O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 31 de março de 2011

AUGUSTO

Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado  levou  a mão à boca  numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência.  Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?

Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.

Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.


Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã.
Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.

Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em  criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.

Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado.

O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.

5 comentários:

platero disse...

sem ser especialista,
está na categoria da melhor
escrita que tenho lido

obrigado

beijinho

paladar da loucura disse...

olha, qualquer dsia peço-te em casamento!

platero disse...

já "casei" mais de 300 vezes

- todas minhas "noivas" viraram invariavelmente
"Paladar do Desencanto"

Beijo - boa inspiração

paladar da loucura disse...

lol. não te assustes com as minhas brincadeiras.
beijinho

platero disse...

nem pensar

se não nos divertimos é que acabamos mesmo "feitos"

beijo