O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 24 de março de 2009

Entrevista com David Bohm

Artigo escrito por Vera Filizzola e originalmente reproduzido no site Jornal Infinito.

"Por outras palavras: as pessoas intuem uma forma de inteligência que, no passado, organizou o universo, e a personalizam chamando-a Deus”. 
David Bohm

“Poderíamos imaginar o místico como alguém em contacto com as espantosas profundezas da matéria ou da mente subtil, não importa o nome que lhes atribuamos”. 
David Bohm

Nesta série não poderia faltar a presença de David Bohm, uma combinação rara de cientista filósofo e a sua teoria sobre a origem da vida, da realidade, do universo visível e ... mais além.

David Bohm foi considerado um dos maiores físicos especulativos do mundo e um dos teóricos mais influentes da física moderna. Seu primeiro livro (1957) “Casualidade e Acaso na Física Moderna”, tornou-se um clássico no campo da mecânica quântica e é utilizado profusamente em universidades de todo o mundo. Bohm foi aluno de J. Robert Oppenheimer e durante a Segunda Guerra Mundial estudou os efeitos do plasma nos campos magnéticos. Juntamente com outros cientistas – “chegou a uma teoria que desempenha papel importante nos estudos da fusão – fenómeno hoje conhecido como “difusão Bohm”.
Nos últimos anos da sua vida o cientista dedicava-se ao estudo dos fundamentos da teoria quântica e da relatividade, bem como à sua significação filosófica, incluindo as pesquisas feitas no Lawrence Radiation Laboratory, em Berleley.

Pesquisando a natureza da consciência, devido aos problemas que encontrou na mecânica quântica, Bohm descobriu Krishnamurti, o grande filósofo hindu, com que atou uma forte amizade. Juntos, promoveram palestras e debates sobre assuntos importantes e que depois foram publicados em livros.

A exemplo de Fritz Kunz, David Bohm é um dos pouquíssimos cientistas que “por intermédio da ciência” percebeu um universo de verdade, beleza, significação e até bondade, tornando essa percepção convincentemente viva para os demais.

A sua teoria da Ordem Implícita emergiu dos estudos do cientista sobre as variáveis ocultas e a interpretação superficial da mecânica quântica – propondo que uma ordem oculta actua sob o aparente caos e falta de continuidade das partículas individuais de matéria descritas pela mecânica quântica. Bohm, a exemplo de Einstein, mas por razões diferentes, nunca aceitou as interpretações correntes da teoria quântica.

A Teoria da Ordem Implícita
exposta por David Bohm

A idéia básica da ordem implícita: “Em geral, a totalidade da ordem abrangente não se pode tornar manifesta para nós; somente um certo aspecto dela se manifesta. Quando trazemos essa ordem abrangente para o aspecto manifesto, temos uma experiência de percepção. Mas isso não quer dizer que a totalidade da ordem seja apenas aquilo que se manifesta. Na visão cartesiana, a totalidade da ordem, pelo menos potencialmente, é manifesta, embora não saibamos como manifestá-la por nós mesmos. Precisaríamos de microscópios, telescópios e outros instrumentos mais”.

A sugestão básica da teoria de Bohm, de início, é a de que vivemos num mundo multidimensional e a nossa moradia está situada no nível mais óbvio e superficial: o mundo tridimensional dos objetos, espaço-tempo, ou seja, na Ordem Explícita. Neste nível, explica Bohm, “a matéria é de graduação densa e embora possa ser descrita em relação a si mesma, não é a essa a maneira de a explicar e entender com clareza. Infelizmente, é nesse nível que muitos físicos trabalham hoje em dia, apresentando as suas descobertas sob a forma de equação de significado obscuro”.

Então, o que fazer? Bohm indica o caminho: avançar para um nível mais profundo: para a – Ordem Implícita – a fonte e o fundo abrangente de toda a nossa experiência física, psicológica e espiritual. Esta fonte está situada numa dimensão de extrema subtileza, ou seja, na Ordem Superimplícita. E não termina aí, além dela pode-se postular muitas ordens semelhantes “mergulhando numa fonte ou esfera infinita –n-dimensional”.

A filósofa Renèe Weer perguntou a Bohm em entrevista, se isso ocorreria como na teoria de campo de Einstein. Bohm respondeu: “Na ordem implícita, não somente lidamos sempre com o todo (como faz a teoria de campo), mas também dizemos que as conexões do todo nada têm a ver com a localização no espaço e no tempo, mas com uma qualidade inteiramente diversa, denominada abrangência”. A filósofa e entrevistadora pediu maiores explicações: por outras palavras, o importante é a inexistência de locais de cruzamento ou travessia?, perguntou ela. A resposta de Bohm: “Nos modelos antigos, ou uma partícula cruza um lugar, ou uma força ou campo de energia cruza esse lugar; portanto, do ponto de vista da ordem implícita, não vemos distinção fundamental entre Einstein e Newton. Dizemos que são diferentes, mas ambos diferem na mesma medida da ordem implícita”.

O Holomovimento

Ao fundo vasto e dinâmico desta teoria, Bohm chamou –Holomovimento. Segundo Bohm, o holomovimento está situado na esfera do que é manifesto. O movimento básico do holomovimento é o recolhimento e o desdobramento.

“Afirmo que toda a existência é, basicamente, um holomovimento que se manifesta numa forma relativa ente estável”.

Bohm explica que o fluxo está, pelo menos, numa condição de equilíbrio “fechando-se como vórtice que se fecha sobre si mesmo, embora continue a mover-se”.

A entrevistadora quer saber mais – “O senhor disse que essas seriam formas mais densas de matéria e não mais subtis ou menos estáveis”.

Bohm: “Digamos que são formas mais estáveis de matéria. Veja, até a nuvem conserva uma forma estável, de modo a ser vista como uma manifestação do movimento do vento. Da mesma maneira, a matéria como que formaria nuvens no interior do holomovimento e elas manifestariam o holomovimento aos nossos sentidos e pensamentos comuns”. 

Seriam todas as entidades e... nós mesmos, com todas as nossas faculdades, formas do holomovimento? 

Bohm: “Sim, e também as células, os átomos. Acrescento que isso começa a favorecer a compreensão da mecânica quântica: esse desdobramento constitui uma ideia directa do que é entendido pela matemática da mecânica quântica. Estamos a falar precisamente sobre o que chamamos transformação unitária ou descrição matemática básica do movimento na mecânica quântica. Trata-se simplesmente da descrição matemática do holomovimento”.

Relação entre o Holomovimento e a Matemática da Moderna Teoria Quântica

Bohm: “A matemática moderna da teoria quântica considera a partícula como um estado quantizado do campo, Istoé, um campo espalhado no espaço, mas, de alguma forma misteriosa, dotado de um “quantum” de energia. Cada onda do campo apresenta um certo “quantum” de energia proporcional à sua frequência. Considerando-se o campo electromagnético no espaço vazio, por exemplo, verá que cada ponto possui aquilo que se chama energia em ponto zero, abaixo do qual não pode descer, mesmo não havendo energia disponível. Se se pudesse juntar todas as ondas numa região qualquer, descobriria que estão dotadas de uma quantidade infinita de energia já que é possível um número infinito de ondas. Entretanto, talvez estejamos certos ao supor que a energia não pode ser infinita, que não é possível continuar adicionando infinitamente ondas cada vez mais curtas, cada qual contribuindo para a energia. Deverá haver uma onda de comprimento mínimo, caso em que o número total de ondas saia finito, como finita também seria a energia.

Qual seria o comprimento mínimo? Parece existir razão para suspeitar que a teoria gravitacional será capaz de proporcioná-lo, de acordo com a relatividade geral, o campo gravitacional também determina a significação de “comprimento” e mensuração. Quando afirmamos que o campo gravitacional é constituído de ondas quantizadas dessa forma, descobre-se que existe um determinado comprimento abaixo do qual o campo gravitacional se tornaria indefinível em virtude do movimento em ponto zero; não se poderia, então, definir o comprimento. Assim, pode-se afirmar que a propriedade da mensuração, o comprimento, desaparece a curtas distâncias, num local em torno de 10‾33 cms. É uma distância bem pequena, pois as distâncias mais curtas que os físicos demonstraram são de 10‾16 cms, mais ou menos, ou seja, um longo caminho a percorrer. Caso se avaliasse a quantidade de energia no espaço, com essa onda de comprimento mínimo, concluir-se-ia que a energia existente num centímetro cúbico ultrapassa de muito a energia total da matéria conhecida no universo.

Como entender tal coisa?

Assim: a teoria moderna afirma que o vácuo contém toda a energia até então ignorada (pelos físicos) por não poder ser medida por instrumentos. Ora, nos termos da filosofia, apenas o que pode ser medido por instrumentos dever ser considerado real, em que pese o facto de alguns físicos informarem a existência de partículas absolutamente não-mensuráveis por qualquer instrumento. Só o que se pode dizer é que o actual estágio da física teórica implica a aceitação de que o espaço vazio possui essa energia, sendo a matéria tão somente um pequenino desdobramento dela. Assim, a matéria não passa de uma minúscula onda nesse portentoso oceano de energia, embora dotada de relativa estabilidade e revestida de caráter manifesto. Adianto, pois, que a ordem implícita aponta para uma realidade que ultrapassa de muito aquilo que denominamos matéria. A matéria é apenas uma ondazinha nesse contexto... Nesse oceano de energia, precisamente, que não está primordialmente no tempo e no espaço, mas na ordem implícita... Não manifesta. E pode manifestar-se nessa pequenina porção de matéria... Supõe-se que a fonte última é imensurável, fora do alcance de nosso conhecimento. São estes os termos da física contemporânea.

Bohm faz uma importante descoberta , esclarecendo como a energia que emana do Todo, da ordem implícita, pode assumir aspectos diferentes em indivíduos diferentes. Ele esclarece as dúvidas dizendo que “o todo é enriquecido pela introdução da diversidade e pela realização da unidade da diversidade... A individualidade só é possível enquanto desdobramento do todo." 

Seria ela, então, um egocentrismo?

O cientista-filósofo afirma que o egocentrismo não pode ser confundido com individualidade, o primeiro é baseado na auto-imagem, um erro, uma ilusão. A segunda desdobra-se a partir do todo de maneira particular e num momento particular.

A Evolução

A natureza, sob determinados aspectos, cria através da evolução. Bohm já havia manifestado, na sua teoria, assertivas muito originais como: “somos capazes de ordenar o que fazemos, podemos desempenhar um papel funcional na produção de uma ordem superior, que seria inviável sem nós. Não apenas a modificamos levemente, mas, principalmente, embora provoquemos minúsculas mudanças no todo, isso é crucial para que essa ordem possa transformar-se em algo novo, capaz de pôr em ação o seu potencial... Somos parte do movimento, não há separação entre nós e ele; somos parte da maneira com que se molda a si próprio”.

O Génesis – A Criação do Universo

“A idéia actual do universo pode representar algum estágio de um universo maior, um universo de luz. Até onde podemos perceber, esse universo de luz é eterno. Entretanto, a certa altura, alguns desses raios luminosos se juntaram e produziram a grande explosão – o Big-Bang. Isso desencadeou o nosso universo, que também terá um fim”.

O cientista especifica onde está situado este universo luminoso – além do tempo – o que pode significar que existam outros universos além do nosso, com várias idades, várias eternidades, e necessariamente, não serão sucessivos.

Descartes, na física, vê o movimento como sendo uma entidade ou qualquer coisa que se mova de um ponto a outro. O holomovimento de Bohm não concorda com o pensamento cartesiano, o seu holomovimento é manifestação e não-manifestação. Nele, a ordem implícita se torna manifesta e não-manifesta e assim por diante.

O Universo Pensa? Criação e Seleção

"Sendo a ordem explícita – o universo de luz – a fonte de toda a manifestação, podemos supor que, talvez, o universo pensa... O universo tenta uma variedade de formas. A selecção natural explica como as coisas sobrevivem depois da sua emergência ou aparição, mas não explica porque tantas formas surgiram. Parece existir uma tendência em produzir formas e estruturas, sendo a sobrevivência ou selecção natural um mero mecanismo que escolhe as formas destinadas a durar. Toda a forma incompatível consigo mesma ou com o meio ambiente está fadada ao desaparecimento. Penso que o universo aprende”.

A Produção de Formas

Bohm: A semente: energia e nutrientes vêm do sol, doar, da terra, da água e do vento, mas a própria semente tem pouquíssima energia. No entanto, possui a forma da planta e essa minúscula energia ou forma se imprime em todos os outros factores para produzir a planta. Essa pitada de energia governa, de algum modo, o desenvolvimento subsequente, de modo que o sistema inteiro se destina à produção de uma planta e não de um cão, de um gato ou de outra coisa qualquer... Pensamento e matéria são ordens muito parecidas. Podemos dizer que a natureza ou a matéria também é criatividade e pensamento intuitivo. Assim, num certo sentido, a natureza tem vida. E inteligência. Ela é mental e material, como nós. Se alguém é percebido como inimigo, a matéria se organiza de maneira diferente do que o faria caso se tratasse da percepção de alguém amistoso. O eléctrão faz praticamente o mesmo que nós, ao reagir a determinada situação. Ele observa o ambiente. 

O Que Seria a Matéria para Bohm?

Bohm, falando sobre a metáfora existente no misticismo: iluminado, iluminação, fez-se a luz - chega a uma conclusão muito importante sobre a origem da matéria à luz da física moderna.
Bohm: “Quando um objeto se aproxima da velocidade da luz, segundo a relatividade, seu espaço interno e seu tempo interno mudam; o relógio se atrasa em relação a outras velocidades e a distância é encurtada. Descobre-se que as duas extremidades do raio luminoso não guardam tempo ou distância entre si, representando consequentemente um contacto imediato (esclarecido pelo físico G. N. Lewis nos anos 20). No ponto de vista da moderna teoria de campo, os campos fundamentais são os dotados de energia superior, em que a massa pode ser negligenciada; eles poderiam mover-se à velocidade da luz. A massa é um fenómeno originado da ligação dos raios luminosos no seu avanço e recuo, uma espécie de consolidação num dado esquema. Então, é como se a matéria fosse luz consolidada, congelada. A matéria não se constitui apenas de ondas electromagnéticas, mas, num certo sentido, de outros tipos de ondas que avançam à mesma velocidade. Portanto, toda a matéria é condensação de luz em esquemas que avançam e recuam a velocidades médias, inferiores à da luz. O próprio Einstein teve vislumbres dessa ideia. Diríamos que vir à luz, significa assumir a actividade fundamental onde a existência se embasa, ou, pelo menos, aproximar-se disso”.
“A luz é o meio através do qual o universo inteiro se concentra em si mesmo... É uma condição real, pelo menos no quadro da física... A luz é energia, informação. Conteúdo, forma e estrutura. É o potencial de tudo”.

David Bohm preocupou-se com o tema da “consciência” e o fez de uma forma tão magistral que, resguardando-se a essência da sua interpretação, segundo a sua teoria, o neurofisiologista Antonio Damásio teve nele um precursor de monta: Bohm acreditava na consciência como não apartada da matéria e do processo neurofisiológico. Muitos dos leitores estarão curiosos em saber o que os colegas de David Bohm, os cientistas da física, pensariam sobre toda esta teoria que reunimos aqui.

Bohm: ...”A física moderna não passa de um sistema destinado a computar e fornecer resultados empíricos. De fato, considero que toda a idéia nova deve pressupor o livre jogo da mente, sem demasiada consideração pelos resultados empíricos”.

Perguntado se os físicos convencionais aceitariam a sua teoria, Bohm respondeu – Eles já aceitaram, mas acrescentou também que eles diziam-lhe o seguinte: “Para que serve? Não produz nada diferente daquilo que já fizemos. Só nos interessam resultados empíricos. – Levá-la-emos em consideração quando começar a fazê-lo, levaremos tudo em consideração”.

O físico lamentou então “um dos erros da ciência”, também os estendendo à nossa sociedade: “O resultado empírico como principal objetivo é o que apresenta como verdade, desde que tenha por trás de si argumento lógico-matemático”.

Consensos

“O electrão “observa”, “presta atenção”, reúne informação a nosso respeito, a respeito do universo inteiro. Apreende o universo e responde de acordo com essa apreensão. Portanto, num sentido literal: ele observa”.

“O ensino da física decaiu muito; foi se tornando cada vez mais dogmático e mecânico, o que é lamentável. Todas as questões candentes dos anos 30 se desvaneceram completamente. O que se faz hoje é apresentar fórmulas aos estudantes e declarar: “Isso é a mecânica quântica”. E assim a nova geração vai escrevendo livros sem uma base sólida, esquecendo as profundas questões filosóficas que sempre foram o sustentáculo da abordagem total da física”.

“Observando a natureza, veremos que formas elaboradas e complexas não podem ser explicadas pela mera exigência da sobrevivência. Se nossa noção de tempo postula a criatividade de cada momento, então, a todo o momento, é possível que surjam novas estruturas, coexistindo com algumas antigas. Podemos então dizer que a natureza está constantemente explorando novas estruturas de maneira intencional, e, quando estas se mostram capazes de sobreviver (mediante processo de reprodução), tomam corpo e se tornam estáveis”.

“Antes da grande explosão – Big-Bang – não existiam moléculas, quarks e átomos, segundo declara a física moderna. Se pois afirmamos que havia leis fixas e imutáveis que regiam moléculas e átomos, o que acrescentaremos se remontarmos ao tempo onde eles sequer existiam? A física nada tem a dizer sobre isto. Só pode declarar que, num determinado estágio, essas partículas se formaram. Portanto, deve ter havido um desenvolvimento real em que a necessidade se fixou mais e mais num determinado campo. Vê-se isso quando se esfria uma substância que se liquefaz: primeiro aparecem grumos líquidos transientes, que depois vão se consolidando. Os físicos explicam isso alegando que as leis das moléculas são eternas; as moléculas são meras conseqüências dessas leis, meras derivações delas”.

Recuando no tempo perguntamos: “Onde estavam as moléculas? A resposta é: Bem originalmente, protões e electrões, que eram originalmente quarks, que eram originalmente subquarks... E chegamos ao estágio em que nenhuma dessas unidades existia e no qual esse esquema todo se esfuma! Pode-se então dizer que, em geral, os campos de necessidade não são eternos: estão constantemente se formando e desenvolvendo”. 

“Além de clara e profunda, a teoria de Bohm tem o mérito de poder ser considerada a primeira, em todos os tempos, a revelar e provar no plano científico, algumas verdades seculares que até então podiam apenas ser aceitas e compreendidas pela fé”. 

Eduardo C. Borgonovi.

Bibliografia:
· Diálogos com Cientistas e Sábios –Renèe Weber ed. Cultrix
· O livro das Revelações – Eduardo Castor Borgonovi – ed. Alegro
· Krishnamurti, & D. Bohm – Truth and Actuality – Victor Gollanez Ltd.
· A Totalidade e a Ordem Implicada – David Bohm – São Paulo – Cultrix.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Curso "Fernando Pessoa" na Galeria Matos Ferreira

Por PAULO BORGES, RENATO EPIFÂNIO e DUARTE BRAGA

25 de Março a 20 de Maio / 2009

A GALERIA MATOS FERREIRA promove em parceria com a ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA um Curso sobre FERNANDO PESSOA.

OBJECTIVO
O curso partirá de uma abordagem plural e interdisciplinar, filosófica e literária, a alguns aspectos da obra de Fernando Pessoa. Dividir-se-á em três blocos temáticos, leccionados por Paulo Borges, Renato Epifânio e Duarte Braga. Dois dos módulos serão constituídos por três sessões, sendo o segundo módulo constituído apenas por 2. Com o recital de CARMEN FILOMENA, serão nove sessões ao todo.

PROGRAMA

MÓDULO I - Ilusão e Libertação, por Paulo Borges (25 Março, 1 e 8 Abril):

· Pré-existência e saudade na poesia inglesa;
· O vazio do sujeito e o jogo onírico/i-lusório do mundo (poesia ortónima e Bernardo Soares);
· O “Tratado da Negação” e “O Caminho da Serpente” (Raphael Baldaya).

MÓDULO II - Pessoa, o filósofo do outro, por Renato Epifânio (15, 22 Abril):

· Pessoa, o filósofo do "outro" do pensar;
· Pessoa, o filósofo do "outro" de todo o ser;
· Pessoa, o filósofo do "outro" de si próprio;
· Pessoa, o filósofo do "outro" de nós mesmos.

RECITAL DE POESIA DE FERNANDO PESSOA, por CARMEN FILOMENA (29 Abril).

MÓDULO III – Projecto poético e heteronímia, Duarte Braga (6, 13 e 20 Maio):

· A questão da Nova Poesia Portuguesa, a profecia do supra-Camões/supra-Portugal e as Índias Espirituais;
· Alberto Caeiro: ignorância e revelação; o poema VIII de Guardador de Rebanhos e a leitura agostiniana;
· Álvaro de Campos e o sensacionismo.

HORÁRIO, INSCRIÇÕES E PREÇO

As aulas serão realizadas em período pós-laboral às quartas-feiras, de 25 de Março a 20 de Maio, inclusivé, ou seja nos dias 25 de Março, 1, 8, 15, 22 e 29 de Abril, e ainda nos dias 6, 13, 20 de Maio, das 19h00 às 20h30.

O Curso tem um limite máximo de 20 (vinte) participantes. O seu custo é de EUR 90,00 (noventa euros), podendo ser pago em duas prestações de EUR 45,00 (quarenta e cinco euros) cada. A primeira prestação deve ser paga a 25 de Março e a segunda com cheque pré-datado para 29 de Abril. Inclui material de apoio.

Os interessados podem-se inscrever através do Tel 21 323 00 11, do Tlm 96 295 37 22 e do Email: mfgaleria@netcabo.pt. Em qualquer das opções deverão indicar sempre o número de telemóvel para eventual contacto.

Onde se está antes de lá chegar, onde se permanece depois de sair de lá

“Ils s’acheminèrent vers un château immense, au frontispice duquel on lisait: ‘Je n’appartiens à personne et j’appartiens à tout le monde. Vous y étiez avant que d’y entrer, et vous y serez encore quand vous en sortirez’”

"Encaminharam-se para um imenso castelo, no frontispício do qual se lia: 'Não pertenço a ninguém e pertenço a todo o mundo. Vós aí estáveis antes de lá entrar e vós aí estareis ainda quando de lá saireis'"

- Diderot, Jacques le Fataliste et son Maître.

Edmond Jabès: Deixei uma terra que não era a minha

J'ai quitté une terre qui n'était pas la mienne,
pour une autre qui, non plus, ne l'est pas.
Je me suis réfugié dans un vocable d'encre
ayant le livre pour espace ;
parole de nulle part, étant celle obscure du désert.
Je ne me suis pas couvert la nuit.
Je ne me suis point protégé du soleil.
J’ai marché nu.
D'où je venais n'avait plus de sens.
Où j'allais n'inquiétait personne.
Du vent, vous dis-je, du vent.
Et un peu de sable dans le vent…


Deixei uma terra que não era a minha 
por uma outra que, tão pouco o é.
Refugiei-me num vocábulo de nanquim,
tendo o livro como espaço;
palavra de lugar nenhum, sendo aquela obscura do deserto.
Não me cobri durante a noite.
Não tentei nunca proteger-me do sol.
Caminhei nu.
De onde eu vinha, não havia mais sentido;
Aonde eu ia não inquietava ninguém.
Vento, digo-lhes, vento.
E um pouco de areia no vento...

in Un étranger avec, sous le bras, un livre de petit format – éd. Gallimard, 1989 – p. 98 & 107

domingo, 22 de março de 2009

O Estrangeiro

"O estrangeiro é o que vem de outro lado e não é daqui. Para aqueles que são daqui, é pois o estranho, o inabitual e o incompreensível; mas o seu mundo, esse, é também completamente incompreensível para o estrangeiro que vem habitar aqui; é como uma terra estranha onde ele se encontra longe do seu país. Suporta então o destino do imigrado; é isolado, não é protegido, não é compreendido e não compreende, tudo isto numa situação plena de perigo. Angústia e saudade da pátria fazem parte da sua sorte"

- Hans Jonas, La Religion Gnostique, Paris, Flammarion, 1978, p.73.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Do mar e das flores...feliz Primavera!

imagem google

A pouco e pouco, a vegetação verdejante do pasto ganhava cor, forma e textura. As flores redespertavam do seu sono lento revestido de frio, e gelo. Despoletavam os primeiros botões que sorriam, timidamente, para o sol de Primavera. As pétalas espreguiçavam-se dançando, naturalmente, ao som da brisa que as afagava em jeito terno, e puro.

Ao longe, um sussurro de mar em jeito de prece. E assim conta a lenda que o mar amava as flores e que as ondas eram a sua tentativa para as beijar. Contudo, não as alcançava e daí que o marulhar fosse a sua canção de embalar. Secretamente, escutam-na as flores que de mil e uma cores, escondem as suas dores. No entanto, choram quando sentem que a água de sua raízes tem o sal de uma lágrima de mar, corres-lhe a nostalgia de um amor perdido, vasto, tão imenso que lhes (en)canta.

É por isso que em orvalho, de amanhacer e anoitecer, as flores se banham e purificam em toque cristalino de reflexo arco-íris; porque se projectam , em sonho, e abraçam o mar. As mais ousadas, soltam as suas pétalas e voam, livres, no vento. Fazem-se mágico momento. Sonham, fundem-se e são...fragmento de amor que se superou para além da dor.

Por vezes, temos de soltar as nossas pétalas para que possamos também voar e o nosso amor alcançar. Ainda que pareça tão longe, impossível e ingénuo, tudo é possível quando é Primavera em nós, em processo de renascimento e reflorescimento contínuos.
primeira rosa
desta Primavera

primeira vera
rosa
desta Primavera

primeira primorosa
rosa
vera
desta primeira vera
Primavera

quinta-feira, 19 de março de 2009

Contemplação



Contemplação

Vejo passar o tempo, o rio calmo
Onde se afoga o desespero humano;
Imagino-lhe a foz, no trágico oceano
Da morte;
E a nenhum Sul ou Norte
Consciente
Consigo vislumbrar-lhe a lírica nascente.

Já caudaloso em cada latitude,
Em vão procuro a fonte
Que lhe dê começo:
A madrugada duma telha de água,
Hesitante
Antes do grande dia
Que toda a madrugada principia.

Ganges sagrado do desassossego,
Vem dos confins do nada
Em direcção ao grande mar vazio...
E à tona da barrenta omnipotência
Leva a cega inocência
Naufragada
De cada vida nele purificada.


Miguel Torga, Câmara Ardente.

"...tudo tem a Vertigem por essência"

"Tudo é infinito, só o Infinito existe, só existe Deus, nada se pode pois determinar, possuindo pois tudo uma natureza imprecisa que se escapa de nós quando a procuramos agarrar pela razão determinadora, e deste modo se tudo é metafisicamente ou teometafisicamente impreciso, incerto, é que tudo tem a Vertigem por essência. A Vertigem é com efeito a suprema imprecisão anti-racional ou antes, ultra-racional, das cousas mergulhadas no infinito de Deus. E é por mergulharem no infinito de Deus que as cousas são imprecisas, incertas, vertígicas. Logo a Vertigem é sagrada, é divina. O Infinito é o Indefinido Absoluto, é a própria Vertigem que é assim Deus!"

- Raul Leal (Henoch), Sodoma Divinizada. Leves reflexões teometafísicas sobre um artigo, in Sodoma Divinizada, organização, introdução e croologia de Aníbal Fernandes, Lisboa, Hiena Editora, 1989, p.75.

Em homenagem a este imenso desconhecido do pensamento português, amigo próximo de Fernando Pessoa, que o defendeu perante o moralismo da "canalha", desigando-o como "alto génio especulativo e metafísico, lustre, que será, da nossa grande raça" - Ibid., p.125.

A Pessoa

Não, sou nada, sempre serei nada
e apesar disso sou um exilado da terra e do mar
sem falar do céu, com pés inchados.
Não falo nenhuma língua e não tenho nenhuma língua
somente um músculo sangrento e inchado
tanto de tentar falar e chupar a essência das coisas
todas perdidas como eu no espaço e no tempo
e no espaço do tempo que chamamos a vida.

Não, não falo nenhuma língua suficiente
pois sou incapaz de natureza e cheio do orgulho amargo
das minhas próteses e não falo a língua do ódio
pois a minha raiva é uma onda sem espuma
que não quebra as rochas da terra … Ai! Ai! Ai!
Veja as ondas do mar serena, raiva imortal da água e da lua.

Não, sou nada, nem um grau de areia
pedra incluído no ciclo eterno e esplendoroso das coisas
sou nada pois não sou nem coisa nem espectro
sou exilado como o vento mas somente no vento
uma pluma preta com a cor do asfalto e com o cheiro do alheio
do estrangeiro inimigo dos costumes quotidianos
que causa o medo nas ruas escuras das cidades
angustia tenho também, neste caminho sem fim.

Não, sou nada e não tenho nada
pois tudo é dono de mim, sou escravo da minha liberdade
e prisioneiro de uma ética duvidosa da verdade fugitiva
da tolerância cheia de crueldade com dentes e olhos
com palavras antropófagos e corpos carnívoros
com o fome das almas que se escondem e que se recusam
para o canto mais distante da larva mortal.
Palavras e palavrões destinados para confundir os povos
para sempre, para poder sobreviver como parasitas
para se multiplicar nas bocas humanas com mal cheiros.

Não, sou nada e apesar disso não falo nenhuma língua
pois as línguas falarão de me e me falam e me abrasam
não falo a língua do amor mas a minha carência de querer amor
é como um remoinho, um buraco preto, um querer que destrua tudo
o próprio ser e tudo que é e que quer ser, mesmo aqui e agora mesmo.

Não, sou nada e o nada que sou é como o nada
e o que eu sou, sendo nada, sou eu mesmo…Ai! Ai! Ai!

Lisboa 22.01.09
hora no ar, que nos separa –
raios Queimacabelos;
elipse do pulso;
alude de brilho, embebido;
uma pequena area da pele;
eu;
atalhada de gelo bliscando;
florescer e azur do Firmamento
Luftstunde, die uns trennt –
Bolos Brennhaars;
Pulsellipse;
Glastlawine, eingepicht;
ein kleiner Hautbezirk;
Ich;
Eisblinkschneise;
Blust und Blau des Firmaments

Seminário "O que é a vacuidade?"

Sábado, 21 de Março, das 15h às 19 h
Sede da União Budista Portuguesa
por Paulo Borges

O seminário visa introduzir à compreensão do que se designa como "vacuidade" (shunyata), noção-experiência fundamental e específica da tradição budista. Sujeita a muitos mal-entendidos, inconfundível com o mero "vazio" ou o "nada", a visão budista considera-a expressão da própria natureza primordial e última da mente e dos fenómenos, do indivíduo e do mundo. A sua compreensão e experiência conduz à extinção das causas do sofrimento - conceitos, emoções perturbadoras, karma - , à visão das coisas como são e ao desabrochar de uma sensibilidade, amor e compaixão incondicionais. Ou seja, ao Despertar.

Local: União Budista Portuguesa, Calçada da Ajuda, 246, 1.º dt.º, Lisboa
Contacto e inscrições: 21 3634363 (das 15h-21h); tlm 918728979 (deixar p. f. a mensagem com o nome e o contacto)
Email: sede@uniaobudista.pt

Indicações:Autocarros Carris 732, 729, Eléctrico 18 - sair em frente ao Jardim Botânico da Ajuda.

10º Encontro Inter-Religioso de Meditação

Sexta-feira, dia 20 de Março - 19,15 (recepção)

Centro de Estudos da Ordem do Carmo - R. St. Isabel, 128-130 (ao Rato)


É com muita alegria e empenho que a Comunidade Mundial de Meditação Cristã anuncia a realização do próximo Encontro Inter-religioso de Meditação.

Assim, convidamos todos os membros da CMMC, bem como os membros de outras tradições religiosas a virem viver de novo a experiência de procurarmos, no silêncio, e em profunda comunhão entre todos, o encontro com o mais sagrado e o mais pleno.

"Aprender a dizer o nosso mantra deixando para trás todas as outras palavras, imagens e fantasias, é aprender a entrar na presença do Espírito que nos habita em amor." John Main

A sessão iniciar-se-á às 19,30h, com breves leituras de textos espirituais de cada tradição, intervaladas por 2 min. de silêncio, seguindo-se 25 minutos de meditação silenciosa. Terminaremos com uma pequena prece colectiva pela paz e pela união entre todos.

A Comunidade Mundial de Meditação Cristã

Email: mcristinags@netcabo.pt ; manuel.lancastre@gmail.com
Tel: 218488259/Tm: 9194505775
http://meditacaocrista.weebly.com/index.html

O sol O muro O mar

O olhar procura reunir um mundo que foi
destroçado pelas fúrias.
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para
manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento
azul sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência
intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos
pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e
atentos: silêncio vigiando
o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é
preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço
ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para
o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas
ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte,
os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso
amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa -- tinta que
se despinta -- porta aberta para o pátio de chão
verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e
espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto
para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de
manchas nebulosas e sonhadoras.

A porta desenha sua forma perfeita à medida do
homem: as cores do cortinado de fitas contam a
nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do
homem.

No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e
as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto
de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do
lugar sagrado.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Ilhas, 1989
de Obra Poética III, Caminho, 2ª edição; 1996

João Aguardela despede-se da Música Portuguesa...

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Uma perda de quem foi um ganho para a Música Portuguesa!!!
Um bem-haja, e até sempre.
Obrigada, João Aguardela.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O Sal das Lágrimas

O sal das lágrimas veio do mar há eras atrás, quando eu era um peixe. Trouxe o sal comigo, pois quando rastejei pela areia com pequenas patinhas quase inúteis, não consegui abandonar totalmente o grande azul e trouxe a água e o sal dentro de mim. Já sentia a pele a secar, quase a arder e as escamas a caírem, uma a uma, deixando em mim um rasto de sangue e já tinha tanta, tanta saudade, que ainda hoje me pergunto porque deixei aquela luz azul. Cá fora, antes que eu desse dez passos, milhares de minúsculas criaturas entraram por todos os meus orifícios e mataram-me ali, quase imediatamente. Desovei antes de morrer numa cova na areia e os meus filhos, assim que nasceram, levaram com eles as patas, já tecnologicamente avançadas, a água e o sal. Lembro-me disto agora porque estou longe do mar, morri muitas vezes, mas ainda aqui estou e sempre que choro, lembro-me dele, do mar, tudo por causa do sal que ainda existe nas lágrimas.

Parábola do professor

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«Naquele tempo, Jesus subiu ao monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Depois, tomando a palavra, ensinou-os dizendo:


Em verdade vos digo, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles...


Pedro interrompeu: Temos que aprender isso de cor?

André disse: Temos que copiá-lo para o caderno?

Tiago perguntou: Vamos ter teste sobre isso?

Filipe lamentou-se: Não trouxe o papiro-diário.

Bartolomeu quis saber: Temos de tirar apontamentos?

João levantou a mão: -- Posso ir à casa de banho?

Judas exclamou: Para que é que serve isto tudo?

Tomé inquietou-se: Há fórmulas, vamos resolver problemas?

Tadeu reclamou: Mas porque é que não nos dás a sebenta e pronto!?

Mateus queixou-se: eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!


Um dos fariseus cretinos, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada, tomou a palavra e dirigiu-se a Ele, dizendo:


Onde está a tua planificação?

Qual é a nomenclatura do teu plano de aula nesta>intervenção didáctica mediatizada?

E a avaliação diagnóstica?

E a avaliação institucional?

Quais são as tuas expectativas de sucesso?

Tendes para a abordagem da área em forma globalizada, de modo a permitir o acesso à significação dos contextos, tendo em conta a bipolaridade da transmissão?

Quais são as tuas estratégias conducentes à recuperação dos conhecimentos prévios?

Respondem estes aos interesses e necessidades do grupo de modo a assegurar a significatividade do processo de ensino-aprendizagem?

Incluíste actividades integradoras com fundamento epistemológico produtivo? E os espaços alternativos das problemáticas curriculares gerais?

Propiciaste espaços de encontro para a coordenação de acções transversais e longitudinais que fomentem os vínculos operativos e cooperativos das áreas concomitantes?

Quais são os conteúdos conceptuais, processuais e atitudinais que respondem aos fundamentos lógico, praxeológico e metodológico constituídos pelos núcleos generativos disciplinares, transdisciplinares, interdisciplinares e metadisciplinares?


Caifás, o pior de todos, disse a Jesus:


Quero ver as avaliações do primeiro, segundo e terceiro períodos e reservo-me o direito de, no final, aumentar as notas dos teus discípulos, para que ao Rei não lhe falhem as previsões de um ensino de qualidade e não se lhe estraguem as estatísticas do sucesso.

Serás notificado em devido tempo pela via mais adequada.

E vê lá se reprovas alguém!

Lembra-te que ainda não és titular e não há quadros de nomeação definitiva.


E Jesus pediu a reforma antecipada aos trinta e três anos...»

"Deus, o único ateu perfeito"

"O homem que nega o seu próprio ser, imita Deus, o único ateu perfeito; e tornou-se, por isso, Criador. A Criação tem a assinatura de Lucrécio" – Teixeira de Pascoaes, Santo Agostinho (comentários), Porto, Livraria Civilização, 1945, pp.275-276.

terça-feira, 17 de março de 2009

Da rosa e do (a)mar

imagem google

da orla do silêncio, a companheira noite que nada mais fazia do que render-se à solidão dos tempos, ao vazio do espaço e ao amor, do ser, caminhante.

o quase-tudo em vestígio de nada quedava-se em lágrima, murmúrio, queda de anjo, cujas asas são ondas de mar, calmo e revolto, azul e verde, cuja espuma toca a face de ente perdido.

escuto devaneio...recolho-me em suspiro...e exalo o odor de um perfume de rosa a desabrochar em coração de (a)mar.

Camadas de Fé




Um dois em um,
talvez indelicado,
mas é dedicada em simultâneo

ao Vergílio Torres, e à Raíz da Montanha

ao Paulo Borges e ao Dissipador de Rebanhos

segunda-feira, 16 de março de 2009

O Dissipador de Rebanhos

Que vemos nós nas coisas senão as coisas que não vemos?
Que vemos nós senão o que ver cremos?
As coisas que não sentimos mas pensamos,
Sobretudo quando só a sentir
Sem pensar nos julgamos?

Pois onde já se viu coisa alguma
Ou alguém que a visse,
Senão pensando haver algo ou alguém
Conforme o crente humano rebanho
Religioso ou não
Unânime sempre o disse?

Pobre de ti que te crês ver
Sem estar a pensar.
Pobre de ti que julgas saber ver quando vês
Enquanto insciente em tudo concebes
O imaginário ente que te crês.

Desperta, desprende-te, desaprende-te!
Não pretendas livrar as partes do todo fazendo um todo de cada parte.
Não suponhas algo existir claramente,
Pois “algo” “existir” “claramente”
É o mais obscuro e místico poetar
Do mais confuso e de-mente do-ente.

Liberta-te de guardar rebanhos.
Desadoece de adoeceres outros por te pretenderes são.
Deixa de te fazer de criança, simples, inocente.
Deixa-te.
Larga-te da mão.

Larga-te da mão.
Pasma-te de te ver a sentir o que pensas.
Arrepia-te de dizer que não sabes o que amas
Mas sim o que é amar.
Abandona o ocultismo de falares de “coisas”, “existência”,
“Fora”, “dentro”.
Desilude-te da “eterna inocência”
De tanto pensando pensares “não pensar”.

Pois, ó intérprete, por isso falso, da natureza que não há,
Ó grande mestre de prestidigitação,
Ó grande ditador de tudo ditando nada pretenderes ditar,
Que és e as coisas que pensando sentes
Senão bolas de sabão
Que sempre instantâneas rebentam antes de as soprar?

Rebentam:
Explodem o ar.

- Fragmento de O Dissipador de Rebanhos.

domingo, 15 de março de 2009

Diálogos II

"Sailing", 2007, Rui Fernandes

“Partir. Partir novamente. (…) Pois afinal não somos donos de nada. O que criamos separa-se logo de nós. As nossas obras ignoram-nos, os nossos filhos não são nossos filhos. Aliás, nada criamos. Nada de nada. Os seus dias estão para o homem assim como as peles estão para a serpente. Reluzem por momentos ao sol e depois desprendem-se dele. Deves então partir uma segunda vez, afastar-te ao teu primeiro afastamento. O mundo quer o sono.” Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, p. 103


Encontraste esta pena e deixaste-a ante um qualquer olhar. Caiu também no meu. O meu olhar esvaziado de rostos presentes. Chorei. Na humidade das pestanas molhadas estavam contidas gotículas guardadas de outros olhares, de outras águas onde permanecem, como sons retinidos pelas cordas de um violino envelhecido, rostos que são pura vibração. As lágrimas são fontes por onde correm rostos desaparecidos e outros, pelo canto da saudade, por nós recuperados. Nas lágrimas há uma imagem, um reflexo em espelho, dos antepassados. Esta pena escreveu Um Deus à Flor da Terra e na humidade das suas pontas estão as lágrimas de Francisco de Assis, o santo que não se perdeu da infância do tempo nem da minha infância fora do tempo. A infância do tempo comunga com a origem, e uma certa forma de dizer e escrever, – há um escrever que é apenas dizer, uma passagem pelo sentido sem nele ficar para nele residir como morador, mas para ser apenas um hóspede na linguagem que dela se desaloja e parte – o abandono da alma. Em alguns seres, como Francisco de Assis, a alma é uma pena enterrada e desenterrada, uma vida emplumada e uma morte desemplumada. A alma de um santo, como a de um louco, não conhece a opção, apenas a conjunção. Um santo é um homem e um deus. E se não é Deus com maiúscula é porque nele a humildade nunca o leva a escrever o seu nome, a assinar um papel que em que ela se identifique com a narrativa do mundo. A pena que me corre nas lágrimas, a pena que escreveu o livro, a pena que é a alma de Francisco de Assis: eis esta fotografia. A fotossíntese. Mesmo a pena que escreveu não constituiu uma grafia, uma escrita, o livro de Christian Bobin está escondido na areia do deserto. Só nessa areia, feita da cinza de todo o papel queimado na dor que é alegria e na alegria que é combustão do fogo ardente de estar vivo, a palavra guarda, em permanência e sem interrupção, o sol das auroras e das almas que choram por serem infância e sem tempo. Infância do tempo. As lágrimas, como as penas, são as peles das almas que sofrem. Caem e renovam-nos. Os que sofrem, como sabia Deus – e por isso parece não ter temido matar o seu filho, por isso os cristãos parecem não ter, como Weil, medo de sofrer –, sabem que as lágrimas são, como as penas, a ante-figuração, ou o rasto do anjo que marca o trajecto da imortalidade. E, Platão, esse infante da Filosofia, não percebeu também ele, que uma alma imortal está mais próxima da infância do tempo, a eternidade? Escreveu-o com uma pena molhada, e estava cheio de saudades dessa infância; a sua alma, paisagem de areia cheia de trilhos, andava com a pena atrás do pélago ou do abismo em que a alma estrénua se lança esquecendo o som do intenso lamento, de qualquer lamento. Enterrada a pena de escrever, enterrada a pena do sofrer, a alma partiria o vidro da campânula que a prendeu ao tempo e ao corpo e entregar-se-ia à areia do deserto, a única página onde a luz se inscreve sem a intromissão opacizante do sentido que é uma noite que impede a palavra do porvir e de reluzir, porque o que não perde as penas, como as peles, não passa nas insídias que são as passagens por onde se parte, os lugares para onde a alma viaja.

“Não há amor adulto, maduro e razoável. Não há perante o amor nenhum adulto, apenas crianças, apenas este espírito de infância que é abandono, despreocupação, espírito da perda do espírito. A idade adiciona. A experiência acumula. A razão constrói. O espírito da infância não conta nada, não amontoa nada, não edifica nada. O espírito da infância é sempre novo, retoma sempre aos começos do mundo, aos primeiros passos do amor. (…) O homem da infância é o contrário de um homem adicionado sobre si mesmo: um homem retirado de si, renascendo em todo o nascimento de tudo. Um imbecil que joga à bola. Ou um santo que fala ao seu Deus. Ou ambas as coisas ao mesmo tempo.” Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, p. 97

A pena tem um ar abandonado que não se acresce ao estar também enterrada. Também os mortos estão mais abandonados do que enterrados. Podemos, aos mortos, desenterrá-los e, todavia, nunca poderemos eliminar o seu modo absoluto de abandono. É esse abandono que faz com que um santo pareça, mesmo vivo, um morto para o mundo e pareça como um louco uma criatura em estado permanente de infância. O abandono une a infância e a santidade à morte. Ser em estado de abandono é ser como a pena, o que cai de um corpo e pode o mais fundo e o mais alto. A pena é o que solta o santo do mundo, a pena é o que liberta a criança do tempo. Só o homem da dor permanente se torna santo porque a dor, quando não é um estado intermitente mas um estado contínuo, só conhece uma direcção, a inversa em relação ao estar aqui e ser com os que estão aqui. O mundo é o corpo de que o santo se solta. O santo caminha para o anti-mundo. Como a infância para o antes do tempo. A infância, como a santidade, não se dirige para o que existe, o inexistente tem na criança que vive o sono da infância, o poder de atracção que nenhum objecto exercerá nela durante a vida adulta, porque a infância é o estado em que a intersecção da culpa com a dor lhe devolve a memória do paraíso, enquanto o Homem a projecta para o futuro, e vive desde aqui a experiência do inferno. A criança que tem uma pena cravada no coração, que tem uma pena perdida na mão, não faz outra coisa senão dar um grito, lembrar-nos com o olhar que há outro lugar sem ser o mundo, há um não-lugar no ventre de Deus que a criança redescobre lendo a pauta musical da memória e da imaginação. Na criança, a primeira visão é uma revisão do rosto de Deus, do rosto do que é sem rosto. É esse rosto que a faz sorrir, quer dizer abrir a rota, o caminho aberto cortando uma floresta, com o presente e com o ausente em simultâneo, é a dupla relação que, quando bem estabelecida entre a criança e os rostos originais, lhe permite para sempre ficar em ligação com o que se abandonou. Naquele em que essa revisão é mais pregnante, o santo, o morto, a criança, também o semblante traz inscrito um Ausente ou uma perda. Esse rosto Ausente que acompanha o seu, na criança, no santo e no morto, confere ao que o tem gravado dentro do seu o poder de perder o tempo. O tempo é uma pena, a única, que nos enterra mas nós podemos abandonar. A criança lembra-se disso quando nasce, imagina isso quando é ferida e conhece em silêncio a perdição.

“A criança caminha para o adulto, e o adulto caminha para a sua morte. Eis a tese do mundo. Eis o seu pensamento miserando e vivo: um clarão que tremula na sua aurora e já não sabe senão declinar. É esta tese que importa inverter. Partir uma segunda vez e que esta vez seja ainda mais nova do que a primeira, mais radicalmente nova, mais amorosamente nova.”Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, p. 104


Recolho esta pena de Ícaro só com o olhar. Ele não caiu por se ter aproximado muito do sol, caiu porque a gravidade também afecta os inocentes e os que sonham. Recolho-a para escrever, me lembrar, para imaginar e vos confessar o sentido da pena daquele que escreve. O que escreve não pode prometer nem voltar nem não-voltar, ou voltar apenas uma segunda vez, pode até ser a terceira, pode até não haver vez. Como o cego, o que escreve, apoiado nas palavras brancas, as suas bengalas, nunca sabe de onde parte, nem como voltar. Sabe que a pena da escrita é o regresso infinito e desorientado. Uma pena arrancada a frio do corpo da Vida deixa-o atordoado, perdido. Com uma pena destas na mão, o que escreve sente a dor, mas não pode deixar de confessar que ela é como a visão da beleza, a alegria. “Quereis saber o que é a alegria, quereis saber realmente o que ela é? (…) A alegria é nunca mais estar em sua casa, mas sempre cá fora, enfraquecido de tudo, faminto de tudo, por toda a parte do lado de fora do mundo como no ventre de Deus.” Christian Bobin, Um Deus à Flor da Terra, pp. 105-106
O escritor tem na mão essa pena cuja tinta que escorre vem de um mundo fora deste, e na sua mão enfraquecida, desenha nomes e nomes de nomes de um rosto antigo, cria sons e sons de sons de uma voz distorcida pela distância. O escritor tenta escrever com a pena de Deus , ou de um pássaro não ferido, o Amor. Mas o Amor seca, antes dos movimentos que formam signos estarem concluídos, e fica nos espaços entre as letras desenhadas e entre os sons pronunciados. O Amor é invisível e inaudível. Por isso o escritor só o é, verdadeiramente, como e quando imita a criança que finge escrever e tem uma pena segura entre os dedos na fragilidade suprema da sua mão. E o Amor é a folha em branco que se derrama do seu olho, aurora absoluta, sobre aquele que é olhado.

Ao Anónimo a quem, com esta pena na mão, chamo irmã/ão e ao Vergílio.


Complemento


porque és ilha
e eu mar
complemento

Leitura da paisagem em fim de tarde


A tarde reclina-se, graciosa e mansamente, como uma flor que fecha as pétalas, mal a sombra lhe toca, empurrando para trás da luz a pedra mais sossegada do jardim. A tarde - se a tarde fosse uma pessoa - correria como aquele ribeiro da infância que me acompanha e corre, também ele, mansamente, para lugar nenhum. A tarde tem a felicidade de não ter nem a calma nem a alegria que sinto, nem de querer tê-la. A natureza seria um bom espelho se fosse espelho. Mas não é, há quem diga. Segue comigo e com a tarde o rio que sabe o caminho e a minha alma que se interroga sobre o que é saber-se o caminho, para concluir que o não sabemos. Dele tão só pisamos terra. Cuidaremos de não pisar os canteiros nem quem connosco siga: astro ou anjo, rio ou pássaro a procurar, no que é mais baixo e abrigado, um lugar para o sono. Porque a à minha alma seguirá sempre o rio, viajante e viajeira de si. Quase brisa, quase borboleta.
Estamos sempre na foz. E na foz somos nascente. Bebemos desse caldo do céu que é a vida e nesse intermezzo de uma ópera de despedida das rosas de inverno. Olhamos para dentro do coração de quem lê e ouve uma lacrimozza de nós. Somos nós a secar as poças de água e o musgo das paredes; os troncos ainda nus dos pequenos arbustos a pedirem os vestidos verdes que não lhes são negados, para vestir a paisagem da nossa eternidade em ciclos revisitada nos não estranhe mudados em seu mudado aparecer.
Também a flor do lilaseiro não tardará a crescer sobre a pedra das nossas memórias, e o vento não desviará o seu trajecto, sem que a bailarina solte um som de asas no silêncio adormentado da tarde. A nossa eternidade é a ideia da neve sobre os píncaros da montanha, quando havia tempo para segredar ao vento uma história que nos imaginava: sentados debaixo de uma árvore a ver o universo a actuar, na repetição das coisas que não têm tamanho nem tempo nem duração. São a ilusão dele, tão real, que nos pomos a pensar que deus nos terá desenhado a partir desse nada que nos será fim e início. E nós, humanos, actores esquecidos por um deus cansado, nós perdidos, dentro do abismal universo a ser partículas, fragmentos de uma existência que em pensamento e criação, resolve mais uma das suas equações das rosas, só para a tarde não doer tanto.
Só para sorrir do ninho da cegonha na igreja por onde passo raramente, e onde a cegonha decidiu permanecer e morar até a tarde se pôr nos meus olhos acordados. Quem ama as palavras e as usa para compreender a claridade do dia que, a pouco pouco, inclina mais a cabeça para trás, sabe que a imagem pode ser o pretexto para o texto que nasce imagem que, por sua vez cria imagem, numa rede infinita de conexões que fazem com o que se sonha seja tão ao mais real do que o que se vê apenas. A experiência da Saudade é também tempo, mas a criação é o que faz com que se possa matar a morte e se sintam saudades de ter saudades.

factografias

mau tempo entortou
o poste telefónico
mau tempo só não entorta
vontade da cegonha

assim devêramos nós ser

7

Este poema exigiu 7 folhas de papel.Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha nocturna e molhada!


Abgar Renault
A outra face da lua (1983)
Obra poética
Record, 1990

sábado, 14 de março de 2009

Da radical abolição de preconceitos

"Que maneira ha de approximar a sensibilidade da rapida multiplicação dos estimulos? Evidentemente que maneira natural, por assim dizer, não ha nenhuma. Mas ha uma maneira artificial.
Como obter essa artificialização da sensibilidade? Como pode o homem tornar-se, effectivamente, o constructor do seu proprio emotivismo?
Mediante trez processos:
(1) A abolição do preconceito da personalidade. Acabemos com a idéa de que cada individuo é só elle-proprio. Todos nós coexistimos ao mesmo tempo que existimos. Todos nós somos todos os outros.
(2) A abolição do preconceito da individualidade. Deixemos de acceitar como verdadeira a these fundamentalmente theologica da indivisibilidade da alma. Somos aggregados de celulas, agrupamentos de psychismos, de sub-nós, somos inteiramente tudo menos nós-proprios. Submerjamo-nos no mar de nós-proprios, afogados no Universo de lhe pertencermos.
(3) A abolição do dogma da continuidade lateral. Não julguemos mais que nós, do presente, somos um laço, um hyphen mobil, entre o passado e o futuro. Não somos. Somos sim continuos mas não com o passado ou com o futuro. A nossa continuidade é toda com o presente - com o presente externo de todas as cousas, e com o presente interno de todas as sensações"

- Fernando Pessoa, in Pessoa Inédito, coordenação de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Livros Horizonte, 1999, pp.311-312.

Saudade - A Precognição


Pressagiamos a nossa Imortalidade original
e ainda assim corremos com(tra) o Tempo.

Sutra Surangama

imagem google


Como é docemente misterioso o som transcendental de Avalokiteshvara!


É o som primordial do Universo...é o abafado murmúrio da maré oceânica subindo dentro de nós.


O seu misterioso som traz a libertação e a paz de todos os seres vivos, que, na sua dor, gritam por ajuda, e dá uma sensação de serena estabilidade a todos aqueles que procuram a ilimitada paz do nirvana.
Matando uma mosca
feri
uma flor

- Kobayashi Issa [1763-1827], Anthologie du poème court japonais, Paris, Gallimard, 2002, p.94.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Maria Lúcia Garcia Marques: Viator

Lido aqui.

[...] No nosso imaginário, VIAGEM contém em si e desde logo o gérmen de um movimento excêntrico. É, em geral, um conceito que se alimenta da ideia de um encontro para lá de nós, de caminhos, paisagens ou costumes, mais ou menos exóticos que se recolhem através dela, viagem, como processo exterior ou interior. É intrinsecamente, um partir do centro existencial de cada um em busca de uma coisa outra - nova ou diferente - para dela fazer uma aquisição sua. A viagem é um exercício humano velho como o tempo e longo como as voltas do mundo, narrado ou simplesmente vivido na Busca: da novidade? do saber? da superação dos limites (materiais e humanos)? da simples fuga do trivial no displicente mover-se de quem tem lazeres? via iniciática? (na nomenclatura maçónica dá-se essa designação ao conjunto de provas a prestar por quem quer entrar na sociedade secreta ou passar deum grau inferior a outro superior), ou uma certa forma de se superar o medo atávico de partir, de alguma forma sugerido pelo Poeta: “Partir / perder países...” ou mais claramente caracterizado pelo brasileiro Amyr Klink, navegador solitário e narrador sensível, à beira de iniciar a travessia, em barco a remos do Atlântico:

Era o medo de nunca partir. Sem dúvida, este foi o maior risco que corri: não partir” [...] “Pelo simples facto de estar ali onde estava, debatendo-me entre os remos, xingando as ondas e maldizendo a sorte, me sentia profundamente aliviado: Feliz por ter partido.
(in Cem Dias Entre o Céu e Mar, Companhia das Letras, 1955)

A viagem contém em si um sentido de utilidade e renovação eternos, porque somos por natureza abertos ao espanto ainda que fiéis à rota e à lição dos mapas, guiados pela curiosidade mas leitores de tradição, intuindo que, como já Alexandra Lucas Coelho disse “ela (viagem), se não faz fatalmente em frente mas também por dentro, não é uma só mas também todas as outras, as que deixámos para trás, lidas, vividas, ressuscitadas”. E tudo isso se explica porque, se olharmos de perto a etimologia da palavra “viagem”, o latim viaticum (chegado até nós através do provençal viatge) verificamos que significa, à letra, ‘provisões de viagem’, ‘tudo o que serve para fazer caminho’, ou seja, e generalizando, espécies várias de alimento (para o corpo e para o espírito) que a sustentam e fazem com que ela ajude a viver a esperança, a descobrir e a abrir espaços de reflexividades úteis e renovadoras e, na sua máxima realização, alimente um gosto exclusivo pela vida, de caminhar pelo mundo desencantando olhares proféticos que vêem o que ainda não vimos e libertando memórias que recordam o que não chegámos a ver.

quinta-feira, 12 de março de 2009

"Amiga não me fales de amor"



Amiga não me fales de amor
São estranhos os caminhos
quando amas alguém
Prepara-te para seres
esmagada para cortares
a cabeça e te sentares
nela Prepara-te para andares
à volta da luz como uma traça
Prepara-te para viveres
como uma corça que corre
ao encontro do caçador
que a chama Prepara-te
para seres como a perdiz
que engole carvões em brasa
por amor da lua Como
o peixe que morre feliz
fora da água ou como
uma abelha aprisionada
para sempre no cálice
de uma flor O Senhor de Mira
é Giridhara Ela prostra-se
a seus pés

- Mirabai (1498-1546), O Amor Chegou Com As Chuvas, apresentação e versões de Jorge Sousa Braga, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p.50.

FERNANDO PESSOA

reprodução
Fernando Pessoa


NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ


Não tínhamos ainda visto o cadáver do nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastamos para um lado o atar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…, e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo.

Fama Fraternitatis Rosas Crucis


I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclue.

Deus é o Homem de outro Deus maior.
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu…
De além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.


II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue atual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rósea-cruz conhece e cala.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Deus e Adeus: "o mesmo grito da Saudade"

"Que distância entre Deus e Adeus? Representam o mesmo grito da Saudade, que é a dor da solidão, a ânsia de eterna convivência, tão entranhada no efémero do nosso ser! A palavra Deus, como a palavra Adeus, não exprime qualquer ideia, mas um desejo ou força, irrompida, através de nós, do íntimo das coisas"

- Teixeira de Pascoaes, Napoleão, Porto, Livraria Tavares Martins, 1940, p.322.

Lisa Gerrard: Sanvean (I'm Your Shadow)

Um presente para a Serpente. Aconselho a ver em alta definição.

Inocentes do Leblon

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

Carlos Drummond de Andrade
In Sentimento do Mundo
Irmãos Pongetti, 1940

terça-feira, 10 de março de 2009

Divino

imagem google


és como brisa que me percorre
estremece
arrepia
e aconchega

Espírito que me cativa
e seduz
habitas no meu Coração
como halo divino
pó de estrela
soprado
reencarnado


sei que Te pertenço
algures
de um tempo
e de um espaço
renascidos


existência abençoada sou
anjo que (n)a Luz (Te) abraçou




De como a verdadeira e nobre bondade é imparcial



Agradeço ao Amândio Silva ter-me enviado esta foto que tão bem ilustra o que desejo para todos os aderentes do MIL, de acordo com a nossa Declaração de Princípios e Objectivos: que o nosso amor às nossas pátrias e à Lusofonia se estenda, imparcialmente, a todos os homens, a todos os seres vivos e a todo o Universo! Só isso tornará as nossas pátrias e a Lusofonia algo de grande, que valha a pena existir no mundo. Fora disso, não mais seremos do que lixo histórico, como os grandes impérios do egoísmo mundial. Só isso fará da Águia uma Nova Águia, com coração de Pomba. Fora disso, não passará de um reles abutre.

Abraço lusófono e universal

Shambhala - Por uma sociedade iluminada

"Se bem que cada um de nós seja responsável por ajudar o mundo, pode acontecer que, tentando impor as nossas ideias ou a nossa ajuda aos outros, acabemos por acrescentar ao caos. Muitas pessoas têm teorias sobre as necessidades do mundo. Alguns afirmam que o mundo tem necessidade de comunismo, outros que carece de democracia; para alguns, a tecnologia salvará o mundo, para outros destrui-lo-á. Os ensinamentos Shambhala não visam converter o mundo a uma nova teoria. A visão Shambhala parte da hipótese de nos ser necessário em primeiro lugar descobrir em nós mesmos o que podemos oferecer ao mundo antes de estabelecer uma sociedade iluminada. Então, para começar, devemos esforçar-nos por examinar a nossa própria experiência a fim de ver o que ela contém de útil para enobrecer a nossa existência e para ajudar os outros a fazerem o mesmo.
Se estivermos dispostos a lançar aí um olhar imparcial, veremos que, apesar de todos os nossos problemas e de toda a nossa confusão, apesar de todos os altos e baixos emocionais e psicológicos, há alguma coisa de intrinsecamente bom na nossa existência de seres humanos. A não ser que experimentemos este fundamento de bondade na nossa própria vida, não podemos pretender melhorar a vida dos outros. Se não somos senão seres miseráveis e infelizes, como poderíamos sequer imaginar uma sociedade iluminada e ainda mais realizá-la ?"
- Chögyam Trungpa, Shambhala - The Sacred Path of the Warrior (Shambhala - A Via Sagrada do Guerreiro)

10 de Março, 19 h - Solidariedade com o Tibete

Caros Amigos,

Numa altura da história tibetana em que tibetanos no Tibete vivem sob o punho de ferro chinês, não deixem de estar presentes na concentração pelo Tibete que terá lugar esta terça-feira, a partir das 19h, frente à embaixada da R.P.C. em Lisboa (R. S. Caetano, 2 - Lapa).

A 10 Março 2009, data em que se comemoram os 50 anos da Revolta Nacional Tibetana contra a ocupação Chinesa, relembraremos a coragem dos Tibetanos e homenagearemos as vítimas da ocupação.

Porque 50 anos é tempo demais !

segunda-feira, 9 de março de 2009

Os Direitos Humanos

"A noção de direitos humanos é uma noção muito mais ambígua do que pode parecer. O primeiro paradoxo dos direitos humanos é que, por definição, nunca existe uma lista definitiva de direitos humanos. Regra geral, nunca temos todos os direitos humanos. Os direitos humanos pressupõem sempre mais alguma coisa. Não podemos simplesmente objectivá-los e dizer que há uma série de direitos humanos."

- Slavoj Zizek
Dois poemas sobre FOGO


1


Seduz-me a luz
Das áscuas
O fumo
A flor das tuas brasas

Não é por acaso
Que chamamos fogos
Aos espaços
Que habitamos

A que também chamamos
Casas

2

LUME

Companheiro
Irmão
Amigo

Sem o teu calor
Sem a tua luz

Sem o teu fulgor
Sem o teu fumo

Sabe lume:
Ardo anónimo
contigo

A normalização da anormalidade

"Conseguimos esse desiderato de alienado - a normalização da anormalidade. Obtivemos, com isso, a vantagem de tornar a vida mais agitadamente interessante a um bom numero de pessoas que, em uma sociedade bem ordenada, não existiriam, propriamente fallando, individualmente. Mas essa vantagem individual, e por isso transitoria, pagamol-a com a fixação parallela, da incapacidade de crear, com a normalização, conexa, da impottencia de grandes idéas, a inappetencia para grandes fins.
Nós realisamos, modernamente, o sentido preciso d'aquella phrase de Voltaire, onde diz que, se os mundos são habitados, a terra é o manicomio do Universo. Somos, com effeito, um manicomio, quer sejam ou não habitados os outros planetas. Vivemos uma vida que já perdeu de todo a noção de normalidade, e onde a hygidez vive por uma concessão da doença.
Vivemos em doença chronica, em anemia febricitante. O nosso destino é o de não morrer por nos termos adaptado ao stado de (perpetuos) moribundos"

- António Mora, Obras, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, p.214 [manteve-se a grafia original].

Convite para o Jogo do Mundo




Tenho o prazer de vos convidar para a apresentação e palestra sobre os meus últimos livros: "A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira" e "O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa" (Portugália Editora).
Terá lugar no dia 10 de Março, 3º feira, pelas 15 horas, na Livraria Escolar Editora, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Saudações

sábado, 7 de março de 2009

Acendes-te, Escreves-te e Apagas-te!



New Dawn Fades - Joy Division


Acendes-te, Escreves-te e Apagas-te!


As ruas de Lisboa estão cheias de buracos.


A gangrena está de pedra e cal.


As auto estradas também se cruzam e desenfiam.


O Eu é a carcaça que carregas para pagar a portagem.

Alguém apita e grita:

- Vá senhora! Toca a circular, não empate o trânsito!

Arrancas...ARRAAANCAS-Te!


Acendes-te, Escreves-te e Apagas-te!

Saltas, cais, repetes-te, és a agulha num risco do disco antigo. Sabes, aquele de vinil?


A luz nem sempre viaja em linha recta.


E o círculo é um beco onde te consomes e esperas,


O toque para o final do tempo.


Ana, the Twat, Moreira

quarta-feira, 4 de março de 2009

Doctor Steel - Reality Engineering



Agradeço ao meu filho Martim ter-me dado conhecimento deste video.
pintura "L'Invention Collective, c.1935" by Rene Magritte

DAVID MESTRE


reprodução

David Mestre


SINAIS DE SALIVA

Sulco a terra
ouço
estalar
a som
bra das
palavras

Cavo
e des
cubro
raízes
adormeci
das

Procuram a
superfície
e dela
recebem
sinais de sal
iva

terça-feira, 3 de março de 2009

o menino perdido

Uroboros


Nomeia. É Uroboros que começa
A dança eterna, o ciclo da existência.
Sorve do fogo a chama que é potência
Da memória – mundo que regressa.



Enlaça o corpo. Traga a carne nessa
Sofreguidão. Percorre e sente a essência,
A emanação do sangue, a experiência
Autofágica. Nada há que a impeça.


O mundo nascerá da sua glória
E será em corpo e alma traduzido.
Luta de opostos. Arte tresloucada.


Eterno canto em íntima vitória
-Pendão ungido, erguido e ofendido -
Afirmada, negada e superada.




Xavier Zarco

poesia angolana

Leitura de poesia angolana, Sábado, às 21:30h, no Intensidez (biblio-café), rua Escrivão da Câmara, Évora. Com a participação do poeta angolano Abreu Paxe e do jornalista angolano António Quino. Um momento raro para se conhecer a poesia angolana de hoje. Estarão expostos livros de poetas angolanos. O biblio-café serve também refeições, petiscos e bebidas preparados com delicadeza e rigor.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Namastê, amigo


«Deposito na suas mãos o meu Namastê, e junto-me na mesma serenidade.» - Lapdrey


em essência de lótus e jasmim

reverencio-me, humildemente, perante ti

para que um fragmento de tua luz

se funda no meu

só assim a tranquilidade da nossa humanidade

será paz, num pedaço de tempo

em mágico momento

e no espaço da minha alma

habita agora um sorriso

de serenidade

em prol da Verdade


grata por isso!

st

Navego


Aqui deixo a Pluma

E dou a palavra à Serpente.

P´RA PULAR

quem sabe arrumar a rima
na construção da ideia
faz a casa até acima
sem pedra cal ou areia

recurso ao popular em tempo de crise

Luigi Pareyson: Da liberdade como abismo



La libertà è una fessura nella compattezza della realtà, è una breccia, una crepa, una spaccatura nella continuità dell'universo. L'inizio assoluto è il nulla della libertà ed ecco perché è sorpresa, prodigio, suscita stupore; ecco perchè questo nulla ha qualcosa di vertiginoso, è un abisso che suscita angostia, sgomento. La libertà è in questo senso un mistero, che ha un aspetto esaltante e un aspetto opprimente, perché a in se stessa la sua fondamentale ambiguità.

- Luigi Pareyson (1918-1991), Ontologia della libertà. Il male e la sofferenza, Torino, Einaudi, 2000, p.32 [foto obtida na Internet, de autor desconhecido].

Colóquio "A Religião e o Ateísmo Contemporâneo"

SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTÉTICA, ARTE E RELIGIÃO
CENTRO DE FILOSOFIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA
5 e 6 de Março de 2009

ENTRADA LIVRE

Sala 5.2 (Sala de Mestrado) da Faculdade de Letras de Lisboa

5 de Março

Presidente de Mesa: José Pedro Serra (Universidade de Lisboa)
14h-15h: Markus Gabriel (New School University de Nova Iorque/CFUL): "A Ideia de Deus em Hegel"
15-16: Cristina Beckert (Universidade de Lisboa/CFUL): "Lévinas e o Ateísmo como condição da religião"
16-17: Manuel João Pires (Universidade de Lisboa/CFUL): "Deus: a Ilusão ou por que razão é quase certo que Deus não existe. Reflexões sobre o pensamento de Richard Dawkins"
Pausa
17:15-18:15: Lavínia Pereira (Universidade de Lisboa/CFUL): "Bergson e a crítica ao Naturalismo"
18:15-19:15: Maria Teresa Teixeira (Universidade de Lisboa/CFUL): "Deus e Materialismo nas Filosofias de Bergson e Whitehead"
19:15-20:15: Carlos João Correia (Universidade de Lisboa/CFUL): "Será a Ideia de Deus racional?"

6 de Março

Presidente de Mesa: Susana Oliveira (Universidade Técnica de Lisboa)
14h-15h: Katia Hay (New School University de Nova Iorque): "The Loss of the Absolute"
15-16: Mafalda Blanc (Universidade de Lisboa/CFUL): "A Religião, o Ateísmo e o Mistério Teologal do Homem"
16h-17: Ana Acciaioli Cravo (Universidade de Lisboa): "A Morte de Deus e as Nostalgias do Absoluto: reflexões sobre o pensamento de George Steiner"
Pausa
17:15-18:15: Paulo Guedes (Universidade de Lisboa): "Sade e o Ateísmo"
18:15-19:15: Paulo Borges (Universidade de Lisboa/CFUL): "Êxtase, Transfiguração e A-teísmo em Emil Cioran"
19:15-20:15: Petar Bojanić (University of Aberdeen): "Franz Rosenzweig: War and Atheism"

Para mais informações, contactar:
carlos.joao@netcabo.pt
joanaluis2003@yahoo.com.br

domingo, 1 de março de 2009

MÓBILE


reprodução

Móbile (1941), de Alexander Calder


MÓBILE


Marcilio Medeiros

areias seguem calcanhares
nômades anônimos
ampulheta fraturada

pela direção dos ventos
levados refazendo-se

é dia pela claridade
grãos que caminham
retirando os passos

adoração

Refundo-me no colapso
da plena adoração.

Canção de uma sombra


Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das causas,
Eu não era o que sou.


Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou ...
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.


Ai, se não fosse este luar que chama
Os aspectos à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.


E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços
Eu não era o que sou.


Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.


Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro vôo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.


TEIXEIRA DE PASCOAES
(1877-1952)