O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta Dia Mundial do Teatro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dia Mundial do Teatro. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de março de 2009

Em Nome dos Velhos Tempos...

Porquê que queres obrigar-me a calar?
Porque tenho razão.
Sabes que tenho razão.
Mas não tens coragem de o dizer!
Porque defendes a tua felicidade como um cão defende um osso...
Ah mas como a vossa felicidade me mete nojo...
O vosso apego à vida de que é preciso amar a todo o custo.
Parecem cães... que lambem tudo o que encontram...
É assim que pensam, não é?
Pois eu não.
Eu exijo tudo.
Tudo imediatamente.
E se não for assim, recuso.
Não quero ser modesta.
Não quero contentar-me com pouco.
Quero ter a certeza de tudo.
Ou então, Morrer!


Grupo de Teatro Honoris Causa

*******

Ainda no rescaldo do Dia Mundial do Teatro...
Dedico este texto que não escrevi a todos os actores que não o leram.
Mas também a todos os que não o ouviram dizer em voz alta, num palco, com luzes, marcações, com pessoas sentadas à espera da próxima palavra e do próximo gesto.

Não fui ao teatro, comemorei o dia com o visionamento da entrevista que o Ricardo Pais deu na Câmara Clara, RTP 2... Foi uma programa muito interessante, como sempre são as Câmaras Claras da Clara.

Tenho saudades de ir ao teatro. Mesmo muitas. Há uns anos ia ao teatro como quem vai ao cinema. Prefiro o teatro e tenho mais bilhetes guardados do que de cinema. Puff!!! O Teatro é uma paixão para mim. Nunca fiz teatro, nem pretendo vir a fazer, não tenho o mínimo talento. Mas encanta-me. Fico facilmente sentada a ver um espectáculo. E gosto também dos bastidores, do que está por trás das cortinas.

Sobre o teatro já escrevi mais de 100 páginas.
E, na adolescência, defendi uma causa, lutei por ela como sabia lutar... escrevendo o que sentia. Na altura, o Parque Mayer estava para ser demolido, a Maria João Abreu e o José Raposo (entre muitos outros) estavam empenhados em impedir que isso acontecesse.
Eu achava triste demolir aqueles edifícios no centro de Lisboa. Edifícios que eram salas de espectáculo antigas, onde já tantos valores do teatro tinham representado, tinham nascido, tinham crescido. Eu achava triste que os teatros não pudessem ser recuperados para que os actores pudessem voltar a encher aquelas salas. Achava triste companhias e grupos de teatro não terem uma sala para representar em condições e estarem sujeitos a garagens e espaços arrendados, terem que ensaiar em espaços não apropriados.
Achava aquele espaço lindo, cheio de alma e... vazio. Fechado, a cair de podre, em ruínas. Era uma injustiça! Três salas de espectáculo com 'estória' para contar e só uma (e por teimosia) continuava activa, ainda que as condições não fossem, de facto, as melhores.

Nessa altura da minha adolescência, decidi, juntamente com uma grande amiga que sonhava ser actriz, que íamos tentar ajudar. Reunimos um abaixo-assinado para tentar impedir que o Parque Mayer fosse demolido. E escrevemos duas cartas que enviamos ao ministro da cultura e ao presidente da câmara de Lisboa da altura... Mandámos essas cartas semanas a fio. Sempre a mesma carta, todas as semanas.

Depois de ser anunciado um mega projecto, depois de se imaginar um casino e uma feira popular... O Capitólio, o Variedades e o Maria Vitória... continuaram rodeados de estacionamento pago.
Vamos ver o futuro. Mas gostava de imaginar aquele espaço cheio de vida e aquelas três salas cheias de actividade, entregues a companhias e a grupos de teatro (podia até ser por concurso, como o Governo tanto gosta...) Cada teatro podia ter objectivos diferentes, um podia ser experimental, outro podia ser escola ou grupo independente, ou... companhia residente, ou... podiam fazer teatro para a televisão, por exemplo... chegaram a fazer isso no Variedades, salvo erro.

Era maravilhosos. Mas são sonhos meus, já perceberam... se me leram até aqui.

Tenho saudades de ir assistir ao mesmo espectáculo de teatro duas vezes seguidas na mesma noite :)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Mensagem do Dia Mundial do Teatro

Somos todos actores
Todas as sociedades humanas são espectaculares no seu quotidiano, e produzem espectáculos em momentos especiais. São espectaculares como forma de organização social, e produzem espectáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espectáculos, mas também os rituais quotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espectáculos da vida diária onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida quotidiana.

Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espectáculo, eu dizia aos meus actores: “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.

Vendo o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, géneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.
Assistam ao espectáculo que vai começar; depois, em suas casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!

Actores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a
transforma!

Augusto Boal