O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 29 de março de 2011

Qual é a cor do mar de agora?

Vila Celeste, 11 de Maio de 2000

Um panfleto circulou pelas ruas chamando o povo. Rezava assim a publicidade:
Não perca o  "Primeiro Desfile Primavera/Verão das Trabalhadoras de Sexo

Da aldeia meia dúzia de jovens, meia centena de velhos. Mais de um milhar de estrangeiros curiosos. Maria envergonhada escondia a mão direita nervosa. A  velha espiava pelos binóculos do falecido. Seu José na esquina lambia os beiços. No palco, uma bandeira esvoaçava ao som do refrão:

Somos putas, somos putas
a mais velha profissão
Somos putas, porque não?


Ninoca,  trabalhadora da ONG distribuia sorrisos. Com uma embalagem na mão esquerda, gritava:
- Sexo é bom com camisinha! Verdes, amarelas, azuis com sabor a hortelã...
 Nenhum partido polí­tico compareceu. Nem para apoiar ou censurar. Nestes eventos os polí­ticos perdem-se. Um ou outro ousou aparecer disfarçado de povo.
Com um sorriso desavergonhado, Oncinha anunciou:

- Povo Celestino! Esta é uma data histórica para todas nós, mulheres.  Aqui nesta vila com o nome da nossa padroeira, inauguramos o nosso primeiro desfile.Uma roupa democrática que não escraviza gordas, ou magras e não escolhe idade. A estudante, a senhora casada e até a viúva enlutada pode vestir. Uma roupa que atende a ricos e pobres.

Entre santos e pecadores, o sexo comercial foi legalizado, contra a vontade da igreja pela voz de Régio.

Em Novembro desse ano, Dario resolve moralizar  os costumes e toma o poder com Régio.
Anuncia novos impostos. Joga golfe todos os dias. Num campo verde de mentira, feito a dor que a gente sente.
Brutti, sporchi e cattivi e o povo unido jamais será vencido!

Nosso povo virou plástico. Ao menor sinal de fogo - derrete!
Um ginásio a cada esquina. No bar, tofu e aguardente. Em cada semáforo um oriental falsificado que faz Tai-Chi. Na mão direita envergam uma bandeira vermelha.

Queimaram os filmes e do mar só resta o som. Desde então o céu mudou de cor - cinzento. No horizonte ergueu-se um muro a esconder o infinito.

Deus segreda todos os dias qual a cor do mar de outrora. Não sabe qual a cor dele agora.

2 comentários:

platero disse...

sempre lindo

beijinho

(pode não parecer mas fui aluno do Régio em Portalegre. Melhor, de José Maria dos Reis Pereira)

paladar da loucura disse...

Ainda bem que esse Régio, honra o nome!Beijos