O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 30 de maio de 2009

Diálogos do Jardim


Para se aproximarem das rosas, as palavras nascem sopradas de um som de partida. Um regresso ao anverso, ao avesso do fim. Ao fim do verso; ao lugar do desejo que diz que há laços íntimos entre corpo e escrita. Vêm, de costas voltadas para o nunca do texto e do jardim, os pescadores de sedas. Vêm desdobrando o fio de seda até ao olho do Minotauro, até ao caminho das pétalas das rosas, em direcção à luz. Em flores de fim de tarde, notas de laranja no branco das casas. O jardim abre as arcadas ao violino das palavras. As palavras fecham os olhos à luz exterior para melhor ouvir no marulhar da memória o enrolar da onda desfeita na praia do corpo reclinado do poeta. A onda cobre o corpo do poeta e há um incêndio a alastrar na sua cabeça em febre.A cabeça do poeta é um tigre ao sol. Parado na tarde, o jardim é uma savana, uma lua em forma de barco ou boca para dar de beber ao vento do deserto. A rapariga afasta-se da janela e a luz fecha o dia à chave. Como uma pedra a arder, um astro, a cabeça do poeta gira sobre si mesma antes de cair no mar, com o que nasce no peito da Saudade, com o que nasce da chegada para a outra chegada. Uma angústia de Aurora. Uma morte enche o peito subida em nostalgia. Saúdo o regresso. Um regresso que é um naufrágio. Nesse naufrágio com espectador salvam-se os que se afundam.
O pintor olhou o rosto das três raparigas cegas por terem visto a cabeça do poeta. A rapariga disse que a escuridão, ao Norte, é uma noite muito comprida. E nessa noite comprida, o poeta está dentro do tronco da árvore. Fuma cachimbo e é louco. Duma loucura sem sossego. De súbito, um sorriso desvia o centro da atenção para o lábio. A mão suspensa no ar é uma fenda no centro do mundo, uma eterna possibilidade de mudar o pensamento e a hora do jardim. Fazíamos crescer as tardes atadas ao frágil coração das rosas. Rosas de nascer. De regresso, o poeta viu o lilaseiro cobrir de flor as torres do jardim e o musgo das paredes. Tudo mudado! Ontem o leitor pensou que o paraíso é andar distraído a desfrutar os sons das aves. Foi esse som que levou o monge-cantor a atravessar o portão do convento, e a inaugurar um outro tempo para o ouvido. Os passos do cantor regressaram ao jardim. Não há tempo nem no nascimento nem na morte. Não há tempo no poema como não há no beijo: o mundo desapareceu há muito.O leitor mal desvia a vista, já se lhe escorrega o sentido pela húmida e fresca porção de terra de onde brotam os últimos malmequeres da Primavera. À mais pequena distracção, as rosas mudam. O poeta está distraído do sentido do texto. Perdido. O seu olhar abandona o jardim. Sobe pela janela do quarto das gaivotas para se perder na nuvem que, como floco macio do tempo, vaga para o lugar onde se fecharam algumas vozes. Taparam o rosto com a erva que sobrou do “Sonho de uma noite de Verão.” Sabe-se, desde o segredo de hoje e da luminosa presença do primeiro jardim, que na dança das vozes o poeta havia de emudecer. Uma língua natural tinha desabrochado desde as vides, na parede asida, e em todas as direcções onde o vento tinha espalhado sementes.Tinham esgotado o silêncio os pássaros e as mãos descascavam laranjas para um recipiente de loiça branca, ao lado da cisterna. Bebe o silêncio como um potro manso a vagarosa tarde. Sorviam o veneno da taça as sensações. Canções. “A ave que tem um laço na pata é humana. As rosas florescem uma vez” alguém terá escrito uma palavra de vento na superfície da folha, mesmo no desenho das pétalas caídas no “encadernado” do jardim. O jardim labiríntico das folhas! Visto de cima, o jardim era como uma estrela, mas de mais complexo desenho, em bifurcados e arredondados caminhos de arbustos. Um labirinto para outro tempo! Um buraco negro para as letras e para o sentido. Um tempo de jardineiros de pedra, mudos na dança. Atlantes.
Um sopro suave na face de uma palavra florida em cristalino vaso! Uma corda a vibrar na epiderme da língua: no céu do canto, no luminoso lago, entre lírios e rosas. Os olhos, parados, são o reflexo polido de um espelho de água, um coração de pérola. Brilhos que na lisura da tarde são pasto para a alegria nascente do sorriso de outras flores que brotam no jardim.