O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 14 de abril de 2009

Epitáfio Desconhecido

Epitáfio Desconhecido

Quanta mais alma
Por mais que a alma ande no amplo informe,
A ti, seu lar anterior, do fundo
Da emoção regressou, ó Cristo, e dorme
Nos braços cujo amor é o fim do mundo.

Fernando Pessoa, 1929
Um epitáfio é uma frase escrita sobre um túmulo. Epitáfio Desconhecido sugere a inscrição de uma frase num túmulo de um desconhecido, de alguém anónimo e esquecido no tempo e no espaço. A noção de amplo informe evoca o mundo das formas, do mundo pensável e tangível, o mundo do demiurgo que por ser impermanente e em constante mudança, é informe e sem substância. Penso que este amplo informe se coaduna com um axioma da filosofia budista o qual afirma que todos os fenómenos compostos são impermanentes. O amplo corresponde aos mundo dos fenómenos compostos, do qual, por exemplo, o ser humano faz parte; o informe corresponde à impermanência, à desagregação, usando o mesmo exemplo, do corpo humano.
Segundo a filosofia budista, o ser humano é composto por cinco agregados: o corpo, a sensação, a percepção, as construções mentais e a consciência. É desde o momento da concepção que estes agregados se agregam para simultanea, não posteriormente, se desagregarem, tudo isto sendo um processo instantâneo, ou seja, "evoluindo" o ser humano desde a sua concepção a morte. Por isso, este epitáfio acompanha-o desde o início, desde a sua origem pois a origem não é mais do que o seu fim.
A expressão lar anterior, o sítio para onde o morto regressa é Cristo. Cristo é uma palavra proveniente do grego e que significa ungido. Na minha perspectiva, o Ungido é o ser que está imbuído de algo que o torna mais puro, mais perfeito, sendo esse algo, a meu ver, a consciência primordial, a Saúde primordial. O morto regressa ao seu lar anterior, a Cristo, ou seja, o morto desagrega-se e a sua consciência primordial resplandece, algo que no budismo pode ser designado como Estado de Buda. É curioso sublinhar como o defunto regressa ao seu lar: do fundo da emoção. Julgo que Pessoa aqui evoca a saudade, aquele estado de espírito que leva o Homem procurar o que de mais fundo há em si, a Saúde primordial.
O alma do defunto regressa então a Cristo e dorme nos braços cujo amor é o fim do mundo. O fim do mundo aqui é o limiar (não o limite) do mundo que se abre para o infinito. Cem Komurcu, num artigo publicado na revista Nova Águia (Melancolia em Istambul e Lisboa), afirma que Lisboa tem dois rostos, o rosto da finitude que é a Lisboa finisterra, a Lisboa que segura um ponto extremo do continente europeu (juntamente com Istambul), e o rosto da infinitude que se encontra para além das costas do finito, o oceano in-fundado. Ligando o Tejo o mundo ao i-mundo, penso que o limiar do mundo é o seu fim, lugar mágico a partir do qual os portugueses de quinhentos partiram à conquista do infinito: o nosso Tejo, o Tejo da humanidade.

Esfera Armilar - Natureza da mente, cultura, aristocracia igualitária

Se examinarmos com sinceridade o que é isso a que chamamos “mente”, “alma” ou “espírito”, e que nos habituámos a designar como “eu”, questionando e suspendendo a sua irreflectida e compulsiva identificação com os múltiplos fenómenos mentais e físicos - pensamentos, imagens, emoções, sensações - , poderemos chegar à conclusão de ser inapreensível como algo, no sentido de uma entidade, com características definidas, que a distingam de outras entidades. Nesse sentido escreveu Fernando Pessoa: “O abismo é o muro que tenho. / Ser eu não tem um tamanho”. Ou ainda: “Conhece alguém os limites à sua alma, para poder dizer: eu sou eu?”. A “mente” parece designar assim uma abertura sem contornos, forma ou figura, irredutível a todas as representações, ao mesmo tempo que lhe são inerentes duas qualidades: a consciência, pela qual percepciona claramente todos os fenómenos, externos e internos, e a sensibilidade, pela qual se revela capaz de uma plena empatia com o mundo e os seres, disponibilizando-se para agir em prol das suas necessidades e do seu bem.

Esta natureza profunda e primordial da mente é porventura a mesma em todos os homens e seres, para além das suas transitórias e cambiantes condições psicossomáticas. No que respeita aos homens, ela transcende todas as suas diferenças étnicas, culturais, linguísticas, nacionais e de condição social, dotando-os de um mesmo potencial de conhecimento sensível, amoroso e compassivo, de si e do mundo, que pode, e por isso deve, ser plenamente desenvolvido, coincidindo aliás esse pleno desenvolvimento com a aspiração comum ao que se chama “felicidade”.

A verdadeira cultura, inconfundível com erudição, é a do pleno conhecimento e desenvolvimento de todas as potencialidades da mente, ou seja, a plena realização de si, o que só pode ser realizado por indivíduos e nunca por grupos, colectividades ou nações. É para esse objectivo que se devem orientar a civilização e as nações e é para esse objectivo que se devem mobilizar todos os recursos científicos, tecnológicos, sociais, políticos e económicos. É para esse objectivo que se deve assegurar a satisfação das necessidades elementares de todos os homens, exortando-os a que ponham isso ao serviço do pleno conhecimento e desenvolvimento de si.

O estado actual do mundo expressa a profunda incultura geral dos homens, no sentido de cultura atrás definido, desde os que detêm o poder religioso, cultural, político e económico, até aos que aspiram a detê-lo e à massa global da humanidade. O estado actual do mundo é por isso o de uma crescente insatisfação e infelicidade. A busca de uma alternativa torna-se mais premente. Tornar-se desde já essa alternativa, mediante o conhecimento aprofundado de si e o pôr-se ao serviço da sua promoção em todos, é a tarefa dos homens mais conscientes e sensíveis em cada povo, nação e cultura. São eles que, mesmo sem se conhecerem e sem pensarem nisso, são o germe de um mundo outro. Por gosto do paradoxo, ou seja, por amor à verdade, chamo-lhes aristocracia igualitária, pois são os mais excelentes na mesma medida em que aspiram a que todos o sejam, sem jamais como tal se considerarem. A tudo nivelam, por cima, a tudo elevam, acima de si, sem jamais se acharem especiais.

Disseminados por todas as nações, culturas, religiões, irreligiões, organizações humanitárias, políticas e económicas, importa que se conheçam, unam e delineiem estratégias para que o destino do mundo mude. Eles são as armilas da grande Esfera.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Álvaro de Campos: Afinal

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!
pintura "La Nuit Espangnole, c.1922" by Francis Picabia

Devora-me, luz que gritas na sombra!

Ilumina-me estas mãos feitas de pedra;
sangra os meus versos de amor, e tão
somente neles, te deites para dormir.
Seguirei por estas linhas tortas,
para dançar junto à tua cintura;
dar-te-ei uma maçã, para abrirmos
num dia de Sol, e fecharei
todas as portas que a Morte abre
para receber o teu corpo.

poema Liliana Jasmim

domingo, 12 de abril de 2009

apontamento de domingo de PAZcoa

O grilo é feito
De escuro e ouro nas asas
Sol brilhando
Nas articulações das patas

De silêncio de searas verdes nas antenas
E amarelo de girassol nos olhos

O grilo é feito de cantar
Os primeiros raios de sol
Da Primavera

Boa Ressurreição!

"Aqueles que dizem que o Senhor morreu primeiro
e ressuscitou a seguir, enganam-se,
pois Ele ressuscitou primeiro e morreu a seguir.
Se alguém não ressuscita primeiro, não pode senão morrer.
Se já ressuscitou, é vivente como Deus
é Vivente"

- Evangelho de Filipe, 21, 1-5.

Ressuscitemos dos cadáveres adiados que somos, na ignorância e nos preconceitos, na cisão eu-outro e nós-outros, no passado e no futuro, no medo e na expectativa, no apego e na rejeição, no fecharmos os olhos que em nós se abrem.

sábado, 11 de abril de 2009

Esfera Armilar - Somos senhores de nós mesmos?

Gostamos de nos julgar senhores de nós mesmos, o que só acontece quando não reflectimos sobre isso e, sobretudo, quando não o tentamos efectivamente ser. A aparente capacidade de escolha e decisão a respeito das acções relativas aos outros e ao mundo exterior, ilude-nos quanto à efectiva soberania e independência com que nos comportamos. Com efeito, quem poderá dizer que o modo como pensa, sente e age é independente de inumeráveis causas e condições, desde factores psicofisiológicos a sociais, económicos e culturais?
Por outro lado, quem não teve, ainda que raramente, a experiência da liberdade, a experiência de não reagir imediata e passivamente, movido por impulsos, hábitos e mecanismos inconscientes, a um estímulo exterior ou interior e usufruir desse espaço para uma tomada de consciência mais profunda da situação e para uma decisão acerca do melhor a fazer, em termos de acção ou abstenção? A permanência nesse espaço de não re-acção, pelo esforço interior que implica, revela-se então uma verdadeira acção, mais difícil, condição de todo o agir externo mais consciente e livre, mais independente de factores condicionantes, externos e internos.
Há uma experiência simples que demonstra imediatamente o grau em que somos ou não senhores de nós mesmos. Trata-se de tentar focar a atenção numa dada percepção, exterior ou interior, e de aí a manter, estável e clara, durante o tempo que desejarmos. Podemos usar um objecto exterior, uma parte do corpo, a respiração, o curso dos nossos próprios pensamentos e emoções ou aquilo mesmo que estamos a fazer, como andar ou conduzir. Se tentarmos repousar a atenção em qualquer um desses objectos, observando-o e sentindo-o silenciosamente, sem comentários, veremos quão difícil é manter a concentração um segundo que seja, sem que ela imediatamente se obscureça e disperse, arrastada por mil e uma outras percepções, pensamentos, emoções, memórias e projectos. Quando isso acontece, tentemos estar conscientes disso e fazer regressar a atenção ao seu foco. Veremos que de novo nos foge e perceberemos, pelo menos, que isso a que chamamos “nós mesmos”, o centro interno da percepção de nós e do mundo, o chamado “eu”, não é tão dono de si quanto estamos habituados a supor. O que não deixa de ser incómodo. Se persistirmos contudo na experiência, treinando regularmente a atenção para permanecer estável e firme no objecto em que se foca, veremos que gradualmente ela desenvolve essa capacidade, diminuindo a sua agitação, com todos os benefícios psicofisiológicos daí decorrentes.
Se fizermos honestamente esta experiência e reflectirmos sobre ela, não podemos deixar de reconhecer as suas fundas e graves implicações, a todos os níveis. Parece que toda a nossa cultura e civilização assenta na suposição de que somos sujeitos plenamente conscientes e livres, responsáveis pelo que pensamos, dizemos e fazemos. Esta experiência mostra que não o somos, embora o possamos ser, se nos treinarmos para isso, o que nos torna responsáveis por não o sermos plenamente.
Enquanto não formos senhores de nós mesmos, ou seja, conscientes do que se passa dentro de nós e soberanos da orientação a dar à nossa mente e à nossa vida, vivendo à mercê da flutuação de estados mentais e emocionais compulsivos e reactivos, dificilmente seremos outra coisa do que marionetas agitadas pelos seus poderosíssimos fios invisíveis. Enquanto o formos, somos o ingénuo e frágil joguete de todas as forças mais obscuras que lutam pelo domínio do mundo: humanas e não humanas, religiosas, culturais, políticas e económicas. Enquanto o formos mais não seremos do que escravos agrilhoados à convicção de sermos livres.
O auto-conhecimento e o treino da atenção são a condição indispensável de um exercício consciente da cidadania e de uma acção benéfica no mundo exterior.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Esfera Armilar - Consumismo: a nova religião

"Outra leitura para a crise"

"A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?"

- José Saramago, in O Caderno de Saramago.

Há algum tempo que abordo esta questão, de modo mais desenvolvido, nas aulas de "Filosofia da Religião". Na verdade, crentes ou descrentes, raros são os que se furtam a uma nova religião inconsciente: o consumismo. Novos sacerdotes, em complexos, múltiplos, obscuros e ocultos níveis hierárquicos, concebem e produzem as novas e sedutoras divindades, produtos, bens, serviços. A revelação e o anúncio da salvação é feito pela nova profecia e pelos novos profetas, publicidade e publicitários. Como recompensa do sacrifício do tempo, do trabalho e da conta bancária, e primeiro que tudo da inteligência, trocada pela crença de que assim se vai ser feliz, as novas divindades, completamente patentes e disponíveis, sem qualquer mistério, descem dos novos altares, as montras, ecrãs e catálogos, para oferecerem o êxtase imediato e efémero da sua posse. Que logo deixa o devoto insaciado e cada vez mais sequioso, como se bebesse água salgada para se dessedentar. Porque ignora não ser isso que no fundo busca e não ser aí que o pode encontrar.

Outros comportamentos e sucedâneos neoreligiosos facilmente se constatam, no futebol, na política, no rock. Tudo, tal como nas religiões tradicionais ou nos espiritualismos new-age, por se imaginar que algo falta possuir, ou que algo falta acontecer, para se ser o que todos queremos ser: felizes.

É demasiado evidente para se reparar nisso. Como é demasiado evidente que, enquanto este novo e mais profundo obscurantismo dominar as mentes e as multidões, haverá sempre um tipo de poder e de economia, de degradação do mundo e da vida humana que impossibilitará qualquer transformação profunda a nível social e político. No fundo para que trabalhamos todos nós, todos os dias, senão para sustentar e reproduzir isto? E quem chegará ao poder senão por e para sustentar e reproduzir isto? Quem poderá mudar isto do exterior, por decreto? E quem poderá mudar esta mentalidade, a nível colectivo? Quem reconhece e desmonta a ilusão que tudo move?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Da Origem

II.
O espírito afirma, e ri-se da inteligência que discute... Ele vive indiferente ao seu vestuário de ideias. Estas, caem e renovam-se, como as folhas das árvores, mas o tronco é sempre o mesmo...
Na própria alma, há o quer que é de imutável, para além das nuances que a esfumam em vagas aparências novas.

III.
A alma fala, exibe-se, adora o mundo; o espírito, silencioso, do íntimo do nosso ser, contempla... Às vezes, com um simples gesto, apaga todas as vozes da alma, que muda então de conversa... E a Vida põe nova máscara.


Teixeira de Pascoaes
Senhora da Noite. Verbo Escuro

SEBASTIÃO ALBA


reprodução

Sebastião Alba


HÁ POETAS COM MUSA

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.

Canto no Jardim de Saudades

Vieste dizer para dentro dos meus olhos que morri, e eu acreditei. Acreditei porque tudo o que tu dizias eu quis que fosse como uma Casa eterna e não o movente rio dos olhos, não o movente rio dos tempos e do esquecimento. Disseste-me que morri, mas não te ouvi dizer mais nada. E isso tinha tanta importância como a minha morte: ambos não tinham importância nenhuma. Uma morte defunta, a quem interessaria chorar? O teu silêncio nem sequer tornou mais escura a manhã. Vieste soprar para dentro do meu sorriso uma flor do vento que já tinha passado. Fiquei encostada ao canteiro das rosas, as que não havia por toda a eternidade. Não interessava. Nada do que fizesses ou fizesse me interessava. Tinha morrido para esse cenário. Já sabia que mo dirias um dia qualquer. Não exultei, nem me pus triste. Fiquei a ver-te, apreciando, de longe, os teus gestos sem sentir estranheza ou familiaridade. Desci a escada da indiferença a perguntar como poderia isso ser? Que filme seria aquele onde não reconhecia mais o meu rosto?! Olhava os teus gestos, na espiral da distância que se movia para outro lugar como uma inevitabilidade radical. Mas acreditei no que me disseste, porque sabia que há muito tinha caído no chão a rosa que um dia nasceu dos meus dedos, ao tocar-te o rosto. Teria começado a morrer nesse momento? Não era esse o tempo, nem hoje o é. Nunca é o tempo.


És talvez Saudade, a angústia de nos sabermos existentes no tempo e desde o início dos tempos. Contemporâneos do princípio mundo, à procura do nome para designar essa falta, essa perdida ou esquecida manhã em que alguém, talvez deus, nos anuncia a nossa própria morte. Vieste dizer para dentro dos meus olhos que morri e eu acreditei. Acreditei porque tudo o que tu dizes é como uma casa com fundamentos bem firmes. Acreditei no que me disseste, porque sabia que há muito tinha caído no chão a nenhuma rosa que um dia não nasceu. Teria começado a morrer nesse momento? Não era esse o tempo, nem hoje o é. Nunca é o tempo para a voz sem nome, para a duração e para a grande falta. A divina Saudade. Essa que os poetas chamam de indizível e chorada Saudade de Deus. Esse olhar voltado ao primeiro e volumoso rio da memória. Carregado de ausências, pejado de folhas, de matéria orgância das florestas avistadas do oceano; desse caldo de tudo, decomposição de tudo o que deus olhou sem ver: o que perdido era no tempo em que nascia e morto nos perdia de nós mesmos e nos arrastava na corrente. Quando as águas secavam, depositava-se nos fundos essa imagem caída na corrente. Éramos despojos. Esses que a mesma Saudade erguia em espiral de fumo saída do seu mesmo arder alquímico, em pedra e chumbo irradiados. Esses despojos luminosos que correm pelo rio e que o poeta recria e enche de luz, à maneira de um deus, na imitação do jardim e da primeira rosa, a que nunca abriu: a rosa sem nome de deus, a rosa da imortalidade. A memória da serpente e da rosa.


Essa memória é um grito lancinante que ainda hoje se ouve na floresta. Essa queda brutal do que foi criado por cima do nosso corpo não nascido, o grito que nos espreita com olhos por dentro das pedras. Nessa corrente caudalosa de gritos e despojos de nós. Lá desse fundo e largo mar de onde, em memória de peixe, nos fizemos as mais fantásticas viagens, embalados pela melodia de uma voz que vem de todas as direcções do tempo, ao espelho das mais transparentes águas que aqui nos têm.
Nesse tempo, Lai ainda não tinha asas. As escamas cobriam-lhe a pele e havia sempre mar em redor do seu corpo e, por mais que nadasse, não se acabava o mar. E no lago onde se debruçava, nesse lago ou espelho onde Lai se via, nessa lua ou delicada flor, de raizes firmes, apesar da fragilidade aparente das suas pétalas; lá, a princesa via o reflexo da sua própria face. A sua face na face do lago. Está esquecida, alheada. Lai perdeu a memória e parou de chover. E o castelo aceso a cada memória do inominado acende-se no pensamento, mas não sabe onde procurar; cada chama é sempre uma flor nova a cada ciclo da eterna mudança natural, mas não sabe o que encontrar ainda nessa catedral de si, estrangeira a si mesma, essa oração de amor.


Lai veio ao jardim e dele respirou a fragrância e a bebedeira de luz das paisagens e dos cantos. Numa catedral natural sem tectos e livre, uma catedral sem forma e sem altar; uma catedral por dentro da rocha; uma cabana no meio da floresta; uma duna no deserto onde se entoa o hino que é a Casa e a memória do canto. Canto que é um reavivar da febre do deserto para lá do entoar do canto silente que será ouvido por todos e será uma voz sem sentido para Lai. Nem uma toalha fresca havería para acalmar a febre! Dizes: Em cada poro da minha pele, em cada sopro da respiração, estás Tu que entras na minha dança e olhas o lago do jardim e dele bebes, tranquilo como uma corça sem medo, das águas puras e frescas do meu Amor. E Tu, bem amado, florirás no jardim em flor fechada e pura, a flor que nunca desabrochou e em memória nos convida a colhê-la. Tu que és o vinho dos meus lábios; a cor das minhas rosas mais vivas. Não preciso de ver dentro do lago o reflexo do lotus do meu Amor. Olho nos teus olhos e digo que a luz que entra neles me cega da tua face, alma reflectida no meu rosto. Uma chama sempre ardente por dentro da tristeza, e um canto que se derrama na noite em que te Ausentas. Essa distracção do teu amado rosto banha de luz o jardim. Para onde foram as rosas que não duram e o tempo que prendemos ao som de uma árvore alta e de um sussurro comovido e triste? Ponho as mãos no rosto e escondo-me da tua fala e do teu silêncio.


O seu amado não visita mais o jardim e deus ocutou o rosto nessa Ausência. A chama, como um sol tardio, pousou em sombra sobre os canteiros. É por isso que a tristeza de Lai esquece que tem asas e olha, abismada, a sua mesma dor. E cada dia em que a ilha tarda mais se lhe chega a forma arredondada de uma clareira, onde as rosas ainda não nasceram e a luz nada lhe diz de si ou do Jardim. Lai caminhou esquecida de si e do mundo. As florestas ainda não eram aquelas e os pássaros também não lhe falavam numa linguagem conhecida. O tocador de flauta. Ah! Havia um tocador de Flauta que no peito de Lai feria, uma flor de Fogo ou de sangue. Lai adormeceu à beira do lago e ainda hoje lá está.

E tudo finda de jamais haver começado

"A confusão do Infinito Esplendor com a tragicomédia que tudo é. A tragicomédia que tu, acima de tudo, és! A tragicomédia de te imaginares alguém com pensamentos, palavras e acções, alguém que pensa, fala e age, alguém por detrás do que pensa, diz e faz. A tragicomédia de não veres que isso é apenas mais um pensamento errante, bolha insubstancial e oca que sempre se desfaz em coisa alguma. E que pensamentos, palavras e acções não são senão as vagas, ligeiras ou alterosas, as brisas ou rajadas que de lugar algum vêm, para lugar algum vão, em lugar algum persistem. Fluxo contínuo e impermanente, que jamais chega a ser, sem origem, sentido e destino senão os que tu, ou melhor, a ilusão de ti, lhes inventa. A tragicomédia de não veres que pensamentos, palavras e acções, bem como todos os fenómenos, sem interior nem exterior, não são senão o Infinito Esplendor, livre de o ser. A tragicomédia de não veres que tudo é, desde sempre e para sempre, ou seja, a cada instante, insubstancial, luminoso e livre, vazio de realidade, conceitos e palavras, vazio de vazio, vazio de o ser. A tragicomédia de conferires realidade a bolas de sabão, a que chamas eu, outros e coisas. E alimentares a expectativa de que aquela com que te identificas cresça e permaneça, se possível com todo o universo lá dentro! E sofreres terrivelmente quando explode em espaço e coisa nenhuma! E não veres que não é senão isso que a cada instante acontece! Não veres que tudo são bolas de sabão! O Infinito Esplendor! O jogo da criança que não está lá a soprá-las! Não veres que tudo é fogo-de-artifício, efémero deslumbramento de som, luz, cor e forma na festa de aldeia de todo o universo! Sem fogueteiro, no céu ou na terra.

- “Um fantasma, nas trevas, a botar foguetes, eis um desenho caricatural do Criador […]. Esse fantasma é o nosso próprio pensamento […] – Está aqui, na página 303 da primeira edição do Santo Agostinho. As coisas que escreve este Pascoaes! – comenta Fílon, reclinado numa poltrona, frente à lareira da casa do Penedo, numa noite fria de Abril, enquanto Sofia, deitada sobre o tapete, junto a ele, cruza no ar os pés e, apoiada nos cotovelos, olha para o fogo, com um sorriso vago. Lá fora chove e o vento ruge. Apenas os ilumina a luz do fogo e das velas. Fílon continua:
- Criamos o mundo e a nós mesmos sem dar por isso… Fogo de artifício que temos por real, incluindo este “fantasma” que “nas trevas” apenas fugazmente se ilumina para nelas permanecer… isto a que chamamos pensamento… que nunca escapa às “trevas” do que o transcende e engloba e raramente às da sua inconsciência… da sua ignorância... “Trevas” tem aqui dois sentidos…
-Estás a tornar-te filósofo… Estou a fazer-te mal… - diz Sofia, sempre a sorrir, vagamente, para o fogo…
Fílon, sem lhe responder, continua:
- Criamos o mundo e a nós mesmos… E porquê senão por medo?... Por medo de não haver nada… Nada a que nos possamos agarrar, para nos sentirmos existir, para podermos sentir e dizer “eu” e “tu”, “meu” e “teu”, “nós” e “outros”, “isto” e “aquilo”… Medo... Medo do que há, sem haver, antes de tudo isso… Medo da liberdade e da paz primordial… Isso de cuja perda vem a nossa civilização e a nossa saudade, como viu o Agostinho… Medo que já provém da separação e que é a raiz de toda a religião, segundo o Professor… Dele também fala Pascoaes:
“E que é o medo? É o Deus anterior aos Deuses… a última Força misteriosa…
Para fugir à sua sombra, Jeová criou a luz”
Isto é extraordinário: é por isso que quase ninguém dele fala!... Porque nos põe o dedo na ferida… na ferida do medo que nos impele na fuga para a frente a que chamamos existir… na ferida de nos desresponsabilizarmos disso com recurso à invenção de uma causa exterior… O Deus criador, os pais ou a vida… Tudo desculpas para o facto de continuarmos a ter medo do escuro e de a cada instante dele nos refugiarmos acendendo a falsa “luz” do intelecto que tudo separa e divide… desta mente que pensa “eu”, “coisas”, “mundo”, “Deus”… que em vez de se habituar a ver no escuro, a ver sem ver, supõe reais os fogos-fátuos da sua fantasia conceptual e a partir daí, por medo da luz que há na noite, por não conseguir nela repousar em sossego, não deixa de se agitar na paranóica insónia de estar sempre a acender as artificiais luzes do pensamento discursivo…
A espantosa convergência disto com Eckhart e o Buda!... Quem compreenderá que na intemporal irrupção disto a que chamamos “eu” está a intemporal irrupção do “mundo” e disso a que se chama “Deus”, visto como o seu fundamento!?... E quem compreenderá que isso não é necessário… que depende de cada um de “nós” que assim seja ou não!?... Como diz Eckhart: “No meu nascimento [eterno], todas as coisas nasceram e eu fui causa de mim mesmo e de todas as coisas, e se eu o houvesse querido eu não seria, e todas as coisas não seriam, e se eu não fosse nem “Deus” seria. Que Deus seja “Deus”, disso sou uma causa; se eu não fosse, Deus não seria “Deus””…
- “Dies zu wissen ist nicht not”… “Saber isto não é necessário”… Porque omites o final desse parágrafo ? – interroga Sofia, sempre com o mesmo olhar e sorriso vagos, mergulhados no fogo.
- …Pode isso querer dizer, julgo, que esta visão profunda não é necessária à vida espiritual mais elementar dos seus comuns auditores, podendo mesmo perturbá-los… Ou então…
- … que menos importa especular sobre a nossa saída do estado primordial do que a ele regressar ou… - continua Sofia.
- …contemplar que nunca dele verdadeiramente saímos… que não há exílio nem regresso! E que a própria saudade é ilusória!... – conclui Fílon.
- Eckhart faz sua a visão de um “grande mestre” que diz que a “ruptura”, o “trespasse”, “Durchbrechen”, a libertação de si, de Deus e de tudo no estado primordial, é “mais nobre” do que o “emanar”, o “fluir”, o difundir-se na existência…Mas talvez mais nobre ainda… - começa Sofia, acariciando a perna de Fílon, sempre com o olhar, agora mais vivo, no fogo.
- … seja ver para além desses conceitos… de existir e não existir… de ir e vir… Aqui apetece corrigir a todavia espantosa passagem de Pascoaes: “Também há-de chegar o dia em que eu próprio nunca existi. E há-de chegar também o dia em que o mundo nunca existiu: o mundo, o Sol e as estrelas…”
- Sim… meu amor… porque esse dia não há-de chegar… Ele é o instante eterno que a cada momento a tudo trespassa… Vamos praticar… Vem para o fogo!... – e, dizendo isto, enquanto um trovão ribomba e um relâmpago rasga a noite, puxa o amante para o chão, enrolando-se-lhe como uma serpente, nessa fugaz clareira de luz. No tremular das labaredas, no silêncio apenas bordado pelos estalidos da madeira, rebolam-se os dois, bocas sorvidas, línguas de fogo entrançadas e inseparáveis, para além do pensamento. Sem medo. Trespassando a si, ao mundo e a Deus. E tudo finda de jamais haver começado"

- Paulo Borges, Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, Lisboa, Ésquilo, 2006, pp.199-202.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Pop!

"'Existe um consenso de realidade, sobre o qual quase toda a raça humana concorda. Pensam que o mundo já cá está, faz muito tempo, que é antigo. Neste mundo, tu nasces como indivíduo. Cresces, aprendes, experiencias a vida e morres. Existe algum desacordo acerca do que acontece após a morte, excepto que, para todos os outros, a vida continua até que eles próprios morram. Concordas?'
'Concordo', digo mais para lhe fazer a vontade do que por estar na posse da lógica do assunto.
'Toda a gente pensa que sabe isto - ou alguma variação local do tema. Mas, de facto, quando tu "nasceste" não sabias isto. Tu aprendeste isto. E toda a gente aprendeu isto, de modo que se tornou uma ideia universalmente partilhada. Mas toda a gente acreditar numa coisa não faz dela uma verdade'.
O Sol desaparece sob a linha do horizonte.
A voz engrossa, o cheiro desaparece. A voz torna-se subvocálica.
'Sem tempo, Eu Sou o não-nascido. Tal como um sonho começa em certo ponto durante o sono, também "em certo momento", aquilo que Eu Sou surge como consciência, aqui, e este mundo começa a existir. Eu abro os meus olhos, experimento a vida neste corpo-mente aparente. Depois de um período de experiência, Eu fecho os meus olhos - o mundo cessa, e não-nascido, para sempre Eu..."
Fecho os olhos. Pop."

- Miguel Gullander, Perdido de Volta, Lisboa, Dom Quixote, 2008, pp. 136-137.

Pop é o som das cabeças dos cadáveres a estoirar, ao fim de seis horas, no campo de cremação indiano onde este diálogo tem lugar.

Eu nunca escreveria "Eu", mas este texto é um bom remédio para toda a ingénua ignorância que nos rege. Com todas as consequências, desde a mediocridade de todas as religiões e tradições à maior mediocridade ainda dos espiritualismos new-age; desde a opressão sócio-político-económica até à opressão, mais grave, da ilusão psicológica de acharmos que somos alguém, com uma origem e um fim.

Pop!

Nós e o Universo somos Um

"O Homem, de facto, é mais do que um corpo físico, pois, dizem-nos todas as Tradições, ele é constituído por um Espírito, uma Alma e um Corpo, ele próprio englobando diversos corpos mais ou menos subtis e espirituais; é o que permite ao homem estar em movimento, e o movimento é a vida.
O mundo exterior é o espelho no qual o homem deve ver-se e aprender a reencontrar o milagre central que faz a sua vida: O Primeiro Ser, a Semente comum que religa interior e exterior; sendo o exterior, no fundo, a parte invisível do homem que ele deve reconhecer, amar e respeitar."


"O Homem vivo, enquanto resumo do mundo, é chamado Microcosmo, possui um Espírito, uma Alma e um Corpo em movimento, e este movimento é-lhe dado na sua vida ao nascer, gratuitamente, pelos quatro elementos que são o Fogo, o Ar, a Água e a Terra, e que formam o seu corpo."

Tony Ceron

Irrisórias faíscas

imagem google




«(...) o nosso corpo compõe-se os átomos do universo, as nossas células encerram uma parcela do oceano primitivo, os nossos genes são, na sua maioria, comuns aos os nossos vizinhos primatas, o nosso cérebro possui os estratos da evolução da inteligência, e, quando se forma no ventre materno, o pequeno homem refaz, em acelerado, o percurso da evolução animal.



(...) nós não passamos de irrisórias faíscas aos olhos do universo. Assim possamos ter a sabedoria de nunca o esquecer



Dominique Simmonet



"A mais bela história do mundo _ os segredos das nossas origens", Gradiva, p. 13

Diálogos III


Na Fontaine Sainte-Marie / encontrei a única nascente da grande cidade, / o único fio de água vivo e natural. / Se dele me aproximo, / nunca aí deixado por um automóvel, / mas sempre a pé, / posso, logo no limiar do bosque, / esperar uma atracção, / em que todo o cismar habitual de mim se ausenta / e o meu pensamento se torna unicamente a reflexão do mundo. / Em lugar de todo o falatório que há em mim, / do suplício que infligem muitas vozes, / surge a meditação, / uma espécie de silêncio redentor, / mas do qual se desprende, ao chegar ao local, / um pensamento explícito, o meu pensamento mais elevado: / salvar, salvar, salvar! / Num impulso tão doce como poderoso / arredondam-se os olhos, / há um ranger nos canais auditivos/ e eu celebro na clareira / a festa de agradecimento da presença no lugar.

Peter Handke, Poema da Duração, p.67

Na fotografia encontrei a nascente e o pensamento. A nascente e o pensamento fazem despertar a sede. A sede nasce da escuta do que vem não se sabe de onde, nem como nos atravessa mas nos inclina para esse outro lado da vida onde fomos nus. Ouvindo-a, à nascente, o pensamento suspende o impulso irreprimível para adiante e para trás. E o pensamento que nem sempre se dirige para o indireccionado, avançando e recuando, sobretudo quando deixa o ramo poético de onde desponta, experimenta uma melodia que desperta os fantasmas que os conceitos fecham em silêncio. A nascente, abrindo a sede, desperta os que só na melodia, sem instrumentos ou palavras, se deixam escutar. Os fantasmas do Ausente erguem-se num fundo que é sem contexto e sem horizonte temático. Os fantasmas não se deixam dizer ou julgar. Os fantasmas são as vozes da nascente a cantar. A sede da nascente é uma alucinação em que as presenças não nascem dos objectos reais ou mentais, as presenças acordam da Ausência de haver mundo e objectos. Face a estas presenças, que nascem da Ausência, o pensamento, que não as pode judicar ou analisar, compraz-se em dançar. O pensamento baila uma melodia sem instrumentos. O pensamento, atravessado pela voz da nascente, tocado pela sede e preso ao anel mais antigo do tempo, fora do tempo, não discorre, não tem nas palavras meios, nem recurso; o pensamento é um ritmo dançarino, um sopro por onde se movem fantasmas como bolhas líquidas que arrastam a nascente até ao instante. A música que toca a alma do poeta é a água do mundo que escorre antes de haver rio e mar. A água do mundo por haver, a água da nascente que canta em vez de correr, abala o pensamento de uma sede de retorno e regresso à eternidade. O pensamento, animado pelos fantasmas, conhece uma espécie de bailado cantado, de ópera com figuras imprecisas, vozes estonteantes e movimentos cambaleantes. A tragédia foi o pensamento mais poético que a alma experimentou. O estado líquido do pensamento do poeta trágico não mais se voltou a ouvir, fosse pela proximidade ao rio dos mortos de que nos afastámos por nos termos esquecido que somos mortais e imortais, fosse pela torrente de reenvio e regresso, que era a voz humana no palco jorrando versos, ou interjeições que substituímos pela narrativa e pela argumentação, a verdade é que, embriagado pelas presenças que vinham do Ausente, o poeta tinha no pensamento o coro e não uma voz individual. Na nascente há um coro, há um gorjeio multíplice, há a pluralidade dos sons reverberantes e remanescentes do grande Silêncio. Na mente do poeta trágico, voltado para a nascente, os sons teriam sido indistintos. O humano, o animal e o mineral, não tinham nomes diferenciados para os seus sons, para o seu soar, ressoar em cada um. Os homens expressavam-se como pássaros e como pedras. Enlevavam-se e feriam-se. A voz tanto vinha do céu como do fundo da terra. Caía das nuvens e ou subia das grutas. Na nascente, para onde olhaste _______, o som era pluriforme e as vozes caosmícas. O poeta trágico escutou a nascente e junto à fonte ouviu o grito, o vórtice de um corpo dilacerado por ser e não-ser. O grito, o espasmo, a dor de Diónisos ou de Osíris, ou dos dois num só, de todos num só. Homens, em cada caso, dizem os mitos fundantes, que se simbolizaram por animais, homens largados em margens, junto ao rio que os afasta das nascentes. Como Orfeu, poeta sem cabeça e de grito eterno na poesia, o olhar-grito na fotografia trouxe até aqui a origem perdida de um mito que fomos e de que nos esquecemos. Filhos desses homens largados nas margens e abandonados ao tempo, afastados da origem e dos sons animais e minerais, aprendemos a pensar sem os vestígios do que nos moldou junto à nascente, na proximidade da foz. E fomos pássaros a cantar e pedras a ferir. O pensamento trágico, por ser poético, por ser musical, por ser pré-linguístico tantas vezes, por ser excessivo ou metafísico, por ser a força do indireccionado, trazia ao Homem que ainda se sabia animal e mineral, a força secreta de um rumor que o lançava na aventura de expressar a vida com o corpo. Há no corpo um pensamento que canta. Foi esse pensamento que gerou a dança com o imperscrutável.

Olhando esta fotografia, a leitora não pode deixar de sentir um estremecimento de mudo encanto nos lábios. O poema, como a água, corre líquido pelo corpo e rumoreja dentro das palavras que toca. As palavras liquefazem-se no som, soam como água que escorre pelo corpo e sobe como gás ao pensamento. O som instala a estranheza e por isso, pensa, em certas religiões Deus não é dito, mas cantado, entoado, porque só o canto convoca o estranho e o convida a durar. No canto, as palavras tornam-se leveza, vapor, ar rarefeito. O poema poderia ser a água para o que no Homem é animal e mineral, a fonte a cantar no íntimo da sede, como escreveu Pascoaes, mas poderia ser mais. O poema, ou o próprio pensamento quando se apercebe que se afasta da origem, sustem o curso da sua indirecção pela duração. Percebendo o que perde no percurso e na relação que estabelece entre os seres e logo de seguida entre conceitos, condensando a palavra no sentido frio, em gelo e não em neve exposta ao sol que brilha junto à nascente original, o pensamento poético trava o que está em fuga em relação ao impulso originante. Fazer perdurar/durar o que reverbera e remanesce do inaudível e do primitivo: eis a vocação do poeta, ou do que pensa poeticamente, que escreve a água o que corre desde a nascente e tem na voz a foz [ante primeva] e um coro. Só o poeta tem um corpo que dança com o imperscrutável.

O impulso da duração / já começa por si a entoar o poema, / marca um compasso sem palavras, / segundo o qual, / como um ingrediente libertador, / nas artérias me pulsa uma epopeia, / em que no fim o bem há-de vencer. / Com a imposição das mãos, como a duração o faz, / fecha-se a ferida, / de que só tomo consciência / quando ela se fecha. / (…) A duração não aliena, / leva-me ao caminho certo. / Fujo da luz dos projectores que ilumina os acontecimentos do dia / e refugio-me decididamente no campo incerto da duração. (…) Lágrimas da duração, tão raras! / Lágrimas da alegria. / Impulsos inconstantes da duração, / que não se podem pedir / nem numa prece implorar: / estais agora reunidos e articulados / para formar o poema.

Peter Handke, Poema da Duração, pp.77-79

Estando como leitora no âmago do bosque - em dias de luz o bosque parece uma gruta iluminada pelo ouro de uma idade perdida – e imersa nas árvores plenas de pássaros e outras vozes poéticas, Rilke e Gabriela Llansol, outro som, que não de aqui e agora, perpassou-a por dentro da voz. Um vapor vindo do Ausente, um som perdido dentro da liquidez das palavras – belos são os textos da Gabriela quando lidos em voz alta e, junto às folhas, entregues como decifração de um palimpsesto primitivo que reuniu palavra e árvore num só ser, numa só entidade rumorejante – aqueceu-lhe a voz de luz, habitou-lhe a voz de címbalos vibrantes. A leitura conta, entre os seus poderes, chamar pelo Antigo, prometer ao Outrora outra possibilidade improvável no tempo. E como uma corrente, ler é ter um rio na voz e correr por entre as margens à procura de impulsos que refaçam o corpo dilacerado, desfeito do poeta que, como Poe para escrever, se iniciou nas águas torrenciais de um vórtice, ou de um naufrágio baptismal, onde o poeta submete as palavras, como outrora Deus os animais, a um dilúvio redentor dos sons. O mistério das palavras não está na sua consolidação como sentido, está na sua imersão ou submersão no rio da memória - onde as musas profetizam o mais escondido como o mais benigno - que as faz descer e respirar, libertar sopros cada vez mais distanciados na abundância da água junto às nascentes arcaizantes, onde elas se tornam como bolhas de cristal, transparentes ao olhar mais fundo e penetrante.

Nessa descida ao Maelstrom, o poeta perde o corpo como a palavra o sentido. A palavra perde em significado o que ganha em som. Como o poema ganha os sons antigos do animal e do mineral na voz única do humano a devir natural, naturante e contagiante. Mais próxima do canto, a palavra, percorre, como fuga musical, o mundo submerso pela passagem do tempo e desencadeia, no dizer e no pensar suspenso no ramo da árvore dourada da poesia, o impulso da duração que luta com o impulso do tempo. E se o poeta não volta e parece que o seu corpo se destroça nessa descida ao fundo imemorial do som e não do sentido – na raiz do sentido está a depuração de um som, sabor único do espírito, turbulência líquida, movimento em convulsão do que fecunda o campo incerto do devir – é porque encontra a rosa perfumada da memória, os jardins das serpentes que combatem contra a existência de homens que apenas se querem imortais e se esquecem que o são por serem mortais. O poeta entrega-se às águas remotas onde uma flor lhe promete mais duração do que experiência, mais duração do que pedra inteiramente escrita dos muros do seu reino. Nessas águas repousa a rosa da duração e nela o poeta escuta os sons das lágrimas do rei e do primeiro homem que conheceu a dor. A duração tem um som que só as lágrimas repetem. O som do que vem do que é só som, signo sem sentido, a dor. As lágrimas são poemas em estado líquido e os poemas hinos e cantos lacrimosos de quem sente saudades dos sons e do perfume da rosa que está guardada nos jardins da serpente onde corre o único fio de água vivo e natural: o Amor. O Amor sustém o impulso da duração nos sons de uma harpa sagrada que guarda os tons do mais íntimo e do mais distante. Só o coração sabe a arte de fazer durar e só o poema consegue cantar.

Para um dançarino que entoa poemas de silêncio na memória e no corpo.

"Com uma tal falta..."

"Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se, ele só, em uma literatura? Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito?"

- Fernando Pessoa, fragmento de um prefácio projectado para "Ficções do Interlúdio", in Obras, II, organização, introduções e notas de António Quadros, Porto, Lello & Irmão, 1986, p.1022.

Pensamento poético e realidade



"[...] realidade é não só o que o pensamento pode captar ou definir, mas também isso, que permanece indefinível e imperceptível, isso que rodeia a consciência, destacando-a como ilha de luz no meio das trevas."





(El hombre y lo divino, Madrid, Ediciones siruele, 1991, p.79)

o sol é um mito

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Disparos de uma máquina fotográfica

Um semblante melancólico pela partida dos amigos;
um mar de gente a acenar a despedida;
o quartel
a casa que, apesar de tudo, fora o lar daquele tempo;
o rio sem o garrido das capulanas
das mulheres que faziam a barrela
o rio
sem o chilreio vivo e alegre da pequenada
que nele se banhava
o rio parecia carpir um pranto dolente e triste
junto do canavial emudecido
e sem alma para lhe fazer coro.
No entanto, a manhã uma manhã de encanto
a manhã revestia-se de uma formosura diáfana.
Recordei Camões:
“Aquela triste e leda madrugada...”
Invadia-me uma nostalgia profunda
que me impedia de ser totalmente feliz
naquele instante.
Naquele instante, sabia que ficavam ali
muitos pedaços de mim.
Já o último olhar:
o rio...
o rio era já só uma pequena franja
em jeito de espelho cada vez mais baço.

Manuel Maria
Metamorfoses
in Farol das Letras, 2006

Passado recente

Fala-se do tempo… do clima, do frio.
Perde-se a confiança no Sol.
São os dias calmos e tranquilos que antecedem a Primavera.
Fala-se do tempo, duvida-se, afirma-se, tem-se a ideia de que tudo a qualquer instante pode mudar. Pode vir a chuva, pode voltar o vento, pode voltar em tempo, pode vir o frio.
Não se acredita no calor dos dias, que aqui e agora por nós é desfrutado.
Ainda há neve na montanha… alguém perto relembra. É certo, em neve até Abril.
Relembram-me, ninguém acredita no tempo que nos é concedido.
Ninguém aqui acredita ou imagina sequer em um fluxo de vida entre elementos... Olho em volta; um mecânico, um electricista, um professor, um alcoólico, um reformado, o dono do estabelecimento… É apenas luz da qual toda a vida depende, relembra; sentados junto ao rio pequeno que agora mais fraco, mas com outra beleza, salta e avança entre as pedras do seu percurso.
Regressam aves, regressa o canto que ecoa na luz do vale.
Passa uma motocicleta que irrompe o silêncio em baixa velocidade saudando os contempladores. Incrédulo, também eu, que precisava de uma fotografia.
A calçada antiga, a nova vedação camarária - verde por sinal - e a alta chaminé desactivada; vermelha colunar do tempo, repouso e local de avistamento da sociedade aos olhos de uma cegonha. Em silhueta distam antigos pinheiros e choupos, a casa de pedra no rio, a outra torre erguida ao som da alta-voltagem e a luz do dia languidamente abraçada pela copa das agulhas nos ramos.
Nada mais avisto... E escrevo, não mais quero ver.
À direita, em baixa paisagem, volto ao rio, pequeno, conduzido por ramos de arrasto, silvas, freixos, arbustos e árvores de pequeno porte, por isso memorável.
Pode vir a chuva, a neve e o vento, mas este fim de tarde é único. Por fim é tarde.
Verdejante horizonte ainda tímido relembra o Outono e o laranja-escarlate das árvores desfolhadas pela terra em viagem. É o falso rubor adiantado pela luz que mascara de cor as plantas, agora verdes. Reescrevo, agora douradas, em fim de tarde.
Não deixa de ser vida, não deixa de ser o astro pintor.
Se fiel for ao relato, retrato o que vejo como… mais que Sol, ainda além que luz… reescreve, mil sóis atrás dos pinheiros.
Entre os espaços vazios das plantas, dos troncos e altos ramos ocupa esta luz o falso limite da folhagem, propagando-se em todas as direcções de entre o difuso verde filtro de bosque, inundando o restante dia em noite e ocaso.
Mil sóis ou astro maior que agora se despede do infinito pela evidente escala da floresta em paisagem. Relembro a chávena fria e tragando ainda morna a seiva que flui pela garganta agastada pelo fumo, experimento o estímulo ou o paladar dos poetas que escrevem sentados num banco de café.

"Todas as pessoas são uma máscara e todas as máscaras escondem um só dançarino"

"Todas as pessoas são uma máscara e todas as máscaras escondem um só dançarino.
Assim me foi ensinado.
Tudo o que aqui for lido é tão real quanto tudo o que já experimentaste.
Aconteceu mesmo.
Tal como incenso ao vento"

Aqui vos deixo a "Introdução" de um grande livro: Perdido de Volta, de Miguel Gullander. Escrita pujante e iniciática. Assim vale a pena ler.

Rasgo de Inefável


Queria ter chegado nos momentos para te escutar
Era tarde, talvez...
Algo voou de mim ao encontro
veloz instante que o corpo não pode alcançar
liberta-se e vai contigo
Fica um espaço estranho de ausência

domingo, 5 de abril de 2009

Credo de Sereia*




creio nos anojs que andam pelo mundo
creio na deusa com olhos de diamantes
creio em amores lunares com piano ao fundo
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes

creio no engenho que falta mais fecundo
de armonizar as partes dissonanates
creio que tudo é eterno num segundo
creio num só futuro que houve dantes

creio nos deuses de um astral mais puro
na flor humilde que se encosta ao muro
creio na carne que enfeitiça o além
creio no incrivel, nas coisas assombrosas
na ocupaçao do mundo pelas rosas
creio que o amor tem asas de ouro ...


amen



Poema de Natália Correia
Musica de Jorge Fernando
Voz de Ana Moura

sábado, 4 de abril de 2009

after long silence

speech after long silence; it is right,
all other lovers being estranged or dead,
unfriendly lamplight hid under its shade,
the curtains drawn upon unfriendly night,
that we descant and yet again descant
upon the supreme theme of art and song:
bodily decrepitude is wisdom; young
we loved each other and were ignorant.

w.b. yeats from words for music perhaps, 1932.

ode

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A Via

A Vida é Via, não passagem nem miragem.
A cada instante isto dói ou sorri
no fundo de todas as dores e sorrisos,
ausências e presenças,
tristezas e alegrias,
no sossego e na revolta,
tudo é sinistro e adestra para a desaparição da memória,
e enfim recobrar o dom de contar de zero a zero
na eterna estaca aonde não se volta nem de onde se começa
somente culmina e assinala, feliz, apenasmente feliz,
a mais remota esperança perdida de um dia se deixar de ser Via.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Aos Peregrinos

Já era tarde quando andei pelas ruas da cidade, vendo os templos e os monumentos do império e toda a sua vaidade, vendo as janelas se fecharem, as famílias se reunirem ao redor da mesa, os filhos calados e os pais também. Tomei o caminho para fora da cidade até o lugar onde um riacho com água fresca e uma árvore de eucalipto acompanham a alma confundida e os olhos pensativos contemplando o sol-pôr. Mas quando cheguei já me esperava um homem velho com cabelo branco e barba, deitado em baixo da árvore me chamando para falar que precisava de falar para as jovens da cidade e de todas cidades do arquipélago.
«Venha e senta ao meu lado para ver o sol-pôr e para pensar. Você é jovem, tem pernas jovens e parece que as ruas da cidade não te importam tanto, nem as lojas, nem os templos e nem os monumentos feitos de pedra. Você ainda é carne, osso e sangue e teu sangue corre tão fresco como este riacho, mas porque voltas toda noite e não segues os múltiplos caminhos da tua vida. Eu na minha vida sempre fui um peregrino, sempre andei de um templo para o outro, para os templos que não são de pedra mas sim, como você, de carne e sempre queria aprender mais do que uma língua, pois as línguas são as chaves para as almas. E sabe porque fui assim até agora e sempre serei assim se não fosse o meu corpo envelhecido? Porque a minha história é uma história de peregrinos, de marujos, de pastores saindo das montanhas e das vinhas e das igrejas e mosteiros para enfrentar o mar, para ir além do horizonte além das aldeias velhas e pequenas. E nas igrejas e mosteiros o que se aprende? Aprende se amar e estudar. E nas montanhas com o rebanho e nas vinhas, o que se aprende? Aprende se o que é a liberdade e aprende guiar, aprende ser companheiro e aprende sonhar. Isto, você vai precisar quando fores viajar e conhecer o mundo – ser livre e companheiro, saber guiar e amar, e quando um dia alguém não te agrada segue o teu caminho ou aprenderá amar ainda mais. Eu sei que também não fui perfeito, nunca fui um bom pai e nem um bom marido, pois pais e maridos não podem ser companheiros e nunca estão livres. E quando encontras uma mulher que desejas não casa com ela, mas seja um companheiro que ama tanto quanto possível e que respeita. E enfim não fala do amor que houve, do amor que tem para os que foram antes ou que vem depois, pois amor é para dar e para ter, mas nenhuma língua pode explicar o que é na verdade o amor. Então viaja pelo mundo como um peregrino e eu espero que facas muitos amigos que querem viajar também no mesmo sentido mas não no mesmo caminho e não seja nunca um guerreiro pois os guerreiros matam mas os peregrinos não. Sei que todos nos temos ou somos o nosso próprio campo de batalha, que já fizemos muitas guerras, algumas ganhado outros perdido, mas isto é com nos e não com os outros. Com os outros seja sempre alguém que dar quanto pode, sem querer receber nada de volta, nada mais do que tudo, que é o casamento da liberdade com o sonho numa esfera plena de amor…parece uma utopia, eu sei, mas como não pensar utópico enquanto homem, somente os animais e os deuses não pensam em utopias.»
«Podia dizer mais, mas o tempo está curto hoje e assim te digo três coisas para o seu futuro movimento. Primeiro: sempre ama quando possível e quando não podes amar tanto quanto queres ou deverias, toma o teu caminho e procura o próximo lugar para fazer os outros sentir e para sentir mesmo este casamento da liberdade com o sonho. Segundo: Nunca seja guerreiro e nunca tenta convencer ninguém. Se queres que alguém aprende o que você já sabe e que precisa ser multiplicado, ama simplesmente. Não mata, faça crianças em todos os sentidos e não tenha medo das doenças mentais ou corporais. Na maioria das vezes somente podem te fazer mais forte e quanto mais forte você é menos doenças vão tomar conta de você. E se um dia houver uma doença que te vai matar e você sabe que esta doença chegou com amor, não lamenta - pois somente as doenças que vem da raiva fazem chorar. Terceiro: Tenta viajar quando possível, na historia e nos sonhos, nos livros e na escritura e sempre novamente em novos caminhos. E forma um grupo de peregrinos, muitos peregrinos espreito pelo mundo, indo e voltando para fazer os outros sentir o seu novo evangelho da liberdade e do sonho, peregrinos que não precisam muito…mas que precisam seguir este velho ditado: navegar é preciso, viver não.»


quem quer corrigir agradeço: dirk.hennrichATgmx.ch

Devo estar certo

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo
- Agostinho da Silva, Cortina 1 [inédito].

Bardo do devir

imagem google
O samsara está na tua mente e o nirvana também.
Todo o prazer e dor, bem como todas as ilusões...Nada disso existe fora a tua mente;
É este o coração da prática para o bardo do devir.
Tsele Natsok Rangrol
séc. XVIII


Ainda Agostinho da Silva: da explosão do nada em tudo (aperitivo para o Colóquio de amanhã, 3 de Abril, no Anf. I da Fac. de Letras da Univ. de Lisboa

[…]
6. Parece-me, por outro lado, que se não pode construir nenhuma filosofia geral ou metafísica sem admitir, com o velho Espinosa, que se tem de partir da ideia de alguma coisa que é constituinte de tudo, mas da qual se não pode dizer, como ele, que é substância, porquanto excluiríamos o insubstante, nem que é deus, porque excluiríamos tudo a que não chamamos deus, nem sequer que existe fora do pensamento, porque estaríamos excluindo o que não existe; de resto, basta pensar esse alguma coisa como pensável para já excluirmos o que não pensamos.
7. Penso assim que esse alguma coisa é nada, só sendo alguma coisa quando todas as coisas existem e o fazem pensar como A Coisa. Logo que isso se dá, existe o a que chamamos o Universo, como suas imutáveis leis, imutáveis naquele Universo, portanto sob o domínio do que se chama determinismo no mundo material e destino no mundo humano.
8. Creio que esse explodir do Nada em Tudo não se deu de uma vez para sempre no mundo, mas se está dando a cada momento, sendo pura ilusão nossa a ideia de sua continuidade: cada ocultação do determinismo detectada pela ciência, cujo progresso não vejo como ilimitado, como não vejo o da Humanidade — o passo final será o salto do determinismo para a liberdade —, significa a passagem de um mundo a outro (a paleontologia estratigráfica pode não ser o fruto de uma evolução, mas o testemunho dos saltos de um mundo a outro).
9. Cada mundo criado tem leis fixas, e destinos humanos; cada intervalo significa a liberdade de aparecer outro mundo com diferentes relacionamentos legais.
10. Entrarei agora em linha de conta que aquilo a que chamo mundo é, na realidade, a ideia que eu tenho do mundo: outro ser completamente diferente teria dele um conceito completamente diferente.
11. Portanto, para que surja um mundo diferente do actual, basta que eu mude, que me insira naquele momento em que o alguma coisa se recolhe ao nada, o que só pode ser preparado e propiciado por um comportamento dentro do mundo que existe, mas o mais diferente possível dos comportamentos normais, o que é o conceito fonte das várias asceses de tantas culturas e o conceito fonte daquilo que nos Evangelhos cristãos vem designado por metanóia ou, calculo, o samadhi de Oriente.
12. A responsabilidade do mundo, tal qual ele é, está, por conseguinte, em mim e não nos outros — pessoas ou estruturas — e em mim, se o momento é certo, se estou eu certo, se procedo certo (tal como os alquimistas o julgavam para a limitada operação de transmutar matéria, se não para a mais vasta de transmutar a vida), reside o poder de modificar o mundo, de o fazer nascer outro.
13. Deixando de ter vontade própria — caso contrário não se atingiria o nada que pode ser tudo —, só posso contribuir para que surja um mundo que agrade aos outros, isto é, àqueles que mostram real impulso de não serem o que são, impulso real e válido dentro do que eu próprio penso estar certo — porquanto, até o último momento, é no universo que existe que estou agindo, a todos parecendo o novo que surgir como a consequência lógica das circunstâncias do anterior, o que ainda pode dar a vantagem de se poder conservar anonimato próprio”
– “Até o primeiro quartel do século XX…” [Fevereiro de 1976], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp.306-307.

100% português


quarta-feira, 1 de abril de 2009


rosas para gente MIL


Small Song

Está uma manhã linda.
Carpe Diem!


O que eu digo não se escreve nem se devia dizer

Não são mais práticos aqueles que prendem o cabelo se lhes faz impressão. São mais práticos aqueles a quem não faz impressão.

Não é proibido às pessoas terem uma vida má (para si mesmas prejudicial), andam aí à vontade que, afinal, não há câmaras em todo o lado.

Quem cala não consente, contenta-te, deixa-te falar.

Dois cegos chocam um contra o outro e dizem "Então, és cego?"

Eu não cumpro o plano porque vivo, já, antes, o plano.

Os cegos usam óculos escuros para os outros não pensarem que eles estão a olhar para algum lado. É a verdade.

As pessoas só querem duas coisas, que concordem com elas ou que discordem delas. Primeiro para ganharem amigos, segundo para ganharem inimigos.

Os ciganos cantam noite e dia. Acho que isso é bom e tem de se registar.

No lixo há vida, há sempre vida, uma pessoa quer limpar e lá lhe aparece a vida, sempre bichezas, sempre naturezas vivas impertinentes, nem o lixo escapa à vida.

Claro que coerência é medo dos outros.

Vocês falam tanto em Deus que qualquer dia ele existe e aí é que vão ser elas.

People have kids because people like to have things.

Os psicólogos querem é saber.

As pessoas quando morrem ficam mais vivas, até lhes sai luz pela fresta desocupada.

Morto não, porque ainda não o vivi vivo.

Pensar que os outros sabem é também estupidez.

Se eu soubesse que morrer era ver tudo e respirar bem, não me importava.

Nós não somos isto ou aquilo. Nós somos isto ou aquilo porque ontem fomos isto ou aquilo para outro.

O homem come, o homem caga, a obra nasce.

Se não sabes sentir não sintas. Senão vais sentir-te mal.

O que os amantes, ou seja, os apaixonados, têm em comum é que estão sempre de risinhos um para o outro. Isto quer dizer predisposição para o acasalamento.

A minha antiga professora e O meu antigo professor são, respectivamente, o ser e o nada.

Se a existência é insuportável, não o é suficientemente.

Nada morre, tudo hiberna.

E se eu lhe aplicasse aqui uma DeMorgan? Acha que chegava à conclusão mais facilmente?

terça-feira, 31 de março de 2009

Agostinho da Silva: por novos "frades-políticos"

Demasiado se tem sacrificado, seja por “interesses”, “impulsos” ou pelo referido “peso das fatalidades”, ao ingresso num “grupo” contra outro, ao alistamento nessa política sectária ou “de cabila” que predomina planetariamente. É a hora de enveredar por um “caminho inteiramente diferente”, menos teórico do que activo e prático. Mas isso exige – proposta que Agostinho manterá e acentuará até ao final da vida – que surja um novo tipo humano, por uma profunda transformação do homem actual. A exemplo dos monges-guerreiros medievais, é necessário que surjam “frades políticos”, ou seja, “homens que, imolando tudo o que lhes é estritamente pessoal nas aras do geral, não queriam [queiram ?] terras separadas do céu, nem céus separados da terra, mas sempre e sempre e sempre os dois unidos no mesmo esplendor de fraternidade, de paz e de bem-aventurança”. O que só “se fará fazendo”, não “falando ou escrevendo ou pensando”. Para o que aponta vias concretas: “não-intervenção absoluta na política de grupos”, “escolha, para governantes, de homens e não de legendas”; “atenção aos problemas locais e imediatos e não só aos planetários e futuros”.
A “base de tudo”, porém, terá de ser a interiorização do combate, já não movido a qualquer adversário exterior, mas ao que em si menos vale, a luta que visa não a conquista do poder, mas a “conquista e domínio de si mesmo”, pela via única que “têm apontado a experiência e os séculos: o caminho da ascese mais rigorosa e absoluta, da oração contínua e do amor dos homens em Deus e por Deus”. É a acção interior, mais difícil e exigente, que torna verdadeira e benéfica a intervenção exterior.

- Excerto da minha comunicação, "Política e Espiritualidade em Agostinho da Silva", a apresentar no Colóquio do dia 3 de Abril, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Para quem a palavra "Deus" seja de menos ou demasiado, como para mim, pode substituir por "ausência de sujeito e objecto". "Oração contínua" também se pode substituir por absorção contínua nessa mesma ausência. Os budistas podem chamar-lhe vacuidade, desde que não se apeguem a esse conceito, mera bola de sabão, como todos os demais.

Teodiceia

"Quem tem uma obra, a obra o tem; quem traz mensagem a há-de ler perante o rei; arqueja, mas lê, sufoca, mas lê, e depois de ler cairá por terra, mas já a leu. É a posse mais terrível de todas, a escravatura mais completa, aquela que uma obra exerce sobre o seu criador. Se você a não fizer, é realmente porque a não tinha, porque era fraco: a opinião dos seus amigos era apenas uma ilusão dos seus amigos. Se você for um criador não dará a felicidade nem a si nem aos que estão imediatamente à sua volta."

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 235.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Agostinho da Silva - O legado, 15 anos após a sua morte - 6ª feira, 3 de Abril, Anfiteatro I da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa



Agostinho partiu há 15 anos, no Domingo da Ressurreição. 15 anos depois, quantos de nós ressuscitam de haver nascido ou, no mínimo, da existência morta, da "apagada e vil tristeza"!?

Island Jam

do físico ao metafísico

na terra sou semente encoberto
no Outono triste da humanidade
espero o certo momento da verdade
para fugir do profundo deserto

que é esta vida de carne e osso
mil passos perdidos no tempo cheio
quando me liberto e quando posso
nascer como flor e sair deste meio

para obter o meu ultimo perfume
para ser um esplendoroso lume
soltando o pólen do meu pensamento

lá sobre tudo e lá para dentro
das almas amadas, doce costume
ser desejado e um desejo no vento.

Madragoa 29.III.09

Provocações agostinianas: da filosofia e da ciência como "substitutos do amor para pessoas fracas"

Se você algum dia sentir com o amor, no sentido de prisão por alguma coisa ou alguém, esse receio do grande artista e esse desejo de que não fosse, de que não tivesse sucedido a você o que lhe parece ser ou um dom imerecido da vida ou uma exigência a que as suas forças nunca poderão corresponder, então pode estar certo de que Deus o visitou e terá atingido alguma coisa de bem mais alto e bem mais belo do que essa pobre filosofia; é possível até que essa sua filosofia como esta minha física sejam apenas substitutos do amor para pessoas fracas; deram-nos alteres de menor peso porque não nos viram com bons músculos. É uma pena que tenhamos de sentir este desprezo por nós próprios, mas que havemos nós de fazer se em lugar de amarmos nos entretemos pacificamente, com a paz dos miseráveis, a comentar Kant – e sem saber se o percebemos – ou a estudar Einstein – e sem saber se o percebemos ?
- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 258.

Celebram-se 15 anos da morte de Agostinho com um Colóquio, 6ª feira, dia 3 de Abril, no Anfiteatro I da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Um pensador e um pensamento que não são "para pessoas fracas".

domingo, 29 de março de 2009


A oiro a Primavera de Klimt



Klimt virá porque terá de vir, e sobre o ouro dos vestidos derramará o pó de estrela com que vestiremos anjos que, saídos da jarra onde estiveram a secar as asas, vieram do jardim para outro jardim. Nele vêem-se os que em vigília são sentinelas. Sentinelas de pé no alto da torre, a receber o vento nas faces; a brisa nas pálpebras. No jardim que não há vêem-se no alto das quatro torres, anjos gigantes a devolver o grito mudo ao som do horizonte, a soltar as suas plumas no pano azul da seda deste céu e deste véu. Na torre as damas de preto são sons ouvidos ao longe, devolvidos em eco ao gesto de uma flor. Uma flor frágil no seu caule estreito. A sua taça de mel para as abelhas e os pássaros, um aclarar na voz calma do poeta.


O olhar de Klimt é como um ramo de rosas de oiro oferecidas ao vento. O vento traz do deserto o coração e a esperança. O Coração que é uma flauta angustiada a ferir a Primvera e os que escutam entre as grutas de pedra e os lagos, que hoje anoitecem mais cedo, entre juncos.Não há distância para a clareira de Deus. E o espírito que adeja sobre as pedras, será o nosso corpo como uma estátua a voar sobre a cabeça partida de uma hera a compor o muro. A folha de palmeiras de luz chama a Senhora da Noite. Ela apaga as lembranças que há na terra e os desenhos que estão no céu e ateia a cor aos frutos. São pombas que nascem das pontas de uma estrela, os olhos mansos da noite. Contavam do rito de um templo de luz sem tempo. Tinham dito que a pedra é uma possibilidade de luz, como um poema, e os vitrais que se abrem para o mar são o espinho e a rosa de uma aria mais alta ecoada na estação do ano em que as pedras dão flores só para quem viu nascer a for do sal entre os cabelos; e o jardim um barco por fora da paisagem das rosas e dos cheiros que embriagam.


Aqui é um lugar onde o tango se dança de olhos fechados. Como a cósmica noite e o eterno espaço perduram para sempre. Aqui é só uma noite e talvez o meu peito seja um só rio de duas margens. É-o, decerto, que o sinto correr desenfreado, cheio de suas águas e do seu amor. E prender essa força que teima em jorrar em palavras torna-se impossível. E uma nostalgia tão funda me entra nas veias que elas bem poderiam ser sal de lágrimas em vez de sangue. Ou será o mar? O mar a quem fechassem as comportas, por dentro do peito de águas a galopar. Oiço. Dentro desse terreno limpo de águas oiço um grito parado no ar. Um grito adormecido debaixo do céu.


Tinha-te dito que uma palavra não chega para salvar uma alma e tivemos que despir mais e mais a nossa nudez; ir até ao osso, à pedra de esmeril; ao toque de um bordado de linho na mesa de uma ceia repetida até ao fogo de um vinho que embriaga o corpo. A dança do último tango milongueiro na clareira da floresta. Mas antes o silêncio envolvera todos os frutos do seu guardar, a cor no brilho de asas, as de sal cobertas, flores silentes entre os dedos.Os pincéis de Klint são folhas que rodam e caem na superfície branca do papel pintado, mas o ouro é sobre a pele e sobre a paisagem. Um espalhar de Fogo cobre as pedras, pó de estrelas a cobrir os canteiros e os astros.

Em Nome dos Velhos Tempos...

Porquê que queres obrigar-me a calar?
Porque tenho razão.
Sabes que tenho razão.
Mas não tens coragem de o dizer!
Porque defendes a tua felicidade como um cão defende um osso...
Ah mas como a vossa felicidade me mete nojo...
O vosso apego à vida de que é preciso amar a todo o custo.
Parecem cães... que lambem tudo o que encontram...
É assim que pensam, não é?
Pois eu não.
Eu exijo tudo.
Tudo imediatamente.
E se não for assim, recuso.
Não quero ser modesta.
Não quero contentar-me com pouco.
Quero ter a certeza de tudo.
Ou então, Morrer!


Grupo de Teatro Honoris Causa

*******

Ainda no rescaldo do Dia Mundial do Teatro...
Dedico este texto que não escrevi a todos os actores que não o leram.
Mas também a todos os que não o ouviram dizer em voz alta, num palco, com luzes, marcações, com pessoas sentadas à espera da próxima palavra e do próximo gesto.

Não fui ao teatro, comemorei o dia com o visionamento da entrevista que o Ricardo Pais deu na Câmara Clara, RTP 2... Foi uma programa muito interessante, como sempre são as Câmaras Claras da Clara.

Tenho saudades de ir ao teatro. Mesmo muitas. Há uns anos ia ao teatro como quem vai ao cinema. Prefiro o teatro e tenho mais bilhetes guardados do que de cinema. Puff!!! O Teatro é uma paixão para mim. Nunca fiz teatro, nem pretendo vir a fazer, não tenho o mínimo talento. Mas encanta-me. Fico facilmente sentada a ver um espectáculo. E gosto também dos bastidores, do que está por trás das cortinas.

Sobre o teatro já escrevi mais de 100 páginas.
E, na adolescência, defendi uma causa, lutei por ela como sabia lutar... escrevendo o que sentia. Na altura, o Parque Mayer estava para ser demolido, a Maria João Abreu e o José Raposo (entre muitos outros) estavam empenhados em impedir que isso acontecesse.
Eu achava triste demolir aqueles edifícios no centro de Lisboa. Edifícios que eram salas de espectáculo antigas, onde já tantos valores do teatro tinham representado, tinham nascido, tinham crescido. Eu achava triste que os teatros não pudessem ser recuperados para que os actores pudessem voltar a encher aquelas salas. Achava triste companhias e grupos de teatro não terem uma sala para representar em condições e estarem sujeitos a garagens e espaços arrendados, terem que ensaiar em espaços não apropriados.
Achava aquele espaço lindo, cheio de alma e... vazio. Fechado, a cair de podre, em ruínas. Era uma injustiça! Três salas de espectáculo com 'estória' para contar e só uma (e por teimosia) continuava activa, ainda que as condições não fossem, de facto, as melhores.

Nessa altura da minha adolescência, decidi, juntamente com uma grande amiga que sonhava ser actriz, que íamos tentar ajudar. Reunimos um abaixo-assinado para tentar impedir que o Parque Mayer fosse demolido. E escrevemos duas cartas que enviamos ao ministro da cultura e ao presidente da câmara de Lisboa da altura... Mandámos essas cartas semanas a fio. Sempre a mesma carta, todas as semanas.

Depois de ser anunciado um mega projecto, depois de se imaginar um casino e uma feira popular... O Capitólio, o Variedades e o Maria Vitória... continuaram rodeados de estacionamento pago.
Vamos ver o futuro. Mas gostava de imaginar aquele espaço cheio de vida e aquelas três salas cheias de actividade, entregues a companhias e a grupos de teatro (podia até ser por concurso, como o Governo tanto gosta...) Cada teatro podia ter objectivos diferentes, um podia ser experimental, outro podia ser escola ou grupo independente, ou... companhia residente, ou... podiam fazer teatro para a televisão, por exemplo... chegaram a fazer isso no Variedades, salvo erro.

Era maravilhosos. Mas são sonhos meus, já perceberam... se me leram até aqui.

Tenho saudades de ir assistir ao mesmo espectáculo de teatro duas vezes seguidas na mesma noite :)

sábado, 28 de março de 2009

Klompen / Socos

Klompen/ Socos: tamancos, chinelas de pau, tb. acto de toque fisico, agressivo, da /tua, minha/ mao na / minha, tua/ face

Klompen


Gostava de te dizer como são os meus passos que me afastam de ti.
Como não vivo para ti, nem escrevo para ti.

Como não penso no meu amor, nem te amo em pensamento.

Como não te vejo nos lugares onde nunca estivemos juntos.

Como tu não me pisas quando me obrigas a seguir os teus passos,
ou como não me calcas quando descalças os pés às leonores
que bebem da tua fonte.

Como caminho firme e confiante pelos prados holandeses, entre as vacas e a lama,
e me afasto cada vez mais de ti.

Como os meus passos se afastam dos teus passos, correndo para longe, longe,
esperando que o mundo seja realmente redondo, e não plano,
e possa, um dia, chegar às tuas costas, tapar os teus olhos e dizer-te
mijn thuisland is niet meer mijn taal.


Socos


Ik wilde je zeggen hoe mijn stappen zijn die mij van je verwijderen.

Hoe ik niet leef voor jou, niet eens schrijf voor jou.

Hoe ik niet denk aan mijn liefde en je evenmin bemin in gedachten.

Hoe ik je niet zie op de plaatsen waar we nooit samen waren.

Hoe je me niet vertrapt wanneer je me dwingt je stappen te volgen,
of hoe je me niet plet wanneer je de schoenen uittrekt
van de leonoors die drinken uit jouw bron.

Hoe ik ferm en vol vertrouwen door de Nederlandse weiden loop,
tussen koeien en modder, en me steeds verder van je verwijder.

Hoe mijn stappen zich verwijderen van jouw stappen, rennend naar de verre verten,in de hoop dat de wereld werkelijk rond is, en niet plat,
en dat ik op een dag achter je sta, mijn handen op je ogen leg en zeg
a minha pátria já não é a minha língua.


Joana Serrado, Emparedada/ Uit de Muur, Uitgeverij de Passage, 2009, p. 32, 33

milagre da vida

mal o poema nasce
o poeta lambe-lhe a placenta

levanta-o com pequenos toques de cabeça
o poema ensaia
um primeiro passo

tropeça

na luz coada
que vem da madrugada

sexta-feira, 27 de março de 2009

Mensagem do Dia Mundial do Teatro

Somos todos actores
Todas as sociedades humanas são espectaculares no seu quotidiano, e produzem espectáculos em momentos especiais. São espectaculares como forma de organização social, e produzem espectáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espectáculos, mas também os rituais quotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espectáculos da vida diária onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida quotidiana.

Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espectáculo, eu dizia aos meus actores: “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, géneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espectáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!

Actores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a
transforma!

Augusto Boal
Salvador Dali
Oiseau (Bird), 1928
Oil, sand, pebbles and shingle on board
National Galleries of Scotland, Edinburgh

quinta-feira, 26 de março de 2009

A Bruma

A Bruma escondia-se, ao que parecia,
na Montanha em fumo,
mas era nela que o Fogo jazia.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O que é cada um de nós?

"O que é cada um de nós, na sua essência absoluta, senão uma perfeição adiada para Deus?"

- Fernando Pessoa, Carta de 5 de Janeiro de 1914 a Teixeira de Pascoaes, in Correspondência. 1905-1922, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, p.107.

Não concordo, embora seja belo. Na verdade, num certo sentido, só publico aquilo com que não concordo. A perfeição nunca é adiada nem adiável. E muito menos para alguém. Muito menos para "Deus". A perfeição é.

terça-feira, 24 de março de 2009

Viagens


Matéria de Estrelas


Porque é tudo para sempre, mesmo a efémera morte,
encontrar-nos-emos eternamente
e nunca mais nos veremos.
O impossível volta a ser impossível. Para sempre.


Impossível é cada manhã aberta,
um deus sonha consigo através de nós.
Às vezes quase posso tocá-lo, ao deus,
surpreendê-lo no seu sono, também ele real e efémero.


Matéria, alma do nada,
os mortos ouvem a tua música sólida
pela primeira vez, como uma respiração de estrelas.
A sua intranquilidade transforma-se em si mesma, música.


Manuel António Pina (Poesia Reunida, Assírio & Alvim)