O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 22 de setembro de 2009

"Sinto o medo do avesso"

- Miguel Torga, único verso não rejeitado do poema "Ignoto".



"O tempo era bom? Não era
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser."

de Carlos Drummond de Andrade, "Duração" em as 'As Impurezas do Branco'

votar é como mijar contra o vento

O sexo entreabre a boca da morte

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A evidência enganosa


Imagem: Escher, "Charco", 1952


O que eu sei, já o não sei, pois encontrar é voltar a perder; mas o que não sei já, isso aprendo-o bruscamente, na condição de com isso não contar, e de em mim preservar esse estado de "graça" cujo nome verdadeiro é inocência.
O instante é a nossa decepção continuada, mas a intuição é o protesto contínuo da enganosa evidência.

Vladimir Jankélévitch,
“Philosophie Première”, P.U.F., Paris, 1954, pág. 160

Lohengrin


Imagem - Google Imagens
Richard Wagner (1813/1883)
Lohengrin - Prelude I



Cecília Meireles: Tu tens um medo

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.



De ao pé dos loureiros tudo está em repousada quietude, só os caniços entoam pela brisa uma canção. O sol é de setembro, na vinha é brasa e bronze, é uma espiga amadurecida que se volta para a terra, que se quer colhida e guardada para em celeiro voltar a semente.

As figueiras - e na horta os tomateiros, pepineiros, pimenteiros - as figueiras, as videiras, as figueiras e videiras, o cheiro é de colheita e recolhimento, o cheiro é de abundância no clamor por nudez e por doce embriaguez. Os castanheiros, as nogueiras, os pessegueiros, as macieiras, as oliveiras aguardam a sua vez de dar voz no fruto em calores mais frescos que se seguirão.

As abóboras penduradas nos socalcos são brincos garridos, poderão soltar-se e rebolar pelos campos fora. A criança conta cinco, depois dez, cinquenta, cem, leves, soltas, rebolando, a criança rindo e cantando.

Tudo está em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.

Acordo Ortográfico é "acto colonial"?

O Acordo Ortográfico é um acto colonial do Brasil sobre Portugal com regras que não são recíprocas, afirmou à Lusa o escritor e jornalista Miguel Sousa Tavares, no Brasil para lançar seu "quase-romance" No Teu Deserto.

"O Brasil é o único país que recebeu a língua de fora e que impõe uma revisão da língua ao país matriz, como se os Estados Unidos impusessem um acordo ortográfico à Inglaterra", afirmou Sousa Tavares, criticando o facto de não ter havido uma consulta aos profissionais que trabalham com a língua, como os escritores, jornalistas e professores.

O escritor lembrou que um acordo exige reciprocidade, para afirmar em tom crítico que a reforma da ortografia foi "cozinhada entre académicos que queriam se reunir e viajar". "Não encontro escritores brasileiros que defendam o acordo", aponta.

O escritor e jornalista disse que não pretende mudar a sua forma de escrever e adverte que o Acordo Ortográfico vai "condensar e expurgar" muitos dos detalhes da diversidade linguística. Sousa Tavares duvida que os países africanos de língua portuguesa cumpram o acordo. "Vão começar a rejeitar o português se nós os obrigarmos a seguir estritamente uma gramática que não lhes faz sentido nem ao ouvido, nem na escrita".

"Acho um projecto idiota, e pode ser prejudicial em muitos países. Querem unificar o português em todo o mundo falante de língua portuguesa. Não vai ser em Portugal nem no Brasil porque temos 500 anos de trabalho e a nossa língua efectiva, mas em Angola apenas 10% fala bem português, o resto não fala", argumenta.

Miguel Sousa Tavares é também muito crítico sobre o conceito de lusofonia e a actuação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). "Gastam imenso dinheiro aos contribuintes de Portugal e do Brasil e não é por aí que a lusofonia vai funcionar. Nós nunca faremos uma «Commonwealth» nas relações económicas. Na hora da verdade, o Brasil vai entrar em disputa com Portugal".

Para Sousa Tavares, a única forma de construir laços na lusofonia é a aproximação a partir de afinidades entre os povos, o que vai passar pela língua. "Finalmente o que funcionará é a língua. A lusofonia passa muito pelas relações humanas que são mais importantes, elas é que vão determinar", referiu ao destacar que hoje há "muito mais concorrência do que cooperação" no mundo lusófono.

O jornalista é autor de Equador, um dos maiores sucessos de vendas da literatura portuguesa dos últimos anos e está no Brasil para apresentar seu novo romance e participar na Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro.

/www.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=92&did=71254

A palavra são os ossos do ofício de morrer

deusa

A palavra é uma saudade

COM DEUS NO CORAÇÃO

Deus meu! no mais recôndito lugar
dos corações, talvez nas coronárias,
sei que resides... sem questionar
as tuas outras residências várias!

Pelo que ao meu respeita, a cadeado
te tenho ali fechado, não vá ser
que alguém, perverso ou mal-intencionado,
de lá te queira ou tente remover.

Ali ninguém te ofende, te garanto,
teu nome proferindo em esperanto
ou com grosseiros termos de almocreve.

Enquanto lá tiveres residência,
em causa ninguém põe tua existência
ou com letras minúsculas te escreve!

JOÃO DE CASTRO NUNES

Coimbra, 21 de Setembro de 2009.

ohio impromptu

Açoteia

(aos afortunados que têm permissão a banhos de cinza)


Açoteia

Então
por fim

pelo soalho do sótão
sobre os escombros da tua habitação

assistiremos juntos à erupção das estrelas.

De como as nuvens interestelares se contraem
pela morte de uma estrela vizinha.
De como os núcleos se fundem
o hidrogénio
o hélio

rezam uma luz intensa
por vezes
azul.

As estrelas colidem e explodem
sem complacência pela tua pequena morte

em supernovas
de ar e pó.

E a alegria é uma estrela demolida.

in Emparedada/ Uit de Muur 2009

Festival de Dioniso


Imagem - Google Imagens
.
O festival começava ao pôr do Sol num pequeno templo de Dioniso nos pauis fora da cidade. Toda a população da Ática, incluindo escravos, mulheres e crianças, iam em conjunto assistir à abertura da cerimónia, momento em que era derramada uma libação de vinho como oferenda ao deus. Mas, no dia seguinte, todos os templos eram encerrados e as portas das casas esborratadas com breu. Todos ficavam em casa e cada membro da família tinha de beber pelo menos dois litros de vinho. Era uma competição sombria e mortífera. Não havia contentamento, não se cantava e não se conversava - uma total inversão de uma ocasião social normal em Atenas. Cada bebedor sentava-se sozinho à sua própria mesa e bebia de um jarro só seu num silêncio sepulcral. (...) De repente, o silêncio fantasmagórico era interrompido por uma mascarada grotesca. Actores mascarados que representavam as Queres, os espíritos da morte ctónicos, irrompiam pelas ruas, montados em carroças carregadas de jarros de vinho, exigindo agressivamente hospitalidade, em gargalhadas roufenhas, berrando insultos e fazendo ameaças ferozes. Mas, à noite, a ordem era restaurada. Toda a população, embriagada, cambaleava até ao pequeno templo nos pauis, cantando e rindo e transportando os jarros vazios. Uma sacerdotiza era apresentada a Dioniso como sua noiva, o deus era aplacado e os mascarados, enviados da morte, eram expulsos.

O terceiro dia inaugurava outro ano e um recomeço. A atmosfera era mais leve e mais buliçosa. Para marcar a nova era, todos comiam um prato dos cereais que - como se dizia - os primeiros agricultores haviam ingerido em tempos primordiais, antes da invenção do moinho e da cozedura. Havia concursos, incluindo um concurso especial de ritmos para raparigas, que lembrava o corpo oscilante da pobre Erígone. Nunca se podia esquecer a tragédia inerente à vida. Todo o ritual grego terminava em katharsis («purificação»). (...) Os participantes haviam passado por um ekstasis, «uma saída de si». Durante três dias, haviam sido capazes de se distanciarem da sua existência normal, de confrontarem os seus medos enterrados e de passarem através deles até uma vida renovada.
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Karen Armstrong, Grandes Tradições Religiosas, Temas e Debates, 2009, pp.69-70

domingo, 20 de setembro de 2009

viagem
















Sem amanhã o gume da viagem jugula a despedida

Lume de prata aceso no vítreo despontar das lágrimas

Toda a lua reflectida na inteira presença da morte

O chão tem ondulações de rocha e profundezas arremessadas de dentro

Só o mar tem fundo

Onde há mergulho é o abismo

A água amniótica do sem princípio

No reverso da qual o íntimo é praia sobre si própria projectada para além

Náufrago do instante o que se larga à demanda

Ao largo de qualquer terra firme

Argonauta do esquecimento

Sem procurar encontra-se impenitente

Aquém da inocência e da incompletude

São suas todas as horas perdidas contas de vidro antigo

Presas umas às outras pela desatenção alucinada

Os lábios gretados pelo sol rubro da espera

Desenham voos silenciosos de prece e abandono

Não tem dono o sofrimento repleto de despojos do longe já pretérito

O mais insuportável dos cárceres é o infinito

SUPERAÇÃO

Mentia se dissesse que não gosto
de criticado ser... acerbamente,
por isso não ficando mal disposto
como acontece a muito boa gente.

Digam, portanto, sobre os meus poemas
as cobras e lagartos que quiserem
quer no tocante aos respectivos temas
quer às imperfeições que eles tiverem.

Não tenham, pois, acanho ou relutância
em desfazer nas minhas produções
de todas as maneiras e feições.

Mas, de igual modo, tenham a elegância
de, em caso de impecáveis os acharem,
fidalgamente... me felicitarem!

JOÃO DE CASTRO NUNES

liberdade




"Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim."

de Armindo Rodrigues
imagem em, http://troll-urbano.weblog.com.pt/arquivo/2005/10/

UM POEMA da Reforma agrária

LA TIERRA TUYA ES MIA

TODOS LOS PIES LA PISAN

NADIE LA TIENE, NADIE

(Nicolas Guillén)


Diz-me, camponês diz-me

Que domínios sonhas – Alentejo –

Quantas terras, fincas

Herdades queres?


Que sem-limites mapas

Esboças

Farms quintas

Machambas roças?


Que países continentes

Ilhas brasis

Áfricas territórios

Invejas

Para a desmedida

Força dos teus braços?


Calma camponês calma

Força e calma

Que não demora a Terra

será pelas tuas mãos

nosso Jardim e seara