O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 2 de janeiro de 2010

Verde Deserto

Custa-me olhar para trás e ver aquilo que já foi. Parece-me tudo tão longe e distante, que nem me reconheço naqueles momentos. Pergunto mas quem é aquele que por ali se passeia, em episódios de vida sem sentido e de absoluta perdição.

Sim, sentia-me muito perdido. Ou melhor, ELE sentia-se perdido. Na verdade… ele sabe AGORA que estava perdido. Foram momentos sem norte, sem sul, sem eu, sem tu… e sem nós. Sem laços que o prendessem ao que quer que fosse, a quem quer que fosse. Era a independência total, o viver sem compromisso. E correu tudo bem (achava eu,… ele!) , até que parei. Parei, sentei-me no cimo do monte e olhei para aquela vida, para aquele deserto verdejante. Um deserto onde nunca houve sede, nem fome e as provações nunca foram físicas. Onde tudo abundava e tudo era fácil, rápido e imediato. Sim, uma vida em modo «fast food». Uma «fast life».
E de repente surgiu a vontade de me atar em nós e em laços com as coisas e as pessoas; de me envolver, de pertencer, de «estar com». Cansado de estar. Posso agora começar a ser? Posso agora olhar para o meu deserto verde e colorido e guardar a sua recordação num baú sem fundo? Sim, agora. Aqui. Posso? Deixar o verde amarelar pelo sol, secar, tornar-se palha e desvanecer-se no tempo.
Posso?



Texto de Joana Sousa | Fotografia de João Paca
http://olharapalavra.com/

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Uma peça de teatro para pensar a vida e a Europa

No início ela está sentada e diz: ainda não estão todos. Podem falar ainda. Depois não vos deixarei. Ela é Beatriz Batarda e é seguramente uma das poucas pessoas com quem fico apaziguada por me mandar calar. Ela está sentada à beira do palco a ver-nos chegar. Como se nos esperasse. O texto que irá representar talvez justifique o que faz quando nos recebe. Uma perna vai para a frente e para trás, como um pêndulo que procura o ritmo ou como um ritmo que a sustém vindo das profundezas do texto. Depois tem os braços em torno da outra perna curvada e vai-nos olhando nos olhos. Um a um, à medida que entramos. O cenário é simples: uma mão gigante desenhada no chão, numa fina alcatifa cinzenta, ou um grande pé, para o caminho que durante 50 anos esta mulher, vestida de homem e de todos os personagens, tem que percorrer para sobreviver.
A peça é um monólogo e Ella Gerricke faz de homem quase desde o início dos vinte e seis quadros que compõem o texto. Ela, Ella Gerricke, faz de homem, o marido que morreu de cancro, porque tem que sobreviver, porque já era pobre, porque a História interrompeu o seu sonho interminável de ser a Branca de Neve. Desde cedo, e para ter trabalho, esta mulher aprende a imitar os gestos masculinos que a tornam controladora de uma grua. Mas não é apenas no trabalho que ela tem que ser homem: na taberna, na rua, entre as crianças, depois com a subida de Hitler ao poder, ela tem que o ser na trincheira, na fábrica, escapar às inspecções e, entre os soldados, escapar ao desassossego das perseguições e excessos de uma sexualidade tão desenfreada e violenta como a da guerra. Prostitui-se, rouba, trabalha nos campos e nas fábricas de plástico que têm sucesso. Ela, Ella Gerricke, tem que matar, tem que sofrer e sofrer e continuar a sofrer sem redenção durante cinquenta anos. Entre certos quadros, Ella, não sabe quem é. E isso enfraquece-a. No texto de Manfred Karge ela está dilacerada e infeliz. Esse enfraquecimento não é do coração. A personagem diz mesmo, para mostrar o carácter orgânico do desconforto, que lhe dói “ali” e “ali” é o estômago. Ela tem fome da vida plena. A vida não saciou a sua vontade de viver e ser. Nesses instantes de consciência de si, Ella evoca a Branca de Neve. Essa evocação é uma invocação de uma dupla infância: a sua e a da Europa de Outrora. Ela não se reconhece nem no fascismo, nem no comunismo, quando trabalha na URSS, nem no capitalismo. Ella não se reconhece na Europa. A limite o texto mostra que não é apenas Ella Gerricke que não tem identidade, é a Europa que perdeu aquela que nasceu na Grécia e vinha insuflada pelo oriente. A dupla evocação é a dupla perda: a da infância de um ser humano, a infância cultural de um continente, a Europa, que se perdeu do mito e das bodas de Cadmo e Harmonia.
Sendo teatro difícil, político e difícil como o são as peças da Cornucópia, penso que essa é a mais fina e subtil relação analógica que o texto nos deixa para pensar: não é só Ella Gerricke que procura a sua infância que não teve. A Europa actual também só se pode rever numa infância que já não faz parte sequer do currículo das disciplinas. A escola já não é o mundo à parte onde as origens se pensavam e ofereciam ao ser de cada um. Da escola podemos dizer, como Nietzsche do teatro de Eurípides, que tem a vida banal do aluno no palco. Os tachos e as panelas, como ridicularizava Aristófanes nas Rãs. No “palco” da sala, como sabemos, não pode nem estar a vida do professor nem a do aluno. Na sala tem que estar o texto. O Outro com quem aprendemos a troca e a humildade, a ética, o diálogo, a verdade, o bem, o belo, muito para além de cada um e da nossa pobres vida. A escola não pode ser o prolongamento da vida que nos torna infelizes: a escola tem que ser a interrupção dessa vida, a emergência da outra, mais alta e sublime, mais elevada e suprema que os autores vislumbraram do pélago que os assombrou.



sexta-feira, 11 de julho de 2008

Futuro primeiro, Passado depois

Em dia de nevoeiro, escrevo pela primeira vez neste blog.
Lembro-me de ficar a ver o nevoeiro horas a fio, de observar o seu movimento.
É uma experiência engraçada, ver como se movimenta uma massa de água suspensa no ar.

Deixo aos leitores um texto de desejos para o futuro, primeiro, e para o passado, depois.



Que o dia amanheça e escureça,
que a casa tenha porta e janela,
que a luz desça e mostre a cor,
que o escuro não seja nunca o único lugar,
que cada lugar seja de alguém, um dia,
que sempre haja uma espécie de líquido que nos envolva por fora e por dentro,
que o chão que piso seja o tal apoio para as quedas e para os caminhos,
e que os caminhos sejam sempre muitos, mas um só, ao mesmo tempo.



Que de palavras se encham as folhas de papel, livros, blocos, blogues,
que hoje tenha sempre um ontem e um amanhã,
que o amanhã faça o anteontem ter parecido um dia e seja mais do que isso,
que estrelas brilhem no céu, nas ribaltas, nos olhos,
que pulsações sejam sentidas a galope dentro dos peitos deste mundo,
que os sorrisos vindos de dentro se vejam cá fora,
e que o que julgo que sejam sentimentos falem sempre mais alto e, ás vezes, gritem.





Que haja sempre luz daquela que ilumina e nos deixa ver mais claramente,
que os povos habitem os espaços em harmonia,
que o sol permita os regressos e as partidas, mas nunca para sempre,
que possamos ouvir mais sons e emitir menos ruídos,
que gostemos de outros ao mesmo tempo que não gostamos disto ou daquilo,
e que tenhamos tempo para podermos partilhar qualquer coisa com cor, com sabor, com cheiro, aparência, melodia, qualquer coisa que se sinta.





Que espíritos se soltem, dancem e sonhem,
que alguém em conjunto com alguém possa construir,
que toda a construção humana e espiritual, material e imaterial, dê frutos,
que todos sejamos crianças contentes em dias de sol,
que sempre rebentem ondas salgadas aos nossos pés,
que as tempestades por que passamos sejam breves e passageiras,
que as bonanças sejam só as calmarias da alma e do coração,
e que alma e coração possam juntos ser sempre o mais importante das nossas vidas.





Que tenhamos imagens de sobra para ver e lembrar, para mostrar e para fazer de novo,
que um seja sempre equivalente a outro, ou a dois,
que o conjunto e as partes sejam o pé que sustenta o corpo, a mão que abre, o braço que estende,
que o corpo seja um nenúfar e se suspenda na água,
que cada ponto do universo tenha um ponto correspondente,
que objectos especiais tenham lugares especiais ou corações especiais onde habitem,
que cada um tenha uma janela favorita para olhar, para espreitar, para abrir e fechar,
que os olhos vejam sempre mais além, mais por cima das nuvens, mais depois dos montes,
e que nem sempre tudo seja o que os olhos vêem, mas antes o que a alma sente.




O texto original foi publicado no meu blog em Fevereiro.2008
Prometo não me repetir de novo, mas achei que devia começar desta forma.

sábado, 31 de maio de 2008

MAR DE NASCIMENTO

Mar do Mediterrâneo
Um lugar para nascer
Uma passagem
Um voo rente às águas
Um atravessar
Um mar de nascimento
Renascimento, despertar!
Um mar para abraçar.
Um mar para não ser.