O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 17 de maio de 2009

A Princesa Lai e o Espelho de Água...agradecimento


Sentira, desde sempre, uma Saudade inexplicável de si, e do mundo, de algo que não sabia bem o que era mas que parecia tocar-lhe em sopro de vida, transcendente, como que um apelo, sussurro ou segredo de sabedoria.

Remetia-se, frequentemente, para os confins do seu ser, procurando apenas fluir sem que o universo das questões pela busca do ‘porquês' mais essenciais a atormentasse, em demasia…Perdia-se, e reencontrava-se, em espelho de água por vezes turvo pelas emoções mais nefastas que invadiam a sua quimérica existência…Outras vezes, mergulhava no abismo de si em solidão profunda. Chorava, sorria, quedava-se e chorava. E, o seu coração, era como que a macieza de uma pétala de rosa que contemplava a lua e flutuava na água, deleitando-se com pequenos salpicos de mar, chuva e cacimba, capazes de a purificar, em sorriso.

Comunicava, frequentemente, pelo gesto meigo, olhar terno mas melancólico e voz melodiosa que irradiavam a busca pelo Amor, a perfeição de Lótus, a compaixão de Jesus e de Yeshe Dawa cruzadas em horizonte de almejada Felicidade. Intuía, e escrevia, com/pela/na Saudade de um Jardim, algures, perdido no horizonte de si, onde as cores, as palavras e as imagens são acordes de violino e gotas de lágrimas que se movimentam em espiral de redescoberta, e renascimento. Só assim cresceriam asas em Lai…em trilho de deserto, vestígio de praia…Resistindo à miragem de samsara e desvelando o oásis de nirvana que lhe surgia, fragmentado.

Silenciava-se, aquietava-se e sabia que poderia voar pelas asas do coração, onde na sua essência se albergavam a solidão e a saudade, em mistério de si…

sexta-feira, 20 de março de 2009

Do mar e das flores...feliz Primavera!

imagem google

A pouco e pouco, a vegetação verdejante do pasto ganhava cor, forma e textura. As flores redespertavam do seu sono lento revestido de frio, e gelo. Despoletavam os primeiros botões que sorriam, timidamente, para o sol de Primavera. As pétalas espreguiçavam-se dançando, naturalmente, ao som da brisa que as afagava em jeito terno, e puro.

Ao longe, um sussurro de mar em jeito de prece. E assim conta a lenda que o mar amava as flores e que as ondas eram a sua tentativa para as beijar. Contudo, não as alcançava e daí que o marulhar fosse a sua canção de embalar. Secretamente, escutam-na as flores que de mil e uma cores, escondem as suas dores. No entanto, choram quando sentem que a água de sua raízes tem o sal de uma lágrima de mar, corres-lhe a nostalgia de um amor perdido, vasto, tão imenso que lhes (en)canta.

É por isso que em orvalho, de amanhacer e anoitecer, as flores se banham e purificam em toque cristalino de reflexo arco-íris; porque se projectam , em sonho, e abraçam o mar. As mais ousadas, soltam as suas pétalas e voam, livres, no vento. Fazem-se mágico momento. Sonham, fundem-se e são...fragmento de amor que se superou para além da dor.

Por vezes, temos de soltar as nossas pétalas para que possamos também voar e o nosso amor alcançar. Ainda que pareça tão longe, impossível e ingénuo, tudo é possível quando é Primavera em nós, em processo de renascimento e reflorescimento contínuos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Pelo infinito de mim




Passeio pelo infinito de mim, em jeito de anjo.


Toco as estrelas, do mar, pelas ondas do meu sonhar.


Recolho-me, extasiada, no céu azul que vislumbro em luz e paz.


Sou caminhante, e peregrina, das ruas do universo que, em jeito de labirinto, me propõem o desafio de existir, em mágico sentir.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Frio

O frio percorre-me o corpo e penetra na alma.

Recolho-me como pássaro sem asas, onda sem espuma, ou vento sem aroma.
Queria ser do mundo e de ninguém.

Apenas liberdade pura, espaço sem espaço, tempo sem tempo, ser sem ser... amplitude e essência, silêncio e comunicação.

Até lá... naufraga em memória, refém em ti, anjo que se queda e não sorri.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Impermanência



Um manto branco percorre a paisagem que os teus olhos contemplam. O frio também te envolve na brisa, que te beija, arrepia-te a pele, estremece-te, e adormece-te. Estranha sensação... como se o redespertar para a vida fosse readormecimento do ser em letargia de sentidos, e percepções, em tua razão. Razão? Ou essência, coração? Perdes-te num labirinto de inquietações que te fazem tudo, e nada, absoluta impermanência de ti.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Do silêncio, das cores

(imagem: olhares.com)
Na verdade, reclamo palavras mas almejo o silêncio, aquele que fala por mil palavras e me reveste de cores, sempre que me olhas, abraças e sorris.
O silêncio dum antes, dum depois, durante o tempo da nossa eternidade, coexistência de espaços percorridos a dois, em cumplicidade, e transparência.

domingo, 16 de novembro de 2008

Fantasma

Percorria, por entre a névoa, o porto da esperança.

Já não sabia se era homem, se tinha um espírito livre, no vento; ou se alguma vez tinha meditado, pois a mente balbuciava-lhe um turbilhão de inquietações, angustiantes. E o corpo, dorido, era fustigado por um cansaço enorme e cada passada, parecia uma chicotada.

Contudo, tinha fé...fé de que poderia ainda chegar a tempo. Dentro de si, uma réstea de luz, um trajecto de vida alicerçado na busca de paz. Pois bem, era o que agora também pretendia, afinal, o que sempre quis: luz e paz, envoltas em sabedoria, na prática da compaixão.

Num pote, sagrado, levava as cinzas de quem fisicamente, amara. Como era possível que o ser humano ficasse assim reduzido? Chorava, por dentro. Emudecido, sentia ainda um nó na garganta provocado pela dor da perda. Queria também morrer, parar de sofrer. Cobardia? Talvez sim... E contrariava, sem dúvida, tudo o que tinha aprendido no mosteiro.

Diante de si, o barco que o levaria, rio fora, até ao oceano gelado, e profundo. Já se poderia imaginar a navegar, quase sem rumo (por que rumo, há sempre - por desconhecido que seja!). Seria a partir de hoje, e sempre, um monge eremita. Isto se não morresse, em corpo.

Precisava parar, do mundo, se afastar... Mas restava-lhe o sonho como bálsamo para a saudade, constantes lembranças que o atordoavam noite, e dia. Seria então um fantasma, coabitando com os seus mais íntimos.

Dura solidão, pura loucura, almejo de felicidade... Este é o trajecto de um homem, na sua senda de verdade.