O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta Escola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escola. Mostrar todas as mensagens

domingo, 5 de outubro de 2008

Compre-ender

"As palavras não fazem o homem compreender, é preciso fazer-se homem para entender as palavras."
Herberto Helder

Podemos ensinar a melhor teoria, dar o melhor conselho, inclusive aquele que já foi por nós confirmado, enquanto aquele a quem o damos não se fizer a si próprio como pessoa, ou se conceber a si mesmo como tal, nenhuma palavra lhe será útil.
Onde se aprende então a Ser pessoa?
Em que escola - da vida? Na escola que nos torna em pessoa que se compra?
Onde está a escola que permite que -a- Pessoa se cumpra?

(30-3-08)

Saúde, Paulo! Neste muito teu, mas sempre Nosso, dia mundial dos professores, nada melhor do que teimar sempre em ser aluno, não fosse todos andarmos na mesma Escola desde o Princípio.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Uma peça de teatro para pensar a vida e a Europa

No início ela está sentada e diz: ainda não estão todos. Podem falar ainda. Depois não vos deixarei. Ela é Beatriz Batarda e é seguramente uma das poucas pessoas com quem fico apaziguada por me mandar calar. Ela está sentada à beira do palco a ver-nos chegar. Como se nos esperasse. O texto que irá representar talvez justifique o que faz quando nos recebe. Uma perna vai para a frente e para trás, como um pêndulo que procura o ritmo ou como um ritmo que a sustém vindo das profundezas do texto. Depois tem os braços em torno da outra perna curvada e vai-nos olhando nos olhos. Um a um, à medida que entramos. O cenário é simples: uma mão gigante desenhada no chão, numa fina alcatifa cinzenta, ou um grande pé, para o caminho que durante 50 anos esta mulher, vestida de homem e de todos os personagens, tem que percorrer para sobreviver.
A peça é um monólogo e Ella Gerricke faz de homem quase desde o início dos vinte e seis quadros que compõem o texto. Ela, Ella Gerricke, faz de homem, o marido que morreu de cancro, porque tem que sobreviver, porque já era pobre, porque a História interrompeu o seu sonho interminável de ser a Branca de Neve. Desde cedo, e para ter trabalho, esta mulher aprende a imitar os gestos masculinos que a tornam controladora de uma grua. Mas não é apenas no trabalho que ela tem que ser homem: na taberna, na rua, entre as crianças, depois com a subida de Hitler ao poder, ela tem que o ser na trincheira, na fábrica, escapar às inspecções e, entre os soldados, escapar ao desassossego das perseguições e excessos de uma sexualidade tão desenfreada e violenta como a da guerra. Prostitui-se, rouba, trabalha nos campos e nas fábricas de plástico que têm sucesso. Ela, Ella Gerricke, tem que matar, tem que sofrer e sofrer e continuar a sofrer sem redenção durante cinquenta anos. Entre certos quadros, Ella, não sabe quem é. E isso enfraquece-a. No texto de Manfred Karge ela está dilacerada e infeliz. Esse enfraquecimento não é do coração. A personagem diz mesmo, para mostrar o carácter orgânico do desconforto, que lhe dói “ali” e “ali” é o estômago. Ela tem fome da vida plena. A vida não saciou a sua vontade de viver e ser. Nesses instantes de consciência de si, Ella evoca a Branca de Neve. Essa evocação é uma invocação de uma dupla infância: a sua e a da Europa de Outrora. Ela não se reconhece nem no fascismo, nem no comunismo, quando trabalha na URSS, nem no capitalismo. Ella não se reconhece na Europa. A limite o texto mostra que não é apenas Ella Gerricke que não tem identidade, é a Europa que perdeu aquela que nasceu na Grécia e vinha insuflada pelo oriente. A dupla evocação é a dupla perda: a da infância de um ser humano, a infância cultural de um continente, a Europa, que se perdeu do mito e das bodas de Cadmo e Harmonia.
Sendo teatro difícil, político e difícil como o são as peças da Cornucópia, penso que essa é a mais fina e subtil relação analógica que o texto nos deixa para pensar: não é só Ella Gerricke que procura a sua infância que não teve. A Europa actual também só se pode rever numa infância que já não faz parte sequer do currículo das disciplinas. A escola já não é o mundo à parte onde as origens se pensavam e ofereciam ao ser de cada um. Da escola podemos dizer, como Nietzsche do teatro de Eurípides, que tem a vida banal do aluno no palco. Os tachos e as panelas, como ridicularizava Aristófanes nas Rãs. No “palco” da sala, como sabemos, não pode nem estar a vida do professor nem a do aluno. Na sala tem que estar o texto. O Outro com quem aprendemos a troca e a humildade, a ética, o diálogo, a verdade, o bem, o belo, muito para além de cada um e da nossa pobres vida. A escola não pode ser o prolongamento da vida que nos torna infelizes: a escola tem que ser a interrupção dessa vida, a emergência da outra, mais alta e sublime, mais elevada e suprema que os autores vislumbraram do pélago que os assombrou.



Era uma vez...

A escola é um lugar de contemplação e da lenta aprendizagem da contemplação, acção superior e excessiva. Agora não há texto na escola. A Europa escreve que é preciso salvaguardar a memória, mas a Europa cria programas escolares que destroem o seu Outrora. Por isso, a identidade dos seres humanos vai construir-se num isolamento sem redenção: sem o seu passado, os seres humanos serão ilhas selvagens, daquelas por onde Ulisses foi deixando os que feria e enganava. Não serão visitados pelas vozes que pensaram e provocaram positivamente as consciências. Nas suas mentes não aportarão Heraclito de Éfeso, nem Tales de Mileto, nem Parménides de Eleia. Os nossos alunos, eles e elas, Eles e Elas, não vão ter narrativas nem poemas para contra-agirem com a sua vida banal e enfraquecida. Gritarão, mais ou menos depressa como Ella Gerricke, dói-me “aqui” e “aqui” é o coração e o estômago da vida, da sua “existência sensível” dilacerada e sem interlocutores, fechada numa mentira incomunicável e corrosiva. Vão encher-se da sua experiência de vida disposta num programa de vídeo, ou num portefólio cheio de vazio sem poesia e sem pensamento.
Ela reconhece-se numa infância que não teve. Como é que alguém se reconhece no que não viveu, mas disso se recorda? No texto que foi distribuído ao público Beatriz Batarda e Carlos Aladro, o encenador, perguntam-nos: “será que acreditar na Branca de Neve é sinónimo de estupidez ou de capacidade de confiar no Homem?”Ella não é estúpida. Os alunos também não. Durante cinquenta anos engana os outros e nunca se engana a si. Mas também não me parece que confie no Homem. Não sei se os alunos confiam nos seus professores. Em alguns, pontualmente. Não sei. Ella Gerricke nem sequer confia nas crianças com que se cruza na vida. Eles, os alunos, nunca foram crianças e também não sabem o que é ser adulto. E, então de novo pergunto-me: que fazia a Beatriz Batarda sentada no palco a ver-nos entrar? Ela espera. Ela, Ella Gerricke, confia no Homem que há-de vir. Essa humanidade, após a Queda do Muro, será a que somos desde já? Ella não espera por Deus. Ella não espera por nenhum Ele transcendente, ou por um Messias redentor. Ella é clara a esse respeito. Já quase no final Ella diz, a olhar para o céu: ao sétimo dia até Ele descansa e olha para o seu mundo de plástico e vê como nos arranjamos. Também Ella resolve descansar e esperar pela Branca de Neve. Neste momento da peça não pude deixar de me perguntar se Ella não era Ele (?). Como nas boas narrativas judaicas. E, caso o fosse, de que estaria Ella à espera? E Ele? Senti que esperavam pelo Homem. Como se afinal não fizesse qualquer sentido falar-se de pós-modernismo, porque não creio que tenha havido qualquer humanismo para morrer, porque o humanismo me parece o movimento por haver, por nascer. A vida é o sétimo dia. Nada garante que Deus, como Ella, depois de terem trabalhado tanto, tenham tido força para continuar. Mas talvez seja nesse descanso dos que sofrem que estes que ficam encontrem a coragem da sua infância para além do tempo e para além do cansaço. Porque a nossa identidade é qualquer coisa que está no Outrora como a Branca de Neve. Amanhã quando receber os alunos estenderei a mão e farei com eles o caminho. Contarei a Branca de Neve e prometo a mim mesma levá-los aos jardins onde as narrativas estancam as nossas dores de “aqui”. Porque é preciso que percebam que quando alguém nos pede silêncio, não nos está a mandar calar, está a construir a paisagem para que muitos possam chegar às nossas vidas famintas e connosco poderem caminhar e cantar o refrão entusiástico de estarmos vivos, depois do sétimo dia. O que só pode querer dizer que cada um pode ser Ele e Ela. Ella Gerricke ensina-nos também isto: há monólogos que são o mais veemente encontro e diálogo. Não ouviu a Beatriz e não o ouvirão os meus alunos, mas quando sentada os vir chegar sentirei que na Terra foram esperados e é por isso que parecerá que descanso e às vezes não os deixarei falar e outras não serei nada para os ouvir quase a gritar “aqui!”. Amanhã vou começar a fazer de professora e, como a Beatriz Batarda ou Ella Gerricke, também espero o Homem e o Humanismo que há-de vir. Porque outra vez quer dizer, ainda e para sempre, era uma vez...