
Na fotografia encontrei a nascente e o pensamento. A nascente e o pensamento fazem despertar a sede. A sede nasce da escuta do que vem não se sabe de onde, nem como nos atravessa mas nos inclina para esse outro lado da vida onde fomos nus. Ouvindo-a, à nascente, o pensamento suspende o impulso irreprimível para adiante e para trás. E o pensamento que nem sempre se dirige para o indireccionado, avançando e recuando, sobretudo quando deixa o ramo poético de onde desponta, experimenta uma melodia que desperta os fantasmas que os conceitos fecham em silêncio. A nascente, abrindo a sede, desperta os que só na melodia, sem instrumentos ou palavras, se deixam escutar. Os fantasmas do Ausente erguem-se num fundo que é sem contexto e sem horizonte temático. Os fantasmas não se deixam dizer ou julgar. Os fantasmas são as vozes da nascente a cantar. A sede da nascente é uma alucinação em que as presenças não nascem dos objectos reais ou mentais, as presenças acordam da Ausência de haver mundo e objectos. Face a estas presenças, que nascem da Ausência, o pensamento, que não as pode judicar ou analisar, compraz-se em dançar. O pensamento baila uma melodia sem instrumentos. O pensamento, atravessado pela voz da nascente, tocado pela sede e preso ao anel mais antigo do tempo, fora do tempo, não discorre, não tem nas palavras meios, nem recurso; o pensamento é um ritmo dançarino, um sopro por onde se movem fantasmas como bolhas líquidas que arrastam a nascente até ao instante. A música que toca a alma do poeta é a água do mundo que escorre antes de haver rio e mar. A água do mundo por haver, a água da nascente que canta em vez de correr, abala o pensamento de uma sede de retorno e regresso à eternidade. O pensamento, animado pelos fantasmas, conhece uma espécie de bailado cantado, de ópera com figuras imprecisas, vozes estonteantes e movimentos cambaleantes. A tragédia foi o pensamento mais poético que a alma experimentou. O estado líquido do pensamento do poeta trágico não mais se voltou a ouvir, fosse pela proximidade ao rio dos mortos de que nos afastámos por nos termos esquecido que somos mortais e imortais, fosse pela torrente de reenvio e regresso, que era a voz humana no palco jorrando versos, ou interjeições que substituímos pela narrativa e pela argumentação, a verdade é que, embriagado pelas presenças que vinham do Ausente, o poeta tinha no pensamento o coro e não uma voz individual. Na nascente há um coro, há um gorjeio multíplice, há a pluralidade dos sons reverberantes e remanescentes do grande Silêncio. Na mente do poeta trágico, voltado para a nascente, os sons teriam sido indistintos. O humano, o animal e o mineral, não tinham nomes diferenciados para os seus sons, para o seu soar, ressoar em cada um. Os homens expressavam-se como pássaros e como pedras. Enlevavam-se e feriam-se. A voz tanto vinha do céu como do fundo da terra. Caía das nuvens e ou subia das grutas. Na nascente, para onde olhaste _______, o som era pluriforme e as vozes caosmícas. O poeta trágico escutou a nascente e junto à fonte ouviu o grito, o vórtice de um corpo dilacerado por ser e não-ser. O grito, o espasmo, a dor de Diónisos ou de Osíris, ou dos dois num só, de todos num só. Homens, em cada caso, dizem os mitos fundantes, que se simbolizaram por animais, homens largados em margens, junto ao rio que os afasta das nascentes. Como Orfeu, poeta sem cabeça e de grito eterno na poesia, o olhar-grito na fotografia trouxe até aqui a origem perdida de um mito que fomos e de que nos esquecemos. Filhos desses homens largados nas margens e abandonados ao tempo, afastados da origem e dos sons animais e minerais, aprendemos a pensar sem os vestígios do que nos moldou junto à nascente, na proximidade da foz. E fomos pássaros a cantar e pedras a ferir. O pensamento trágico, por ser poético, por ser musical, por ser pré-linguístico tantas vezes, por ser excessivo ou metafísico, por ser a força do indireccionado, trazia ao Homem que ainda se sabia animal e mineral, a força secreta de um rumor que o lançava na aventura de expressar a vida com o corpo. Há no corpo um pensamento que canta. Foi esse pensamento que gerou a dança com o imperscrutável.
Olhando esta fotografia, a leitora não pode deixar de sentir um estremecimento de mudo encanto nos lábios. O poema, como a água, corre líquido pelo corpo e rumoreja dentro das palavras que toca. As palavras liquefazem-se no som, soam como água que escorre pelo corpo e sobe como gás ao pensamento. O som instala a estranheza e por isso, pensa, em certas religiões Deus não é dito, mas cantado, entoado, porque só o canto convoca o estranho e o convida a durar. No canto, as palavras tornam-se leveza, vapor, ar rarefeito. O poema poderia ser a água para o que no Homem é animal e mineral, a fonte a cantar no íntimo da sede, como escreveu Pascoaes, mas poderia ser mais. O poema, ou o próprio pensamento quando se apercebe que se afasta da origem, sustem o curso da sua indirecção pela duração. Percebendo o que perde no percurso e na relação que estabelece entre os seres e logo de seguida entre conceitos, condensando a palavra no sentido frio, em gelo e não em neve exposta ao sol que brilha junto à nascente original, o pensamento poético trava o que está em fuga em relação ao impulso originante. Fazer perdurar/durar o que reverbera e remanesce do inaudível e do primitivo: eis a vocação do poeta, ou do que pensa poeticamente, que escreve a água o que corre desde a nascente e tem na voz a foz [ante primeva] e um coro. Só o poeta tem um corpo que dança com o imperscrutável.
O impulso da duração / já começa por si a entoar o poema, / marca um compasso sem palavras, / segundo o qual, / como um ingrediente libertador, / nas artérias me pulsa uma epopeia, / em que no fim o bem há-de vencer. / Com a imposição das mãos, como a duração o faz, / fecha-se a ferida, / de que só tomo consciência / quando ela se fecha. / (…) A duração não aliena, / leva-me ao caminho certo. / Fujo da luz dos projectores que ilumina os acontecimentos do dia / e refugio-me decididamente no campo incerto da duração. (…) Lágrimas da duração, tão raras! / Lágrimas da alegria. / Impulsos inconstantes da duração, / que não se podem pedir / nem numa prece implorar: / estais agora reunidos e articulados / para formar o poema.
Peter Handke, Poema da Duração, pp.77-79
Estando como leitora no âmago do bosque - em dias de luz o bosque parece uma gruta iluminada pelo ouro de uma idade perdida – e imersa nas árvores plenas de pássaros e outras vozes poéticas, Rilke e Gabriela Llansol, outro som, que não de aqui e agora, perpassou-a por dentro da voz. Um vapor vindo do Ausente, um som perdido dentro da liquidez das palavras – belos são os textos da Gabriela quando lidos em voz alta e, junto às folhas, entregues como decifração de um palimpsesto primitivo que reuniu palavra e árvore num só ser, numa só entidade rumorejante – aqueceu-lhe a voz de luz, habitou-lhe a voz de címbalos vibrantes. A leitura conta, entre os seus poderes, chamar pelo Antigo, prometer ao Outrora outra possibilidade improvável no tempo. E como uma corrente, ler é ter um rio na voz e correr por entre as margens à procura de impulsos que refaçam o corpo dilacerado, desfeito do poeta que, como Poe para escrever, se iniciou nas águas torrenciais de um vórtice, ou de um naufrágio baptismal, onde o poeta submete as palavras, como outrora Deus os animais, a um dilúvio redentor dos sons. O mistério das palavras não está na sua consolidação como sentido, está na sua imersão ou submersão no rio da memória - onde as musas profetizam o mais escondido como o mais benigno - que as faz descer e respirar, libertar sopros cada vez mais distanciados na abundância da água junto às nascentes arcaizantes, onde elas se tornam como bolhas de cristal, transparentes ao olhar mais fundo e penetrante.
Nessa descida ao Maelstrom, o poeta perde o corpo como a palavra o sentido. A palavra perde em significado o que ganha em som. Como o poema ganha os sons antigos do animal e do mineral na voz única do humano a devir natural, naturante e contagiante. Mais próxima do canto, a palavra, percorre, como fuga musical, o mundo submerso pela passagem do tempo e desencadeia, no dizer e no pensar suspenso no ramo da árvore dourada da poesia, o impulso da duração que luta com o impulso do tempo. E se o poeta não volta e parece que o seu corpo se destroça nessa descida ao fundo imemorial do som e não do sentido – na raiz do sentido está a depuração de um som, sabor único do espírito, turbulência líquida, movimento em convulsão do que fecunda o campo incerto do devir – é porque encontra a rosa perfumada da memória, os jardins das serpentes que combatem contra a existência de homens que apenas se querem imortais e se esquecem que o são por serem mortais. O poeta entrega-se às águas remotas onde uma flor lhe promete mais duração do que experiência, mais duração do que pedra inteiramente escrita dos muros do seu reino. Nessas águas repousa a rosa da duração e nela o poeta escuta os sons das lágrimas do rei e do primeiro homem que conheceu a dor. A duração tem um som que só as lágrimas repetem. O som do que vem do que é só som, signo sem sentido, a dor. As lágrimas são poemas em estado líquido e os poemas hinos e cantos lacrimosos de quem sente saudades dos sons e do perfume da rosa que está guardada nos jardins da serpente onde corre o único fio de água vivo e natural: o Amor. O Amor sustém o impulso da duração nos sons de uma harpa sagrada que guarda os tons do mais íntimo e do mais distante. Só o coração sabe a arte de fazer durar e só o poema consegue cantar.
Para um dançarino que entoa poemas de silêncio na memória e no corpo.