O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Se eu pudesse fecharia todos os Zoológicos do mundo" - Homenagem a José Saramago

Otra vez el genial José Saramago, Premio Nobel de Literatura en 1998, vuelve a golpear en nuestras conciencias, soñando claro y fuerte con un mundo mejor al que se enfrenta tan sólo armado por la razón. Un mundo de respeto, más justo con las personas, pero también con los animales, el paisaje y todo lo que nos rodea.
Su último aldabonazo es en contra de los zoológicos y los espectáculos de circo con animales. Lo hace para defender algo tan aparentemente anecdótico como la vida de Susi, la pobre elefanta deprimida del zoológico de Barcelona de la que ya os hablé la semana pasada.
Os pongo a continuación el principio de su artículo Susi, publicado el paso 19 de febrero en su muy recomendable blog personal El cuaderno de Saramago, una dura crítica a estos centros de reclusión de animales que deberían cerrarse cuanto antes. Gracias maestro.
...

Si yo pudiera, cerraría todos los zoológicos del mundo. Si yo pudiera, prohibiría la utilización de animales en los espectáculos de circo. No debo ser el único que piensa así, pero me arriesgo a recibir la protesta, la indignación, la ira de la mayoría a los que les encanta ver animales detrás de verjas o en espacios donde apenas pueden moverse como les pide su naturaleza. Esto en lo que tiene que ver con los zoológicos. Más deprimentes que esos parques, son los espectáculos de circo que consiguen la proeza de hacer ridículos los patéticos perros vestidos con faldas, las focas aplaudiendo con las aletas, los caballos empenachados, los macacos en bicicleta, los leones saltando arcos, las mulas entrenadas para perseguir figurantes vestidos de negro, los elefantes haciendo equilibrio sobre esferas de metal móviles. Que es divertido, a los niños les encanta, dicen los padres, quienes, para completa educación de sus vástagos, deberían llevarlos también a las sesiones de entrenamiento (¿o de tortura?) suportadas hasta la agonía por los pobres animales, víctimas inermes de la crueldad humana. Los padres también dicen que las visitas al zoológico son altamente instructivas. Tal vez lo hayan sido en el pasado, e incluso así lo dudo, pero hoy, gracias a los innúmeros documentales sobre la vida animal que las televisiones pasan a todas horas, si es educación lo que se pretende, ahí está a la espera.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

amar o mundo

"tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida : ' o mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.' assim mesmo eu estava lá"

josé saramago, as pequenas memórias

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Esfera Armilar - Consumismo: a nova religião

"Outra leitura para a crise"

"A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?"

- José Saramago, in O Caderno de Saramago.

Há algum tempo que abordo esta questão, de modo mais desenvolvido, nas aulas de "Filosofia da Religião". Na verdade, crentes ou descrentes, raros são os que se furtam a uma nova religião inconsciente: o consumismo. Novos sacerdotes, em complexos, múltiplos, obscuros e ocultos níveis hierárquicos, concebem e produzem as novas e sedutoras divindades, produtos, bens, serviços. A revelação e o anúncio da salvação é feito pela nova profecia e pelos novos profetas, publicidade e publicitários. Como recompensa do sacrifício do tempo, do trabalho e da conta bancária, e primeiro que tudo da inteligência, trocada pela crença de que assim se vai ser feliz, as novas divindades, completamente patentes e disponíveis, sem qualquer mistério, descem dos novos altares, as montras, ecrãs e catálogos, para oferecerem o êxtase imediato e efémero da sua posse. Que logo deixa o devoto insaciado e cada vez mais sequioso, como se bebesse água salgada para se dessedentar. Porque ignora não ser isso que no fundo busca e não ser aí que o pode encontrar.

Outros comportamentos e sucedâneos neoreligiosos facilmente se constatam, no futebol, na política, no rock. Tudo, tal como nas religiões tradicionais ou nos espiritualismos new-age, por se imaginar que algo falta possuir, ou que algo falta acontecer, para se ser o que todos queremos ser: felizes.

É demasiado evidente para se reparar nisso. Como é demasiado evidente que, enquanto este novo e mais profundo obscurantismo dominar as mentes e as multidões, haverá sempre um tipo de poder e de economia, de degradação do mundo e da vida humana que impossibilitará qualquer transformação profunda a nível social e político. No fundo para que trabalhamos todos nós, todos os dias, senão para sustentar e reproduzir isto? E quem chegará ao poder senão por e para sustentar e reproduzir isto? Quem poderá mudar isto do exterior, por decreto? E quem poderá mudar esta mentalidade, a nível colectivo? Quem reconhece e desmonta a ilusão que tudo move?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A propósito dum comentário a despropósito dum descomentário a certo, digamos, poema dum certo Nobel, digamos que "português” talvez incerto


Não será de todo inútil comparar - com o que, para Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, seja o mais fundo sentido de escrever - aquilo que um tal de Nobel, glória provavelmente muito meramente fortuita, diz do “acto” (diz ele) de escrever.
Se não, vejamos:

Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(...) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias(...)”

José Saramago, “A jangada de pedra


Escrevendo, cedo apenas a uma necessidade espiritual de revelação ou confissão. Cumpro uma lei da vida

Teixeira de Pascoaes, “São Jerónimo


À minha sensibilidade cada vez mais profunda, à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma acção sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização, vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante coisa, mais terrível missão – dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador-de-civilização de toda a obra artística. E por isso o meu próprio conceito puramente estético da obra de arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim mesmo muito mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito”.

Fernando Pessoa, “Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues”, citado por António Quadros, “Fernando Pessoa – A Obra e o Homem” vol. I, Editora Arcádia, Lisboa, 1981, pág. 146 e seg.

Qualquer coincidência é impura semelhança!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais."


Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

José Saramago,
in "Os Poemas Possíveis"
Lisboa, Caminho, 1999