O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

FOLIA, Tu És Isso!



A Lua cheia estava baixa e o céu ainda azul.
Foi escurecendo, aos poucos. E a Lua foi subindo.

Cheguei e juntei-me à multidão.
Todos à espera de qualquer coisa que não sabiam o que era. Só imaginavam, como eu, o que poderia ser.

Uma voz feminina e forte chama por um nome: SEBASTIÃO!
As luzes acendem, as caras surgem e, com elas, as palavras que a multidão esperava ouvir.

Palavras.
Palavras de luz. Palavras largadas em noite de lua cheia. Uma noite fantástica de Pentecostes.

Todos estavam ali, em plena serra de Sintra, num dos locais mais fascinantes e que mais 'estórias' tem para contar: a Regaleira. Todos estavam ali para festejar um mistério, para vislumbrar a luz que deveria descer sob a forma de línguas... a qualquer instante, sobre as nossas cabeças duras. Todos haveriam de formar uma Irmandade depois de renunciarem aos apegos e aos vícios de vidas que não são mais que "cadáveres adiados".

Todos haviam de passar os cinco níveis de libertação e chegar à luz do páteo para assistir à coroação do Imperador do Quinto Império.

Fui ungida com uma tinta braca na testa e encaminhada para junto de outras Ninfas e Deusas, assim apelidadas, como eu.

Sei que a coroação se deu e que todos comemos pão e azeitonas e bebemos água e vinho. Um bodo com tudo o que é sagrado e tudo o que é profano.

Fazia frio e a lua cheia estava cada vez mais alta.
As gaitas de foles tocavam, os tambores soavam, no peito batia também qualquer música que não soube identificar. Não era importante identificar e dar nomes às coisas que sentia. Era importante senti-las e sentir a vibração.

E, então, dancei.
Uma dança viva. Uma roda, um par, uns passos...
16 passos para lá, mais 16 passos para cá,
depois 8 com o pé direito e mais 8 com pé esquerdo,
depois 3 meias voltas...

Dancei vezes sem conta!
Numa alegria contagiante, num rodopiar de vida e de FOLIA!

Nessa noite, com o meu renascimento chamei-me Camila. Um nome que nunca deveria pronunciar... E acho que consegui identificar palavras que conhecia dentro de mim mesma, mas distantes de mim, de onde estou e sou agora.

Que pena!
Queria tanto viver AQUELA FOLIA toda a minha vida!
AQUELA FOLIA! Não uma folia qualquer. AQUELA!

SAÚDE IRMÃOS!
Renascidos depois de se terem abandonado, ainda que por breves instantes.

Foi LINDO!



P.s:
Caro Paulo Borges, A FOLIA é linda!
Não posso deixar de dizer que é LINDA!
E Linda é a palavra que para mim significa o meu gosto por qualquer coisa que me faz ver como eu gostaría de ser ou estar.
Quando sinto Saudades do meu Futuro, é assim que me imagino.
Foi mesmo o teatro da minha vida, das nossas vidas!

Porque ainda vai (sempre) a tempo...

Homenagem ao Richard dos Eternos Pink Floyd... grupo que fui quase obrigada a gostar por um amigo, agora também, mas por outro amigo, o meu muito íntimo coração.
Algumas das letras-músicas que me chamam, entre muitas...

"Breathe

Breathe, breathe in the air.
Don't be afraid to care.
Leave, don't leave me.
Look around and choose your own ground.

Long you live and high you fly
smiles you'll give and tears you'll cry
all you touch and all you see
Is all your life will ever be.

Run, rabbit run.
Dig that hole, forget the sun,
And when at last the work is done
Don't sit down it's time to dig another one.

For long you live and high you fly
But only if you ride the tide
And balanced on the biggest wave
You race towards an early grave.
//
Breathe Reprise

Home, home again
I like to be here when I can
when I come home cold and tired
it's good to warm my bones beside the fire
far away across the field
the tolling of the iron bell
calls the faithful to their knees
to hear the softly spoken magic spells
//
Shine On You Crazy Diamond

Remember when you were young, you shone like the sun.
Shine on you crazy diamond.
Now there's a look in your eyes, like black holes in the sky.
Shine on you crazy diamond.
You were caught on the crossfire of childhood and stardom,
blown on the steel breeze.
Come on you target for faraway laughter,
come on you stranger, you legend, you martyr, and shine!
You reached for the secret too soon, you cried for the moon.
Shine on you crazy diamond.
Threatened by shadows at night, and exposed in the light.
Shine on you crazy diamond.
Well you wore out your welcome with random precision,
rode on the steel breeze.
Come on you raver, you seer of visions,
come on you painter, you piper, you prisoner, and shine!"
Pink Floyd

Longevidade

Fotografia por Jenn
in SG Botanical Garden

Viver (apenas) na mente... é o mais de-primente

O maior saber que alguma vez poderei alcançar é o próprio viver:

saber viver é não saber.

Canticos do Cisne Europa: III - Estrela da Tarde (Jose Carlos Ary dos Santos/ Fernando Tordo, interpretado por Carlos do Carmo)

Esta e sem comentarios ... Absolutamente sublime ....

Canticos do Cisne Europa: II - Moonlight Shadow (Mike Oldfield)

Voces tambem notam aqui um gostinho da Irlanda paga, ou sou eu que estou a delirar?

So sei que, embora esta musica tenha sido editada ainda eu andava de fraldas, cada vez que a oico e vejo este video lembro-me de forma muito viva dos dias deliciosos passados em Novembro de 2007 na Irlanda, em casa dos meus amigos Ciara O'Connor e Laurence Cox, e da tarde fantastica que passamos a correr que nem umas cabritinhas no milenar Tara Valley ...

Canticos do Cisne Europa: I - I Like Chopin (Gazebo)

Em seguimento ao excelente post da Isabel Santiago.

A cultura popular das ultimas decadas transmite com frequencia a nostalgia que acompanha o fim de um ciclo ...

Compro um doce neste Natal a quem ousar interpretar este video (nao estou a brincar, ha muito que tenho a fantasia de organizar uma sessao de Pasteis de Belem la ao pe dos Jeronimos com voces todos, em pleno Dezembro, com o brilho das luzes de Natal e o cheirinho das castanhas assadas a entrar pela porta adentro;-) ... Quem se dispoe a fazer a marcacao das mesas;-)?).



Remember that piano
So delightful unusual
That classic sensation
Sentimental confusion

BRIDGE:
Used to say
I like Chopin
Love me now and again

CHORUS:
Rainy days never say goodbye
To desire when we are together
Rainy days growing in your eyes
Tell me where's my way

Imagine your face
In a sunshine reflection
A vision of blue skies
Forever distractions

BRIDGE.

CHORUS.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Meu Amor, meu Amor

"Meu amor, meu amor,
Meu corpo em movimento,
Minha voz à procura,
Do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura,
Meu punhal a escrever*,
Nós parámos o tempo,
Não sabemos morrer.
E nascemos, nascemos,
Do nosso entristecer.
Meu amor, meu amor
Meu pássaro cinzento,
A chorar a lonjura,
Do nosso afastamento.
Meu amor, meu amor,
Meu nó de sofrimento,
Minha mó de ternura,
Minha nau de tormento.
Este mar não tem cura,
Este céu não tem ar,
Nós parámos o vento,
Não sabemos nadar.
E morremos, morremos
Devagar, devagar"
Ary dos Santos, Amália Rodrigues

|*e/ou crescer...|

Uma peça de teatro para pensar a vida e a Europa

No início ela está sentada e diz: ainda não estão todos. Podem falar ainda. Depois não vos deixarei. Ela é Beatriz Batarda e é seguramente uma das poucas pessoas com quem fico apaziguada por me mandar calar. Ela está sentada à beira do palco a ver-nos chegar. Como se nos esperasse. O texto que irá representar talvez justifique o que faz quando nos recebe. Uma perna vai para a frente e para trás, como um pêndulo que procura o ritmo ou como um ritmo que a sustém vindo das profundezas do texto. Depois tem os braços em torno da outra perna curvada e vai-nos olhando nos olhos. Um a um, à medida que entramos. O cenário é simples: uma mão gigante desenhada no chão, numa fina alcatifa cinzenta, ou um grande pé, para o caminho que durante 50 anos esta mulher, vestida de homem e de todos os personagens, tem que percorrer para sobreviver.
A peça é um monólogo e Ella Gerricke faz de homem quase desde o início dos vinte e seis quadros que compõem o texto. Ela, Ella Gerricke, faz de homem, o marido que morreu de cancro, porque tem que sobreviver, porque já era pobre, porque a História interrompeu o seu sonho interminável de ser a Branca de Neve. Desde cedo, e para ter trabalho, esta mulher aprende a imitar os gestos masculinos que a tornam controladora de uma grua. Mas não é apenas no trabalho que ela tem que ser homem: na taberna, na rua, entre as crianças, depois com a subida de Hitler ao poder, ela tem que o ser na trincheira, na fábrica, escapar às inspecções e, entre os soldados, escapar ao desassossego das perseguições e excessos de uma sexualidade tão desenfreada e violenta como a da guerra. Prostitui-se, rouba, trabalha nos campos e nas fábricas de plástico que têm sucesso. Ela, Ella Gerricke, tem que matar, tem que sofrer e sofrer e continuar a sofrer sem redenção durante cinquenta anos. Entre certos quadros, Ella, não sabe quem é. E isso enfraquece-a. No texto de Manfred Karge ela está dilacerada e infeliz. Esse enfraquecimento não é do coração. A personagem diz mesmo, para mostrar o carácter orgânico do desconforto, que lhe dói “ali” e “ali” é o estômago. Ela tem fome da vida plena. A vida não saciou a sua vontade de viver e ser. Nesses instantes de consciência de si, Ella evoca a Branca de Neve. Essa evocação é uma invocação de uma dupla infância: a sua e a da Europa de Outrora. Ela não se reconhece nem no fascismo, nem no comunismo, quando trabalha na URSS, nem no capitalismo. Ella não se reconhece na Europa. A limite o texto mostra que não é apenas Ella Gerricke que não tem identidade, é a Europa que perdeu aquela que nasceu na Grécia e vinha insuflada pelo oriente. A dupla evocação é a dupla perda: a da infância de um ser humano, a infância cultural de um continente, a Europa, que se perdeu do mito e das bodas de Cadmo e Harmonia.
Sendo teatro difícil, político e difícil como o são as peças da Cornucópia, penso que essa é a mais fina e subtil relação analógica que o texto nos deixa para pensar: não é só Ella Gerricke que procura a sua infância que não teve. A Europa actual também só se pode rever numa infância que já não faz parte sequer do currículo das disciplinas. A escola já não é o mundo à parte onde as origens se pensavam e ofereciam ao ser de cada um. Da escola podemos dizer, como Nietzsche do teatro de Eurípides, que tem a vida banal do aluno no palco. Os tachos e as panelas, como ridicularizava Aristófanes nas Rãs. No “palco” da sala, como sabemos, não pode nem estar a vida do professor nem a do aluno. Na sala tem que estar o texto. O Outro com quem aprendemos a troca e a humildade, a ética, o diálogo, a verdade, o bem, o belo, muito para além de cada um e da nossa pobres vida. A escola não pode ser o prolongamento da vida que nos torna infelizes: a escola tem que ser a interrupção dessa vida, a emergência da outra, mais alta e sublime, mais elevada e suprema que os autores vislumbraram do pélago que os assombrou.



Era uma vez...

A escola é um lugar de contemplação e da lenta aprendizagem da contemplação, acção superior e excessiva. Agora não há texto na escola. A Europa escreve que é preciso salvaguardar a memória, mas a Europa cria programas escolares que destroem o seu Outrora. Por isso, a identidade dos seres humanos vai construir-se num isolamento sem redenção: sem o seu passado, os seres humanos serão ilhas selvagens, daquelas por onde Ulisses foi deixando os que feria e enganava. Não serão visitados pelas vozes que pensaram e provocaram positivamente as consciências. Nas suas mentes não aportarão Heraclito de Éfeso, nem Tales de Mileto, nem Parménides de Eleia. Os nossos alunos, eles e elas, Eles e Elas, não vão ter narrativas nem poemas para contra-agirem com a sua vida banal e enfraquecida. Gritarão, mais ou menos depressa como Ella Gerricke, dói-me “aqui” e “aqui” é o coração e o estômago da vida, da sua “existência sensível” dilacerada e sem interlocutores, fechada numa mentira incomunicável e corrosiva. Vão encher-se da sua experiência de vida disposta num programa de vídeo, ou num portefólio cheio de vazio sem poesia e sem pensamento.
Ela reconhece-se numa infância que não teve. Como é que alguém se reconhece no que não viveu, mas disso se recorda? No texto que foi distribuído ao público Beatriz Batarda e Carlos Aladro, o encenador, perguntam-nos: “será que acreditar na Branca de Neve é sinónimo de estupidez ou de capacidade de confiar no Homem?”Ella não é estúpida. Os alunos também não. Durante cinquenta anos engana os outros e nunca se engana a si. Mas também não me parece que confie no Homem. Não sei se os alunos confiam nos seus professores. Em alguns, pontualmente. Não sei. Ella Gerricke nem sequer confia nas crianças com que se cruza na vida. Eles, os alunos, nunca foram crianças e também não sabem o que é ser adulto. E, então de novo pergunto-me: que fazia a Beatriz Batarda sentada no palco a ver-nos entrar? Ela espera. Ela, Ella Gerricke, confia no Homem que há-de vir. Essa humanidade, após a Queda do Muro, será a que somos desde já? Ella não espera por Deus. Ella não espera por nenhum Ele transcendente, ou por um Messias redentor. Ella é clara a esse respeito. Já quase no final Ella diz, a olhar para o céu: ao sétimo dia até Ele descansa e olha para o seu mundo de plástico e vê como nos arranjamos. Também Ella resolve descansar e esperar pela Branca de Neve. Neste momento da peça não pude deixar de me perguntar se Ella não era Ele (?). Como nas boas narrativas judaicas. E, caso o fosse, de que estaria Ella à espera? E Ele? Senti que esperavam pelo Homem. Como se afinal não fizesse qualquer sentido falar-se de pós-modernismo, porque não creio que tenha havido qualquer humanismo para morrer, porque o humanismo me parece o movimento por haver, por nascer. A vida é o sétimo dia. Nada garante que Deus, como Ella, depois de terem trabalhado tanto, tenham tido força para continuar. Mas talvez seja nesse descanso dos que sofrem que estes que ficam encontrem a coragem da sua infância para além do tempo e para além do cansaço. Porque a nossa identidade é qualquer coisa que está no Outrora como a Branca de Neve. Amanhã quando receber os alunos estenderei a mão e farei com eles o caminho. Contarei a Branca de Neve e prometo a mim mesma levá-los aos jardins onde as narrativas estancam as nossas dores de “aqui”. Porque é preciso que percebam que quando alguém nos pede silêncio, não nos está a mandar calar, está a construir a paisagem para que muitos possam chegar às nossas vidas famintas e connosco poderem caminhar e cantar o refrão entusiástico de estarmos vivos, depois do sétimo dia. O que só pode querer dizer que cada um pode ser Ele e Ela. Ella Gerricke ensina-nos também isto: há monólogos que são o mais veemente encontro e diálogo. Não ouviu a Beatriz e não o ouvirão os meus alunos, mas quando sentada os vir chegar sentirei que na Terra foram esperados e é por isso que parecerá que descanso e às vezes não os deixarei falar e outras não serei nada para os ouvir quase a gritar “aqui!”. Amanhã vou começar a fazer de professora e, como a Beatriz Batarda ou Ella Gerricke, também espero o Homem e o Humanismo que há-de vir. Porque outra vez quer dizer, ainda e para sempre, era uma vez...


A melhor das mensagens

A melhor das mensagens é a que ninguém quer ouvir. A começar por quem a veicula.

- aforismo alterado de A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido, Sintra, Zéfiro, 2008, p.151.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

quadras p´ra pulares



será que a morte é igual
a nunca se ter nascido?
Será tudo virtual?
Fará a vida sentido?

Cada Homem fala a Sua língua própria

Agora percebi porque eu, como muitos outros portugueses, aprecio tanto falar com pessoas que não falam a minha língua, ao menos assume-se isso de início e a comunicação faz-se com atenção a esse facto, que se mantém quanto aos falantes do idioma português entre si, pois cada ser humano fala a Sua língua pessoal, cada um usa as palavras de acordo com a sua Alma própria. Ninguém, no fundo, fala a mesma língua, cada Homem fala uma língua distinta, pois mesmo usando as mesmas palavras, o sentido que elas têm para si nunca é o mesmo que para outra pessoa.

A música, essa, fala uma língua universal, pois não remete ao pensamento, mas directamente ao sentimento. No Brasil, o povo, caracteristicamente, fala dum modo que supera a compreensão mental, a alma brasileira fala mesmo a cantar (na Bahia então...), praticamente não é necessário pensar no que se ouve, para entender as palavras daquela gente basta usar os sentidos, basta senti-las, pois elas nascem do coração, mantêm-se originais.

As palavras ligam-nos entre nós, mas o que nos liga às palavras somos nós mesmos. São a ponte que nos liga, mas quem percorre a ponte somos nós, quando nos desentendemos a falar, não é a ponte que deixa de lá estar, nós é que a deixámos de cruzar. Quando deixamos de ser as palavras que falamos a ponte desaparece, pois elas só existem em nós, ao serem o próprio corpo da nossa alma.

7º Encontro Inter-Religioso de Meditação

16 de Setembro de 2008, 18h 30m
UBP - Calçada da Ajuda 246-1º Dtº, Lisboa

É com alegria que a União Budista Portuguesa anuncia o próximo Encontro Inter-Religioso de Meditação nas instalações da sua sede em Lisboa. Convocamos assim toda a comunidade budista e não budista a associar-se a este encontro de praticantes de diferentes tradições e religiões para vivermos, em silêncio meditativo, a experiência da presença em comum perante o que para cada um for mais sagrado.
Lembramos que este encontro - cuja feliz iniciativa partiu da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã e que foi por todas as principais comunidades religiosas portuguesas entusiasticamente recebida - corresponde plenamente ao compromisso que a União Budista Portuguesa recentemente assumiu com Sua Santidade o Dalai Lama de tudo fazer para promover a harmonia inter-religiosa em Portugal, um dos próprios empenhos fundamentais de Sua Santidade.
Começaremos com breves leituras de textos representativos da espiritualidade de cada tradição, intervalados por três minutos de meditação sobre cada um, seguindo-se 25 minutos de meditação em silêncio. No final haverá a possibilidade dos participantes partilharem a sua experiência.
Contamos com a vossa presença e divulgação desta experiência pioneira em Portugal.
Para que o diálogo inter-religioso se enraíze no silêncio inter-religioso e na experiência da Paz profunda.

A quem devemos estar mais gratos? A quem nos elogia ou a quem nos critica ou insulta?

E obvio que ha algo de construtivo na critica que visa edificar, chamar a atencao de certos pontos para que estes possam ser melhorados.

Mas havera algo de libertador no insulto? Por detras do seu aspecto desagradavel, nao havera um "koan" que nos obriga a estarmos mais presentes no aqui e agora?

The Boys of Summer (Don Henley)

Daria tudo por tudo para voltar atras e nao mais desperdicar a minha infancia e adolescencia Algarvia da maneira que desperdicei ... Trocando o sol, o mar e a sensualidade do Sul por algo que se revelou nao ser nada mais do que uma balela ...

Mas nunca e tarde demais para se recuperar o "ser-se crianca". Agora, dou tudo por tudo para nunca mais deixar a vida de sol, mar e sensualidade que a Providencia me esta ofertando em terras ainda mais a Sul. Nunca mais voltarei a desdenhar da Providencia, e nunca mais voltarei a acreditar em balelas. Agora e de vez. Nunca mais quero ter vontade de cantar esta cancao de despedida de tudo o que ha de mais belo. Em vez de me despedir, quero dissolver-me nessa beleza.

Bem hajam.

sábado, 13 de setembro de 2008

Amor-Saudade



«L'amor che move il sole e l’altre stele»
Dante Alighlieri


Para os deuses e para os amantes, o Amor é o Sol. O abraço é como um nó. Não o que prende, mas o que une, o que abraça. Esse círculo místico que sustenta o corpo dos amantes não se desfaz na morte – não há morte nesse abraço – nem se dissolve no ar essa esfera de luz. Por isso, uma estrela distante move-se na paisagem dos céus, e próxima, mora no coração dos amantes sempre a nascer. Sempre a tempo de nunca haver nascido. A vida, para os amantes, é o Amor. Mas o Amor tem véus que cobrem e encobrem. É esquecimento. Eis porque as rosas bebem nas águas e mergulham nos lagos, e nascem depois de ter morrido. Re.nascem e re.morrem como o Sol, círculo de Luz que, antes e depois da carne do tempo, já soprava na boca dos deuses e enchia o vazio e esvaziava o cheio. O Amor é Criação e Saudade... e o Sol desocultado oculta-se na sombra dos amantes e nasce do círculo dos seus braços.

Boa noite

Talvez eu atravesse o ventre de pesadas montanhas
por veios duros, sozinho como um mineral;
é tal a profundidade que não vejo nem fim
nem distância: tudo se fez próximo
e a proximidade transformou-se em pedra.
Ainda não sou mestre em sofrimento, -
por isso a grande escuridão me torna pequeno;
mas se ela és tu, então faz-te pesado e entra em mim:
possa a tua mão atingir-me
e eu chegar a ti com as minha relíquias.
Rainer Maria Rilke
Fotografia: Piromorfite, Mina Naica, México
por Vergílio Torres

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O princípio do despertar...

"O fim da nossa história?
Portugal está sem destino. (...) [Sócrates e Manuela] falam uma nova (?) «língua de pau», que os portugueses não ouvem ou que não registam. (...) O PS e o PSD são o regime e não podem ou tencionam tocar no regime. A reforma de Portugal, se por absurdo vier, não virá dali."
Vasco Pulido Valente, Público

Quando morres

"Quando morres não findas nem nasces noutro mundo. Manifestas o mundo oculto que já e sempre em ti trazes. Ou a sua ausência"

- Aforismo corrigido de A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido, Sintra, Zéfiro, 2008, p.118.

Quando há amanhã


Contemplando... entre a luz e a sombra, num espasmo incolor. Sentei-me ao longo deste patamar e deixei para ontem os bancos de jardim. Ao longe, não vi nada... Ninguém me viu contemplar.

VT

in http://www.banhosdecinza.blogspot.com/

A Almada Negreiros

Espelho-me eu...
Em regresso, uma onda.
Lento recuar,
espelhado pela areia...


a minha sombra sou
é ela que me arranca da sombra em mim atrelada
sombra de mim
não me segue
finjo que sou eu e vou
não para longe de mim
e sempre,
sempre às portas de mim
VT

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Espelha-te! Espalha-te!

Já muita coisa foi escrita, mas o que falta é escrevermo-nos. Muito conhecimento já foi descoberto, mas o que falta é descobrirmo-nos. Desde sempre, nada faltou ao Homem, só o Homem se faltou a si mesmo. Nada ficou por ser cumprido, só o Homem cumprir-se. Nenhuma peça do "puzzle" está em falta, o que sentimos que falta está em nós, somos nós a própria peça que falta... que falta encaixar-se em Si.
Concordar todo o Ser, integrando a inevitável parte discordante, para ser-se tudo, de-o corpo inteiro, da Terra... do Sol.

Vídeo baseado na obra O Ponto de Mutação de Fritjof Capra, em que é proposta um visão sistêmica, múltipla e relacional da vida.

Vídeo disponibilizado por Laercio Antonio Pilz.

CUIDADO!!!!!

Posso dizer-vos que este filme e um dos mais perigosos que alguma vez foram feitos. Dois meses depois de ver este filme, embarquei num aviao em Brasilia com destino a Berkeley, California, para uma conversa "tete-a-tete" com o proprio Fritjof Capra. Ainda nos correspondemos por E-mail, e espero encontra-lo de novo em breve, possivelmente no proximo Forum Social Mundial em Belem do Para.

Tres anos e meio depois de ver este filme, deixei um emprego prestigioso e bem pago na Comissao Europeia, assim como um belo apartmento, uma vida cultural riquissima e uma muito querida roda de amigos em Bruxelas para cruzar o Atlantico com destino aos EUA, um pais com o qual nunca me identifiquei e sabia que nao me iria identificar, para estudar questoes que a perigosa alquimia provocada pelo encontro entre a vivencia no Brasil e o mergulho no Paradigma Holistico fez surgir na minha cabeca.

Sete anos depois de ver este filme, encontro-me no Brasil a fazer pesquisa em locais marcados pelo sofrimento e pela opressao causada pelo crime organizado, onde encontro pessoas extraordinarias que, no meio do caos, inspiradas por esse paradigma emergente, fazem surgir formas extraordinarias de sociabilidade, producao economica e espiritualidade que muito tem a ensinar ao mundo, especialmente aos "paises desenvolvidos" (entre grandes aspas), que teimam em continuar acomodados a sombra do paradigma Cartesiano, roido pelo caruncho e que ameaca cair a qualquer momento sobre as suas cabecas.

Quem sabe os nossos amigos do CERN nao ajudarao a precipitar essa queda;-)?

BENDITA CRISE?



Bendita crise que sacudiu o mundo e a minha vida.

Bendita crise que sacudiu o mundo e a minha vida.

Bendita crise que está reciclando tudo.

Bendita crise que veio tirar a minha ilusão de permanência.

Bendita crise que vai trazer evolução.

Bendita crise que vai fazer o mundo se reestruturar.

Bendita crise que traz a transformação.

Bendita crise que vai me ensinar o que é verdadeiramente importante.

Bendita crise que é um desafio.

Bendita crise que vai me revelar a minha própria sabedoria.

Bendita crise que dissolve meus apegos.

Bendita crise que vai ampliar minha visão.

Bendita crise que me faz humilde.

Bendita crise que vai abrir meu coração.

Bendita crise que me traz de volta a confiança.

Bendita crise que vai me mostrar outras oportunidades.

Bendita crise que me faz dar mais importância à vida.

Bendita crise que me tirou do marasmo.

Bendita crise que leva a um novo paradigma.

Bendita crise que está me mostrando a Luz.

Bendita crise que me fez voltar a ter fé.

Bendita crise que me traz de volta a aventura de viver.

Bendita crise que é o Ponto de Mutação.

Bendita crise que me traz de volta o amor pela humanidade.

Em honra dos cientistas do CERN que neste preciso momento estao a fazer historia.

Em honra de grandes pensadores que nas ultimas decadas tem contribuido para a emergencia de um novo paradigma de consciencia, pensamento e accao a partir da sistematizacao de alguns dos mais importantes avancos da ciencia no seculo XX, como por exemplo Humberto Maturana, Arne Naess, Fritjof Capra, Hazel Henderson, James Lovelock, Vandana Shiva, Ernst von Weisaecker, Marcos Arruda, Rose Mary Muraro, Jean-Yves Leloup, entre outros.

NOTA IMPORTANTE: Temos a honra de informar os nossos estimados leitores que o proximo numero da revista "Nova Aguia" contara com um artigo do proprio Jean-Yves Leloup e outro da esposa de Arne Naess, Kit-Fai Naess.

Aos amores tristes

Tu foste
E o teu rastro
Ao afundar-se na lonjura tudo apagou
O mar subsumiu-se na terra
A rosa dos ventos secou
O desalento ecoou, incessante
E os meus sonhos por inteiro adormeceste
Perdi todo o meu norte
Tu que eras o meu nordeste
Tesouro inesgotável de vagas de calor e verde e dunas mansas
Deixei crescer as tranças
O corpo cicatrizou
Mas sempre que anoitece sopra uma triste canção
E o sol nascente
Só deixa luzente
O ermo do meu dia
Na tua ida
Apenas ficaram pelo caminho estátuas de cinza
A luz varada de escuro, puro buraco negro, insólita lombriga
Fizeste do tempo um robot néscio e indirigível
Mataste tudo o que é tigre, leopardo e leão
E data venia, mais ainda:
Lançaste em vias de extinção
O meu coração

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Para o Paulo Borges: um comentário ilustrado


George Frederick Watts

Sentada sobre o mundo labirinto, de cabeça caída, de olhos tapados por causa da vertigem e da rotação da Terra, de ouvidos fechados por causa do silêncio desejado, a Sensível Existência Humana, coberta de musgo – esperança viçoso no Inverno da vida – e de coração pendido, tecido no tear de Penélope, está e não está no mundo.
Acima dele, a Sensível Existência Humana, tece e retece, toca e retoca a harpa e o coração-arca na mão. A Sensível Existência Humana, presa ao que não esquece e a tece, cria e recria os infindos caminhos do perdão. “Saudade”, dizem os seus lábios imobilizados num rosto ovo-criação. “Ai Saudade!” clama o seu corpo entregue ao ritmo de um grito de invocação. Grito vertido num corpo já convertido, já rendido nos braços da eterna mãe, a Criação.
Mulher sentada, mulher curvada, chegam-nos de ti espasmos e traços de silenciosa compaixão. Que te converte nesta terna e esplêndida composição?
Que te contorce para essa doce, suave e ínclita inclinação?
(…)
Vislumbro no teu centro um berço, perscruto no teu âmago um pranto. E choro o que nenhuma palavra diz e o caminho que com nenhuma palavra condiz. E choro e, em pranto, desfaço o meu limite traçado a giz. Junto a ti deixo o meu tear e a minha harpa. É junto de ti, Saudade, que deixo os instrumentos com que os Amigos resgatam a humanidade, com a sagrada composição e a enlevada inspiração, da veemência dos nomes e entregam as nossas vidas na suave e doce melodia da sua respiração. Ao, Paulo, deixo o tear e a harpa, porque o sei espírito puro desta visão: a Saudade viva a compor uma canção, o poema redenção.

Saudade e Instante

"Para a radical imobilidade da nossa vertiginosa vida e para o gritante silêncio com que clama absurdamente por si mesma, onde encontraremos uma mais sensível figura que nessa Saudade em que o mesmo Pascoaes resumiu o nosso ser profundo? Enganam-se os que vêem nela apenas a disposição anímica prevalente da nossa particular existência. É só uma atenção aguda ao que ela traduz o que nos pode ser imputado. Enganam-se mais ainda os que nela denunciam a mera complacência pelo nosso pasado. A Saudade é a sensível existência humana, a si mesma incessível e próxima. Inacessível porque próxima. Como a de Teseu, a nossa circular aventura decorre num labirinto buscando o dono dele, desde sempre aí esperando-nos, mas impossível de tocar se para ele não nos encaminham os fios do amor e da esperança. São eles que nos asseguram o regresso que a Saudade significa. Nela vemos que os meandros sem fim da nossa caminhada não conseguiram expulsar-nos da terra incircunscrita do Instante. Quem encontramos é o mesmo que buscava, o labirinto é a própria busca antes que a Saudade, de súbito, a faça reverter para o lar da nossa perpétua infância. Aí vemos que o esquecimento não triunfou, que o Instante onde enraizamos corre imóvel sob o seu reflexo tornado criatura a que chamamos Tempo. A segunda vez, o re-conhecimento que a Saudade manifesta é a verdadeira primeira vez, terra de nascimento e não túmulo. Com profunda justiça foi que Pascoaes lhe chamou Criação..."
- Eduardo Lourenço, "Tempo e Poesia", in Tempo e Poesia, Lisboa, Relógio d'Água, 1987.

À Rainha Elis em Nós, Mundo Novo... a Redescobrir

"Buscar um mundo novo, vida nova
E ver, se dessa vez, faço um final feliz
Deixar de lado
Aquelas velhas estórias
O verso usado
O canto antigo
Vou dizer adeus
Fazer de tudo e todos bela lembrança
Deixar de ser só esperança
E por minhas mãos, lutando me superar
Vou traçar no tempo meu próprio caminho
E assim abrir meu peito ao vento
Me libertar
De ser somente aquilo que se espera
Em forma, jeito, luz e cor
E vou
Vou pegar um mundo novo, vida nova
Vou pegar um mundo novo, vida nova.
//
Como se fora
A brincadeira de roda
Memórias!
Jogo do trabalho
Na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos
Na canção da vida
Histórias!
O suor da vida
No calor de irmãos
Magia!

Como um animal
Que sabe da floresta
Memórias!
Redescobrir o sal
Que está na própria pele
Macia!
Redescobrir o doce
No lamber das línguas
Macias!
Redescobrir o gosto
E o sabor da festa
Magia!

Vai o bicho homem
Fruto da semente
Memórias!
Renascer da própria força
Própria luz e fé
Memórias!
Entender que tudo é nosso
Sempre esteve em nós
História!
Somos a semente
Ato, mente e voz
Magia!

Não tenha medo
Meu menino povo
Memórias!
Tudo principia
Na própria pessoa
Beleza!
Vai como a criança
Que não teme o tempo
Mistério!
Amor se fazer
É tão prazer
Que é como fosse dor
Magia!..."
Elis Regina
Composição: Luiz Gonzaga Jr.

A pior das Sedes I



Fotografia: Rosemary Laing -Flight Research

Quando era ainda muito nova houve uma revolução. A minha mãe, tal como todos os dias fazia, veio acordar-me. Abriu as portadas das janelas do quarto e disse:
- Hoje não vamos à escola porque houve uma revolução!
Estremunhada pela emoção que lhe sentia na voz, que carregava aquela palavra desconhecida de uma carga mágica, sentei-me na cama e perguntei-lhe:
- O que é uma Revolução, Mãe?
Não fiquei muito entusiasmada com a explicação. Porque haveriam de querer afastar o senhor mais lindo da RTP ( logo a seguir ao Eládio Clímaco, claro está)?
Aprendi muito nos anos que se seguiram mas, aquela não foi a minha Revolução! Contudo, a poesia da música que deu o sinal aos Coronéis de Abril ainda continua a fazer sentido, ecoa profundamente dentro de mim.
Ainda choro quando oiço a raça da canção. Desculpem este desabafo; é mais forte do que eu! Lamento também, se vos incomodo mas vou obrigá-los a ouvir as palavras de José Niza, que o Paulo de Carvalho canta, inflamado pela música de José Calvário:

O choro foi durante muito tempo um reflexo a que eu chamaria condicionado. Sim, é tal e qual como os cães de Pavlov, se substituirmos, obviamente, a campainha logo baba, pela música logo lágrimas.
Era uma Saudade extrema que me rasgava, uma ausência sem fundo, como se aquela letra contivesse uma mensagem que me era dirigida pessoalmente, por alguém de quem me havia esquecido. Assim começou a minha demanda, a pior das Sedes: - Perguntar: Quem sou? O que faço aqui? De quem me esqueci?
( continua...)

E Tudo As Vagas Levaram! - Ou Trouxeram?

Stromboli e outro Paulo de quem também sou muito fã


Mar e declaração de amor em Siracusa, Etna, Stromboli do barco, Tricolor, Strombolicchio





Em tempos fui distribuidora de jornais

Eu sou uma distribuidora de jornais, é essa a minha missão. Dou a informação em primeira mão ou talvez não: há jornais que se antecipam antes das oito mas uma coisa é certa: há gente que não compra aqueles jornais, por isso o meu chega-lhes às mãos em primeira mão porque é grátis, não digam que não.
O frio e eu, eu e o frio, nestes tempos de levantar cedo somos quase amigos. Quase porque já me incomodei mais com ele, agora é tu cá tu lá ainda lutando mas fazendo parte. Lutar contra o frio, estoicamente que assim é que é bonito, bonito de se ver porque quem vê vê que o que eu quero é passar o jornal no matter what, os obstáculos não o serão e sorrio porque estou a conseguir passar muitos jornais sem desanimar. Hum, lá que há alguma coisa de desânimo há, mas um super herói jamais, em qualquer lado que se o veja, mostra vida pessoal, íntimo, vulnerabilidade. Confesso que (poucas vezes) me desmanchei; ah estou com gripe, ah e já não me lembro de mais, nada que importe pois, acho, não foi de monta suficiente para, aos olhos dos cidadãos, me retirar a credibilidade.
Visto a t-shirt antes de sair do metro, fico almofadada, pronta para o rugby que aí viesse, ponho a cara objectiva, assertiva, agora um bocadinho sorridente porque vacilei: deixei que uma má opinião condicionasse a minha postura agressiva que rima com objectiva e assertiva. E lá vou eu, ninguém me pára até que eu não possa andar, é tudo o que tenho.
Acabo a missão, tiro a t-shirt, sinto-me realizada, fico uma mulher bonita e vou para casa irreconhecível sem mais nada. Eu e o frio, o frio e eu, a minha espada é o jornal. "Olha a bela da ardina!" lembra o antigamente, recupero profissões românticas, olha a nossa bela ardina e somos todos convivas, sempre os mesmos, presto serviço público, psst psst, ó psst, antes de o sinal ficar vermelho eu dou-lhes o jornal, é competência, rapidez, é "got it!", é a menina que está ali e desempenha o dever com prazer.
Recompensam-me com comida mas eu não sou pobrezinha. Tive de aceitar a laranja porque era de outra terra, deu para disfarçar.
Eu sou distribuidora de jornais, dali já não saio, é a minha profissão. Se vos perguntarem o que sou é isso que dirão.

28/2/2005

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Carta a "um filho de um deus maior"

"Já o tempo se ia habituando a navegar por mares adversos e a buscar na inquietação da noite a saída para o quotidiano das ruas da amargura.
Já o tempo se ia habituando a lamber as esquinas ao sabor das fugas que atormentavam o espírito e o corpo.
Já o tempo se ia habituando a avisar em surdina que se erguiam muros em volta dos subterrâneos da liberdade.
Já o tempo se ia habituando a entoar canções com lágrimas como se o choro acalmasse o ódio a uma vida feia, ameaçante sempre a rondar os confins do desespero.
Já o tempo se ia habituando!
Com outros vieste do fundo do tempo a bordo das barcas novas.
Chegaste de mansinho erguendo a voz com pressa de viver naquela terra assombrada.
Sentiste ao que vinhas e cantaste o mês onde começava a mágoa dizendo que nunca poderiam ser os rostos a bater à porta do poema.
Ao vento que passava perguntavas o que já sabias; que o vento calava a desgraça e por isso nada dizia.
Pediste uma capa negra, uma rosa negra que virasse as costas à saudade.
Fizeste-nos namorar com a menina de olhos tristes à espera do soldadinho que nunca mais havia de chegar.
Ensinaste-nos a falar com a lua viajante que nos trazia as más notícias: o soldadinho, afinal, voltava numa caixa de pinho do outro lado do mar.
Disseste-nos que eras livre como as aves, que os corações que nascem livres não se podem acorrentar, que não há ventos que não prestem nem marés que não convenham.
Pediste ao Tejo que lavasse bancos e empresas de comedores de dinheiro, palácios e vivendas, casebres e bairros de lata porque a uns fartam e a outros matam.
Foste dizendo, cantando, avisando até que saíste aparelhando um barco abandonado na praia num Outubro em ressaca das marés vivas, vividas.
Desses tempos tão perto continuam a caminhar – exactamente aqui ao lado – os amigos que já partiram, os amores e os desamores, as vitórias e as derrotas, todas as causas, passadas, presentes e futuras, o mundo que quiseste mudar.
Desses tempos tão perto continuam a caminhar – exactamente aqui ao lado – todos os sonhos, mesmo aqueles que já foram esquecidos, as utopias que parecem loucas, as alegrias e as tristezas que têm assolado este palmilhar de estrada.
Porque nos ensinaste a haver sempre alguém que resiste, sempre alguém que diz não, por teres ajudado a descobrir a saída do vale escuro passaste a caminhar, desta vez não ao lado, mas para sempre dentro da vida de um povo.
Fazendo-nos ao mar para que não fiquemos cercados continuaremos por isso a acender no teu, o nosso cigarro."
Paulo Esperança, 16 de Outubro 2007 (25 anos após a morte de Adriano)

"Eu so quero ser feliz/ e me orgulhar/ do local onde eu nasci": Sim, existe funk Carioca de qualidade e com uma mensagem construtiva!

Queridos Todos de Aquem e Alem Mar,

De certeza que ja vos chegou ao ouvido a reputacao que tem o "funk" carioca: A de ser um repositorio de letras pornograficas ou de celebracao das facanhas belicas de faccoes do trafico de droga que infelizmente aterrorizam vastas areas desta magnifica cidade que eu tanto amo.

No entanto, tenho de vos chamar a atencao para uma forma de "funk" que, infelizmente, e muito pouco difundida pelos media: Um funk que retrata a vida diaria dos favelados, o medo e a dor que sentem diante da violencia e do preconceito de que sao alvo, e contam historias de resistencia, solidariedade, e sim, ate de Amor e de Erotismo, sem pornografia nem degradacao nem da Mulher nem do Homem!

E pena e que os media so liguem ao que e degradante, violento e pornografico, na ideia de que so isso e que da lucro. Seria muito interessante que se desse mais a conhecer esta forma de arte popular naquilo que tem de mais construtivo e celebratorio do que a vida tem de melhor, e que mostra que a favela e muito, mas muito mais do que um reduto de marginal.

Aqui esta um excelente exemplo. Por favor, nao se assustem pelo nome de pessimo gosto dado ao grupo de dancarinas (Gaiola das Popozudas).

Tomem atencao a letra: http://www.youtube.com/watch?v=msKfKMAJzPw&NR=1

Abracos Transatlanticos, Solidarios e Quinto-Imperiais:-)!

WATSU

O corpo, mantido em flutuação
por braços que embalam suavemente, retorna
a memórias perdidas de amor sem incerteza.
A alma se eleva ao experimentar a liberdade
de um corpo entregue à água -
em busca de planos mais elevados.
Mas não é separação o que acontece,
e sim o êxtase da Unidade.
Dentro do corpo que flutua
a alma está livre para cantar
e o corpo,
tendo derrotado a gravidade
e todos os laços materiais
livre de toda a escravidão,
volta a ser essência
em seus braços.


Alma Flor Ada


Caros Amigos “Serpenteados”,

Há uns anos atrás, tive a sorte de ser apresentada ao Watsu.
Digo isto, desta forma, porque, de facto, hoje sei que o Watsu estava destinado a estar presente em mim. E foi com a sua chegada à minha vida que eu me encontrei.

O Watsu, para quem não conhece, é o diminutivo para Water Shiatsu. Um trabalho corporal realizado dentro de água aquecida (quase à temperatura do nosso corpo), com base no Zen Shiatsu. O seu criador, Harold Dull, juntou movimentos de alongamentos e de massagem numa dança que a água aquecida potencia e faz elevar os nossos níveis de relaxamento, de tranquilidade e de confiança.

Flutuar nos braços de alguém é qualquer coisa de fabuloso. É uma viagem linda e sempre diferente em cada sessão de Watsu que recebo ou que ofereço.
O facto de estarmos com alguém nos braços e de nos conectarmos com essa pessoa e com o Universo, faz o nosso coração bater mais forte e faz a vibração aumentar.
Até surgir em nosso redor, até nos abraçar e nos embalar a todos.


Com este poema deixo um convite e peço desculpa pelo uso abusado deste blog, do qual me orgulho de fazer parte, para publicidade de uma actividade.

Dia: 5 de Outubro,
Local: na Escola de Natação Delfins Azuis, em Tires,
Hora: durante todo o dia

Haverá prática livre de Watsu. Também será possível receber sessões de profissionais (mediante marcação prévia). Mesmo assim, se ainda acharem que só querem ver para saber como é… podem ir só espreitar e depois seguirem para as vossas vidas “serpenteadas” :)
Espero que a viajem pelo mundo do Watsu seja bonita para quem queira experimentar.
Porque todos somos água… E eu, sendo Sereia*, tenho o dever de vos dizer que o Watsu existe e que é maravilhoso experimentá-lo em nossas vidas.

Para o Deserto


Para onde levas o meu coração? Ele mora onde moras e nenhum grão do deserto girará fora da sua casa. A tua casa é a minha casa, a tua taça é a minha taça. Nas tuas lágrimas correm as minhas lágrimas e o mesmo Sol as seca. Por isso, um irmão que se afasta leva o deserto do outro irmão consigo.


“Em busca do amado contemplei enfim meu próprio coração, e lá o vi, não era outra sua morada (...). Corramos a casa do amado (...). Jurei por tua vida jamais desviar os olhos de tua face (...). Não buscarei em mais ninguém, pois, a causa de minha dor é ver-me longe de ti (...) Viaja dentro de ti. Faltam-te pés para viajar? Viaja dentro de ti mesmo, e reflete, como a mina de rubis, os raios de Sol para fora de ti. A viagem te conduzirá a teu ser, transmutará teu pó em ouro puro (...). É o Sol de Tabriz que opera todos os milagres: Toda árvore ganha beleza quando tocada pelo Sol”

“Vem. Te direi em Segredo aonde leva esta dança. Vê como as partículas do ar e os grãos de areia do deserto giram desnorteados. Cada átomo feliz ou miserável, gira apaixonado. Em torno do Sol.”


RUMI, Jalal ud-Din. Poemas Místicos/ Rumi: Seleção de poemas do Divan de Shams de Trabiz. Trad. e introd. de José Jorge de Carvalho. 1ª. Ed. São Paulo: Attar Editorial, 1996.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Coro da Prima-Vera

"Cobre-te canalha
Na mortalha
Hoje o rei vai nu

Os velhos tiranos
De há mil anos
Morrem como tu

Abre uma trincheira
Companheira
Deita-te no chão

Sempre à tua frente
Viste gente
Doutra condição

Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores

Livra-te do medo
Que bem cedo
Há-de o Sol queimar

E tu camarada
Põe-te em guarda
Que te vão matar
Venham lavradeiras
Mondadeiras
Deste campo em flor

Venham enlaçadas
De mãos dadas
Semear o amor

Venha a maré cheia
Duma ideia
P'ra nos empurrar

Só um pensamento
No momento
P'ra nos despertar

Eia mais um braço
E outro braço
Nos conduz irmão

Sempre a nossa fome
Nos consome
Dá-me a tua mão..."
José Afonso, 25 de Abril Sempre!

Loucura e Santidade segundo o Padre António Vieira

“Logo há doidices falsas e doidices verdadeiras ? Assim é. […] As falsas, são as dos doidos que seguem a vaidade: Vanitates, et insanias falsas: as verdadeiras, são as dos doidos que seguem o contrário da mesma vaidade, que é a verdade. Mas se seguem a verdade, porque são doidos ? Porque toda a doidice se opõe ao uso da razão diferentemente. Os excessos dos maus obram contra a razão, e por isso são viciosos e vãos: os excessos dos Santos obram sobre a razão, e por isso são sólidos e verdadeiros. Uns e outros doidos nesta grande casa de loucos, que é o mundo, têm o seu hospital separado: o dos Santos está nos arrabaldes do Céu, para onde sobem; o dos maus nos arrabaldes do inferno, onde se precipitam: uns e outros andam fora de si como doidos: os maus fora de si, porque se buscam; os santos fora de si, porque se deixam” - Sermões Consagrados à Glorificação de São Francisco Xavier, Sermão Sétimo. Doidices, Sermões, XIII, prefaciados e revistos pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Livraria Chardron de Lello Irmão Editores, 1907-1909, p. 278.

“Não há grande empenho, sem mistura de doidice. E a razão é, porque para qualquer homem obrar heroicamente, e se exceder, e levantar sobre si, é necessário sair de si. Que foram os arrojamentos de Alexandre, senão doidices do valor ? Que foram as fantasias de Homero, senão doidices do furor poético ? Que foram os vaticínios das Sibilas, senão doidices da vista, que deixando a luz do presente penetrava as escuridades do futuro ? Há coisas que estão em nós, e outras que estão sobre nós, e estas são as admiráveis. […] E para eu chegar ao que está sobre mim, é necessário sair de mim” - Ibidem, pp. 287-288.

“Tais foram as doidices de [S. Francisco] Xavier. Não seguiu a Regra do seu Instituto, que citámos no princípio, mas todo se formou e transformou naquele grande apotegma do mesmo Santo Inácio: Insaniendum est, si vis esse perfectus: Hás-de te fazer doido, se queres ser santo. Ele o disse, e foi tão santo e tão doido, que se Deus pusera na sua mão a escolha, ou de ir logo para o céu, ou de ficar neste mundo servindo aos próximos com risco de sua própria salvação, tinha assentado consigo de escolher este segundo” – Ibidem, p.288.

Muito obrigada, Anita:-)!

Agradeco imenso a anita de nos ter chamado a atencao para o Movimento de Cultura e Paz - Rede de Integracao Bioregional, um interessantissimo movimento que esta a crescer na Bahia.

Aconselho-vos vivamente a consultar a pagina em www.mcpaz.org .

Aqui esta uma breve apresentacao, que nao dispensa uma visita a pagina:

A Rede-Movimento Cultura de Paz é uma união livre, horizontal e circular de indivíduos, comunidades, caravanas e empreendimentos ecológicos, pacifistas, solidários e arco-íris, para a construção de uma sociedade global justa, promovendo a Cultura da Sustentabilidade rumo a Cidadania Planetária. A Rede age permeada de um pacifismo ativo nas suas ações, campanhas, empreendimentos e tecnologias do novo tempo.
Impulsionamos, Incentivamos e Promovemos ações, projetos e iniciativas, acreditando em uma Sociedade solidária e fraternal , em uma Cultura de Paz entre os povos da Terra, sem guerras e sem fronteiras.
A Rede nasce e cresce com a ideologia altermundista, dentro de uma inquietude constante , integrando dentro de suas ações “Espiritualtermundistas”, Politica e Espiritualidade.
Movidos pela conduta do exemplo, onde segundo Mahatma Ganhdhi, precursor da ideologia Ahimsa, “Voce é a transformação que quer para o Mundo” , incentivamos o “Ser Planetário” – A praticar aquilo que predica...
Partilhamos relações de Ecumenismo, integrando e conectando em Rede, distintas correntes e tradições espirituais, entendo que as mesmas devam assumir um papel de responsabilidade ecosocial dentro de sua conduta e prática religiosa.
Integramos e levamos Transdisciplinariamente a Política e a Cidadania aos movimentos espirituais e incentivamos a aproximação e a prática espiritual dentro dos processos políticos.
A Rede se integra e apóia o conceito do Biorregionalismo,
Levando em conta de que as biorregiões são sistemas completos, compostos de grupos de sub-sistemas naturais diversos, integrados e regidos por leis e princípios ecológicos.
O Biorregionalismo reconhece que os humanos, como uma espécie entre muitas outras, deve trabalhar em harmonia as leis de Gaia. As leis e princípios ecológicos formam a base para o desenho de todo o sistema humano a longo prazo: tecnológico, agrícola e político.
As biorregiões são regiões com vida. Uma área geográfica cujos limites naturais são estabelecidos pela natureza (não pelo ser humano), que se distingue de outras áreas por sua flora, fauna, clima, rochas, solos, configuração de terreno; assim como pelos assentamentos e culturas humanas a que estas características t dado lugar.
A Rede, ratifica, adota e tem como referência Cultural, Politica, Pedagógica e Espiritual os seguintes Manifestos, Cartas e Tratados Internacionais:
Carta da Terra Agenda 21 Pacto de Roerich (Tratado pela Cultura de Paz) Convenção Internacional da Biodiversidade Tratado Internacional de Mudanças Climáticas Carta de Princípios do Forum Social Mundial Carta da Ecopedagogia Manifesto Biorregionalista Manifesto pela informação aberta e Software livre Quando eticamente necessario, optamos pela prática ativa da desobediência civil não violenta, para a construção e estruturação de mecanismos e organizações da nova era pós-capitalista.
Nos dedicamos a conectar iniciativas , tecnologias, ações, logística, apoio na formação de cidadãos planetários, ecomunidades, caravanas, emprendimentos, centros culturais artísticos e arcoíricos nas cidades para fortalecer e co-construir redes de cidadãos livres e autônomos que nos séculos que vem co-dirigirão as sociedades ecológicas, abundantes e solidárias num rol participativo e protagônico em prol da vida digna dos povos da terra, em igualdade e fraternidade universal.
Estes elos se constituem como organismos atônomos e autopoiéticos de uma rede organizada cooperativamente numa visão conjunta: a construção autônoma, comunitária e pacífica de outras formas de organização da humanidade na terra.
Você pode criar ou aderir a sua comunidade, rede, caravana, empreendimento, espaço ou casa urbana na Rede em qualquer momento e lugar do mundo.
Para isto basta aderir esta Carta de Princípios da Rede e assumir a responsabilidade pessoal e o comprometimento íntimo de trabalhar harmônica e responsavelmente numa teia para a transformação pacífica da humanidade.
Não é um trabalho complexo, basta fazer com amor e honestidade.
A Visão Ecumenica e Holística das Redes
Uma outra dimensão importante da lógica organizacional das redes – e que as definições que levam em conta apenas os aspectos formais também não consideram – é a sua diferenciação em relação à hierarquia.
Capra identifica essa distinção entre rede e hierarquia na sua análise dos sistemas vivos:
"Desde que os sistemas vivos, em todos os níveis, são redes, devemos visualizar a teia da vida como sistemas vivos (redes) interagindo à maneira de redes com outros sistemas (redes). (...) Em outras palavras, a teia da vida consiste de redes dentro de redes. Em cada escala, sob estreito e minucioso exame, os nodos da rede se revelam como redes menoresmenores. Tendemos a arranjar esses sistemas, todos eles aninhados dentro de sistemas maiores, num sistema hierárquico, colocando os maiores acima dos menores, à maneira de uma pirâmide. Mas isso é uma projeção humana. Na natureza, não há 'acima' ou 'abaixo', e não há hierarquias. Há somente redes aninhadas dentro de redes."
Uma articulação entre diversas unidades que, por meio de certas ligações, trocam elementos entre si, fortalecendo-se reciprocamente, e que podem se multiplicar em novas unidades, as quais, por sua vez, fortalecem todo o conjunto na medida em que são fortalecidas por ele, permitindo-lhe expandir-se em novas unidades.
A rede nunca é a mesma dois instantes seguidos, nem para de crescer ou de se espraiar.
A conectividade é a razão do movimento permanente da rede. Conexões produzem conexões, e novos pontos conectados incorporam ao sistema as conexões que carregam.
Uma rede não comporta centro porque cada ponto conectado pelo emaranhado de linhas pode vir a ser o centro da rede num determinado instante.
Chuva de luz !

O que é ?O Movimento Cultura de Paz (MCPAZ) é uma rede de integração de coletivos, grupos, ong's, movimentos, energias e seres na biorregião de Salvador alinhados com a cultura de paz, a formação integral do ser humano e a cura planetária. Surgiu no dia 16 de Setembro de 2007, a partir do I Encontro de Integração Biorregional realizado na capital baiana.
Objetivos: - Estabelecimento de redes de apoio mútuo, trocas e cooperação entre todos envolvidos;- Fortalecer as conexões em nível regional e nacional;- Fomentar a troca de saberes e a formação integral dos seres envolvidos;- Harmonizar a transição e trabalhar a cura do ser humano e sua casa, o planeta;- Exercitar a cultura de amor e paz;- Estimular a ampliação da consciência.Ações:- Grupos de Estudos de Comunidades e Ecovilas;- Grupos de Estudos de Pedagogia Waldorf;- EICAs - Experimentos Integrativos de Cultura Amorosa;- Onda de Abraços - Free Hugs Salvador;- Lista MCPAZ - Rede de avisos, noticias e dicas para Salvador;- Encontros Biorregionais;- Banco de Sementes Crioulas;- Midiateca (DVD's e livros).
O MCPAZ possui eixos de convergência que norteiam seu trabalho nas áreas de Alimentação, Social, Política, Espiritualidade, Ecológica, Lazer, Arte, entre outras. Todos esses saberes são propícios para o novo momento planetário, ligados com a cooperatividade e a troca.
Cada um tem parte da verdade, todos unidos formamos a unidade.
Organizações parceiras que integram a rede:
Aliança pela Infância
Cangaceiros da Alegria
Caravana Arco-Iris por La Paz
Centro de Estudos Exobiológicos Ashtar Sheeran (CEEAS)
Coletivo de Arte-Educação para Solidariedade (CAES Brasil)
Coletivo Organismo
Cooperativa de Rango Vegan
Fundação Terra Mirim
Instituo Röerich de Paz e Cultura do Brasil
Instituto Consciência Brasil
Instituto de Permacultura da Bahia
Marizá Epicentro de Cultura e Ecologia
Movimento Artístico EcoReação (MAE)
Organização Permacultura e Arte (OPA)
Projeto EmComTatoTeia da Vida
Tribo do Sol
UNISOES

Um exemplo a seguir?

domingo, 7 de setembro de 2008

Certamente que se fosse apenas brincadeira eu não punha aqui...

A síntese de um mail recebido hoje:

"JONATHAN LEAKE, The Sunday Times

O Pólo Norte está em mudança. Cientistas encontraram grandes buracos no campo magnético da Terra, sugerindo que os Pólos Norte e Sul estão se preparando para trocar de posição, numa guinada magnética.
Um período de caos poderia ser iminente, no qual as bússolas não mais apontariam para o Norte, animais migratórios tomariam o rumo errado e satélites seriam queimados pela radiação solar.
Os buracos estão sobre o sul do Atlântico e do Ártico. As mudanças foram divulgadas depois da análise de dados detalhados do satélite dinamarquês Orsted, cujos resultados foram comparados com dados coletados antes por outros satélites.

O CALENDÁRIO MAIA

Profecias ancestrais e diversas tradições indígenas anteviram o fenômeno. Mas agora para surpresa de muita gente, é a própria ciência que começa a reconhecer importantes mudanças no campo magnético e na freqüência vibratória da Terra.
O ápice do processo, que segundo alguns especialistas, deverá ocorrer em alguns anos provavelmente provocará a inversão do sentido da rotação do nosso planeta e também a inversão dos pólos magnéticos.
Quando a Terra perder por completo a sua rotação e a freqüência ressonante alcançar o índice de 13 ciclos, nós estaremos no Ponto Zero do campo magnético.
A Terra ficará parada e, após dois ou três dias (em que será noite), recomeçará a girar só que na direção oposta.

IMPACTO SOBRE O PLANETA

Greg Braden costuma afirmar que estas informações não devem ser usadas com o objetivo de amedrontar as pessoas. Ele acredita que devemos estar preparados para as mudanças planetárias, que irão introduzir uma Nova Era de Luz para a humanidade: iremos além do dinheiro e do tempo, com os conceitos baseados no medo sendo totalmente dissolvidos.
Braden lembra que o Ponto Zero ou a Mudança das Eras vem sendo predito por povos ancestrais há milhares de anos. Têm acontecido ao longo da história do planeta muitas transformações geológicas
importantes, incluindo aquelas que ocorrem a cada treze (13) mil anos, precisamente na metade dos vinte e seis (26) mil anos de Precessão dos Equinócios.
O Ponto Zero ou uma inversão dos pólos magnéticos provavelmente acontecerá logo, acredita Braden. Poderia possivelmente sincronizar- se com o biorritmo de quatro (4) ciclos da Terra, que ocorre a cada vinte (20) anos, sempre no dia 12 de Agosto.
Afirma-se que depois do Ponto Zero o sol nascerá no oeste e se porá no leste. Ocorrências passadas, deste mesmo tipo de mudança, foram encontradas em registros ancestrais.

OS REFLEXOS NA VIDA HUMANA

Greg Braden assinala que as mudanças na Terra estarão afetando cada vez mais nossos padrões de sono, relacionamentos, a habilidade de regular o sistema imunológico e a percepção do tempo. Tudo isso pode envolver sintomas como enxaquecas, cansaço, sensações elétricas na coluna, dores no sistema muscular, sinais de gripe e sonhos intensos.
Ele associa uma série de conceitos de ordem esotéricos aos processos geológicos e cosmológicos relacionados ao Ponto Zero. Para Braden, cada ser humano está vivendo um intenso processo de iniciação.
O tempo parecerá acelerar-se à medida que nos aproximarmos do Ponto Zero, em função do aumento da freqüência vibratória do planeta: 16 horas agora equivaleriam a um dia inteiro, ou seja, 24 horas.
Durante o fenômeno da mudança, aponta ele, a maior parte de tecnologia que conhecemos deverá parar de operar. Possíveis exceções poderiam ser em aparelhos com tecnologia baseada no 'Ponto Zero' ou Energia Livre.
A inversão causada pelo Ponto Zero provavelmente nos introduzirá à Quarta Dimensão, diz o geólogo, então tudo que pensarmos ou desejarmos vai se manifestar instantaneamente. Isto inclui amor e medo. Daí que a intenção passará a representar um papel de suma importância na vida humana.

UM NOVO DNA

Para Braden, nosso corpo físico vem mudando à medida que nos aproximamos do Ponto Zero. Nosso DNA estaria sendo ampliado para doze (12) fitas em sua hélice, ao mesmo tempo em que um novo corpo de luz começaria a ser criado. Em Conseqüência: nos tornaríamos mais intuitivos e com maiores habilidades curativas.
Ele afirma também que todas as doenças dos anos 90, incluindo a AIDS, desaparecerão.
Nossos olhos ficariam como os do gato, para se ajustarem à nova atmosfera e nível de luz. E todas as crianças nascidas depois de 1998 provavelmente terão capacidades telepáticas.
O Calendário Maia destaca Braden, predisse todas as mudanças que estão ocorrendo agora. Os seus textos afirmam que estamos indo além da tecnologia e voltando aos ciclos naturais: os da Terra e os do Universo.
Por volta de 2012 estaríamos então entrado na Quinta Dimensão (depois do salto pata a Quarta Dimensão, que deverá ocorrer no próprio Ponto Zero).


De autor incógnito escrito em 82, mas mostra o perfil atual da humanidade. Observa-se, por toda a face da Terra, significativos sinais de uma grande mudança!
Toda a humanidade se encontra num estado de 'tensão' e 'expectativa' . Expectativa de quê? Ninguém sabe ao certo, mas é um fato e ela existe, como bem o demonstra a insegurança pública.
Os mais céticos, afirmam ser devido à contingente situação atual da sociedade mundial. Alguns sociólogos afirmam ser devido às armas nucleares, ao chamado 'equilíbrio do terror', cujo arsenal nuclear é suficiente para destruir todo o planeta mais de uma centena de vezes.
Já os ocultistas afirmam que estes 'sintomas planetários sociais' são o 'Inconsciente Coletivo' prognosticando uma terrível e implacável seleção ou separação do trigo do joio, proveniente de um grande 'Julgamento Cíclico'.
Em verdade, contudo, podemos apenas afirmar que: 'Os tempos esperados já chegaram' e que pouco importa se os homens estejam ou não conscientes disto.
Ademais, o real conhecimento da Causa que tanta repercussão vem fazendo refletir na insegura humanidade, pertence somente àqueles que se fizeram dignos de tais revelações.
Já um certo discípulo teve ocasião de dizer: 'Quatro círculos concêntricos se apresentam atualmente para definirem a evolução espiritual dos seres que habitam a face da Terra: o 1º, ou externo, é formado pelos 'irremediavelmente perdidos'. Sim, para estes, foram perdidas todas as esperanças;
O 2º, 'dos 'prováveis', ou aqueles que lutam para se salvarem da grande tribulação do presente ciclo, que a tudo e a todos ameaça destruir;
O 3º círculo, é formado pelos já redimidos ou salvos, ou seja, aqueles que passaram por todas as provas dolorosas da vida e delas saíram vitoriosos;
Finalmente, o 4º grupo, formado pelos guias ou instrutores da humanidade. Os que se acham ocultos no interior do templo dedicado ao culto de Melkitsedek, e que outro não é senão o da Universidade Eucarística, o GRAAL de todos os Graals, sintetizados na Fraternidade Universal
da Humanidade.
Estes últimos seres a que se refere a citação acima, muito bem sabem o que há de suceder num futuro próximo e muito mais. Sabem ainda a razão porque a divindade manifestar-se-á como a 'Face Rigorosa' (em lugar da amorosa) do Eterno e Soberano Senhor dos Universos."
Fonte (do mail): Movimento Cultura de Paz - Salvador da Bahia

sábado, 6 de setembro de 2008

Para um patriotismo trans-patriótico e universalista. Sete considerações para uma refundação do Movimento Internacional Lusófono

1. A milenar tradição da introspecção meditativa e os progressos contemporâneos da microfísica e das neurociências (que hoje se juntam numa convergência histórica, como nas experiências realizadas no MIT, em Massachusetts, e nos encontros Mind and Life, o último dos quais de 6 a 12 de Junho deste ano, em Nova Iorque) parecem indicar não ser possível encontrar, quer na constituição da chamada matéria, quer na da chamada mente, ou seja, nisso cujo conjunto designamos por realidade, uma mínima entidade que exista em si e por si e que permaneça idêntica a si mesma, ou seja, que tenha características próprias. Todas as dimensões da chamada realidade parecem obedecer assim a duas leis fundamentais, a de interdependência e a de impermanência, que se resumem na sua ausência de características ou qualidades intrínsecas. Como se pode constatar na mínima experiência perceptiva e como a observação científica confirma, sujeito e objecto constituem-se mutuamente e interagem num dinamismo e numa metamorfose constantes, como meros fenómenos recíprocos, sem essência própria. O conceito de identidade parece ser assim uma abstracção desadequada para expressar o real, sem outro fundamento senão o de ser uma ficção convencional e funcional, que serve o reproduzir de uma tradição fortemente entranhada nos hábitos culturais, psicológicos e sociais do senso comum humano.
2. O conceito de identidade nasce, como o seu correlato, o de alteridade, de uma experiência ingénua e irreflectida, na qual, devido a hábitos inconscientes, o sujeito se crê distinto do objecto, o eu do não-eu, o mesmo do outro, o idêntico do diferente, ao mesmo tempo que esses termos da experiência se crêem reais e existentes em si e por si, com características e qualidades próprias, positivas, negativas ou neutras, que nunca são mais do que projecção da percepção inconscientemente condicionada. Este estado, que se pode chamar de ignorância dualista, origina três tendências da experiência mental-emocional na relação sujeito-objecto: 1 – o fascínio e o desejo-apego, caso o objecto seja percepcionado como atraente e positivo; 2 – o medo e a aversão, caso o objecto seja percepcionado como repulsivo e negativo; 3 – a indiferença, caso o objecto seja percepcionado como neutro. Qualquer destas experiências resulta em conflito e sofrimento, primeiro interno e depois externo, indissociável de uma extrema vulnerabilidade perante todas as vicissitudes da vida, pois a mente dominada pelo apego e pela aversão não pode assegurar de modo algum a posse do que deseja nem a exclusão do que rejeita, devido à lei da impermanência e metamorfose constantes de tudo, sujeitando-se assim constantemente à carência do que deseja ou ao medo de o perder, bem como à ameaça do que rejeita ou ao medo de o não evitar. Por outro lado, a indiferença é uma falsa alternativa, que apenas gera a experiência de solidão, de entorpecimento mental e de despotenciamento vital.
Da ignorância dualista e da combinação das três tendências referidas resultam as pulsões emocionais inerentes a todos os actos e omissões, mentais, verbais e físicos, que as tradições ético-espirituais, teístas ou não-teístas, religiosas ou laicas, designam como actos negativos, faltas, pecados ou toxinas mentais, como hoje alguns preferem: desejo possessivo, ódio e cólera, inveja e ciúme, orgulho e arrogância, avidez e avareza, torpor mental e tristeza, entre muitas outras. Em qualquer dos casos, antes de lesarem os outros, estas pulsões lesam a mente do próprio sujeito a partir do primeiro instante em que nela surgem, distorcendo a percepção da realidade, gerando ignorância, insensibilidade e tormento interior. Por isso são objectivamente negativas, independentemente de qualquer doutrina moral ou revelação religiosa.
3. Um olhar desapaixonado e realista sobre o processo e a história da civilização humana, desde os seus primórdios até hoje, não pode deixar de constatar que tudo – a organização social, a ciência, a técnica, a política, a economia, a cultura, a educação e a religião - tem sido predominantemente movido pela ignorância dualista, o apego, a aversão e a indiferença, bem como por todas as suas combinações possíveis, com o resultado evidente, em termos gerais, de a humanidade até hoje sempre ter obtido precisamente o que mais rejeita, o sofrimento, e sempre haver falhado o que mais deseja, a felicidade: prova evidente de que o desejo-apego e a aversão resultam precisamente no contrário do que buscam. As únicas excepções a esta monumental ilusão e fracasso colectivo, habitualmente camuflado com os nomes de “progresso”, “evolução”, etc., são os seres que despertam e se libertam da ignorância dualista e das suas consequências mentais e emocionais: aqueles que nas várias tradições se designam como sábios, santos, etc., e que se consideram mestres espirituais quando à libertação individual acrescentam o amor e a compaixão de continuarem a agir para disso libertarem os outros.
4. Aplicada à questão das sociedades, das culturas, das nações e das pátrias, esta visão constata que nenhuma delas existe em si e por si, com uma identidade e características irredutivelmente próprias. Todas, pelo contrário, apesar de apresentarem singularidades em devir, nascem, vivem e morrem ou metamorfoseiam-se de acordo com as leis fundamentais de interdependência e impermanência que abrangem todas as dimensões do real. Com efeito, quem pode, por exemplo, pensar o que é Portugal separando a sua história e cultura das de todos (ou quase) os povos europeus, africanos, sul-americanos e orientais ? O conceito de identidade nacional é pois, tal como o de identidade pessoal - e sobretudo se pensado de forma essencialista ou substancialista - , uma mera abstracção que em última instância apenas funciona na lógica da ignorância dualista que predomina na mente humana.
5. Tal como acontece quando se extrema a bipolarização eu-outro, o extremar da suposta identidade cultural ou nacional como uma essência única, permanente e independente das demais, leva ao nacionalismo ou patriotismo que potenciam essa ignorância dualista e esses complexos de apego ao que parece ser próprio e de indiferença ou aversão ao que parece ser alheio que já vimos serem as causas fundamentais de insensibilidade, sofrimento e conflito para quem por elas se deixa dominar e para os demais. O nacionalismo ou patriotismo, levando a amar a sua cultura, nação ou pátria acima das demais, é pois injustificável e condenável em termos sapienciais e éticos, sendo incompatível com qualquer projecto de emancipação da consciência e de serviço do bem comum a todos os homens e a todos os seres.
6. Há todavia a possibilidade de se conceber e praticar uma outra forma, não de nacionalismo, mas de patriotismo, o patriotismo trans-patriótico e universalista, que apenas preze, cultive e promova, numa determinada tradição cultural e numa determinada pátria, aquilo que nela houver de melhor, ou seja, de aspiração ao bem comum universal, não só dos homens, mas de todos os seres. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que em última instância aspira a orientar as energias de uma dada nação para que progressivamente se superem todas as fronteiras e barreiras, primeiro mentais e afectivas, e depois institucionais e territoriais, entre todos os povos e culturas, de modo a que a comunidade humana possa expressar o mais possível a estrutura e as leis fundamentais da própria realidade: ausência de id-entidades com características intrínsecas, interdependência, impermanência. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o que aspira a romper o círculo vicioso e infernal em que tem decorrido e decorre a história da civilização humana e a devolver humanidade e mundo ao Paraíso que em si intimamente encobrem. O patriotismo trans-patriótico e universalista é o único que está de acordo com a milenar tradição sapiencial da humanidade e com a ciência contemporânea, convergindo para a verdadeira evolução que é a da consciência e para o verdadeiro progresso que é o espiritual, entendendo por tal o despertar da dualidade que permita ver e sentir o outro como a si mesmo e assim visar a emancipação mental, cultural, social, política e económica de todos os homens e o respeito por todas as formas de vida.
7. Este patriotismo trans-patriótico e universalista é o que encontro no melhor da ideia de Portugal e da comunidade lusófona que – depurada do lastro de muitos condicionantes - interpreto em Luís de Camões, Padre António Vieira, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, para apenas referir os mais destacados. Foi ele, embora ainda informulado e sem a fundamentação aqui apresentada, que inspirou o Manifesto da Nova Águia e a Declaração de Princípios e Objectivos do MIL – Movimento Internacional Lusófono - , cujos textos iniciais redigi e dos quais oitenta por cento ou mais permaneceu nas versões finais. É apenas à luz do patriotismo trans-patriótico e universalista, como projecto fundamentalmente ético-espiritual e só a partir daí cultural, cívico e social, que considero fazer sentido a existência do MIL. Por isso, aliás, propus e foi aceite que as reuniões da Comissão Coordenadora do MIL começassem com alguns minutos de silêncio meditativo, em que cada um se comprometesse consigo ou com o que considerasse mais sagrado a não ter outro objectivo senão o bem comum de todos os seres. Não acredito, aliás, noutra possibilidade de transformação do mundo – a nível cultural, social ou político - que não se enraíze primeiro numa profunda transformação da mente que percepciona o mundo. A grande revolução futura e já presente, em todo o planeta, é a união inseparável da meditação e de todas as esferas da actividade humana, incluindo a económica e a política. Quando digo meditação refiro-me ao simples treino da mente para ver as coisas como são, para além da dualidade, do apego e da aversão, para além do medo e da expectativa, para além do passado e do futuro, no aqui e agora presente. Nada de místico, esotérico ou exótico e que não vem do Oriente porque a mais profunda cultura ocidental, clássica ou cristã, sempre o conheceu. É a redescoberta disso, mais do que qualquer ideologia laica ou religiosa, a grande novidade que cresce hoje como bola de neve em todo o mundo.
Digo e publico isto, no momento em que se prepara uma refundação do MIL, porque tenho hoje fortes suspeitas de que muitos ou a maior parte dos que aderiram a este movimento e nele têm responsabilidades não tenham percebido toda a dimensão do que nele é proposto. A começar por mim próprio.

As palavras são filhas da árvore-Terra: folhas-Sol

"(...)
Viste agora, Amiga,
nascer outra mandala - e as amamos nós, às suas folhas
e elas vão ser a plena liberdade do homem
e a imaginação imperando no mundo e o Paraíso reconquistado
e tão absoluto Amor que todas as filosofias
lhe serão apenas achas de fogo e nele, por Deus, nos consumiremos."
Agostinho da Silva

Ah agora entendi Agostinho da minha Alma,

"Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Em ver-de-novo
Em folha, em graça
Em vida, em força, em luz..."

Como a Mãe-Terra, crio as folhas-palavras receptoras da luz do Sol-Alma que me ilumina, revelando-a, através delas vejo de novo a vida. Elas têm como função traduzir a luz de quem as lê a si mesmo, sendo que o Sol é só Um, é a mesma Luz: somo-la Nós em conjunto.

A Língua Portuguesa é uma árvore, que representa a própria Mãe-Terra, é o Ser, as suas palavras são as folhas através do qual a árvore se comunica consigo mesma, que se dá a ligação entre o Ser e o Estar, entre o Eu e o Outro, entre a Mãe e o Filho. Os filhos da mãe-árvore são, então, inteiramente ela mesma, pois reproduzem a sua capacidade de união contínua entre os opostos que a compõem. As próprias folhas são a Luz do Sol que traduzem:

A Língua Portuguesa é a Nossa Alma, é o Sol, o Sal da Terra.

Agostinho da minha Alma

Apenas para relembrar alguém que ao conhecer, reconheci-me.

"A última -Mensagem-, a que nos abrirá plenamente as portas da glória que serão ao mesmo tempo para o mundo e para fora dele, que serão simultaneamente de tempo e de eternidade, de individual e de colectivo, de santidade estendendo-se na horizontalidade de todo o planeta e na total verticalidade de cada homem, e acabando assim com todas as falsas antinomias, pela sua duração na História, se tinham quase visto como inerentes à própria natureza da Humanidade e do mundo; a última revelação, essa virá de nós para nós mesmos, e ninguém dará por ela a não sermos nós."

"(...) o que ele -Jesus- dizia era bem simples: não que procurássemos fazer das crianças adultos à nossa imagem e semelhança, mas que nos procurássemos, nós adultos, modelar à imagem e semelhança das crianças."
Agostinho da Silva

sexta-feira, 5 de setembro de 2008




"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é"


Caetano Veloso

Sem Título




Se me dissessem que eu podia mudar o mundo,
eu estalava os meus dedos.
Se me dissessem que o mundo não era isto,
eu punha o despertador para mais cedo.
Se me dissessem que tudo o que sinto não é o que sinto,
eu diria que tenho o coração na mão, (na ponta dos dedos).
Se me contassem o que sou,
eu não seria eu.
Se me segredassem o que vejo,
eu não olharia para trás.
Se me revelassem o teu segredo,
eu sentiria saudades do futuro.
Se me concedessem um último desejo,
eu traria de volta o meu Anjo da Guarda.

O céu jamais me dê a tentação funesta

O céu jamais me dê a tentação funesta
de adormecer ao léu, na lomba da floresta,

onde há visgo, onde certa erva sucosa e fria,
carnívora decerto o sono nos espia.

Que culpa temos nós dessa planta da infância,
de sua sedução, de seu viço e constância?

Minha cabeça estava em pedra, adormecida,
quando me sobreveio a cena pressentida.

Em sonâmbulo arriei as mãos e os pés culpados
dos passos e do gesto em vão desperdiçados.

Despi-me de outros bens, de glória mais modesta:
restava-me por fim a minha pobre testa

confundida com a pedra, em meio da floresta.
Que doces olhos têm as coisas simples e unas

onde a loucura dorme inteira e sem lacunas!
Agora posso ver as mãos entrecruzadas

e as plantas de meus pés nas entranhas amadas,
nesse início que é clara insónia verdadeira.

Ó seres primordiais que sois testa e viseira,
restituo-me em vós, sangue e máscara vividos,

desejo de esquecer tempo e espaço existidos;
e em vós e em vossa paz meus solilóquios paro-os,

penetro-me do Verbo em seus silêncios claros,
invisto-me de vós, vossa fronte me espia

através dessa pedra em que nasce o meu dia.

- Jorge de Lima, Invenção de Orfeu, I, XXII, in Poesia Completa, organização de Alexei Bueno, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1997, pp.525-526.

Duas propostas/convites

Car@s Amig@s,

Aqui vos deixo duas propostas/convites:

1 - Conforme ideia recentemente surgida numa das caixas de comentários, proponho a organização de uma Antologia de textos, em poesia e prosa, sobre a Saudade, nomeada desse ou de outro modo, ou sobre o seu sentimento, mesmo inomeado, em português e noutras línguas. Proponho que os interessados vão procurando e seleccionando os textos, para que depois os juntemos e procuremos publicá-los em livro. Peço que incluam as referências bibliográficas completas do lugar onde encontraram os textos. Podíamos fazer um ponto da situação daqui a uns meses e entretanto publicar os melhores no blogue.

2 - Tenho andado a pensar em propor a alguma editora a publicação de uma antologia dos melhores textos originais, em poesia e prosa, publicados neste blogue. Para o efeito, solicito que escolham, dos vossos textos aqui publicados ou a publicar, cinco por ordem de preferência. Claro que não posso assumir de modo algum a garantia da concretização deste projecto nem da publicação de todos os textos escolhidos, o que vai depender de haver uma editora interessada e do volume de adesões a esta iniciativa.

Conto convosco.

Abraços