quinta-feira, 7 de maio de 2009
Palavras que justificam aprender a ler - Nonada
"Nonada"
- João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas [primeira palavra do livro].
- João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas [primeira palavra do livro].
Visões nocturnas
http://www.youtube.com/watch?v=HwkltB3kzS8 - Uma versão de uma música lindíssima de Suzanne Vega.
http://www.youtube.com/watch?v=ZbwJarFL1c8 - A "Sonata ao luar", com a comovente história de como a música surgiu.
"(...) Despe a mente", comentário anónimo na noite serpentina.
Como responder à pergunta que não se consegue formular?
Fragmento anónimo, séc. 40 a.C.
http://www.youtube.com/watch?v=ZbwJarFL1c8 - A "Sonata ao luar", com a comovente história de como a música surgiu.
"(...) Despe a mente", comentário anónimo na noite serpentina.
Como responder à pergunta que não se consegue formular?
Fragmento anónimo, séc. 40 a.C.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
SILVESTRES
Palavras que justificam aprender a ler - A vergonha
"Yuan Xian perguntou o que é a vergonha. O Mestre disse: "Quando o governo tem princípios, servi-o. Servir um governo sem princípios, eis o que é uma vergonha""
- Confúcio, Analectos, XIV, 1.
- Confúcio, Analectos, XIV, 1.
Sobressaltos - Estás perdido
"Se abres a boca, estás perdido.
Se fechas a boca, estás perdido.
Se hesitas, sem abrir nem fechar a boca,
Estás a mil léguas da verdade"
- Mumon Yamada (1900—1988)
Se fechas a boca, estás perdido.
Se hesitas, sem abrir nem fechar a boca,
Estás a mil léguas da verdade"
- Mumon Yamada (1900—1988)
terça-feira, 5 de maio de 2009
A Idade do Ouro
Como se sabe, os gregos possuíam, com muitos outros povos da Antiguidade, a tradição de que em tempos remotos tinham os homens vivido num estado de perfeita inocência e numa felicidade só comparável à dos deuses; tratavam-se todos como irmãos, alimentavam-se de frutos das árvores. Desconheciam as disputas e a guerra; havia entre eles e a natureza uma completa comunhão, a tal ponto que nem mesmo distinguiam entre si próprios e o mundo que os rodeava; e poderiam ter prosseguido nesta existência beatífica se não tivesse dado uma corrupção dos costumes, se da Idade do Ouro se não tivesse passado para a Idade de Ferro, a actual, em que todas as aberrações se tornaram normais na humanidade.
- Agostinho da Silva, A Comédia Latina
Por que é que se deu uma corrupção dos costumes? Será que é possível regressar à Idade do Ouro, ou o ferro que nós cremos ver afinal é ouro lamacento?
- Agostinho da Silva, A Comédia Latina
Por que é que se deu uma corrupção dos costumes? Será que é possível regressar à Idade do Ouro, ou o ferro que nós cremos ver afinal é ouro lamacento?
"No meu nascimento (eterno)..."
“No meu nascimento (eterno) nasceram todas as coisas e eu fui a causa primeira de mim mesmo e de todas as coisas; e, houvesse eu querido, nem eu seria nem todas as coisas seriam; mas, se eu não fosse, então também “Deus” não seria; que Deus seja “Deus”, disso sou eu a causa primeira; se eu não fosse, então Deus não seria “Deus”” – Mestre Eckhart, Beati pauperes spiritu…
Lançamento de Tratados e Sermões de Mestre Eckhart, "o homem de quem Deus nada escondeu"
Estarei na próxima 5ª feira, pelas 19 h, na Esplanada Central da Feira do Livro de Lisboa, para apresentar a primeira tradução portuguesa de Tratados e Sermões, de Mestre Eckhart, selecção de textos feita por mim, por Jorge Telles de Menezes e pelo Frei José Luís de Almeida Monteiro, tradução de Jorge Telles de Menezes (Lisboa, Paulinas, 2009).
Deixo-vos o prefácio (sem as notas de rodapé) que escrevi para esta obra cuja aparição - por fim! - em português considero o acontecimento editorial do ano. São obras como esta que vão justificando a cultura e cabe interrogar porque só agora se edita em Portugal um autor que é referência maior de toda a cultura europeia e hoje até planetária. Sem nos permeabilizarmos a estas vozes da experiência abissal do ser e da vida dificilmente sairemos da "apagada e vil tristeza".
Mestre Eckhart ou “o homem de quem Deus nada escondeu”
É com funda emoção que prefaciamos esta primeira publicação em Portugal de uma antologia de tratados e sermões de Mestre Eckhart (1260 ? – 1328), o teólogo, filósofo e pregador dominicano cuja profundidade e subtileza espiritual e “mística” o tornam cada vez mais uma referência fundamental para todos os que, independentemente da sua cultura ou religião, procuram ir ao fundo das possibilidades da vida, da consciência e da existência, sem se contentarem com a mera especulação intelectual sobre o seu sentido. Com efeito, em Eckhart dá-se a rara e feliz conciliação de uma sólida erudição universitária com a radicalidade da experiência espiritual que rompe e inova as categorias do pensamento da sua época e da sua tradição, fazendo dele um “Leben Meister” (“Mestre de vida” e não só de doutrina) que influiu decisivamente em gerações de discípulos e tem inspirado um significativo e crescente número de pensadores, psicólogos, escritores, poetas, pintores e músicos contemporâneos.
Consagrado pela posteridade como “o homem de quem Deus nada escondeu”, Eckhart assume de facto a sua visão e discurso como “uma verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus”. “Voz” vinda “da eternidade”, mas não compreendida senão nos limites do tempo, como o disse Tauler, seu discípulo , acabou por ser objecto de um processo e de uma Bula papal que condenou vinte e oito afirmações suas como heréticas ou “mal sonantes, ousadas e suspeitas de heresia” . Todavia, se Eckhart ousa transgredir o plano teológico-filosófico e doutrinal para falar em nome de uma experiência imediata de Deus, esta fuga à norma da sua própria tradição institucionalizada pode noutro sentido ser vista como fidelidade a uma experiência cristã mais profunda, em que a resposta à questão tradicional – Cur Deus homo; Porque se fez Deus homem ? – é a de que Deus se faz homem para que cada homem “seja engendrado como o próprio Deus”, sendo “a abissalidade [Abgründigkeit] do ser divino e da natureza divina” inteiramente gerada “no seu Filho unigénito” para que “nós próprios sejamos o mesmo Filho unigénito”. Cristo, o Filho único de Deus, não é assim somente considerado uma pessoa individual e distinta, designando sobretudo a suprema possibilidade, histórica e trans-histórica, comum a todo o ser humano, cumprida no acesso de cada um ao estado de unção espiritual que esse nome designa.
Se a pregação eckhartiana tem dois temas capitais - o nascimento de Deus na alma e o trespasse do espírito na Divindade - , é neste último que se torna mais sensível a sua inovação e radicalidade. Bernard McGinn usa a expressão “mística do fundo” para designar a nova forma de experiência espiritual iniciada ou redescoberta por Eckhart, seus contemporâneos e seguidores , sintetizada na afirmação: “o fundo de Deus e o fundo da alma são um fundo” . Grunt (forma antiga do moderno termo germânico Grund) abre assim um “campo de palavra místico”, constituindo uma “metáfora explosiva” (Blumenberg), enquanto “expressa de modo concreto o que não pode ser capturado em conceitos” e “trespassa anteriores categorias da linguagem mística para criar novos modos de apresentar um encontro directo com Deus” . Dos vários sentidos que Grunt assume no alemão medieval, destaca-se em Eckhart o do “mais íntimo” e “oculto” de um ser, “a sua essência” , referindo-se quer ao “mais íntimo da alma”, quer às “profundezas ocultas de Deus”, para designar a radical unicidade desse seu fundo único. Univocamente comum a Deus e à alma, o fundo transcende-os enquanto “Deus” e “alma” surgem como algo distinto em si mesmo e na sua relação mútua. Com efeito, metáfora do infinito e do absoluto livre de todo o limite e referência, o fundo é “sem fundo” e “um único um” que transcende o Deus pensado pelo homem “enquanto causa eficiente do universo” e diferenciado nas pessoas trinitárias: como diz, a origem do ser divino e de todas as coisas reside nesse “fundo simples” e “imóvel” ou “deserto silencioso onde jamais a distinção lançou um olhar, nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo” . Sendo a “indistinção” e a ausência de características a “característica distintiva de Deus” como fundo, este é “nu, livre, vazio, puro”. Daí a relação da metáfora do fundo com as do “deserto”, do “mar” e do “abismo” [Abgrund] , imagens de espaços vastos, uniformes e desobstruídos, sem limites nem entidades. Referindo também o incondicionado que há na alma, esse “algo incriado” que nela reside, o fundo é a mais poderosa metáfora que Eckhart usa – a par de outras, como a “pequena centelha” e a “cidadela” – para indicar a presença em cada ser do absoluto e infinito, isso que transcende e identifica o humano e o divino: “Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo o fundo de Deus” .
A questão central de toda a pregação eckhartiana é assim a de reassumir esse incondicionado fundo primordial de toda a experiência, que antecede e transcende não só a constituição do sujeito e do mundo, mas ainda a do próprio Deus enquanto tal, não só na sua determinação trinitária . Um dos sermões mais elucidativos disso é o “Beati pauperes spiritu…”, donde se colhe o título da presente obra, embora nele o autor não recorra explicitamente à metáfora do fundo. Propondo o despojamento radical do sujeito, pelo qual nada queira, saiba ou tenha, libertando-se de tudo e do próprio Deus, enquanto sujeito com atributos pensado pelo homem, Eckhart mostra como isso conduz à reintegração no estado primordial, pré-existencial, onde ele próprio, antes de se determinar como ente humano, vivia numa imanência absoluta, “livre de Deus e de todas as coisas” . É apenas pela sua livre saída desse estado e consequente recepção do seu “ser criado” que obtém “um Deus”, “pois antes que fossem as criaturas, Deus não era «Deus»”, mas apenas “o que era”, ou seja, nem isto nem aquilo, pura indeterminação não entificada nem qualificada. É somente pelo surgimento das “criaturas” nessa e a partir dessa indeterminação primordial, num processo solidário da auto-determinação existencial do próprio sujeito Eckhart, que “Deus” vem a ser, já não “em si mesmo”, mas “nas criaturas”, como um ente divino. É este “Deus”, criado, como tudo o mais, pela auto-criação do próprio sujeito enquanto ente mundano, que não lhe pode bastar, pois ele procede de algo anterior ao próprio “Deus” entificado e divinizado, isso que Eckhart designa como “o abismo eterno do ser divino” [den ewigen Abgrund göttlichen Seins]. “Por isso rogamos a Deus que de “Deus” nos livremos”, como diz, fruindo eternamente a “verdade” “aí onde os anjos mais elevados, a mosca e a alma são iguais”, ou seja, nessa manência primordial, sempre presente, transcendente do mundo da diferenciação criada, onde o sujeito residia quando “não era”, o que, embora sem o nomear, a não ser como “abismo eterno”, é decerto uma das indicações mais sugestivas do Grund ou fundo sem fundo . É a saída ou exílio ex-istencial desse “abismo”, mediante o escorrer ou emanar [Ausfliessen] diferenciador, que a ruptura ou trespasse [Durchbrechen] reintegrador vem anular, libertando o sujeito de si e assim de Deus e de todas as coisas e restaurando-o nesse eterno imo de não diferenciação onde não é “nem “Deus” [Gott] nem criatura”, instância noutros lugares designada como “Divindade” [Gottheit]. Esta é aquela “verdade” que só pode compreender quem se lhe assimila, a “verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus” .
Cremos residir neste aprofundamento extremo da experiência espiritual , livre de todo o condicionamento e idolatria conceptual e figurativa, a razão pela qual Eckhart também se vem crescentemente a impor como incontornável mediador do diálogo entre o Ocidente cristão e as tradições orientais . Diálogo autêntico, num duplo sentido: após Schopenhauer haver assumido em Buda, Eckhart e nele próprio um mesmo ensinamento fundamental (precipitadamente, cremos) , são autores orientais, sobretudo budistas Zen, como Daisetz Taitaro Suzuki, que encontram em Eckhart, para além das fronteiras terminológicas, uma experiência comum à sua e fecunda para uma “cultura mundial” . A Escola de Kyoto tem particularmente promovido, muito em torno de Eckhart, um fecundo diálogo com a filosofia e mística ocidentais, desde Keiji Nishitani, que estudou o pregador alemão em Deus e o nada absoluto , até Shizuteru Ueda, que sobre ele se doutorou na Alemanha com uma tese sobre os seus dois temas capitais: o nascimento de Deus na alma e o trespasse na Divindade.
Aqui se apresentam ao leitor português alguns textos fundamentais dum autor que muito pode contribuir para dois dos maiores e urgentes desafios da nossa época: o florescimento da nossa consciência espiritual e o diálogo inter-cultural e inter-religioso, com Eckhart aberto - como entre nós com Agostinho da Silva - a agnósticos e ateus, pois uma Divindade equivalente ao “Nada” [Nichts] pode igualmente experimentar-se no silêncio da união místico-contemplativa, no abster-se de afirmar ou negar a sua existência ou no puro negá-la.
Concluímos expressando a nossa gratidão às edições Paulinas, pelo tão bom acolhimento desta proposta, bem como a gratificação de havermos levado a cabo este projecto com o nosso amigo Jorge Telles de Menezes, que a ele dedicou todo o seu imenso talento e experiência de tradutor da língua alemã, poética e filosófica, tal como os seus grandes dons de poeta e escritor.
Bem hajam!
Deixo-vos o prefácio (sem as notas de rodapé) que escrevi para esta obra cuja aparição - por fim! - em português considero o acontecimento editorial do ano. São obras como esta que vão justificando a cultura e cabe interrogar porque só agora se edita em Portugal um autor que é referência maior de toda a cultura europeia e hoje até planetária. Sem nos permeabilizarmos a estas vozes da experiência abissal do ser e da vida dificilmente sairemos da "apagada e vil tristeza".
Mestre Eckhart ou “o homem de quem Deus nada escondeu”
É com funda emoção que prefaciamos esta primeira publicação em Portugal de uma antologia de tratados e sermões de Mestre Eckhart (1260 ? – 1328), o teólogo, filósofo e pregador dominicano cuja profundidade e subtileza espiritual e “mística” o tornam cada vez mais uma referência fundamental para todos os que, independentemente da sua cultura ou religião, procuram ir ao fundo das possibilidades da vida, da consciência e da existência, sem se contentarem com a mera especulação intelectual sobre o seu sentido. Com efeito, em Eckhart dá-se a rara e feliz conciliação de uma sólida erudição universitária com a radicalidade da experiência espiritual que rompe e inova as categorias do pensamento da sua época e da sua tradição, fazendo dele um “Leben Meister” (“Mestre de vida” e não só de doutrina) que influiu decisivamente em gerações de discípulos e tem inspirado um significativo e crescente número de pensadores, psicólogos, escritores, poetas, pintores e músicos contemporâneos.
Consagrado pela posteridade como “o homem de quem Deus nada escondeu”, Eckhart assume de facto a sua visão e discurso como “uma verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus”. “Voz” vinda “da eternidade”, mas não compreendida senão nos limites do tempo, como o disse Tauler, seu discípulo , acabou por ser objecto de um processo e de uma Bula papal que condenou vinte e oito afirmações suas como heréticas ou “mal sonantes, ousadas e suspeitas de heresia” . Todavia, se Eckhart ousa transgredir o plano teológico-filosófico e doutrinal para falar em nome de uma experiência imediata de Deus, esta fuga à norma da sua própria tradição institucionalizada pode noutro sentido ser vista como fidelidade a uma experiência cristã mais profunda, em que a resposta à questão tradicional – Cur Deus homo; Porque se fez Deus homem ? – é a de que Deus se faz homem para que cada homem “seja engendrado como o próprio Deus”, sendo “a abissalidade [Abgründigkeit] do ser divino e da natureza divina” inteiramente gerada “no seu Filho unigénito” para que “nós próprios sejamos o mesmo Filho unigénito”. Cristo, o Filho único de Deus, não é assim somente considerado uma pessoa individual e distinta, designando sobretudo a suprema possibilidade, histórica e trans-histórica, comum a todo o ser humano, cumprida no acesso de cada um ao estado de unção espiritual que esse nome designa.
Se a pregação eckhartiana tem dois temas capitais - o nascimento de Deus na alma e o trespasse do espírito na Divindade - , é neste último que se torna mais sensível a sua inovação e radicalidade. Bernard McGinn usa a expressão “mística do fundo” para designar a nova forma de experiência espiritual iniciada ou redescoberta por Eckhart, seus contemporâneos e seguidores , sintetizada na afirmação: “o fundo de Deus e o fundo da alma são um fundo” . Grunt (forma antiga do moderno termo germânico Grund) abre assim um “campo de palavra místico”, constituindo uma “metáfora explosiva” (Blumenberg), enquanto “expressa de modo concreto o que não pode ser capturado em conceitos” e “trespassa anteriores categorias da linguagem mística para criar novos modos de apresentar um encontro directo com Deus” . Dos vários sentidos que Grunt assume no alemão medieval, destaca-se em Eckhart o do “mais íntimo” e “oculto” de um ser, “a sua essência” , referindo-se quer ao “mais íntimo da alma”, quer às “profundezas ocultas de Deus”, para designar a radical unicidade desse seu fundo único. Univocamente comum a Deus e à alma, o fundo transcende-os enquanto “Deus” e “alma” surgem como algo distinto em si mesmo e na sua relação mútua. Com efeito, metáfora do infinito e do absoluto livre de todo o limite e referência, o fundo é “sem fundo” e “um único um” que transcende o Deus pensado pelo homem “enquanto causa eficiente do universo” e diferenciado nas pessoas trinitárias: como diz, a origem do ser divino e de todas as coisas reside nesse “fundo simples” e “imóvel” ou “deserto silencioso onde jamais a distinção lançou um olhar, nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo” . Sendo a “indistinção” e a ausência de características a “característica distintiva de Deus” como fundo, este é “nu, livre, vazio, puro”. Daí a relação da metáfora do fundo com as do “deserto”, do “mar” e do “abismo” [Abgrund] , imagens de espaços vastos, uniformes e desobstruídos, sem limites nem entidades. Referindo também o incondicionado que há na alma, esse “algo incriado” que nela reside, o fundo é a mais poderosa metáfora que Eckhart usa – a par de outras, como a “pequena centelha” e a “cidadela” – para indicar a presença em cada ser do absoluto e infinito, isso que transcende e identifica o humano e o divino: “Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo o fundo de Deus” .
A questão central de toda a pregação eckhartiana é assim a de reassumir esse incondicionado fundo primordial de toda a experiência, que antecede e transcende não só a constituição do sujeito e do mundo, mas ainda a do próprio Deus enquanto tal, não só na sua determinação trinitária . Um dos sermões mais elucidativos disso é o “Beati pauperes spiritu…”, donde se colhe o título da presente obra, embora nele o autor não recorra explicitamente à metáfora do fundo. Propondo o despojamento radical do sujeito, pelo qual nada queira, saiba ou tenha, libertando-se de tudo e do próprio Deus, enquanto sujeito com atributos pensado pelo homem, Eckhart mostra como isso conduz à reintegração no estado primordial, pré-existencial, onde ele próprio, antes de se determinar como ente humano, vivia numa imanência absoluta, “livre de Deus e de todas as coisas” . É apenas pela sua livre saída desse estado e consequente recepção do seu “ser criado” que obtém “um Deus”, “pois antes que fossem as criaturas, Deus não era «Deus»”, mas apenas “o que era”, ou seja, nem isto nem aquilo, pura indeterminação não entificada nem qualificada. É somente pelo surgimento das “criaturas” nessa e a partir dessa indeterminação primordial, num processo solidário da auto-determinação existencial do próprio sujeito Eckhart, que “Deus” vem a ser, já não “em si mesmo”, mas “nas criaturas”, como um ente divino. É este “Deus”, criado, como tudo o mais, pela auto-criação do próprio sujeito enquanto ente mundano, que não lhe pode bastar, pois ele procede de algo anterior ao próprio “Deus” entificado e divinizado, isso que Eckhart designa como “o abismo eterno do ser divino” [den ewigen Abgrund göttlichen Seins]. “Por isso rogamos a Deus que de “Deus” nos livremos”, como diz, fruindo eternamente a “verdade” “aí onde os anjos mais elevados, a mosca e a alma são iguais”, ou seja, nessa manência primordial, sempre presente, transcendente do mundo da diferenciação criada, onde o sujeito residia quando “não era”, o que, embora sem o nomear, a não ser como “abismo eterno”, é decerto uma das indicações mais sugestivas do Grund ou fundo sem fundo . É a saída ou exílio ex-istencial desse “abismo”, mediante o escorrer ou emanar [Ausfliessen] diferenciador, que a ruptura ou trespasse [Durchbrechen] reintegrador vem anular, libertando o sujeito de si e assim de Deus e de todas as coisas e restaurando-o nesse eterno imo de não diferenciação onde não é “nem “Deus” [Gott] nem criatura”, instância noutros lugares designada como “Divindade” [Gottheit]. Esta é aquela “verdade” que só pode compreender quem se lhe assimila, a “verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus” .
Cremos residir neste aprofundamento extremo da experiência espiritual , livre de todo o condicionamento e idolatria conceptual e figurativa, a razão pela qual Eckhart também se vem crescentemente a impor como incontornável mediador do diálogo entre o Ocidente cristão e as tradições orientais . Diálogo autêntico, num duplo sentido: após Schopenhauer haver assumido em Buda, Eckhart e nele próprio um mesmo ensinamento fundamental (precipitadamente, cremos) , são autores orientais, sobretudo budistas Zen, como Daisetz Taitaro Suzuki, que encontram em Eckhart, para além das fronteiras terminológicas, uma experiência comum à sua e fecunda para uma “cultura mundial” . A Escola de Kyoto tem particularmente promovido, muito em torno de Eckhart, um fecundo diálogo com a filosofia e mística ocidentais, desde Keiji Nishitani, que estudou o pregador alemão em Deus e o nada absoluto , até Shizuteru Ueda, que sobre ele se doutorou na Alemanha com uma tese sobre os seus dois temas capitais: o nascimento de Deus na alma e o trespasse na Divindade.
Aqui se apresentam ao leitor português alguns textos fundamentais dum autor que muito pode contribuir para dois dos maiores e urgentes desafios da nossa época: o florescimento da nossa consciência espiritual e o diálogo inter-cultural e inter-religioso, com Eckhart aberto - como entre nós com Agostinho da Silva - a agnósticos e ateus, pois uma Divindade equivalente ao “Nada” [Nichts] pode igualmente experimentar-se no silêncio da união místico-contemplativa, no abster-se de afirmar ou negar a sua existência ou no puro negá-la.
Concluímos expressando a nossa gratidão às edições Paulinas, pelo tão bom acolhimento desta proposta, bem como a gratificação de havermos levado a cabo este projecto com o nosso amigo Jorge Telles de Menezes, que a ele dedicou todo o seu imenso talento e experiência de tradutor da língua alemã, poética e filosófica, tal como os seus grandes dons de poeta e escritor.
Bem hajam!
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Esfera Armilar - Portugal-Brasil e o Império espiritual
"Em primeiro lugar, e como já notou João de Castro Osório, Portugal não é propriamente um país europeu: mais rigorosamente se lhe poderá chamar um país atlântico - o país atlântico por excelência. (...) Além disso, Portugal, neste caso, quer dizer o Brasil também. Como o império, neste esquema, é espiritual, não há mister que seja imposto ou construído por uma só nação: pode sê-lo por mais que uma, desde que espiritualmente sejam a mesma, que o são se falarem a mesma língua.
Acresce que, tanto quanto hoje o podemos ver, há, de origem europeia, só duas nações fora da Europa com alma para poder ter império - os Estados Unidos e o Brasil. Os Estados Unidos, porém, e como já foi dito, estão já no seu império, que é material, e que é o Quinto Império de Inglaterra.
(Hipótese oriental - Rússia, Japão, China)"
- Fernando Pessoa, in Pessoa Inédito, coordenação de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Livros Horizonte, 1993, p.233.
É dos poucos textos que conheço onde Pessoa fala positivamente do Brasil e das suas potencialidades, considerando Portugal e Brasil "uma só nação" vocacionada para o império espiritual mundial. Parece antecipar a Declaração do MIL e a proposta de uma globalização alternativa, apostada numa promoção da consciência e da justiça a nível planetário. De que, a meu ver, a Lusofonia pode ser uma das sementes, desde que desde o início aberta a todas as demais culturas e civilizações.
Acresce que, tanto quanto hoje o podemos ver, há, de origem europeia, só duas nações fora da Europa com alma para poder ter império - os Estados Unidos e o Brasil. Os Estados Unidos, porém, e como já foi dito, estão já no seu império, que é material, e que é o Quinto Império de Inglaterra.
(Hipótese oriental - Rússia, Japão, China)"
- Fernando Pessoa, in Pessoa Inédito, coordenação de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Livros Horizonte, 1993, p.233.
É dos poucos textos que conheço onde Pessoa fala positivamente do Brasil e das suas potencialidades, considerando Portugal e Brasil "uma só nação" vocacionada para o império espiritual mundial. Parece antecipar a Declaração do MIL e a proposta de uma globalização alternativa, apostada numa promoção da consciência e da justiça a nível planetário. De que, a meu ver, a Lusofonia pode ser uma das sementes, desde que desde o início aberta a todas as demais culturas e civilizações.
domingo, 3 de maio de 2009
Sobressaltos - Apagar a morte
"A morte está diante de nós mais ou menos como o quadro da Batalha de Alexandre na parede de uma sala de aula. Trata-se, a partir desta vida, de obscurecer ou mesmo de apagar o quadro com os nossos actos"
- Franz Kafka, "Meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho", in Antologia de Páginas Íntimas, selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, Lisboa, Guimarães Editores, 2002, 3ª edição, p.154.
Os fracos reproduzem a e reproduzem-se na vida mortal. Os fortes imortalizam-se em vida, libertando-se de todas as limitações. Libertos, não descansam enquanto tudo não seja livre.
- Franz Kafka, "Meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho", in Antologia de Páginas Íntimas, selecção, prefácio e tradução de Alfredo Margarido, Lisboa, Guimarães Editores, 2002, 3ª edição, p.154.
Os fracos reproduzem a e reproduzem-se na vida mortal. Os fortes imortalizam-se em vida, libertando-se de todas as limitações. Libertos, não descansam enquanto tudo não seja livre.
sábado, 2 de maio de 2009
Poder de Deus
Nos mosteiros, sinagogas e mesquitas
refugiam-se os débeis, temerosos do
Inferno. Mas aquele que experimentou
o poder de Deus, não cultiva no seu
coração as funestas sementes do medo
e da súplica.
-Omar Khayyam, Rubaiyat
Que poder de Deus é este de que nos fala Khayyam?
refugiam-se os débeis, temerosos do
Inferno. Mas aquele que experimentou
o poder de Deus, não cultiva no seu
coração as funestas sementes do medo
e da súplica.
-Omar Khayyam, Rubaiyat
Que poder de Deus é este de que nos fala Khayyam?
Serenidade - Depende de ti
“Se sofres por causa de uma coisa exterior, não é esta coisa que te perturba, é o juízo que fazes sobre ela. Depende de ti fazê-lo desaparecer”
- Marco Aurélio, Pensamentos, VIII, 47.
- Marco Aurélio, Pensamentos, VIII, 47.
Arte de Filosofar
"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia, que os bibliógrafos registam e os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento. Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus.Cumprindo os ritos religiosos, políticos e morais que são a praxe no círculo social em que preferiu viver e conviver, o pensador sincero fica mais livre para na solidão reflectir sobre os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. A cada alma esclarecida no cultivo da ciência e inflamada pelo amor da verdade obsidia sempre um só problema, segredo ou mistério, a que atribui primado na ordenação de todas as interrogações que estimulam o pensamento até à hora da iluminação suprema"
- Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
- Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Lamentação
A sombra cai sobre o mundo e as cidades caem em ruína.
Sinto o fim próximo, a doença a chegar, consumindo-nos.
Já não há alegria, nem cantos de louvor, nem felicidade.
Nesta casa habita o pranto e sobre ela cai um torpor de morte.
A esperança deu lugar à sonolência, estamos febris.
Sinto o fim próximo e por ele me deixo levar, abatido.
O meu corpo desfalece e a minha alma está zonza.
Sinto um cansaço de morte e a entrada numa grande escuridão.
Só Tu me restas, por um fio, mas como é bom estar contigo.
Sou um estrangeiro neste mundo, sem pátria nem ligações.
Sem língua, sem bandeira, o tempo desapareceu em mim.
Não cheguei a conhecer a minha mátria.
Adoeço sozinho, ardo por dentro, o meu corpo consome-se.
A minha alma já nada deseja que não a paz.
O meu coração ferido de morte verte lágrimas de fogo.
Cospem na minha sepultura e desejam-me mal, mesmo em Ti;
mas Tu, finalmente, deixaste-me repousar e sair do mundo da dor,
para que em Ti pudesse viver em paz para sempre.
Sinto o fim próximo, a doença a chegar, consumindo-nos.
Já não há alegria, nem cantos de louvor, nem felicidade.
Nesta casa habita o pranto e sobre ela cai um torpor de morte.
A esperança deu lugar à sonolência, estamos febris.
Sinto o fim próximo e por ele me deixo levar, abatido.
O meu corpo desfalece e a minha alma está zonza.
Sinto um cansaço de morte e a entrada numa grande escuridão.
Só Tu me restas, por um fio, mas como é bom estar contigo.
Sou um estrangeiro neste mundo, sem pátria nem ligações.
Sem língua, sem bandeira, o tempo desapareceu em mim.
Não cheguei a conhecer a minha mátria.
Adoeço sozinho, ardo por dentro, o meu corpo consome-se.
A minha alma já nada deseja que não a paz.
O meu coração ferido de morte verte lágrimas de fogo.
Cospem na minha sepultura e desejam-me mal, mesmo em Ti;
mas Tu, finalmente, deixaste-me repousar e sair do mundo da dor,
para que em Ti pudesse viver em paz para sempre.
O desejo esculpe-nos in eternum
" - Mas é viver, é viver este morrer contínuo, nos teus braços e na luz, ou assim, fechados como múmias, já sepultos, com medo do deserto que se ergue em granizo de sangue, e nos lapida... (os deuses todos servos da Morte).
- Quanto mais o império durar (o império de que a morte é a invisível cariátide suprema), mais raiz teve o nosso desejo, mais fundo foi, mais possível a nossa imortalidade. O desejo esculpe-nos in eternum.
Vemos só o reverso da tapeçaria, que é o império: a tapeçaria, ela, é a eternidade. [...]"
- António Patrício, Teatro Egípcio, p.1025.

- Quanto mais o império durar (o império de que a morte é a invisível cariátide suprema), mais raiz teve o nosso desejo, mais fundo foi, mais possível a nossa imortalidade. O desejo esculpe-nos in eternum.
Vemos só o reverso da tapeçaria, que é o império: a tapeçaria, ela, é a eternidade. [...]"
- António Patrício, Teatro Egípcio, p.1025.
Sobressaltos - "É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada"
"O ser ou se revela um ou muitos. Em nós, ele é ao mesmo tempo uno e múltiplo, e assim como nos implicamos em cada uma das maneiras como somos, assim cada uma delas implica as outras. Assim também uma ligação íntima e substancial existe entre um homem e todos os outros, entre um ser e todos os outros seres, não sendo jamais viável a liberdade dum sem a liberdade de todos, o bem dum sem o bem de todos.
Assim vemos o filósofo digno desse nome não poder situar-se do lado do que define e determina pois a verdade está também no que indiferencia e indetermina.
O homem que se toma a si próprio como fim é considerado, em geral, como um néscio e dia virá em que ele próprio o verifique. Mas esta humanidade que se tomou a si própria como fim supõe-se sábia. Já dos longes do suposto passado se levantam não só os velhos deuses, mas os vultos fantasmáticos dos homens de outras eras. Já erguem suas frontes meditativas sobre o horizonte ainda velado para a maioria, já alguns podem ver como nos contemplam. Em breve nos julgarão. Mas é de crer que nada digam. É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada. Depois sumir-se-ão de novo, deixando esta estúpida humanidade com sua ciência pequenina e perigosa, sua arte frustrada, sua magra filosofia, cumprir o lôbrego destino para que se adianta inconsciente"
- José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p.215.
Sem comentários.
Assim vemos o filósofo digno desse nome não poder situar-se do lado do que define e determina pois a verdade está também no que indiferencia e indetermina.
O homem que se toma a si próprio como fim é considerado, em geral, como um néscio e dia virá em que ele próprio o verifique. Mas esta humanidade que se tomou a si própria como fim supõe-se sábia. Já dos longes do suposto passado se levantam não só os velhos deuses, mas os vultos fantasmáticos dos homens de outras eras. Já erguem suas frontes meditativas sobre o horizonte ainda velado para a maioria, já alguns podem ver como nos contemplam. Em breve nos julgarão. Mas é de crer que nada digam. É de crer que se contentem de soltar à nossa volta imensa gargalhada. Depois sumir-se-ão de novo, deixando esta estúpida humanidade com sua ciência pequenina e perigosa, sua arte frustrada, sua magra filosofia, cumprir o lôbrego destino para que se adianta inconsciente"
- José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p.215.
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