O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 13 de junho de 2009

"Os seres humanos estão constantemente a sonhar ", Don Miguel Ruiz



Otto Rapp, "Shaman Portrait"


"Viver é fácil, se o fizermos de olhos fechados,
compreendendo de forma errada tudo o que vemos..."

John Lennon



DOMESTICAÇÃO E O SONHO DO PLANETA

O que você está a ver e ouvir neste momento não passa de um sonho. Você está a sonhar neste preciso momento. Está a sonhar com o cérebro acordado. Sonhar é a principal função da mente, e ela sonha vinte e quatro horas por dia. Sonhamos quando o cérebro está acordado e também sonhamos quando o cérebro está adormecido. A diferença é que, quando o cérebro está acordado, existe uma moldura material que nos faz perceber as coisas de forma linear. Quando dormimos, não temos uma tal moldura, e o sonho tende para mudar constantemente.
Os seres humanos estão constantemente a sonhar. Antes de nascermos, os que viveram antes de nós criaram um enorme sonho exterior a que chamamos sonho da sociedade ou sonho do planeta. O sonho do planeta é o sonho coletivo de biliões de sonhos pessoais menores, que, juntos, formam o sonho da família, o sonho da comu-nidade, o sonho de uma cidade, o sonho de um país, e, finalmente, o sonho de toda a humanidade. O sonho do planeta inclui todas as regras da sociedade, as suas crenças, as suas leis, as suas religiões, as suas diferentes culturas e formas de ser, os seus governos, escolas, acontecimentos sociais e feriados.
Nós nascemos com a capacidade de aprender como sonhar, e os seres humanos que nasceram antes de nós ensinam-nos a sonhar da forma que a sociedade sonha. O sonho exterior possui tantas regras que, quando um novo ser humano nasce, captamos a atenção da criança, introduzindo tais regras na sua mente. O sonho exterior usa a mamã e o papá, a escola e a religião para ensinar-nos a sonhar.
A atenção é a capacidade que nós temos de discernir e focalizar-nos apenas naquilo que queremos apreender. Podemos apreender milhões de coisas ao mesmo tempo mas, fazendo uso da atenção, podemos manter qualquer uma delas no primeiro plano da nossa mente. Os adultos à nossa volta captam a nossa atenção e, pelo processo de repetição, colocam essas informações na nossa mente. Esta foi a forma através da qual aprendemos tudo o que sabemos.
Utilizando a atenção, aprendemos toda uma realidade, todo um sonho. Aprendemos como comportar-nos em sociedade, em que acreditar e não acreditar, o que é aceite e o que não é aceitável, o que é bonito e o que é feio, o que é certo e o que é errado. Tudo isso já lá estava - todo este conhecimento, todas estas regras e conceitos sobre como comportarmo-nos no mundo.
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Foi assim que aprendemos quando crianças. As crianças acreditam em tudo o que os adultos lhes dizem. Concordamos com eles, e a nossa crença é tão forte que o sistema de crença controla todo o nosso sonho de vida. Nós não escolhemos essas crenças, e poderíamos ter-nos revoltado contra elas, mas não tivemos a força suficiente para levar a cabo tal rebelião. O resultado é rendermo-nos às crenças com nosso acordo.
Chamo esse processo domesticação de seres humanos. E, por via desta domesticação, aprendemos como viver e como sonhar. Na domesticação humana, a informação do sonho exterior é fornecida ao sonho interior, criando o nosso sistema de crenças.
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A domesticação é tão forte que, chegados a um determinado ponto na nossa vida, já não precisamos que ninguém nos domestique. Estamos tão bem treinados que passamos a ser o nosso próprio domesticador.

Don Miguel Ruiz, “Los Quatro Acuerdos – Un libro de Sabiduría Tolteca”,
Ed. Urano, Barcelona, 1998, págs. 10-14