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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Leitora do Silêncio
(Pintura de Franz Becker-Tempelburg (Alemanha, 1876 — ?
óleo sobre tela, 61 x 61 cm)
(Gentilmente dedicado a todos os "Serpentinos" - incluindo a Fausta -
(c) Om o desejo de uma Páscoa Feliz.)
Ilumina as palavras até que desapareçam
Só então as lerás na combustão dos lírios.
Ler é ampliar o Silêncio, torná-lo eterno.
Expandido e implodido na alquímica flor
do verbo e do sentido.
Cega a luz comburente dos astros
Desapareces do outro lado do jardim.
No avesso anverso dos versos
Deixas de ver. Já não és o que és.
Apareces mais tarde, diligente,
A fechar a luz à noite queimada.
terça-feira, 19 de abril de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Laboratório do Alquimista,
(in Amphitheatrum Sapientiae Aeternae, de Heinrich_Khunrath, 1595)
Se houver um palácio sem porta, talvez seja a porta.
Se houver uma casa sem tecto, talvez seja a casa.
Natália Correia, "Elegia dos Amantes Lúcidos",
in Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pág. 159.
Etiquetas:
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núpcias químicas,
poesia
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Amor fidelíssimo
("Um pouco, e não mais me vereis; outra vez um pouco, e ver-me-eis")
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
Luís de Camões
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amor,
luís de camões,
poesia
terça-feira, 27 de julho de 2010
Poema Pessoa
O poema entranha na pessoa
Entranha tanto que até cola
E põe-te à coca numa boa:
Estranha poesia na tola!?
Entranha tanto que até cola
E põe-te à coca numa boa:
Estranha poesia na tola!?
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Ressurreição II
(nova versão do poema "Ressurreição" que lerei hoje, com a música de Vítor Rua e o video de Ilsa D'Orzac, no espectáculo "A Arte na era do porquinho Babe", às 23 h, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa)
Gemem nos infernos da terra desolada
corações oprimidos negros esmagados
Revolvem-se no circo de dor do mundo
vidas escravizadas esfoladas torturadas devoradas
Natureza viventes esventrados e abatidos
Para gáudio da humana desmesura
Murmuram suspiram gemem gritam
Assim gememos e gritamos nós
pois tudo nos é íntimo
e somos afinal nós mesmos
que ignaros e ávidos atormentamos e abatemos
Defuntos infantes de uma Terra Pura
erramos no limbo da matriz que violamos
e são nossas próprias formas que vorazes e ledos devoramos
Nossos o abrir fechar de todos os olhos bocas
a fome sede de todas as gargantas
a volúpia de todos os sexos
o pulsar de todos os corações
a cega ânsia dos viventes
por algo apenas obscuramente entrevisto e pressentido
Suas raízes as nossas
febris veias sinuosas
afundando-se e serpenteando silenciosas
nas auroras negras que há por dentro das coisas
a revolver o âmago de tudo em insónias e espantos
espectros lentos que sobem à tona
chamas surdas que crepitam e crescem
a lavrar o íntimo da imensidão
que tarda em amanhecer
Ó turba que adias o despertar
da rumorejante e dolorosa noite do haver!
Sepultos no âmago dos mundos
alucinados assomamos aos berços aos afagos aos rostos
ao riso às lágrimas aos gritos
à faminta aurora do existir
aos sepulcros caiados do que parece
ao delírio do nascer e morrer
e assim rondamos na roda do desejo
que a própria boca sempre outra beija
e o alucinado devir sem fim fecunda e renova
Mas o que sempre agora e instante, ó Irmãos, vem
por entre este murmurante e tépido renovar do mundo
por entre este amoroso halo que às coisas nimba
por entre estas ridentes e floridas núpcias de tudo
por entre estas danças cantos coroas grinaldas
é outra coisa
É a vera verdade prima
Primavera do despertar que nunca conheceu sono
o eterno vivente na orla sem margens do existir
que ressuma da ânsia da terra queimada
e do silente sufocado gemido das vidas e das coisas
O que cresce do fundo de o não haver
e em cada um de nós se faz visão alento corpo
no súbito estremecer de tudo
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
é mistério maior que o haver mundo
mistério maior que o haver
tal qual maior que todo o mistério
É o jamais termos sido reais ou possíveis
o jamais ter havido alguma coisa
e sequer a ideia de haver
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
a trespassar toda a ilusão dor e morte
é a eterna e instante Ressurreição
de nada jamais ter início, duração e fim
e assim, mas de outro modo
oblíquo, fulgurante e maravilhoso
tudo ser afinal e sempre possível
O que agora se celebra e canta é este prodígio natural
de nada ser um e só
esta revoada de fauces bocas mãos asas patas pêlos escamas
que, ígneas pombas bravas, do imo de cada poro
em adamantinos ímpetos se nos elevam
e súbito se transmudam em miríades de vidas outras ignotas loucas impossíveis
a multiplicarem-se ébrias das infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há no esplendoroso vazio de tudo
Ó turbamulta cascata vertigem abismo
de tudo quanto passado presente futuro
viveu vive viverá
e aqui agora simultaneamente vive imagina pensa sente
Ó multiforme turbilhão de tudo quanto sem acontecer acontece
de tudo o que se agita raiva revolve
em dor júbilo medo esperança
no fundo sem fundo
da terrível e fantástica inconsciência disso
É esse o grande tumulto que aqui agora
neste e em todos os cantos
neste e em todos os poemas
dos fundos da terra queimada
e da tortura dos viventes desponta
O grande clamor das árvores mirradas retorcidas sedentas
o grande clamor dos vivos mortos desatentos esquecidos
rompendo eras mundos paraísos infernos
em rebentos viços e seivas novas
Das árvores nossos corpos amotinados insubmissos amantes
estendendo grandes ramos
vigorosos braços pulsantes
em filigrana ao espaço cingidos
Nossos corpos uns aos outros abraçados enxertados fundidos
humanos animais divinos
multiplicados em folhas flores frutos
espontaneamente jovens e maduros
explosivos de tão plenos tão frementes tão puros
E neles todos os sonhos alucinações delírios
todas as vidas todas as mortes
todas as lágrimas todas as fezes todo o sangue
todo o furor toda a impotência
toda a fome toda a sede todo o cio
todos os encontros todas as perdas todas as despedidas
todo o ranger de dentes todo o tactear às escuras
todas as alegrias todos os pasmos todos os júbilos
todas as esperanças todos os desenganos
todo o vício toda a virtude
todos os crimes todas as expiações
todos os infernos todos os mundos todos os céus todos os paraísos
Tudo isso e o seu rotundo nada
o seu imenso vazio a sua prodigiosa evanescência
em cada fruto brilhante e pleno que da miríade de nossos ramos pende
imperioso e súbito se avoluma até eclipsar o espaço
e neste mesmo instante em torrencial vertigem de luz explode
Branco
Vermelho
Negro
.........................................
Agora pode enfim haver mundo
sonho eternamente livre de o ser
Todos os vivos fluxos infantes sem nome pais pátria morada
Todos os fenómenos danças cantos hinos jogos
Todos os sons poesia muda
Todos os pensamentos invisíveis asas
omnipresentes no infinito espaço que não há
Todas as coisas
Ressurreição de as haver
Todas as coisas
Ressurreição
de a haver
Gemem nos infernos da terra desolada
corações oprimidos negros esmagados
Revolvem-se no circo de dor do mundo
vidas escravizadas esfoladas torturadas devoradas
Natureza viventes esventrados e abatidos
Para gáudio da humana desmesura
Murmuram suspiram gemem gritam
Assim gememos e gritamos nós
pois tudo nos é íntimo
e somos afinal nós mesmos
que ignaros e ávidos atormentamos e abatemos
Defuntos infantes de uma Terra Pura
erramos no limbo da matriz que violamos
e são nossas próprias formas que vorazes e ledos devoramos
Nossos o abrir fechar de todos os olhos bocas
a fome sede de todas as gargantas
a volúpia de todos os sexos
o pulsar de todos os corações
a cega ânsia dos viventes
por algo apenas obscuramente entrevisto e pressentido
Suas raízes as nossas
febris veias sinuosas
afundando-se e serpenteando silenciosas
nas auroras negras que há por dentro das coisas
a revolver o âmago de tudo em insónias e espantos
espectros lentos que sobem à tona
chamas surdas que crepitam e crescem
a lavrar o íntimo da imensidão
que tarda em amanhecer
Ó turba que adias o despertar
da rumorejante e dolorosa noite do haver!
Sepultos no âmago dos mundos
alucinados assomamos aos berços aos afagos aos rostos
ao riso às lágrimas aos gritos
à faminta aurora do existir
aos sepulcros caiados do que parece
ao delírio do nascer e morrer
e assim rondamos na roda do desejo
que a própria boca sempre outra beija
e o alucinado devir sem fim fecunda e renova
Mas o que sempre agora e instante, ó Irmãos, vem
por entre este murmurante e tépido renovar do mundo
por entre este amoroso halo que às coisas nimba
por entre estas ridentes e floridas núpcias de tudo
por entre estas danças cantos coroas grinaldas
é outra coisa
É a vera verdade prima
Primavera do despertar que nunca conheceu sono
o eterno vivente na orla sem margens do existir
que ressuma da ânsia da terra queimada
e do silente sufocado gemido das vidas e das coisas
O que cresce do fundo de o não haver
e em cada um de nós se faz visão alento corpo
no súbito estremecer de tudo
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
é mistério maior que o haver mundo
mistério maior que o haver
tal qual maior que todo o mistério
É o jamais termos sido reais ou possíveis
o jamais ter havido alguma coisa
e sequer a ideia de haver
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
a trespassar toda a ilusão dor e morte
é a eterna e instante Ressurreição
de nada jamais ter início, duração e fim
e assim, mas de outro modo
oblíquo, fulgurante e maravilhoso
tudo ser afinal e sempre possível
O que agora se celebra e canta é este prodígio natural
de nada ser um e só
esta revoada de fauces bocas mãos asas patas pêlos escamas
que, ígneas pombas bravas, do imo de cada poro
em adamantinos ímpetos se nos elevam
e súbito se transmudam em miríades de vidas outras ignotas loucas impossíveis
a multiplicarem-se ébrias das infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há no esplendoroso vazio de tudo
Ó turbamulta cascata vertigem abismo
de tudo quanto passado presente futuro
viveu vive viverá
e aqui agora simultaneamente vive imagina pensa sente
Ó multiforme turbilhão de tudo quanto sem acontecer acontece
de tudo o que se agita raiva revolve
em dor júbilo medo esperança
no fundo sem fundo
da terrível e fantástica inconsciência disso
É esse o grande tumulto que aqui agora
neste e em todos os cantos
neste e em todos os poemas
dos fundos da terra queimada
e da tortura dos viventes desponta
O grande clamor das árvores mirradas retorcidas sedentas
o grande clamor dos vivos mortos desatentos esquecidos
rompendo eras mundos paraísos infernos
em rebentos viços e seivas novas
Das árvores nossos corpos amotinados insubmissos amantes
estendendo grandes ramos
vigorosos braços pulsantes
em filigrana ao espaço cingidos
Nossos corpos uns aos outros abraçados enxertados fundidos
humanos animais divinos
multiplicados em folhas flores frutos
espontaneamente jovens e maduros
explosivos de tão plenos tão frementes tão puros
E neles todos os sonhos alucinações delírios
todas as vidas todas as mortes
todas as lágrimas todas as fezes todo o sangue
todo o furor toda a impotência
toda a fome toda a sede todo o cio
todos os encontros todas as perdas todas as despedidas
todo o ranger de dentes todo o tactear às escuras
todas as alegrias todos os pasmos todos os júbilos
todas as esperanças todos os desenganos
todo o vício toda a virtude
todos os crimes todas as expiações
todos os infernos todos os mundos todos os céus todos os paraísos
Tudo isso e o seu rotundo nada
o seu imenso vazio a sua prodigiosa evanescência
em cada fruto brilhante e pleno que da miríade de nossos ramos pende
imperioso e súbito se avoluma até eclipsar o espaço
e neste mesmo instante em torrencial vertigem de luz explode
Branco
Vermelho
Negro
.........................................
Agora pode enfim haver mundo
sonho eternamente livre de o ser
Todos os vivos fluxos infantes sem nome pais pátria morada
Todos os fenómenos danças cantos hinos jogos
Todos os sons poesia muda
Todos os pensamentos invisíveis asas
omnipresentes no infinito espaço que não há
Todas as coisas
Ressurreição de as haver
Todas as coisas
Ressurreição
de a haver
quarta-feira, 2 de junho de 2010
POST-SCRIPTUM
I
Mais pourquoi de leur cendre évoquer ces journées
Que les dédains publics effacent en passant?
Entre elles et ce jour ont marché douze années :
Oublions et la faute et la fuite et le sang,
Et les corruptions des pâles adversaires
-Non. Dans l'histoire il est de noirs anniversaires
Dont le spectre revient pour troubler le présent.
II
Il revient quand l'orgueil des obstinés coupables
Sort du limon confus des Révolutions
Où pêle-mêle on voit tomber les incapables,
Pour nous montrer encor ses vieilles passions
Et hurler à grands cris quelque sombre horoscope
. -En observant la vase aux feux d'un microscope,
On voit dans les serpents ces agitations.
III
S'agiter et blesser est l'instinct des vipères;
L'homme ainsi contre l'homme a son instinct fatal :
Il retourne ses dards et nourrit ses colères
Au réservoir caché de son poison natal.
Dans quelque cercle obscur qu'on les ait vus descendre,
Homme ou serpent, blottis sous le verre ou la cendre,
Mordront le diamant ou mordront le cristal
.
IV
Le Cristal, c'est la vue et la clarté du JUSTE,
Du principe éternel de toute vérité,
L'examen de soi-même au tribunal auguste
Où la Raison, l'Honneur, la Bonté, l'Equité,
La Prévoyance à l'oeil rapide et la Science
Délibèrent en paix devant la Conscience
Qui, jugeant l'action, régit la Liberté.
V
Toujours sur ce Cristal, rempart des grandes âmes,
La langue du sophiste ira heurter son dard.
Qu'il se morde lui-même en ses détours infâmes,
Qu'il rampe aveugle et sourd dans l'éternel brouillard.
Oublié, méprisé, qu'il conspire et se torde,
Ignorant le vrai Beau, qu'il le souille et qu'il morde
Ce Diamant que cherche en vain son faux regard.
VI
Le Diamant? c'est l'art des choses idéales,
Et ses rayons d'argent, d'or, de pourpre et d'azur
Ne cessent de lancer les deux lueurs égales
Des pensers les plus beaux, de l'amour le plus pur.
Il porte du Génie et transmet les empreintes.
Oui, de ce qui survit aux Nations éteintes
C'est lui le plus brillant trésor et le plus dur.
28 mars 1862.
Alfred de Vigny (1797-1863)
Mais pourquoi de leur cendre évoquer ces journées
Que les dédains publics effacent en passant?
Entre elles et ce jour ont marché douze années :
Oublions et la faute et la fuite et le sang,
Et les corruptions des pâles adversaires
-Non. Dans l'histoire il est de noirs anniversaires
Dont le spectre revient pour troubler le présent.
II
Il revient quand l'orgueil des obstinés coupables
Sort du limon confus des Révolutions
Où pêle-mêle on voit tomber les incapables,
Pour nous montrer encor ses vieilles passions
Et hurler à grands cris quelque sombre horoscope
. -En observant la vase aux feux d'un microscope,
On voit dans les serpents ces agitations.
III
S'agiter et blesser est l'instinct des vipères;
L'homme ainsi contre l'homme a son instinct fatal :
Il retourne ses dards et nourrit ses colères
Au réservoir caché de son poison natal.
Dans quelque cercle obscur qu'on les ait vus descendre,
Homme ou serpent, blottis sous le verre ou la cendre,
Mordront le diamant ou mordront le cristal
.
IV
Le Cristal, c'est la vue et la clarté du JUSTE,
Du principe éternel de toute vérité,
L'examen de soi-même au tribunal auguste
Où la Raison, l'Honneur, la Bonté, l'Equité,
La Prévoyance à l'oeil rapide et la Science
Délibèrent en paix devant la Conscience
Qui, jugeant l'action, régit la Liberté.
V
Toujours sur ce Cristal, rempart des grandes âmes,
La langue du sophiste ira heurter son dard.
Qu'il se morde lui-même en ses détours infâmes,
Qu'il rampe aveugle et sourd dans l'éternel brouillard.
Oublié, méprisé, qu'il conspire et se torde,
Ignorant le vrai Beau, qu'il le souille et qu'il morde
Ce Diamant que cherche en vain son faux regard.
VI
Le Diamant? c'est l'art des choses idéales,
Et ses rayons d'argent, d'or, de pourpre et d'azur
Ne cessent de lancer les deux lueurs égales
Des pensers les plus beaux, de l'amour le plus pur.
Il porte du Génie et transmet les empreintes.
Oui, de ce qui survit aux Nations éteintes
C'est lui le plus brillant trésor et le plus dur.
28 mars 1862.
Alfred de Vigny (1797-1863)
segunda-feira, 31 de maio de 2010
O que é para mim a Poesia
Vi um anjo na pedra e lutei com ela até o libertar.
Michelangelo
I know nothing in the world
that has as much power as a word.
Sometimes I write one, and I
look at it, until it begins to shine.
Emily Dickinson
Estes dois, o poeta da pedra e a poetisa da palavra, conseguem expressar o mais profundo significado que a poesia tem para mim. Imaginemos que as palavras são como pedrinhas. O não-poeta, o que se julga poeta, mas não o é, pega nas pedrinhas e junta-as, chamando a esse conjunto um poema. O poeta não. O poeta respeita as palavras, respeita as pedrinhas, como Michelangelo respeitava as pedras. Cada palavra tem em si um anjo aprisionado. Não basta juntar palavras bonitas e amontoá-las. O poeta sabe o lugar de cada uma em relação a todas as outras. Todas as palavras têm um anjo e são igualmente importantes, mas o anjo só é libertado pela sinergia entre elas, pela colocação de cada uma delas no lugar certo. Então, o poeta, junta as palavras, como pedras e sabe quais as palavras que ligam umas com as outras, quais as que pertencem a outro poema e guarda essas. Depois pega nas que sobraram e coloca-as no lugar certo umas em relação às outras e elas começam a emitir um ligeiro brilho. Mas não é o brilho da poesia. É o brilho do despertar da poesia. Há que guardar mais algumas palavras ou procurar uma que está escondida. E depois ainda há que baralhá-las de novo e respeitar a distância ou o amor entre elas. E polir o espaço entre elas e algumas palavras são como estrelas no céu, mas outras como laços de seda ou veludo da cor da noite, outras ainda como caules ou rios, umas pulsam, outras descansam. E começam a brilhar com a luz da poesia e o poeta apaixona-se por elas e é com esse amor que lhes dá o polimento final que liberta o anjo nelas. E só então temos um poema. E o conhecimento do poeta para fazer isto vem da sabedoria e verdade iniciais. De nenhum outro lugar. E é por esta razão que todo o poema, todo o poema verdadeiro, se inicia com um despertar. Não das palavras, mas do poeta.
terça-feira, 23 de março de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
um mesmo oceano para todas as gotas
'às distribuições sedentárias da analogia opõem-se as distribuições nómadas ou as anarquias coroadas no unívoco. somente aí retinem «tudo é igual!» e «tudo retorna» mas o tudo é igual e o tudo retorna só podem ser ditos onde a extrema ponta da diferença é atingida. uma mesma voz para todo o múltiplo de mil vias, um mesmo oceano para todas as gotas.
um só clamor do ser para todos os entes.
mas à condição de ter atingido, para cada ente, para cada gota e em cada via, o estado do excesso, isto é a diferença que os desloca e os disfarça, e os faz retornar, girando sobre a sua ponta móvel'.
g. deleuze
pensando bem o fp e gd bebiam do mesmo bagaço.
um só clamor do ser para todos os entes.
mas à condição de ter atingido, para cada ente, para cada gota e em cada via, o estado do excesso, isto é a diferença que os desloca e os disfarça, e os faz retornar, girando sobre a sua ponta móvel'.
g. deleuze
pensando bem o fp e gd bebiam do mesmo bagaço.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
O Fanal
Aqui, onde entre mares cresceu a ilha,
pedra e ara súbito como torre erguida,
aqui ascende sob um negro céu
Zaratustra os seus fogos das alturas,-
fanal para navegantes sem rumo,
ponto de interrogação para os que têm resposta...
Esta chama de ventre esbranquiçado
-sua cobiça lança línguas a distâncias frias,
dobra o pescoço para alturas mais puras -
cobra erguida a pino, de impaciência:
este sinal o pus eu em frente a mim.
A minha própria alma é esta chama:
insaciável de distâncias novas,
lança ao alto, ao alto o seu ardor silente.
Porque fugira Zaratustra dos bichos e dos homens?
porque se escapou de repente de toda a terra firme?
Seis solidões conhece ele já -,
mas o seu próprio mar não lhe era solitário bastante,
a ilha deixou-o subir, sobre o monte ele se fez chama,
a uma sétima solidão
lança buscando agora o seu anzol por sobre a fonte.
Navegantes sem rumo! Destroços de astros velhos!
Ó mares de futuro! Ó céus inexplorados!
Lanço agora o anzol a tudo o que é solitário:
dai resposta à impaciência da chama,
agarrai para mim, pescador nos altos montes,
a minha sétima última solidão! -
Friedrich Nietzsche (1844-1900) in Rosa Do Mundo 2001 poemas para o futuro
2. ed. Assírio & Alvim, 2001
pedra e ara súbito como torre erguida,
aqui ascende sob um negro céu
Zaratustra os seus fogos das alturas,-
fanal para navegantes sem rumo,
ponto de interrogação para os que têm resposta...
Esta chama de ventre esbranquiçado
-sua cobiça lança línguas a distâncias frias,
dobra o pescoço para alturas mais puras -
cobra erguida a pino, de impaciência:
este sinal o pus eu em frente a mim.
A minha própria alma é esta chama:
insaciável de distâncias novas,
lança ao alto, ao alto o seu ardor silente.
Porque fugira Zaratustra dos bichos e dos homens?
porque se escapou de repente de toda a terra firme?
Seis solidões conhece ele já -,
mas o seu próprio mar não lhe era solitário bastante,
a ilha deixou-o subir, sobre o monte ele se fez chama,
a uma sétima solidão
lança buscando agora o seu anzol por sobre a fonte.
Navegantes sem rumo! Destroços de astros velhos!
Ó mares de futuro! Ó céus inexplorados!
Lanço agora o anzol a tudo o que é solitário:
dai resposta à impaciência da chama,
agarrai para mim, pescador nos altos montes,
a minha sétima última solidão! -
Friedrich Nietzsche (1844-1900) in Rosa Do Mundo 2001 poemas para o futuro
2. ed. Assírio & Alvim, 2001
terça-feira, 24 de novembro de 2009
VI
Palmeiras!
e contra a crepitante casa tantas lanças de chama!
...As vozes eram um ruído luminoso e sotavento...O barco
de meu pai, diligente, conduzia grandes figuras brancas: talvez,
em suma, Anjos despenteados; ou talvez homens sadios, vestidos
de belo pano, capacetes de sabugueiro ( e assim meu pai, que foi
nobre e decente).
...Pois de manhã, pelos campos pálidos da Água nua, ao
longo do Oeste,vi andarem Príncipes e seus Genros, homens de
alta estirpe, bem vestidos e calados, que o mar antes do meio-dia é
um Domingo em que o sono tomou o corpo de um Deus,
dobrando as pernas.
E tochas ao meio-dia, se ergueram para minhas fugas,
E creio que Arcos, Salas de ébano e zinco iluminaram-se
todas as noites ao sonho dos vulcões,
na hora em que juntavam nossas mãos diante o ídolo em
traje de gala.
Palmeiras! e a doçura
de velhice nas raízes...! Os ventos alísios, os pombos trocazes
e a gata parda
esburacavam a amarga folhagem verde onde, na crueza de uma
noite com perfume de Dilúvio
as luas rosas e verdes inclinavam-se qual mangas.
...Já os tios falavam baixo a minha mãe. Haviam amarrado
seu cavalo à porta. E a casa durava, sob as árvores de plumas.
Saint-John Perse
in Obra Poética
Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1973
Trad. Darcy Damasceno
Palmeiras!
e contra a crepitante casa tantas lanças de chama!
...As vozes eram um ruído luminoso e sotavento...O barco
de meu pai, diligente, conduzia grandes figuras brancas: talvez,
em suma, Anjos despenteados; ou talvez homens sadios, vestidos
de belo pano, capacetes de sabugueiro ( e assim meu pai, que foi
nobre e decente).
...Pois de manhã, pelos campos pálidos da Água nua, ao
longo do Oeste,vi andarem Príncipes e seus Genros, homens de
alta estirpe, bem vestidos e calados, que o mar antes do meio-dia é
um Domingo em que o sono tomou o corpo de um Deus,
dobrando as pernas.
E tochas ao meio-dia, se ergueram para minhas fugas,
E creio que Arcos, Salas de ébano e zinco iluminaram-se
todas as noites ao sonho dos vulcões,
na hora em que juntavam nossas mãos diante o ídolo em
traje de gala.
Palmeiras! e a doçura
de velhice nas raízes...! Os ventos alísios, os pombos trocazes
e a gata parda
esburacavam a amarga folhagem verde onde, na crueza de uma
noite com perfume de Dilúvio
as luas rosas e verdes inclinavam-se qual mangas.
...Já os tios falavam baixo a minha mãe. Haviam amarrado
seu cavalo à porta. E a casa durava, sob as árvores de plumas.
Saint-John Perse
in Obra Poética
Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1973
Trad. Darcy Damasceno
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Lembrando-me de Baal: "O mais belo espectáculo de horror somos nós" - António José Fortes
Já não há tempo para confusões - a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos.
Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor.
Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.
A acção poética implica: para com o amor uma atitude apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, para com a Revolução uma atitude pessimista, para com a sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são autónomas, a sua comunicação esotérica.
António José Forte, "Uma faca nos dentes"
domingo, 18 de outubro de 2009
"O medo é uma trança" - Ana Hatherly
Imagem Google: "A dream on our way to death", Foureyes
A senda que eu sigo
É a meta que atinjo.
Partindo, regresso
E regresso avançando.
Temendo é que eu venço.
Chorando, me alegro
E sofrendo, embeleço
Entendendo a ordem
Oculta e evidente:
Ou amo e morro
Ou vivo e não amo.
Ana Hatherly, "O Regresso II",
in "Poesia 1958-1978", Moraes Editores, Lisboa 1980, pág. 38)
Etiquetas:
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poesia,
regresso
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
"Balada ditirâmbica do pequeno e do grande filho-da-puta" - Alberto Pimenta
À ínclita memória de Camões (que bem conheceu estes tais "pequenos filhos-da-puta"), e do Sá, e do Tolentino e do Bocage, e do Pessoa, e do... e de todos os poetas que os conheceram e conhecem muito bem. Mal vai, na verdade, quem os não conheça ou haja conhecido; e, pior ainda, quem, conhecendo-os, imagine que a poesia e a Poesia nada tenham a ver com isso: têm tudo a ver!!
Aqui deixo, pois, este impertinente "textículo" de Alfredo Pimenta, dedicando-o aqui emocionadamente a Paulo Borges, como "presente de aniversário". Também ele bem conhece esta numerosa, rastejante e terçolhenta fauna. Com um forte e fraterno abraço.
Balada ditirâmbica
do pequeno e do grande filho-da-puta
I
o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.
todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.
II
o grande filho-da-puta
também sem certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multipliccação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.
Alberto Pimenta
Aqui deixo, pois, este impertinente "textículo" de Alfredo Pimenta, dedicando-o aqui emocionadamente a Paulo Borges, como "presente de aniversário". Também ele bem conhece esta numerosa, rastejante e terçolhenta fauna. Com um forte e fraterno abraço.
Balada ditirâmbica
do pequeno e do grande filho-da-puta
I
o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.
todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.
II
o grande filho-da-puta
também sem certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multipliccação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.
Alberto Pimenta
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009
"Quando escrevo - quando encontro o ritmo inaugural do poema, não tenho idade. Nasço aí onde já morri"
- Casimiro de Brito, "Fragmentos de Babel".
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Kant

.
Kant
notável filósofo
homem simples e bom
porém como Homem ficaste
incompleto
porque o teu sono não foi desperto
pela inquietação:
não usufruíste nos lábios o
perfume transbordante
que a Metafísica alcança
aqui sobre a Terra
e mesmo quando contemplaste as estrelas
e textos sublimes escreveste
não apertaste nas tuas mãos
outras mãos
as mãos duma
Mulher!
.
Graça Patrão, Diálogo com o Ser, Edições Minervacoimbra, Coimbra, 2008, p.78
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Ele desejava que a sua amada estivesse morta
Se fria e morta jazesses,
E a Oeste se fossem apagando as luzes,
Virias até mim, inclinando a cabeça,
E a minha fonte em teu peito repousaria;
Murmurarias ternas palavras,
Perdoando-me, porque estavas morta:
Não te havias de levantar e partir tão apressada,
Ainda que teu seja esse querer de ave selvagem,
Ainda que saibas que o lugar dos teus cabelos
Junto às estrelas e ao sol e à lua:
Desejava, amada minha, que na terra jazesses
Sob as grandes folhas,
Enquanto uma a uma se fossem apagando as luzes.
W. B. Yeats
in Uma Antologia
Assírio & Alvim, 1996
E a Oeste se fossem apagando as luzes,
Virias até mim, inclinando a cabeça,
E a minha fonte em teu peito repousaria;
Murmurarias ternas palavras,
Perdoando-me, porque estavas morta:
Não te havias de levantar e partir tão apressada,
Ainda que teu seja esse querer de ave selvagem,
Ainda que saibas que o lugar dos teus cabelos
Junto às estrelas e ao sol e à lua:
Desejava, amada minha, que na terra jazesses
Sob as grandes folhas,
Enquanto uma a uma se fossem apagando as luzes.
W. B. Yeats
in Uma Antologia
Assírio & Alvim, 1996
sábado, 5 de setembro de 2009
Jactancia De Quietud
Escrituras de luz embisten la sombra, más prodigiosas que meteoros.
La alta ciudad inconocible arrecia sobre el campo.
Seguro de mi vida y de mi muerte, miro los ambiciosos y quisiera entenderlos.
Su día es ávido como el lazo en el aire.
Su noche es tregua de la ira en el hierro, pronto en acometer.
Hablan de humanidad.
Mi humanidad está en sentir que somos voces de una misma penuria.
Hablan de patria.
Mi patria es un latido de guitarra, unos retratos y una vieja espada,
la oración evidente del sauzal en los atardeceres.
El tiempo está viviéndome.
Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada codicia.
Ellos son imprescindibles, únicos, merecedores del mañana.
Mi nombre es alguien y cualquiera.
Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera llegar.
Jorge Luis Borges
in Luna de Enfrente, (1925)
La alta ciudad inconocible arrecia sobre el campo.
Seguro de mi vida y de mi muerte, miro los ambiciosos y quisiera entenderlos.
Su día es ávido como el lazo en el aire.
Su noche es tregua de la ira en el hierro, pronto en acometer.
Hablan de humanidad.
Mi humanidad está en sentir que somos voces de una misma penuria.
Hablan de patria.
Mi patria es un latido de guitarra, unos retratos y una vieja espada,
la oración evidente del sauzal en los atardeceres.
El tiempo está viviéndome.
Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada codicia.
Ellos son imprescindibles, únicos, merecedores del mañana.
Mi nombre es alguien y cualquiera.
Paso con lentitud, como quien viene de tan lejos que no espera llegar.
Jorge Luis Borges
in Luna de Enfrente, (1925)
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