O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sexta-feira, 19 de março de 2010

contemplando




"Mesmo agora contemplando as tuas aguas pude ver petalas vermelhas descendo...

outro cravo laranja,

pedacos belos de oferendas.

Uma cinza.

Madeira que queimou corpos de quem ja' partiu. Uma borboleta tambem...

caida,

que desiste agora de lutar contra a corrente,

e uma semente,

que promete ser uma grande arvore depois de escolher o lugar onde parar"

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Às vezes a realidade abre um rasgão"

"Às vezes a realidade abre um rasgão
e nós vemos o clamor da derradeira cal
ou o incêndio das nossas coordenadas
Mas [...] não suportamos essa visão do fim
e procuramos reconstruir o nosso círculo quotidiano

Tudo o que pensamos ou é de mais ou de menos
porque a realidade é insondável e alheia
e se para ela nascemos vivemos sempre à beira
dos abismos que a dissolvem ou entre os espelhos que a deformam"

- António Ramos Rosa, As Palavras, Porto, campo das letras, 2001, p.51.

Um dos textos a comentar no curso livre "O sentimento cósmico da vida. A experiência da totalidade na poesia portuguesa contemporânea", com início a 9 de Outubro, na Associação Agostinho da Silva.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Bardo do devir

imagem google
O samsara está na tua mente e o nirvana também.
Todo o prazer e dor, bem como todas as ilusões...Nada disso existe fora a tua mente;
É este o coração da prática para o bardo do devir.
Tsele Natsok Rangrol
séc. XVIII


terça-feira, 17 de março de 2009

Da rosa e do (a)mar

imagem google

da orla do silêncio, a companheira noite que nada mais fazia do que render-se à solidão dos tempos, ao vazio do espaço e ao amor, do ser, caminhante.

o quase-tudo em vestígio de nada quedava-se em lágrima, murmúrio, queda de anjo, cujas asas são ondas de mar, calmo e revolto, azul e verde, cuja espuma toca a face de ente perdido.

escuto devaneio...recolho-me em suspiro...e exalo o odor de um perfume de rosa a desabrochar em coração de (a)mar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Água do Mar

O tempo cura tudo, dizia a minha avó. A água do mar cura as feridas. Tantas pessoas a quererem que o tempo não passe tão depressa e eu à espera que ele passe o mais rapidamente possível. Passa Tempo, passa. A água do mar cura as feridas, o tempo cura tudo, só a água do mar cura tudo. Quero afogar-me devagarinho neste mar, deixar-me cair suavemente até à areia do fundo, macia, perder-me entre os corais e os peixes multicoloridos, talvez ser devorada por um tubarão ou salva por um golfinho, mas nunca cedo demais. Quero mergulhar no azul, verde e prata do esquecimento. Quero que o fogo se apague na água salgada, que o sol se filtre em luz branca no macio do ventre do planeta. Quero perder a memória, que o coração se plante no fundo e crie raízes e que as correntes abanem suavemente as veias e artérias desfeitas e as abracem. Quero que a mente se recrie ostra e os cabelos, algas, verde-escuras. Quero que as mãos se transfigurem em pequenos cavalos marinhos e as pernas em barcos afundados por piratas. Quero que a boca se esqueça das palavras e solte os beijos todos na espuma do mar. Quero que os ouvidos ensurdeçam para tudo o que não seja o cantar das baleias. Quero que as asas se soltem nos albatrozes e nos papagaios do mar. Quero que os braços se agigantem em tímidos marmotos que brincam. E no final, quero descer ainda mais, muito mais, ao coração da Terra, curada pela água e regressar núcleo vivo, equilíbrio, plenitude e brilhar na aurora boreal.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Dança...




dança d'eternidade...o percurso da minha efemeridade

sábado, 25 de outubro de 2008

Sobre o Todo

I.

Será o todo apenas a soma das partes?
Para mim, o todo é mais do que a soma das suas partes.

Se calhar não estou correcto. Muito provavelmente.
Mas parece-me ser demasiado limitativo que o todo seja apenas a soma das partes.

Se algo for criado a partir de uma parte, fará com que o todo seja ainda mais todo.
Ou seja, se uma parte evoluir, o todo que daí surgir será diferente daquele que apenas seria sem essa evolução.

II.

A minha intuição é que é precisamente isso que faz com que o universo não seja apenas um, mas uma multiplicidade de possibilidades intermináveis.

Cada possibilidade nova, abre-nos um universo dentro do universo.

III.

O mesmo tempo dá origem a vários espaços e até a desfasamentos dimensionais dentro do mesmo espaço e tempo.

Diferentes frequências que coexistem no mesmo espaço

Será apenas a soma das partes o todo?
in Livro dos Pensares e das Tormentas