O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Assaz

Harold Ortiz Sandova


Tudo o que precede esquecer. Eu não posso muito ao mesmo tempo. Isso deixa à caneta o tempo de anotar. Eu não a vejo mas ouço-a lá em baixo atrás. É o silêncio. Quando ela pára eu continuo. Demasiado silêncio não posso. Ou é a minha voz demasiado fraca por momentos. A que sai de mim. Eis pela arte e o modo.


Excerto de Assaz in Textos para nada | Samuel Beckett
1.ª Edição. Lisboa. Publicações Dom Quixote

sábado, 27 de dezembro de 2008

Murmúrio

Foi numa noite de Inverno, em que eu fui, serei, lembrado, imaginado, não interessa, crendo em mim, crendo que sou eu, não, não vale a pena, dado que há os outros, onde, no mundo dos outros longos percursos mortais, sob o céu, com uma voz, não, não vale a pena, e com que mexer, de vez em quando, também não, dado que os outros passam, os autênticos, mas sobre a terra, certamente sobre a terra, o tempo de uma nova morte, dum novo despertar, esperando que aqui isto mude, que qualquer coisa mude, que faça nascer mais adiante, ou então ressuscitar, no fundo de fora deste murmúrio de memória e de sonho.


Samuel Beckett, Textos para Nada - XII