terça-feira, 22 de setembro de 2009
"O tempo era bom? Não era
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.
Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.
Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.
Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser."
de Carlos Drummond de Andrade, "Duração" em as 'As Impurezas do Branco'
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
A evidência enganosa

Imagem: Escher, "Charco", 1952
O que eu sei, já o não sei, pois encontrar é voltar a perder; mas o que não sei já, isso aprendo-o bruscamente, na condição de com isso não contar, e de em mim preservar esse estado de "graça" cujo nome verdadeiro é inocência.
O instante é a nossa decepção continuada, mas a intuição é o protesto contínuo da enganosa evidência.
Vladimir Jankélévitch,
“Philosophie Première”, P.U.F., Paris, 1954, pág. 160
Lohengrin
Cecília Meireles: Tu tens um medo
As figueiras - e na horta os tomateiros, pepineiros, pimenteiros - as figueiras, as videiras, as figueiras e videiras, o cheiro é de colheita e recolhimento, o cheiro é de abundância no clamor por nudez e por doce embriaguez. Os castanheiros, as nogueiras, os pessegueiros, as macieiras, as oliveiras aguardam a sua vez de dar voz no fruto em calores mais frescos que se seguirão.
As abóboras penduradas nos socalcos são brincos garridos, poderão soltar-se e rebolar pelos campos fora. A criança conta cinco, depois dez, cinquenta, cem, leves, soltas, rebolando, a criança rindo e cantando.
Tudo está em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.
Acordo Ortográfico é "acto colonial"?
"O Brasil é o único país que recebeu a língua de fora e que impõe uma revisão da língua ao país matriz, como se os Estados Unidos impusessem um acordo ortográfico à Inglaterra", afirmou Sousa Tavares, criticando o facto de não ter havido uma consulta aos profissionais que trabalham com a língua, como os escritores, jornalistas e professores.
O escritor lembrou que um acordo exige reciprocidade, para afirmar em tom crítico que a reforma da ortografia foi "cozinhada entre académicos que queriam se reunir e viajar". "Não encontro escritores brasileiros que defendam o acordo", aponta.
O escritor e jornalista disse que não pretende mudar a sua forma de escrever e adverte que o Acordo Ortográfico vai "condensar e expurgar" muitos dos detalhes da diversidade linguística. Sousa Tavares duvida que os países africanos de língua portuguesa cumpram o acordo. "Vão começar a rejeitar o português se nós os obrigarmos a seguir estritamente uma gramática que não lhes faz sentido nem ao ouvido, nem na escrita".
"Acho um projecto idiota, e pode ser prejudicial em muitos países. Querem unificar o português em todo o mundo falante de língua portuguesa. Não vai ser em Portugal nem no Brasil porque temos 500 anos de trabalho e a nossa língua efectiva, mas em Angola apenas 10% fala bem português, o resto não fala", argumenta.
Miguel Sousa Tavares é também muito crítico sobre o conceito de lusofonia e a actuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). "Gastam imenso dinheiro aos contribuintes de Portugal e do Brasil e não é por aí que a lusofonia vai funcionar. Nós nunca faremos uma «Commonwealth» nas relações económicas. Na hora da verdade, o Brasil vai entrar em disputa com Portugal".
Para Sousa Tavares, a única forma de construir laços na lusofonia é a aproximação a partir de afinidades entre os povos, o que vai passar pela língua. "Finalmente o que funcionará é a língua. A lusofonia passa muito pelas relações humanas que são mais importantes, elas é que vão determinar", referiu ao destacar que hoje há "muito mais concorrência do que cooperação" no mundo lusófono.
O jornalista é autor de Equador, um dos maiores sucessos de vendas da literatura portuguesa dos últimos anos e está no Brasil para apresentar seu novo romance e participar na Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro.
/www.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=92&did=71254
Deus meu! no mais recôndito lugar
dos corações, talvez nas coronárias,
sei que resides... sem questionar
as tuas outras residências várias!
Pelo que ao meu respeita, a cadeado
te tenho ali fechado, não vá ser
que alguém, perverso ou mal-intencionado,
de lá te queira ou tente remover.
Ali ninguém te ofende, te garanto,
teu nome proferindo em esperanto
ou com grosseiros termos de almocreve.
Enquanto lá tiveres residência,
em causa ninguém põe tua existência
ou com letras minúsculas te escreve!
JOÃO DE CASTRO NUNES
Coimbra, 21 de Setembro de 2009.
Açoteia
Açoteia
Então
por fim
pelo soalho do sótão
sobre os escombros da tua habitação
assistiremos juntos à erupção das estrelas.
De como as nuvens interestelares se contraem
pela morte de uma estrela vizinha.
De como os núcleos se fundem
o hidrogénio
o hélio
rezam uma luz intensa
por vezes
azul.
As estrelas colidem e explodem
sem complacência pela tua pequena morte
em supernovas
de ar e pó.
E a alegria é uma estrela demolida.
in Emparedada/ Uit de Muur 2009
Festival de Dioniso

domingo, 20 de setembro de 2009
viagem

Sem amanhã o gume da viagem jugula a despedida
Lume de prata aceso no vítreo despontar das lágrimas
Toda a lua reflectida na inteira presença da morte
O chão tem ondulações de rocha e profundezas arremessadas de dentro
Só o mar tem fundo
Onde há mergulho é o abismo
A água amniótica do sem princípio
No reverso da qual o íntimo é praia sobre si própria projectada para além
Náufrago do instante o que se larga à demanda
Ao largo de qualquer terra firme
Argonauta do esquecimento
Sem procurar encontra-se impenitente
Aquém da inocência e da incompletude
São suas todas as horas perdidas contas de vidro antigo
Presas umas às outras pela desatenção alucinada
Os lábios gretados pelo sol rubro da espera
Desenham voos silenciosos de prece e abandono
Não tem dono o sofrimento repleto de despojos do longe já pretérito
O mais insuportável dos cárceres é o infinito
Mentia se dissesse que não gosto
de criticado ser... acerbamente,
por isso não ficando mal disposto
como acontece a muito boa gente.
Digam, portanto, sobre os meus poemas
as cobras e lagartos que quiserem
quer no tocante aos respectivos temas
quer às imperfeições que eles tiverem.
Não tenham, pois, acanho ou relutância
em desfazer nas minhas produções
de todas as maneiras e feições.
Mas, de igual modo, tenham a elegância
de, em caso de impecáveis os acharem,
fidalgamente... me felicitarem!
JOÃO DE CASTRO NUNES
liberdade

"Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim."
de Armindo Rodrigues
imagem em, http://troll-urbano.weblog.com.pt/arquivo/2005/10/
UM POEMA da Reforma agrária
LA TIERRA TUYA ES MIA
TODOS LOS PIES LA PISAN
NADIE LA TIENE, NADIE
(Nicolas Guillén)
Diz-me, camponês diz-me
Que domínios sonhas – Alentejo –
Quantas terras, fincas
Herdades queres?
Que sem-limites mapas
Esboças
Farms quintas
Machambas roças?
Que países continentes
Ilhas brasis
Áfricas territórios
Invejas
Para a desmedida
Força dos teus braços?
Calma camponês calma
Força e calma
Que não demora a Terra
será pelas tuas mãos
nosso Jardim e seara


