O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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segunda-feira, 14 de julho de 2008

domingo, 1 de junho de 2008

Notas sobre António Quadros (a partir da leitura da sua obra)

(...) O homem concreto é hoje um homem desconhecido. Predomina o especialismo e triunfa o homem abstracto. Triunfa o novo homem bárbaro, como já anunciara José Ortega y Gasset, ou o homem sem aura, no sentido benjaminiano, o homem incapaz, inapto, porque sendo apenas um profissional, especializado na actividade profissional que exerce, não tem ou não consegue ter, ideias para além do seu ofício. A especialização e os efeitos perniciosos da tecnologia no homem, a absorção de tudo o que é estrangeiro, sobretudo americano, contribuem para a degradação da experiência e para a perda de sentido. A sociedade é hoje recreativa. «A grande indústria está a infantilizar a sociedade. As crianças comportam-se como adultos, e os adultos querem divertir-se como crianças. A bem do consumo.»[1] Essa perda de sentido, onde o homem sem ideais é reduzido ao geral e ao artificial, sem consciência cultural, conduz-nos para uma sociedade onde predomina a produção, onde triunfa a igualdade, o «homem economicus», o homem sem ideia de espaço e de tempo, e onde o “ter” e não o “ser” nos surge quase como a única característica existencial que nos une, como o único elemento de partilha, de conversa e de encontro e como o único sinal visível, ou verosímil, de existência de cada um de nós. Proliferam os computadores e multiplicam-se as televisões, os telemóveis e todo o tipo de tecnologias que ao se interporem entre as pessoas, ao invés de as aproximarem as afastam, e o resultado é a simplificação generalizada, a formatação dos conhecimentos e o recuo do sentido no pensamento.
O homem concreto é hoje um homem desconhecido. Desconhecido porque se ignora. Desconhecido porque não se lhe não concede o tempo necessário para se conhecer e emergir. Porque não se lhe admite a diferença. Porque se recriminam as suas questões, o seu lado subjectivo: as suas leituras, os seus estudos, as suas perguntas mais profundas, em suma, o seu lado invisível e a sua diferença interior: «(…) e a cortina deste esquecimento desce sobre nós (…) começamos a moldar as palavras, as formas, as cores, as ideias, numa contradição flagrante entre actuar e ser.»[2] E o que fica do que somos? Do nosso lado verdadeiro, sincero e profundo nada conhecemos. Do nosso plano individual, nacional e universal nada alcançamos. De nós mesmos nada sabemos. E o jovem pensador de hoje? O poeta e o homem de espírito? Enquanto criador, atento às profundidades existenciais, mas também voltado para o real que o envolve, perdido ele próprio num movimento de massas uniformizado, e por isso limitado, se quisermos, angustiado, à procura de si mesmo, quando tudo lhe indica o oposto que se lhe opõe, que se lhe recusa, que se lhe foge. (...)

[1] Andrade, Rui, A sociedade Recreativa, Revista Actual, Expresso, 29 de Dezembro de 07
[2] Quadros, António, A angústia do nosso tempo e a crise da universidade, Lisboa, Cidade Nova, 1956, p. 23

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Notas sobre António Quadros

A propósito de «Ficção e Espírito»*, de António Quadros
A auto-biografia

(...) Porquê a auto-biografia? Porque ela é a possível autenticidade. A impossível verdade. Porque nela se procura a súmula do escritor-autor, porque é a verdadeira existência a exprimir-se e a revelar-se depois da vida, depois do erro, depois da obra. Já não é o livro a construir-se, é a lucidez a confessar-se, é a suma existencial a dizer-se. (...)
*(Livro de António Quadros, de 1971, ainda ensaístico mas entrecortado de páginas memoralistas.)