O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta Paisagem Poesia Saudade Tempo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paisagem Poesia Saudade Tempo. Mostrar todas as mensagens

domingo, 15 de março de 2009

Leitura da paisagem em fim de tarde


A tarde reclina-se, graciosa e mansamente, como uma flor que fecha as pétalas, mal a sombra lhe toca, empurrando para trás da luz a pedra mais sossegada do jardim. A tarde - se a tarde fosse uma pessoa - correria como aquele ribeiro da infância que me acompanha e corre, também ele, mansamente, para lugar nenhum. A tarde tem a felicidade de não ter nem a calma nem a alegria que sinto, nem de querer tê-la. A natureza seria um bom espelho se fosse espelho. Mas não é, há quem diga. Segue comigo e com a tarde o rio que sabe o caminho e a minha alma que se interroga sobre o que é saber-se o caminho, para concluir que o não sabemos. Dele tão só pisamos terra. Cuidaremos de não pisar os canteiros nem quem connosco siga: astro ou anjo, rio ou pássaro a procurar, no que é mais baixo e abrigado, um lugar para o sono. Porque a à minha alma seguirá sempre o rio, viajante e viajeira de si. Quase brisa, quase borboleta.
Estamos sempre na foz. E na foz somos nascente. Bebemos desse caldo do céu que é a vida e nesse intermezzo de uma ópera de despedida das rosas de inverno. Olhamos para dentro do coração de quem lê e ouve uma lacrimozza de nós. Somos nós a secar as poças de água e o musgo das paredes; os troncos ainda nus dos pequenos arbustos a pedirem os vestidos verdes que não lhes são negados, para vestir a paisagem da nossa eternidade em ciclos revisitada nos não estranhe mudados em seu mudado aparecer.
Também a flor do lilaseiro não tardará a crescer sobre a pedra das nossas memórias, e o vento não desviará o seu trajecto, sem que a bailarina solte um som de asas no silêncio adormentado da tarde. A nossa eternidade é a ideia da neve sobre os píncaros da montanha, quando havia tempo para segredar ao vento uma história que nos imaginava: sentados debaixo de uma árvore a ver o universo a actuar, na repetição das coisas que não têm tamanho nem tempo nem duração. São a ilusão dele, tão real, que nos pomos a pensar que deus nos terá desenhado a partir desse nada que nos será fim e início. E nós, humanos, actores esquecidos por um deus cansado, nós perdidos, dentro do abismal universo a ser partículas, fragmentos de uma existência que em pensamento e criação, resolve mais uma das suas equações das rosas, só para a tarde não doer tanto.
Só para sorrir do ninho da cegonha na igreja por onde passo raramente, e onde a cegonha decidiu permanecer e morar até a tarde se pôr nos meus olhos acordados. Quem ama as palavras e as usa para compreender a claridade do dia que, a pouco pouco, inclina mais a cabeça para trás, sabe que a imagem pode ser o pretexto para o texto que nasce imagem que, por sua vez cria imagem, numa rede infinita de conexões que fazem com o que se sonha seja tão ao mais real do que o que se vê apenas. A experiência da Saudade é também tempo, mas a criação é o que faz com que se possa matar a morte e se sintam saudades de ter saudades.