O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Estar enraízado na ausência de lugar" ou da desterritorialização de Portugal

"Não há que ser eu, mas ainda menos há que ser nós.
A cidade dá o sentimento de estar em casa.
Assumir o sentimento de estar em casa no exílio.
Estar enraízado na ausência de lugar"

- Simone Weil, La pesanteur et la grâce, Presses Pocket, 1991, p.50.

Novalis escreveu que a filosofia não era senão saudade de estar em todo o mundo em sua casa. Penso ser essa a maior aspiração dos portugueses. Há que desterritorializar o nosso sentimento de Portugal, que na verdade, pelo menos desde os Descobrimentos, não é propriamente um território, mas antes um estado de espírito, um estado de universalidade. Essa é a verdadeira Pátria, que apenas indirecta e relativamente se expressa numa terra, numa língua, numa cultura e numa história. Não perceber isso é não perceber Portugal, cuja identidade é o próprio universo.

umoutroportugal.blogspot.com

domingo, 18 de outubro de 2009

hipparion

A espera assume-se como forma de assentar definitivamente todos os objectivos num cadáver, que é futuro. Viver o tempo que resta com a mente focada e alinhada para essa distância, viver de acordo com a projecção sem sabermos o que daí poderá advir, viver para o futuro sem saber como lidar com o presente, viver uma tranquilidade de tempos díspares moldando-os a um só tempo, tudo isto, é esperança. Se a expectativa sobre algo físico ou imaginário é generosamente vivenciada, ultrapassando términos de tudo o que se pensa crível, começa o Homem a visionar, compondo toda a sua vida de acordo com a indicação magnética de que tudo o que daí advém será um fim, ou resultado final tangível. Deste parco realinhamento instado resulta frequentemente um afogo, gracioso desassossego noctâmbulo navegado ao dorso de uma constelação, em breves reingressos à consistência, à vivência e existência de um Eu, à queda de um cavalo.
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Imagem: photoframe
Powaqqatsi - Life in transformation

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Do exílio voluntário", João Clímaco



Foto: Dai Oni, "Sadogashima"(Ilha de Sado, ou do Exílio), Japão
Fonte: Flickr
(Segundo uma tradição muito antiga, o primeiro exilado nesta ilha terá sido o poeta Hozumi no Asomioyu, que ali chegou em 722. O segundo, por ironia, haveria de ser o imperador que ali o exilara. Lá sofreu também exílio o monge budista Nichiren Daishonin, que para lá foi enviado por três anos, antes de receber o perdão, em 1274)



Do exílio voluntário

1. É exílio voluntário o abandono sem retorno de tudo o que, na pátria, nos impede de alcançarmos o objectivo da piedade. (...)

3. Posto que um profeta é, como diz o Senhor, invariavelmente desprezado na sua pátria (cf. Jo. 4,44), zelemos para que o nosso exílio voluntário não se nos torne ocasião de vanglória. Pois um tal exilar-se é apartar-se de todas as coisas para tornar em si inseparável de Deus o pensamento. O exilado é o amante, e o artesão, da permanente aflição. O emigrante, aquele que se furta a toda a ligação com os seus parentes, como se de estranhos se tratasse.

São João Clímaco, “A Escada Santa”, degrau terceiro, vers. 1 e 3


(Fonte: Saint Jean Climaque, "L´Échelle Sainte", Ed. Abbaye de Bellefontaine, Bégrolles-en-Mauges, 1978, pág. 47 e seg.)

lavra recém-desconexa: desenfreio da boca em exílio

(a Saudades, em irremediável futuro)


quisera
que cada horizonte fechado fosse abóbada celeste de mim ausente,
e fazer de cada crepúsculo irmão
das auroras infindas, onde sol e luz se beijassem
no trespassar mútuo das omnipresentes
fulgurações.

quisera
pensar-me lys em flor, no paraíso terreal, dia sim dia não,
onde houvesse apenas sombras às riscas,
na sombra que de mim foge apressadamente,
cavalgando sem freio aqui e em todo o lugar,
infindamente sem fim.

a entrada
por onde do labirinto se sai penetra antiquíssima
uma gruta convexa por dentro
– ali, onde os sentidos se a si não limitam,
ao tropeço no real - esse arlequim de todas esquinas
mais ínvias.

lassos
de eternidades tardias, eis chegam os guardiães
do ausente em todo o ser que se esperanseia
com as cores todas da vida, intactas num mealheiro,
dependuradas do olhar inseguro
da maré vasa.

conduzem
pelo sopro e pelo fogo frio que delas exala, à melodia
a que, múltiplos, os tempos seu manto aurífero entretecem,
e de que hão-de ser altar no serem jardim
em que ecoem os rumores do primaciar das fontes
inauditas.

D.


(com a alma agrafada ao céu da boca,
emudeço em tudo de cabeça para baixo,
suspenso dos antípodas de mim...)