Encontraste esta pena e deixaste-a ante um qualquer olhar. Caiu também no meu. O meu olhar esvaziado de rostos presentes. Chorei. Na humidade das pestanas molhadas estavam contidas gotículas guardadas de outros olhares, de outras águas onde permanecem, como sons retinidos pelas cordas de um violino envelhecido, rostos que são pura vibração. As lágrimas são fontes por onde correm rostos desaparecidos e outros, pelo canto da saudade, por nós recuperados. Nas lágrimas há uma imagem, um reflexo em espelho, dos antepassados. Esta pena escreveu Um Deus à Flor da Terra e na humidade das suas pontas estão as lágrimas de Francisco de Assis, o santo que não se perdeu da infância do tempo nem da minha infância fora do tempo. A infância do tempo comunga com a origem, e uma certa forma de dizer e escrever, – há um escrever que é apenas dizer, uma passagem pelo sentido sem nele ficar para nele residir como morador, mas para ser apenas um hóspede na linguagem que dela se desaloja e parte – o abandono da alma. Em alguns seres, como Francisco de Assis, a alma é uma pena enterrada e desenterrada, uma vida emplumada e uma morte desemplumada. A alma de um santo, como a de um louco, não conhece a opção, apenas a conjunção. Um santo é um homem e um deus. E se não é Deus com maiúscula é porque nele a humildade nunca o leva a escrever o seu nome, a assinar um papel que em que ela se identifique com a narrativa do mundo. A pena que me corre nas lágrimas, a pena que escreveu o livro, a pena que é a alma de Francisco de Assis: eis esta fotografia. A fotossíntese. Mesmo a pena que escreveu não constituiu uma grafia, uma escrita, o livro de Christian Bobin está escondido na areia do deserto. Só nessa areia, feita da cinza de todo o papel queimado na dor que é alegria e na alegria que é combustão do fogo ardente de estar vivo, a palavra guarda, em permanência e sem interrupção, o sol das auroras e das almas que choram por serem infância e sem tempo. Infância do tempo. As lágrimas, como as penas, são as peles das almas que sofrem. Caem e renovam-nos. Os que sofrem, como sabia Deus – e por isso parece não ter temido matar o seu filho, por isso os cristãos parecem não ter, como Weil, medo de sofrer –, sabem que as lágrimas são, como as penas, a ante-figuração, ou o rasto do anjo que marca o trajecto da imortalidade. E, Platão, esse infante da Filosofia, não percebeu também ele, que uma alma imortal está mais próxima da infância do tempo, a eternidade? Escreveu-o com uma pena molhada, e estava cheio de saudades dessa infância; a sua alma, paisagem de areia cheia de trilhos, andava com a pena atrás do pélago ou do abismo em que a alma estrénua se lança esquecendo o som do intenso lamento, de qualquer lamento. Enterrada a pena de escrever, enterrada a pena do sofrer, a alma partiria o vidro da campânula que a prendeu ao tempo e ao corpo e entregar-se-ia à areia do deserto, a única página onde a luz se inscreve sem a intromissão opacizante do sentido que é uma noite que impede a palavra do porvir e de reluzir, porque o que não perde as penas, como as peles, não passa nas insídias que são as passagens por onde se parte, os lugares para onde a alma viaja.
“Não há amor adulto, maduro e razoável. Não há perante o amor nenhum adulto, apenas crianças, apenas este espírito de infância que é abandono, despreocupação, espírito da perda do espírito. A idade adiciona. A experiência acumula. A razão constrói. O espírito da infância não conta nada, não amontoa nada, não edifica nada. O espírito da infância é sempre novo, retoma sempre aos começos do mundo, aos primeiros passos do amor. (…) O homem da infância é o contrário de um homem adicionado sobre si mesmo: um homem retirado de si, renascendo em todo o nascimento de tudo. Um imbecil que joga à bola. Ou um santo que fala ao seu Deus. Ou ambas as coisas ao mesmo tempo.” Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, p. 97
A pena tem um ar abandonado que não se acresce ao estar também enterrada. Também os mortos estão mais abandonados do que enterrados. Podemos, aos mortos, desenterrá-los e, todavia, nunca poderemos eliminar o seu modo absoluto de abandono. É esse abandono que faz com que um santo pareça, mesmo vivo, um morto para o mundo e pareça como um louco uma criatura em estado permanente de infância. O abandono une a infância e a santidade à morte. Ser em estado de abandono é ser como a pena, o que cai de um corpo e pode o mais fundo e o mais alto. A pena é o que solta o santo do mundo, a pena é o que liberta a criança do tempo. Só o homem da dor permanente se torna santo porque a dor, quando não é um estado intermitente mas um estado contínuo, só conhece uma direcção, a inversa em relação ao estar aqui e ser com os que estão aqui. O mundo é o corpo de que o santo se solta. O santo caminha para o anti-mundo. Como a infância para o antes do tempo. A infância, como a santidade, não se dirige para o que existe, o inexistente tem na criança que vive o sono da infância, o poder de atracção que nenhum objecto exercerá nela durante a vida adulta, porque a infância é o estado em que a intersecção da culpa com a dor lhe devolve a memória do paraíso, enquanto o Homem a projecta para o futuro, e vive desde aqui a experiência do inferno. A criança que tem uma pena cravada no coração, que tem uma pena perdida na mão, não faz outra coisa senão dar um grito, lembrar-nos com o olhar que há outro lugar sem ser o mundo, há um não-lugar no ventre de Deus que a criança redescobre lendo a pauta musical da memória e da imaginação. Na criança, a primeira visão é uma revisão do rosto de Deus, do rosto do que é sem rosto. É esse rosto que a faz sorrir, quer dizer abrir a rota, o caminho aberto cortando uma floresta, com o presente e com o ausente em simultâneo, é a dupla relação que, quando bem estabelecida entre a criança e os rostos originais, lhe permite para sempre ficar em ligação com o que se abandonou. Naquele em que essa revisão é mais pregnante, o santo, o morto, a criança, também o semblante traz inscrito um Ausente ou uma perda. Esse rosto Ausente que acompanha o seu, na criança, no santo e no morto, confere ao que o tem gravado dentro do seu o poder de perder o tempo. O tempo é uma pena, a única, que nos enterra mas nós podemos abandonar. A criança lembra-se disso quando nasce, imagina isso quando é ferida e conhece em silêncio a perdição.
“A criança caminha para o adulto, e o adulto caminha para a sua morte. Eis a tese do mundo. Eis o seu pensamento miserando e vivo: um clarão que tremula na sua aurora e já não sabe senão declinar. É esta tese que importa inverter. Partir uma segunda vez e que esta vez seja ainda mais nova do que a primeira, mais radicalmente nova, mais amorosamente nova.”Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, p. 104
Recolho esta pena de Ícaro só com o olhar. Ele não caiu por se ter aproximado muito do sol, caiu porque a gravidade também afecta os inocentes e os que sonham. Recolho-a para escrever, me lembrar, para imaginar e vos confessar o sentido da pena daquele que escreve. O que escreve não pode prometer nem voltar nem não-voltar, ou voltar apenas uma segunda vez, pode até ser a terceira, pode até não haver vez. Como o cego, o que escreve, apoiado nas palavras brancas, as suas bengalas, nunca sabe de onde parte, nem como voltar. Sabe que a pena da escrita é o regresso infinito e desorientado. Uma pena arrancada a frio do corpo da Vida deixa-o atordoado, perdido. Com uma pena destas na mão, o que escreve sente a dor, mas não pode deixar de confessar que ela é como a visão da beleza, a alegria. “Quereis saber o que é a alegria, quereis saber realmente o que ela é? (…) A alegria é nunca mais estar em sua casa, mas sempre cá fora, enfraquecido de tudo, faminto de tudo, por toda a parte do lado de fora do mundo como no ventre de Deus.” Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, pp. 105-106
O escritor tem na mão essa pena cuja tinta que escorre vem de um mundo fora deste, e na sua mão enfraquecida, desenha nomes e nomes de nomes de um rosto antigo, cria sons e sons de sons de uma voz distorcida pela distância. O escritor tenta escrever com a pena de Deus , ou de um pássaro não ferido, o Amor. Mas o Amor seca, antes dos movimentos que formam signos estarem concluídos, e fica nos espaços entre as letras desenhadas e entre os sons pronunciados. O Amor é invisível e inaudível. Por isso o escritor só o é, verdadeiramente, como e quando imita a criança que finge escrever e tem uma pena segura entre os dedos na fragilidade suprema da sua mão. E o Amor é a folha em branco que se derrama do seu olho, aurora absoluta, sobre aquele que é olhado.
Ao Anónimo a quem, com esta pena na mão, chamo irmã/ão e ao Vergílio.
Leitura da paisagem em fim de tarde

Estamos sempre na foz. E na foz somos nascente. Bebemos desse caldo do céu que é a vida e nesse intermezzo de uma ópera de despedida das rosas de inverno. Olhamos para dentro do coração de quem lê e ouve uma lacrimozza de nós. Somos nós a secar as poças de água e o musgo das paredes; os troncos ainda nus dos pequenos arbustos a pedirem os vestidos verdes que não lhes são negados, para vestir a paisagem da nossa eternidade em ciclos revisitada nos não estranhe mudados em seu mudado aparecer.
Também a flor do lilaseiro não tardará a crescer sobre a pedra das nossas memórias, e o vento não desviará o seu trajecto, sem que a bailarina solte um som de asas no silêncio adormentado da tarde. A nossa eternidade é a ideia da neve sobre os píncaros da montanha, quando havia tempo para segredar ao vento uma história que nos imaginava: sentados debaixo de uma árvore a ver o universo a actuar, na repetição das coisas que não têm tamanho nem tempo nem duração. São a ilusão dele, tão real, que nos pomos a pensar que deus nos terá desenhado a partir desse nada que nos será fim e início. E nós, humanos, actores esquecidos por um deus cansado, nós perdidos, dentro do abismal universo a ser partículas, fragmentos de uma existência que em pensamento e criação, resolve mais uma das suas equações das rosas, só para a tarde não doer tanto.
Só para sorrir do ninho da cegonha na igreja por onde passo raramente, e onde a cegonha decidiu permanecer e morar até a tarde se pôr nos meus olhos acordados. Quem ama as palavras e as usa para compreender a claridade do dia que, a pouco pouco, inclina mais a cabeça para trás, sabe que a imagem pode ser o pretexto para o texto que nasce imagem que, por sua vez cria imagem, numa rede infinita de conexões que fazem com o que se sonha seja tão ao mais real do que o que se vê apenas. A experiência da Saudade é também tempo, mas a criação é o que faz com que se possa matar a morte e se sintam saudades de ter saudades.
factografias
7
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha nocturna e molhada!
Abgar Renault
A outra face da lua (1983)
Obra poética
Record, 1990
sábado, 14 de março de 2009
Da radical abolição de preconceitos
Como obter essa artificialização da sensibilidade? Como pode o homem tornar-se, effectivamente, o constructor do seu proprio emotivismo?
Mediante trez processos:
(1) A abolição do preconceito da personalidade. Acabemos com a idéa de que cada individuo é só elle-proprio. Todos nós coexistimos ao mesmo tempo que existimos. Todos nós somos todos os outros.
(2) A abolição do preconceito da individualidade. Deixemos de acceitar como verdadeira a these fundamentalmente theologica da indivisibilidade da alma. Somos aggregados de celulas, agrupamentos de psychismos, de sub-nós, somos inteiramente tudo menos nós-proprios. Submerjamo-nos no mar de nós-proprios, afogados no Universo de lhe pertencermos.
(3) A abolição do dogma da continuidade lateral. Não julguemos mais que nós, do presente, somos um laço, um hyphen mobil, entre o passado e o futuro. Não somos. Somos sim continuos mas não com o passado ou com o futuro. A nossa continuidade é toda com o presente - com o presente externo de todas as cousas, e com o presente interno de todas as sensações"
- Fernando Pessoa, in Pessoa Inédito, coordenação de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Livros Horizonte, 1999, pp.311-312.
Saudade - A Precognição
Pressagiamos a nossa Imortalidade original
e ainda assim corremos com(tra) o Tempo.
Sutra Surangama
imagem googlesexta-feira, 13 de março de 2009
Maria Lúcia Garcia Marques: Viator
[...] No nosso imaginário, VIAGEM contém em si e desde logo o gérmen de um movimento excêntrico. É, em geral, um conceito que se alimenta da ideia de um encontro para lá de nós, de caminhos, paisagens ou costumes, mais ou menos exóticos que se recolhem através dela, viagem, como processo exterior ou interior. É intrinsecamente, um partir do centro existencial de cada um em busca de uma coisa outra - nova ou diferente - para dela fazer uma aquisição sua. A viagem é um exercício humano velho como o tempo e longo como as voltas do mundo, narrado ou simplesmente vivido na Busca: da novidade? do saber? da superação dos limites (materiais e humanos)? da simples fuga do trivial no displicente mover-se de quem tem lazeres? via iniciática? (na nomenclatura maçónica dá-se essa designação ao conjunto de provas a prestar por quem quer entrar na sociedade secreta ou passar deum grau inferior a outro superior), ou uma certa forma de se superar o medo atávico de partir, de alguma forma sugerido pelo Poeta: “Partir / perder países...” ou mais claramente caracterizado pelo brasileiro Amyr Klink, navegador solitário e narrador sensível, à beira de iniciar a travessia, em barco a remos do Atlântico:
quinta-feira, 12 de março de 2009
"Amiga não me fales de amor"
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Amiga não me fales de amor
São estranhos os caminhos
quando amas alguém
Prepara-te para seres
esmagada para cortares
a cabeça e te sentares
nela Prepara-te para andares
à volta da luz como uma traça
Prepara-te para viveres
como uma corça que corre
ao encontro do caçador
que a chama Prepara-te
para seres como a perdiz
que engole carvões em brasa
por amor da lua Como
o peixe que morre feliz
fora da água ou como
uma abelha aprisionada
para sempre no cálice
de uma flor O Senhor de Mira
é Giridhara Ela prostra-se
a seus pés
- Mirabai (1498-1546), O Amor Chegou Com As Chuvas, apresentação e versões de Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p.50.
FERNANDO PESSOA
NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ
Não tínhamos ainda visto o cadáver do nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastamos para um lado o atar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo.
Fama Fraternitatis Rosas Crucis
I
Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,
Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclue.
Deus é o Homem de outro Deus maior.
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,
Foi criado, e a Verdade lhe morreu…
De além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.
II
Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.
Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.
Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;
Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue atual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.
III
Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.
Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.
Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rósea-cruz conhece e cala.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Deus e Adeus: "o mesmo grito da Saudade"
- Teixeira de Pascoaes, Napoleão, Porto, Livraria Tavares Martins, 1940, p.322.
Lisa Gerrard: Sanvean (I'm Your Shadow)
Inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
Carlos Drummond de Andrade
In Sentimento do Mundo
Irmãos Pongetti, 1940
terça-feira, 10 de março de 2009
Divino
és como brisa que me percorre
estremece
arrepia
e aconchega
Espírito que me cativa
e seduz
habitas no meu Coração
como halo divino
pó de estrela
soprado
reencarnado
sei que Te pertenço
algures
de um tempo
e de um espaço
renascidos
existência abençoada sou
anjo que (n)a Luz (Te) abraçou
De como a verdadeira e nobre bondade é imparcial

Agradeço ao Amândio Silva ter-me enviado esta foto que tão bem ilustra o que desejo para todos os aderentes do MIL, de acordo com a nossa Declaração de Princípios e Objectivos: que o nosso amor às nossas pátrias e à Lusofonia se estenda, imparcialmente, a todos os homens, a todos os seres vivos e a todo o Universo! Só isso tornará as nossas pátrias e a Lusofonia algo de grande, que valha a pena existir no mundo. Fora disso, não mais seremos do que lixo histórico, como os grandes impérios do egoísmo mundial. Só isso fará da Águia uma Nova Águia, com coração de Pomba. Fora disso, não passará de um reles abutre.
Abraço lusófono e universal
Shambhala - Por uma sociedade iluminada
Se estivermos dispostos a lançar aí um olhar imparcial, veremos que, apesar de todos os nossos problemas e de toda a nossa confusão, apesar de todos os altos e baixos emocionais e psicológicos, há alguma coisa de intrinsecamente bom na nossa existência de seres humanos. A não ser que experimentemos este fundamento de bondade na nossa própria vida, não podemos pretender melhorar a vida dos outros. Se não somos senão seres miseráveis e infelizes, como poderíamos sequer imaginar uma sociedade iluminada e ainda mais realizá-la ?"
- Chögyam Trungpa, Shambhala - The Sacred Path of the Warrior (Shambhala - A Via Sagrada do Guerreiro)
10 de Março, 19 h - Solidariedade com o Tibete
Numa altura da história tibetana em que tibetanos no Tibete vivem sob o punho de ferro chinês, não deixem de estar presentes na concentração pelo Tibete que terá lugar esta terça-feira, a partir das 19h, frente à embaixada da R.P.C. em Lisboa (R. S. Caetano, 2 - Lapa).
A 10 Março 2009, data em que se comemoram os 50 anos da Revolta Nacional Tibetana contra a ocupação Chinesa, relembraremos a coragem dos Tibetanos e homenagearemos as vítimas da ocupação.
Porque 50 anos é tempo demais !
segunda-feira, 9 de março de 2009
Os Direitos Humanos
- Slavoj Zizek
A normalização da anormalidade
Nós realisamos, modernamente, o sentido preciso d'aquella phrase de Voltaire, onde diz que, se os mundos são habitados, a terra é o manicomio do Universo. Somos, com effeito, um manicomio, quer sejam ou não habitados os outros planetas. Vivemos uma vida que já perdeu de todo a noção de normalidade, e onde a hygidez vive por uma concessão da doença.
Vivemos em doença chronica, em anemia febricitante. O nosso destino é o de não morrer por nos termos adaptado ao stado de (perpetuos) moribundos"
- António Mora, Obras, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, p.214 [manteve-se a grafia original].
Convite para o Jogo do Mundo

Tenho o prazer de vos convidar para a apresentação e palestra sobre os meus últimos livros: "A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira" e "O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa" (Portugália Editora).
Terá lugar no dia 10 de Março, 3º feira, pelas 15 horas, na Livraria Escolar Editora, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Saudações
sábado, 7 de março de 2009
Acendes-te, Escreves-te e Apagas-te!

New Dawn Fades - Joy Division
Acendes-te, Escreves-te e Apagas-te!
As ruas de Lisboa estão cheias de buracos.
A gangrena está de pedra e cal.
As auto estradas também se cruzam e desenfiam.
O Eu é a carcaça que carregas para pagar a portagem.
Alguém apita e grita:
- Vá senhora! Toca a circular, não empate o trânsito!
Arrancas...ARRAAANCAS-Te!
Saltas, cais, repetes-te, és a agulha num risco do disco antigo. Sabes, aquele de vinil?
A luz nem sempre viaja em linha recta.
E o círculo é um beco onde te consomes e esperas,
O toque para o final do tempo.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Doctor Steel - Reality Engineering
Agradeço ao meu filho Martim ter-me dado conhecimento deste video.
DAVID MESTRE
David Mestre
SINAIS DE SALIVA
Sulco a terra
ouço
estalar
a som
bra das
palavras
Cavo
e des
cubro
raízes
adormeci
das
Procuram a
superfície
e dela
recebem
sinais de sal
iva
terça-feira, 3 de março de 2009
Uroboros

Sorve do fogo a chama que é potência
Da memória – mundo que regressa.
Enlaça o corpo. Traga a carne nessa
Sofreguidão. Percorre e sente a essência,
A emanação do sangue, a experiência
Autofágica. Nada há que a impeça.
O mundo nascerá da sua glória
E será em corpo e alma traduzido.
Luta de opostos. Arte tresloucada.
Eterno canto em íntima vitória
-Pendão ungido, erguido e ofendido -
Afirmada, negada e superada.
Xavier Zarco
poesia angolana
segunda-feira, 2 de março de 2009
Namastê, amigo

em essência de lótus e jasmim
P´RA PULAR
na construção da ideia
faz a casa até acima
sem pedra cal ou areia
recurso ao popular em tempo de crise
Luigi Pareyson: Da liberdade como abismo

Colóquio "A Religião e o Ateísmo Contemporâneo"
CENTRO DE FILOSOFIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
5 e 6 de Março de 2009
ENTRADA LIVRE
Sala 5.2 (Sala de Mestrado) da Faculdade de Letras de Lisboa
5 de Março
Presidente de Mesa: José Pedro Serra (Universidade de Lisboa)
14h-15h: Markus Gabriel (New School University de Nova Iorque/CFUL): "A Ideia de Deus em Hegel"
15-16: Cristina Beckert (Universidade de Lisboa/CFUL): "Lévinas e o Ateísmo como condição da religião"
16-17: Manuel João Pires (Universidade de Lisboa/CFUL): "Deus: a Ilusão ou por que razão é quase certo que Deus não existe. Reflexões sobre o pensamento de Richard Dawkins"
Pausa
17:15-18:15: Lavínia Pereira (Universidade de Lisboa/CFUL): "Bergson e a crítica ao Naturalismo"
18:15-19:15: Maria Teresa Teixeira (Universidade de Lisboa/CFUL): "Deus e Materialismo nas Filosofias de Bergson e Whitehead"
19:15-20:15: Carlos João Correia (Universidade de Lisboa/CFUL): "Será a Ideia de Deus racional?"
6 de Março
Presidente de Mesa: Susana Oliveira (Universidade Técnica de Lisboa)
14h-15h: Katia Hay (New School University de Nova Iorque): "The Loss of the Absolute"
15-16: Mafalda Blanc (Universidade de Lisboa/CFUL): "A Religião, o Ateísmo e o Mistério Teologal do Homem"
16h-17: Ana Acciaioli Cravo (Universidade de Lisboa): "A Morte de Deus e as Nostalgias do Absoluto: reflexões sobre o pensamento de George Steiner"
Pausa
17:15-18:15: Paulo Guedes (Universidade de Lisboa): "Sade e o Ateísmo"
18:15-19:15: Paulo Borges (Universidade de Lisboa/CFUL): "Êxtase, Transfiguração e A-teísmo em Emil Cioran"
19:15-20:15: Petar Bojanić (University of Aberdeen): "Franz Rosenzweig: War and Atheism"
Para mais informações, contactar:
carlos.joao@netcabo.pt
joanaluis2003@yahoo.com.br
domingo, 1 de março de 2009
MÓBILE
Móbile (1941), de Alexander Calder
MÓBILE
Marcilio Medeiros
areias seguem calcanhares
nômades anônimos
ampulheta fraturada
pela direção dos ventos
levados refazendo-se
é dia pela claridade
grãos que caminham
retirando os passos
Canção de uma sombra

Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das causas,
Eu não era o que sou.
Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou ...
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.
Ai, se não fosse este luar que chama
Os aspectos à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.
E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços
Eu não era o que sou.
Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.
Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro vôo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.
TEIXEIRA DE PASCOAES
(1877-1952)












