quarta-feira, 4 de junho de 2008
Encontro no dia 10 e visita à casa de Teixeira de Pascoaes, no dia 20
Também vos convido para virem a Amarante, no dia 20, visitar a casa de Teixeira de Pascoaes (em São João de Gatão), por volta das 16 h, após o que será lançada também a "Nova Águia" e apresentado o meu livro "Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes", na Biblioteca Municipal de Amarante. Para organizar bem a deslocação, solicito a que todos os que queiram visitar a casa de Pascoaes deixem aqui o seu nome e contacto e os enviem igualmente para o Renato Epifânio: novaaguia@gmail.com / 967044286.
Saudações aquilinas e serpentinas !
todos os versosderramo-os sobre a pele da ausência de que és afinal
da impenetrável a correr de luz e sangue de inquieta e salgada não te ver
palavra
e derradeiro
nos mesmos olhos que se cruzam
nas mãos baças que se perscrutam
tentativas apenas tentativas
porque os dias são escassos para ir ao fundo
a vida mesmo se estendida ao sol nunca se desnuda da treva
e afinal és tudo
cada gota do tempo sorvida sem lábios ou língua
cada traço do desejo na areia rutilada de serpentes
e és o gume na língua cravado no acto de dizer o desfazer das preces
só serapilheira de encher buracos de treva nos leitos a arder onde o amor se consente
tudo
até a maresia com que vens na tarde equestre
até os silvos da noite nas certezas crestadas do sol no poente
até o quase a beira transbordante da plenitude
e no fim já te sabia
O homem nasce realmente fantástico e torna-se fantasticamente real
(Adaptado de Agostinho da Silva)
|Enquanto não se der por ele, continua-se a viver uma realidade fantasiada em vez de uma fantasia realizada.|
terça-feira, 3 de junho de 2008
Pequenos pensamentos
Não adies a tua vida para o depois dela; não sejas um sonho, irreal.
Não penses, liberta-te; liberta-te da barreira da normalidade, aventura-te, vive.
Pensa apenas que quando estiveres prestes a morrer quererás que tenha valido a pena.
Sê corajoso; busca a tua liberdade.
Vive.
«Epístola do Sol à Lua Crescente» - Recriação

Tu és Enxofre eu sou Mercúrio. Ardo nos teus raios, dissolvo-te na minha Luz. De ti as marés nascem. Em ti deposito os filhos das mulheres que esperam por ti para nascer. Tu és minha, eu sou teu. Tu és o Sal da primeira Água. Sem ti, Mercúrio não poderia existir. Eu sou o Fogo, tu és a Água.
O selo de Salomão selará nossos lábios. O Ouro vivo será o Um, o Dois e o Três. O Sal fixa-os, a Saudade eterniza-nos. Dessa mistura surgem todos os múltiplos Seres do mundo. Onde houver uma Estrela, estará também o meu Nome.
Does, then, the ecological challenge not offer a unique chance to reinvent the 'eternal Idea' of egalitarian terror?"

Donna Haraway (...) Lembro-me de uma discussão com um colega pós-graduando sobre o que era uma célula. Eu argumentava que, num sentido muito profundo, a célula era o nosso nome para processos que não possuem fronteiras que não dependam da nossa interacção. Por outras palavras, as fronteiras são o resultado da interacção e da nomeação. Não é que o mundo tenha sido «inventado», que não existam células, mas sim que o termo descritivo «células» é um nome para um tipo de interacção histórica, e não o nome de uma coisa em si mesma.
TNG O que é que o seu colega achou?
DH Que eu era louca. Mas não estou a falar de abstracção. (…
* A diffraction is the effect that occurs when something interferes with the direct course of light, the difference that occurs. It is not a reflection, replication, or displacement of the same elsewhere. It is something that makes a difference, a process of change. definição de Lynn Randolph)
O que procuramos no amor senão uma iluminação, uma soberania, um apocalipse ?
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Agradecer: as estrelas do mar

A mulher caminhava, afinal, para dentro do vento e vinha do mar. Desolada. Cansada. Rastejava. Os braços abriam-se e fechavam-se, marcavam os tempos, trazidos pelo ufanar das asas dos anjos; não procurava, não escolhia, não via. Como se os seus braços não tivessem mãos, os seus olhos fossem cegos, o corpo não pesasse na sua marcha pelo areal, e ela fizesse um caminho irreal. O cansaço fosse uma película com que o vento cobria o corpo, mas não os braços, quais asas, cumprindo uma promessa arrastada desde o princípio dos tempos e orlada como o fio de ouro da eternidade. Numa mulher assim não se pode falar de rosto. O rosto é sem traços. É uma declaração da noite, uma aparição da treva e da esperança. Porque uma esperança bem guardada é como um céu nocturno sem estrelas. Guarda-as para a orientação própria. Uma esperança partilhada é uma impossibilidade ontológica. Só a alma individual se orienta na escuridão e no inaudível. Nessas condições, ela nada podia comunicar que fosse visível e escutável aos que se crêem não ser surdos nem mudos.
Adentrando-se na voracidade mais audível do vento, na sua expressão não só mais intensa como rápida, diríamos na sua irritação suprema, a mulher sentiu uma breve e suave comichão nas asas. Uma picada breve, mais sentida devido à ausência de penas, do que à agressividade da mesma. As suas asas acabavam de ser travadas, o seu ritmo abrandado pela presença, pela descoberta de uma estrela-do-mar. Mínima, dir-se-ia, imperceptível aos que são videntes. A estrela evidenciava algumas dessas características que os outros seres do mar e da praia revelavam: estava escondida, sobreposta, era irreconhecível. Não estava partida. Era um signo intacto.Um signo capaz de preencher a esperança desta mulher cega e sem logos.
Arquivou-a junto ao seio esquerdo. Como se acrescentasse o sentido ao som repetido pelo coração e, depois do que apareceu num rosto nocturno ser um esgar humano semelhante ao sorriso, retomou a marcha, o seu semi-voo na vasta e imponderável indefinição de mar e praia.
A razão pela qual a arquivou não é uma certeza. Ela reconheceu-a pelo toque, pelo contacto cego. Não por uma apurada inspecção, pela consulta de algum velho compêndio de papel ou mental. Arquivou-a no corpo porque o seu corpo arcaico, sobrevivente ao Éden pensado e não ao Éden criado, o seu corpo nem humano nem angélico, era o último vestígio de um pensamento de Deus, de um esboço provável para o que viria a ser a humanidade sem mal. Nesse sentido, o seu corpo seria mais antigo do que a biblioteca de Alexandria, e não guardava livros ou folhas de papel. O seu corpo guardava todos os pensamentos de Deus, antes da criação do homem, até ao homem, depois do Apocalipse. Ninguém o sabia. Nem ela.
Suavemente erguida, mas indireccionada ora pela rebentação das ondas, ora pela reverberação inquieta do vento, a mulher perdia as pequenas penas brancas da sua velhice incontável. Os que passarem na praia, depois dela tomá-las-ão, por penas de gaivotas desavindas, alvoraçadas na declaração da tempestade. Mas os que assim pensarem são apenas criaturas do mundo visível e ignorantes da convivência cósmica entre seres e entre tempo e eternidade, entre o humano e o divino.
Ora fosse por já ter perdido muitas, ora fosse por ser, inversamente aos humanos, nua, de novo a mulher foi acometida pela mesma dor na asa. Repetiu os mesmos gestos. Não por serem formas mecânicas de reacção, mas por serem intuições esperadas, preparadas por uma sabedoria em que a eternidade a educou. Desta vez, a estrela-do-mar, pequenina mas perfeita, foi deposta no seio direito. Sem certeza desta vez, como da primeira, o seu rosto inexpressivo como a noite sem luz, suspirou. O seu corpo despediu-se do cansaço. As suas asas fecharam-se, uniram-se não para a frente, como se rezando esperassem a aparição frontal de Deus, mas para trás. O vento cessou e Deus, sem mais motivo para se perpetuar irado, abraçou-a com cuidado. Naqueles cujo poder se pensa ilimitado, o abraço é sem força. É, afinal, a carícia na qual morreu todo o poder. O amor é, por isso, como suspeitámos, a carícia sem poder.
Nesse instante o seu rosto revelou-se. Os olhos sem cor tinham e davam a ver a extensão e o fundo sem fundo do mar, do seu nariz expulsavam-se as redolências do Paraíso e da sua boca entreaberta as palavras sagradas com que Adão nomeou os primeiros seres.
Deus perguntou-lhe como se sentia, que tinha guardado. Ela retirou com um zelo extremo as estrelas. Deus disse-lhe:
-Foram as primeiras que pensei.
Ela chorou para que as estrelas ganhassem a vida em que foram pensadas. Deus indagou com ternura:
- Como te sentes?
Ela respondeu:
-Bem. – Sentindo que os que esperam voltam sempre ao lugar de onde se perderam.
E Deus, assentindo, e recebendo da mão direita da mulher as duas estrelas confessou.
-Também espero, com alguma impaciência na turbulência do vento e do mar, que as outras criaturas que descobrem na sua humanidade a divindade, na arqueologia dos elementos, descubram os seres com que preenchi, sonhando, a Terra e as ideias com que organizei a alma dos homens.
E, depois sentou-se a soprar vento e enrolar ondas no mar.
Este é a asa em que escondo o grito, le crie entraîne la mère.
domingo, 1 de junho de 2008
Sobre a glândula pineal
"When I carefully seek out, in deepest anguish, some strange absurdity, an eye opens at the top, in the middle of my skull. This eye opening up onto the sun in all its glory, to contemplate it in its nakedness, privately, is not the work of my reason: it is a cry escaping from me. For at the moment when the flash blinds me I am the splintering brilliance of a shattered life, and this life - agony and vertigo - opening up onto an infinite void, bursts and exhausts itself all at once in this void."
Dennis Hollier - Against Architecture
Muito obrigada ao mamada_man pela sugestão do artigo da Wikipedia sobre este assunto.
Notas sobre António Quadros (a partir da leitura da sua obra)
O homem concreto é hoje um homem desconhecido. Desconhecido porque se ignora. Desconhecido porque não se lhe não concede o tempo necessário para se conhecer e emergir. Porque não se lhe admite a diferença. Porque se recriminam as suas questões, o seu lado subjectivo: as suas leituras, os seus estudos, as suas perguntas mais profundas, em suma, o seu lado invisível e a sua diferença interior: «(…) e a cortina deste esquecimento desce sobre nós (…) começamos a moldar as palavras, as formas, as cores, as ideias, numa contradição flagrante entre actuar e ser.»[2] E o que fica do que somos? Do nosso lado verdadeiro, sincero e profundo nada conhecemos. Do nosso plano individual, nacional e universal nada alcançamos. De nós mesmos nada sabemos. E o jovem pensador de hoje? O poeta e o homem de espírito? Enquanto criador, atento às profundidades existenciais, mas também voltado para o real que o envolve, perdido ele próprio num movimento de massas uniformizado, e por isso limitado, se quisermos, angustiado, à procura de si mesmo, quando tudo lhe indica o oposto que se lhe opõe, que se lhe recusa, que se lhe foge. (...)
um segredo:
ter-te é perder-te
singrarmos
sangramento
sofrimento
largarmos a arder pelas veredas sonâmbulas de sermos nós
mesmo que no instante
gume cortante e repetido
porque partir é o salto na mão do sonho
no alto dos cumes
no centro da treva que há onde nos procuramos
sempre que queremos ser o que se mente
na saudade quando perdida de todas as ilusões que bradam ecos de termos sido
perder-te
no próprio acto de possuir o coração da noite
entre as sombras as cinzas e os medos
se o vento vem de dentro
trazer arrepios e vazios à roda solta de mais além
com as entranhas do mundo em convulsão
vergastadas de tédio e alvenaria de tempos idos
e o cheiro a incenso que o ar consente
tudo
até o reverso da solidão no lado intentado da pele
mesmo que aberta em flor e rastros de luz que passou de repente
até isso
é nunca te ter tido
no futuro de não seres tudo o que não te é para que sejas
A Nova Águia dirige-se para Sul
No forno alquímicoA pedra liberta o fogo
do Espírito.
Perguntas potencialmente incómodas no Dia Mundial da Criança
Porque será que a vulnerabilidade e a dependência são tantas vezes representadas como estados "angelicais"?
Porque será que insistimos em representar as crianças como "inocentes" e "puras", quando elas exibem, tantas vezes com orgulho, uma crueldade que na vida adulta continua a ser exercida, mas com "luva branca" e sob um manto hipócrita de subtileza e boas maneiras?
Porque será que os adultos congratulam tanto as crianças por estas estarem constantemente em vias de o deixar de o ser, e as apressam a entrar num mundo que todos eles lá no fundo se revoltam por terem sido obrigados a entrar pelas leis da Natureza e da sociedade - O dos adultos?
Porque será também que os adultos tantas vezes tendem a mostrar o seu próprio mundo de uma forma idealizada às crianças, engolindo todo o "veneno" que este acarreta?
"Que bom que gostas tanto de ler, Sara. Quando fores grande, hás de ser uma grande advogada como teu tio X e assim seres uma senhora muito importante que ajuda muita gente." - Diz um pai bem-intencionado à sua filha, sobrinha de um jurista especializado em ajudar empresas a fugir ao fisco.
"Pedro, estás um homenzinho, cada vez mais bonito e parecido com o teu pai. Espero que sigas os seus passos." - Diz a mãe divorciada e ainda amargurada.
"Ó vizinha, a Joana já é mulherzinha. Ondem manchou as cuecas pela primeira vez." - Diz a mãe a altos berros na varanda, ainda a recuperar de uma histerectomia provocada por dois miomas, indiferente ao corar de vergonha da sua filha, à beira das lágrimas por ter a sua intimidade assim exposta.
"é preciso muito caos interior para parir uma estrela que dance"

O tempo vai minguando no seu infinito abstracto,
esmagado por aglomerações flutuantes mas determinadas
no percurso promíscuo de sons e satélites únicos
que irão diminuir em compassos de ampulheta mutilada –
quando o germe adoecer e fôr engolido pela criação –
constelações irão desfalecer em fontes e regorgitar este
jogo multifacetado sob a forma dum camarão marinho
que suspirou e fez bolhinhas no fundo dos oceanos,
perdido entre brumas de aguda aglutinação primordial,
como a essência da força da gravidade num abismo.
Ouço sinos da tal voz indolente em tom revolucionário
com respostas de beleza utópica e acordes usados
ante o ramo duma oliveira, caroço maçã mosquito ou rosa
que explique todos os trauteares, basta agir ao olhar e ler
pureza sentida a fazer efeito, expandir-se austera
para lá dos horizontes do conhecimento dos morangos,
entre as inevitabilidades extremistas da memória
a razão imagina-se nas trocas intrínsecas respirando
mas, nada tudo foi porque do nascimento não nos lembramos,
são questões apenas segredadas diariamente sem cor.
À medida que letras se unem, conjuram e sucedem-se
criam raciocínios inerentes ao anterior último
e pintam, com a língua, seu próprio caminho invísivel
em comunhão com o escorregar de folha caída na relva sintética
como avalanche ansiolítica, atropelamento mútuo
de genético esquecimento, bisturi obsessivo por
lutar, existir em simultâneo com o acontecer de todos
os acasos que propagam e sorriem e encontram-se e
em magia transformam-se, seguindo o frémito necessário
e original, somente vislumbrável na unicidade anatómica.
No mundo em que fui cuspido muita teoria já cá vive e
verdadeiras pequenas descobertas perdem-se às recentes,
sob autoriedade empedrada do pós-bacharelato que nos cega,
prende a castração em coro às demagogias dum bem-comum de
entretenimento que não ajuda ninguém e, impede de esvoaçar
até ao ilimitado harmónico onde reflectirás atempadamente,
na companhia de borboletas parecidas, sobre os mistérios
da Natureza que admiramos e com quem queremos passear a
morte de criar nova pele doutro deus trabalhador, buracos negros
rodeados de palmeiras, cascatas e impossibilidades inexistentes.
Um é o número triangular que adormece vacas e vegetais
ao vogarem com códigos de barras instintivos no coração,
pretendem violentar visões na doçura territorial da sede
apreciando, sem dúvidas, o prazer fulcral do momento presente,
enquanto inspiram subjugamos, dispersando ebriedade constante
no corpo-cobaia, através dos devaneios da invenção das raças
trocam corridas homicidas na livre pradaria sub-sariana
por assentos, carros confortáveis e pastiches no centro comercial,
invejosos por não terem esperneado essa consciência ociosa
dirigida pela parabólica bolorenta do mesmo remoto fabricante.
Qualquer putrefacção procriada provém do sentimento imediato
cuja beleza intragável, é de tão onírica expressão que, só não será
fútil para a calmia do sismo emocional contido na insegurança
interior das contradições amargurantes que todos perseguem
com tormentos cinzento-gelado, relances de calor e mal-entendidos,
nesse ritmo das ancas erectas devemos aproveitar cada fímbria de verde ou
a predisposição sonhada nunca se construirá em narrativa, enquanto a
juventude ingrata propaga reverente e segrega regra contra o virus da velhice,
graças a ocasionais hábitos de revelações banais de sujas sagitárias,
desde o egoísmo do adeus até à plenitude permanente do remorso.
O barulho, toque do movimento é semelhante ao sabor
duma cereja a desabrochar como flôr amarela, felina no tojo
à deriva por entre a turbulência de vingativas ondas gigantes
na adrenalina de atingir uma ilha pacífica sem chá elitista,
onde nada se paga, ninguém corrompe sacro suor e trai
seus companheiros por miseráveis assoares bubónicos, são
mentes já obscurecidas por iates e bijutarias reconhecíveis, mais
todas suas divinais e dolorosamente omnipresentes expressões
fictícias de vida, lá longe o chocar dum ovo soa ao gemido duma orca
abandonando, comovida, as raízes sugadoras na solidão das árvores.
Minha família veio dum cometa televisivo, tal como quando
o baço exclama ao aspirar tocar no céu astral banalizado
e, nos lembramos da alforreca que a custo sobreviveu,
comendo-se a si mesma, pelo plâncton pré-fotossintético
que a engasgou, perto do centro, antes da primeira maçonaria
evaporar, contentou-se sendo lenda e originar missas modernas
que publicitam ser mais reais que signos luzídios, detêm
no cerne do seu seio de desejo mais antiquado e mal gasto,
este fumo de especiaria excedentária que hipnotiza a prescrever
insanamente, brincadeiras fugazes de quereres e consequências.
Observo os melros, bancos de jardim com cartas e copos de bagaço
comodistas, displicentes, arrogantes sãos afogados em mágoas
e doenças antigas que já só sentiram, desaparece o dia noctívago
sem calma, sem entusiasmo, sem esforço, no riso criticamos clones
desinteressados pelo sentido conhecido e sem atenção pela entidade,
deixa-se passar mais esta almofada como não se devia ter feito antes
e morre-se a acordar noutra geração sem reencarnação, quem afirma
peca obrigando o receio a recompôr rápido tanto defeito de fantasmas
falaciosos, atafulhos rasgados em lúxuria e poder d’intervenção impune
cravando a estaca na destinada estrela que sempre irá suspirar chão.
Ou então, fechemos as asas e olhos à informação masterizada
e vamos deixá-los tropeçar em ilusões de sorrisos simples
que atingem altas velocidades longe do asfalto conspurcado,
de mãos dadas com a chuva libertadora do fogo que assusta
e pariu o tempo, tal qual O zero vazio que contêm a luz ciclíca,
atordoante dádiva de vozes expectantes neste vórtice animalesco
incapaz de se rebaixar à condição de estar quieta na bicicleta,
aceita precisar mais querer perder-se no que abençoa, como
a trajectória inevitável dum beijo humano destinado a alado local
sem palavras, influenciado por todas as poeiras ocasionais
deste polivalente erro premeditado, a triunfante charada atómica
confluí na imagem de duas plantas numa, fodendo N0 pedestal.
sábado, 31 de maio de 2008
MAR DE NASCIMENTO
Mar do MediterrâneoUm lugar para nascer
Uma passagem
Um voo rente às águas
Um atravessar
Um mar de nascimento
Renascimento, despertar!
Um mar para abraçar.
Um mar para não ser.
Para a Isabel Santiago, com um sorriso de Parabéns do tamanho de não o haver !
Le passage à l'autre monde définit le passage au monde in illo tempore.
Monde non pas ab origine mais premier royaume du Jadis pur"
- Pascal Quignard, Abîmes, p.160
Libertação de Deus
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Jardim III
A realidade
Suave é viver só.
Vê de longe a vida.
Mas serenamente
Ainda Eckhart e Longchenpa, lançamento da Nova Águia e de "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido"
Fica também o renovado convite para o lançamento da "Nova Águia", amanhã, dia 31, pelas 17 h, no Palácio Pombal, Rua do Alecrim, em Lisboa, onde será também lançado o meu último livro, "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido" (Zéfiro)(aforismos, fragmentos e provocações, sobretudo a mim próprio, mas também a todos vós), apresentado pelo Jorge Telles de Menezes, poeta, ensaísta e eminente tradutor da língua alemã.
"Sopra-te. E atravessa cantando a ilusória solidez do mundo"
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Depois dos Jardins
Trabalho de Mariana e Fábio "Comment peut-on être angéliqueEnfant, si tu veux être un ange, tu peux l'être tout de suite:
Et comment? Ils vivent toujours dans l'inconfort"
Silesius, Le Voyageur Chérubinique, II, 167
&
" Ce qu'est l'humanité
Tu demandes ce qu'est l'humanité?
Je te le dis: c'est la surangélité."
Silesius, Le Voyageur Chérubinique, II, 44
Jardins I e II
.jpg)
"...quão formosos são teus pés nas sandálias
filha de príncipe
as curvas dos teus quadris parecem colares
obra das mãos de um artista
teu umbigo uma taça redonda
que o vinho nunca falte
teu ventre monte de trigo
cercado de lírios
teus seios dois filhotes
gémeos de gazela
teu pescoço torre de marfim
teus olhos as piscinas de Hesbon
junto às portas de Bat-Rabim
teu nariz como a torre do Líbano
voltada para Damasco
levanta-se tua cabeça como o Carmelo
e teus cabelos côr de púrpura
um rei trazem cativo dos seus laços
como és bela como és desejável
amor em delícias
semelhante à palmeira é o teu porte
cachos de uvas são teus seios
Pensei vou subir à palmeira
vou colher dos seus frutos
sejam teus seios cachos de uvas
o hálito da tua boca perfume de maçãs
tua boca guarda o melhor vinhoque na minha se derrama
molhando-me lábios e dentes".
Cântico dos Cânticos, Quinto Poema, VII

O que é a Religião? Notas várias
Feuerbach em "A essência do Cristianismo".
A religião pura, originária e, provavelmente, única verdadeira, é a que vem de dentro da mente de quem a tem, que coincide perfeitamente com as suas crenças mais profundas acerca da origem e do ser da realidade - qual a sua origem? O que é, para mim, a realidade? -, sendo impossível, tautologia, um humano acreditar em algo em que não acredita. Quero com isto dizer que, provavelmente, sendo que cada pessoa tem a sua própria visão do mundo, semelhante e dissemelhante das outras, tem, também, a sua própria religião: relação de si com tudo, acto de se religar ao todo. Não podendo ser todas verdadeiras, as diferentes religiões (seis biliões?) têm, contudo, todas elas, algo de verdadeiro, na medida em que nada melhor do que a interioridade justamente para se expressar, imageticamente, ou conhecer-se.
Feuerbach escreve que Deus é a objectivação do humano, a essência de Deus a essência humana, à qual foram retiradas as características consideradas desagradáveis, portanto, uma idealização da essência humana: o bem, a virtude, o poder, a justiça, não o mal, o vício, a impotência ou a injustiça. Assim, aparentemente, poderíamos dizer que o humano se conhece a si mesmo. Porém, a religião originária, como o próprio autor frisa, revela-se, principalmente, na oração, e a oração é não apenas o pedido de ajuda para enfrentar os males do mundo mas, também, como surpreendemos por exemplo em Agostinho, a expressão, objectivação, de uma quase angustiante vontade de conhecer e de, principalmente, conhecer-se. Dado isto, poderíamos dizer que o humano não sabe se se conhece a si mesmo, vive na dúvida, pensa que há sempre mais, desconhece.
E, assim, dizemos que o grande desejo do religioso, o sumo, é conhecer-se. Deste modo, a pergunta primeira, última, essencial, da religião é: quem sou eu?, que pode ser dita de outro modo, desligada de eventuais referências à história de vida de quem se interroga: o que sou eu? A questão evoca o desejo, a ânsia, que o humano tem em conhecer o seu fundo, aquilo que está primeiro, a fonte, a origem, pois julga qúe é aí que se encontrará... à sua essência, aquilo que é mais profundamente, verdadeiramente: a verdade acerca de si.
Esse fundo é Deus, muito especialmente o hindu, Brahman-Atman, visto que a expressão refere, simultaneamente, algo que a pessoa não é, porque a pessoa é um ser particular no espaço-tempo, com uma história de vida, distinto da origem, etc., e algo que a pessoa é, porque é, em última instância, essencialmente aquilo, verdadeiramente aquilo, no fundo aquilo: não poderá não sê-lo, tal a natureza da ligação umbilical à Nave-Mãe, tal a natureza da Natureza. Nesse sentido, todos somos o incriado e não poderemos não sê-lo.
A religião é a tentativa de percorrer o cordão umbilical até à origem. E, embora possamos encetar o caminho através deste mundo, da contemplação que convida à viagem, a origem, o fim, não está neste mundo, é transcendente, invisível, é longe, é fora, é para lá, é além e, provavelmente, se o víssemos, teríamos de ir para lá dele, porque é essa a nossa Natureza, eis a da imaginação, querer ir para lá do dado, querer criar mundos, viver insatisfeitos, escapar, dominar ou não dominar, escolher, ser plenamente livre, um produto da imaginação, sem constrangimentos: ser Deus: livre, liberdade.
Assim, a pergunta "quem sou eu?" esconde a pergunta "por que é tudo assim?" que, por sua vez, esconde o desejo "quero ser livre". Deste modo, as duas perguntas resumem-se na seguinte: por que não sou livre? E, dada a imaginação, perguntamos: serei livre? "Desejo ser livre": por que não procurar, então, a liberdade? Eis o valor/ideal supremo que subjaz à religião pura (e purificada da superstição), a liberdade. Talvez por isso a essência de Deus permaneça um mistério, indefinida, sem propriedades... para ser plenamente livre, até da própria liberdade.
Assim, o religioso põe como Princípio aquilo a que aspira; mas não só por razões subjectivas ou de satisfação pessoal, como Feuerbach decerto pensaria, mas pela própria questão objectiva de que o Princípio tem de estar para lá das leis, sejam elas, por exemplo, físicas ou lógicas, não podendo nós, no entanto, justificar este pensamento supondo a liberdade do Princípio, tendo, então, de encontrar o caminho que nos indique que elas têm de ter sido criadas ou que Ele não é elas e é-lhes anterior e superior. Estou a escrever isto de uma Biblioteca e o tempo de uso do computador está a acabar e, por isso, não escrevo mais, publico-o.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Cenas do quotidiano
Rossana deita-se ao comprido. O seu pêlo é um entrançado branco por onde os fios de luz se intensificam. É uma espécie de primeiro cão do mundo. Olho para ela e penso que ela atravessou todas as idades, todas as eras, todas as casas dos homens. O crepúsculo é tal e qual como se estivéssemos no Outono mais denso, os tons amenos e belos, de uma tranquilidade lúcida, pura. Mas há uma luz. Uma luz intensa mas velada, uma atmosfera liquefeita, com a água solta, liberta do seu âmbito, intuitiva. A Rossana tem a pequena bola cor de laranja junto ao focinho, entre as patas. Está ali como no início de tudo. Mexo-me na cadeira, há um som. Rossana olha-me, de repente ela. Estou sentado no quintal, leio. É como se as palavras fossem o movimento de Deus, uno e distante. Reparo que o charro se apagou. É necessário acender outro fósforo. Meus pais não imaginam que faço isto. É por isso que o faço agora. Acendo o fósforo. Eis que a Rossana olha para mim e é ela mesma e todos os cães ao mesmo tempo, a dupla face do signo. Os animais são os seus nomes por inteiro, vivem na combustão inicial do fogo, trazem a translúcida quietação de tudo. Recosto-me, paro de ler. O fumo eleva-se. Penso que os meus amigos estão no vórtice das suas vidas, tal como eu. Curioso como nunca reparo nas flores do quintal. Estão em vasos que alguém, um dia, moldou. As flores são a mais delicada manifestação de vida. E ao mesmo tempo, a mais fortemente fundada no espaço. Irremovíveis, as suas raízes fundem-se com a terra. Agora que penso nisso, as flores são também o ser vivo mais propenso à levitação. Não o voo furtivo dos pássaros, não, a fluidez mais tensa do vento, a dança demiúrgica do estar sendo. A impossibilidade de repouso. Os pássaros têm os seus ramos de árvore, os seus cabos eléctricos onde abrigar. As flores vivem no eterno mover do mundo, etéreas e telúricas, sem síntese, só paradoxo. A Rossana pressente um barulho lá fora. Levanta-se. O charro apagou-se de novo.
Os três tipos do religioso e um comentário a propósito de "A essência do Cristianismo"
"A essência do Cristianismo" é uma leitura importante não tanto no seu aspecto demolidor dos mistérios do Cristianismo, mas na medida em que poderá ajudar-nos a construir uma religião mais natural, menos inconsciente, guiar-nos na prossecução da nossa sabedoria em relação aos nossos desejos mais recônditos e a nós próprios e, também, libertar-nos da tirania do eu, de nós em/para nós. Afinal, depois deste autor, quem é o verdadeiro Deus? Qual o Deus que poderemos procurar tanto dentro como fora de nós, pessoal e impessoal, subjectivo e objectivo...? Deus do cientista e do religioso, fim sem fim de uma busca... direccionada... interior e exterior, racional e contemplativa, princípio e fim sem fim desejado...
O mundo antes e depois de Feuerbach
De "Naked Lunch" (William S. Burroughs)
"I deplore brutality," he said. "It´s not efficient. On the other hand, prolonged mistreatment, short of physical violence, gives rise, when skillfully applied, to anxiety and a feeling of special guilt. A few rules or rather guiding principles are to be borne in mind. The subject must not realize that the msitreatment is a deliberate attack of an anti-human enemy on his personal identity. He must be made to feel that he deserves any treatment he receives because there is something (neveer specified) horribly wrong with him. The naked need of control addicts must be decently covered by an arbitrary and intricate bureaucracy so that the subject cannot contact his enemy direct."
p. 19, edição de 2001, Grove Press: New York
terça-feira, 27 de maio de 2008
A busca de Deus e a busca do Eu
segunda-feira, 26 de maio de 2008
credo
Acredito na altíssima origem dos reis.
Acredito na encarnação dos augúrios.
E no voo e no pasto dos auspícios.
Acredito no pressentimento dos cães
E nas pessoas cozidas depois de mortas.
Acredito na ritualização das leis.
Acredito na sagração da nobreza.
Acredito nos homens sentados num altar.
Em busca do dharma perdido-esquecido
Deus: a razão de Deus.
A razão de Deus: inescrutável.
II - Epifanias e Avatares
Ele é vermelho-sangue, pois o seu corpo é Sangue
Fita-nos, através do seu azul-olhar, deitado, aparecido
Adormecido e acordado, assustado (e assustador) e ternurento (e triste)
Repleto de sexualidade e castrado: Animal Racional
Inominável surpresa, desaparecida - outra ilusão? Desilusão
Após a abertura dos portais do tempo, o Ser liberto da morte
Contempla o verdadeiro dharma: Eterno Retorno
O coração pula, intensamente, tudo é finalmente-primeiramente a alegria e o saber
E queremos dizê-lo, levantamo-nos do nosso leito, "Descobri, descobri! Eu sei a verdade, conheço a solução!"
Até que as simples palavras, a simples frase que tínhamos se dissipa
E, então, percebemos que magicamente perdemos-esquecemos a verdade
Que desconhecemos o caminho, e vivemos mundos para voltar a abrir a porta
Cujo nome-visão esquecemos por entre uma espécie de estranha confusão-convulsão.
III - Do mundo ao mundo transcendido - duas notas solares
Silêncio: êxtase do espaço-tempo.
Praia: o lugar da Utopia.
Triste condição a nossa, a condição humana
Todo o amor por um ser existente, incluindo Deus, contém em si uma vontade de poder que o consome e destrói o amante e o amado.
Todas as amizades partem do pressuposto que o amigo, para o ser, tem de nos reflectir a nós mesmos e se encaixar em formas de comportamento que achamos "normais" na nossa insanidade. O sinal de que estamos a "sair dos eixos" e que a amizade está em risco é quando o amigo passa o tempo todo em que estamos juntos a tentar convencer-nos a pensar e viver segundo o que ele pensa que é melhor para n´so, ou vice-versa.
Em qualquer realização humana que implica a participação num grupo ou reconhecimento por parte de outrém, o saber fazer um sorriso vápido, bater as pestanas, fazer uma voz falsamente meiga, fingir modos que reflectem uma certa sub-cultura, ou, acima de todo, saber alimentar o ego de quem tem o poder de nos reconhecer ou enxotar para a obscuridade tem muitíssimo mais relevo do que as nossas competências, capacidade de trabalho e qualidade da nossas realizações. Pois a própria noção de qualidade é relativa e depende do quanto o ego de quem reconhece se sente reconfortado pela nossa presença.
Por essa razão, é muito provável que, mais cedo ou mais tarde, as escolas e universidades se esvaziem de quase toda a filosofia e ciência, excepto aquela que é estritamente necessária para a manutenção do sistema e sobrevivência na "selva" das interacções humanas, e se transformem em fábricas de camaleões sociais.
A verdadeira filosofia e ciência são mais venenosas que o Antrax.
Uma cabeça que pensa por si mesma é a mais perigosa das armas de destruição maciça.
É preciso, acima de tudo, encontrar a chave que nos liberte destas relações de circunstância e nos abra a porta para o céu aberto da autenticidade no pensar, no sentir, no relacionar-se e no produzir. O preço da posse dessa chave é nos tormarmos marginais.
Algumas dicas sobre a forma e a localização dessa chave;-)?
domingo, 25 de maio de 2008
Eckhart e Longchenpa, lançamento da Nova Águia e de A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido
Fica também o convite para o lançamento da Nova Águia, no próximo Sábado, dia 31, pelas 17 h, no Palácio Pombal, Rua do Alecrim, em Lisboa. Aí será também lançado o meu último livro, A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido (aforismos e fragmentos), apresentado pelo Jorge Telles de Menezes, poeta, ensaísta e eminente tradutor da língua alemã. Deixo-vos com o texto da contra-capa e espero-vos por lá, no esplendor da in-ex-istência.
Escrevo. Para iluminar o Inferno. Tu, que lês, comigo para sempre arderás nas trevas da luz infinita.
És o que há de mais precioso em todo o infinito universo. E por não o suportares tanto te prezas.
Busca o que mais temes, beija-o na boca e sê feliz para sempre !
Este livro é o diário de bordo da viagem instantânea e infinita entre o antes e o depois de haver alguma coisa. O diário da experiência do que se não pode dizer, com todas as suas potências e possibilidades, todos os deuses, demónios, labirintos e abismos, todos os sagazes vislumbres e furiosos arrebatamentos que se acoitam nisso a que se chama existência e vida. O surpreendê-lo na anulação da distância, na palavra súbita e mínima, incandescente ou transida do impossível que incarna.
Na verdade este livro não existe, nunca começou a ser escrito e nunca cessará de o ser. Porque quem o escreve não é só quem julgas, mas, simultaneamente, tu próprio e Todo o Mundo-Ninguém. Aqui dialoga a presença com a ausência, aqui ressoa a presença-ausência, aqui canta a Saudade. Pois em tudo irrompe o mesmo fundo sem fundo da universal metamorfose, a mesma serpente que a tudo abandona como peles da nudez que para além de si e de tudo se empluma.
Este livro é um dos seus rastos. Não tentes segui-lo, pois o que importa é que te libertes, dele, de tudo e de ti. Que agora mesmo te dispas e morras e, neste preciso instante e lugar, ressuscites proclamando a todas as coisas o seu e teu eterno Despertar.
sábado, 24 de maio de 2008
"... do Alguma coisa ao Nada"
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Cavalo alado em azul infantil

Misticismo e Racionalidade
Deus e Filosofia
Histórias com Imagens - O Dragão
Imagem retirada de Filatelicamente.onlineO poder deste animal reune as características de vários outros e comunica com os elementos. «O dragão protege a “pérola da noite”, que é suposta possuir virtudes miraculosas contra a doença. Os dois ramos que saem da “pérola da noite” simbolizam os raios luminosos. O dragão é o seu guardião.»
P.S. 1 Que o dragão possa proteger os que sofrem, os que são perseguidos por qualquer razão ou sem razão.
P.S. 2 Que o dragão ganhe asas e leve esta mensagem aos quatro cantos do círculo que é o mundo.
Histórias com Imagens - A Serpente e a Águia
Imagem de selo retirada de Filatelicamente.onlineo Cavalo

“O cavalo é a montada, o veículo, do homem peregrino, conduzindo-o por entre as escarpas das vastidões terrenas. Ele representa a sensualidade e a emoção, estando muitas vezes conotado precisamente com o elemento Água. Ele é a força fecundante. No Bhagavad-Gita, os cavalos são associados aos sentidos que é necessário primeiro, apurar e adestrar, e depois, dominar- para a glória do espírito.
Frequentemente o cavalo assume uma simbologia de purificação e de transcendência espiritual - quando sugere, justamente, a necessidade de dominação das forças inferiores e crónicas.”
quinta-feira, 22 de maio de 2008
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Eu, a Pedra e a Montanha somos Um - Mito do HighLander

Este é o Mito do HighLander que eu ilustro com o relato sumário da última caminhada Ben Nevis acima e abaixo. (HighLands, Julho 2005)
Primeiro, foi o meu sorriso, convencido da benevolente quietude e beleza da Montanha.
Os primeiros passos quase não os senti, nem em mim, nem na Montanha. Levitava ou voava, o corpo em desmaterialização com uma receptividade inocente como se não soubesse o que o esperava. Ou se o sabia, não se adiantou no tempo como acontece nos presságios. No céu, algumas nuvens levitavam no azul, e os raios de sol prometiam a imensidão. Uns leves chuviscos salpicavam o meu contentamento com mais ânimo e à medida que subia, mais claro e mais amplo se tornava o vale com o rio a serpentear pelos sopés.
O vento, já presente em brisa na partida, começou a agitar-se com repentinos sopros e mais fortes, com chuva. O terreno crescia mais acidentado e pedregoso. Andar é fixar o olhar no chão, um exercício tenso de esvaziamento. Anelante e cinzenta, uma camada de nevoeiro cobria agora o céu não deixando antever a mínima expectativa de distância do cume. Por sua vez, e mais cedo do que davam a entender, as nuvens, como que densas cortinas, transmudavam o colorido do vale em passado. Agora tudo era estreito, não havia nada para ver com os olhos de fora, a imensidão? só na memória ou em algum paraíso imaginado, o verde e o horizonte teriam sido uma ilusão...
Finalmente o frio a expulsar todos os vãos desejos de conquistar o cume, se os havia, e a extrair a quintessência do pulsante Propósito da Viagem. A dor e a imobilização das mãos trouxeram-me emoções de impotência, que durante alguns instantes, longos, me dominaram e desnortearam. No entanto, em momento algum me ocorreu voltar para trás, e tão-pouco continuar a subir foi um acto de valentia. Foi um percurso iniciático.
O cume seria alcançado no sopé do regresso, lugar das alturas que os pés não tocam e que só é vislumbrado pelo espírito do Highlander que vê a montanha, a missão e a si próprio como um só.
Uma reflexão sobre a filosofia
Na verdade, ao contrário de Nietzsche, não creio que os factos fundamentais da existência humana sejam a saciedade, a força, tudo o que possamos apelidar de bom, porque o filósofo era, afinal, um moralista, mas a fome, a sede, a fraqueza e o enfraquecimento, a doença e o sentimento de impotência, o desconhecimento e a fina percepção do acaso, enfim, a necessidade. Concordo, porém, com o filósofo, na medida em que considero que, de facto, o ser humano não tem culpa pelos seus actos, porque não pediu para nascer, nasceu no desconhecimento e na errância, não sabe por que está aqui, como se tivesse nascido de um ovo posto por um qualquer demónio cartesiano.
Contudo, acredito na existência de Deus, embora não saiba como Ele é: se é bom, se é mau, se não é bom nem mau, se é consciente ou inconsciente, enfim. Penso que a filosofia, que mais não é do que o filosofar, consiste justamente na tentativa de apreensão desse ser originário, fontal, que é mística e intuitiva. Mística, porque visa a união do sujeito que pensa com o objecto pensado; intuitiva, porque mais do que pensá-Lo através de conceitos, palavras, linguagem verbal, o sujeito tenta pensá-Lo através de algo para o qual a melhor metáfora é a da imagem, usando, portanto, a imaginação.
Neste sentido, penso que a filosofia é a actividade humana que tem as propriedades de ser, simultaneamente, religião, ciência e arte. Religião, porque toda a sua actividade se foca em Deus; ciência, porque todo o objectivo da sua actividade é conhecer o que se desconhece; arte, porque toda a sua actividade é criativa. Resta dizer, porém, que, enquanto religião, não tem o seu fundamento na fé, senão na intuição primeira de que o mundo tem uma origem; que, enquanto ciência, não é empírica; que, enquanto arte é, no máximo, arte conceptual, não porquanto malabara conceitos, mas dado que labora com imaginações-intuições puras.
Mas... de onde nasce a filosofia, o filosofar? Os manuais não têm pejo em afirmar, seguindo as tradições platónica e aristotélica, que o filosofar nasce do espanto, da aporia, da insolubilidade de problemas, de questões que o humano coloca à Natureza. Penso que, mais do que nascer da aporia, o filosofar nasce da intuição primeira de que o mundo tem uma origem, seja ela qual for, o que for, que, por sua vez, nasce do amor, ainda que muitas vezes recôndito, nas profundezas da alma, que o humano sente pelo Cosmos, amor esse que nasce da consciência do belo e, especialmente, do sublime, físico - como uma flor, uma paisagem, o vento - ou meramente mental - como a consciência do tempo, do espaço enquanto espaço. Daí, por sua vez, talvez nasça a aporia que, porém, mais não é que um sintoma.
O filosofar não é uma actividade argumentativa que visa descobrir verdades que nunca serão descobertas, senão numa sua versão espúria e muito em voga, que remonta a Parménides, aquando da viragem lógica do filosofar, actualmente praticada pelos chamados filósofos analíticos, que tratam principalmente de assuntos mundanos e pouco transcendentes - enquanto o filosofar visa o transcendente, o que está além, na medida em que é abertura-aventura. Alguns desses assuntos podem até ser importantes, como sejam os da Bioética, embora sejam assuntos de especial importância prática, não obstante o facto de serem especiais não os dotar de especial valor ou interesse filosófico.
O filosofar não é nem a actividade argumentativa referida no parágrafo anterior, nem um corpo de conhecimentos, embora se possa construir um corpo de conhecimentos a partir das experiências que os vários filósofos têm tido ao longo dos séculos, na senda do seu objectivo. Esse objectivo constitui, justamente, o filosofar: a apreensão mística intuitiva do todo. Esta actividade, que assim mais parece um palavrão, tem, por si e como é, todo o interesse público, porque é ela que vai permitir a existência de uma sociedade melhor, mais (e acima de tudo) preocupada em minorar o sofrimento humano e em aumentar o prazer. Querer transformá-la, como de resto tem sido transformada a partir de Parménides, por génios como Platão ou Aristóteles, e raridades subsequentes, numa eterna perpetuação pastosa de um pensar egocêntrico, inconsequente e exibicionista, é, mais do que uma negação, um crime. Mais do que um crime, uma estupidez.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Inscrições e Promonições
domingo, 18 de maio de 2008







