O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A propósito dum comentário a despropósito dum descomentário a certo, digamos, poema dum certo Nobel, digamos que "português” talvez incerto


Não será de todo inútil comparar - com o que, para Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, seja o mais fundo sentido de escrever - aquilo que um tal de Nobel, glória provavelmente muito meramente fortuita, diz do “acto” (diz ele) de escrever.
Se não, vejamos:

“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(...) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias(...)”

José Saramago, “A jangada de pedra”


“Escrevendo, cedo apenas a uma necessidade espiritual de revelação ou confissão. Cumpro uma lei da vida”

Teixeira de Pascoaes, “São Jerónimo”


“À minha sensibilidade cada vez mais profunda, à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma acção sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização, vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante coisa, mais terrível missão – dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador-de-civilização de toda a obra artística. E por isso o meu próprio conceito puramente estético da obra de arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim mesmo muito mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito”.

Fernando Pessoa, “Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues”, citado por António Quadros, “Fernando Pessoa – A Obra e o Homem” vol. I, Editora Arcádia, Lisboa, 1981, pág. 146 e seg.

Qualquer coincidência é impura semelhança!

"Ich bin das Messer mit dem der Tote seinen Sarg aufsprengt" / "Eu sou a faca com que o morto abre o caixão"


Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.
- Heiner Müller, "O anjo do desespero", in O Anjo do Desespero, tradução, posfácio e notas de João Barrento, Lisboa, Relógio d'Água, 1997, p.51.

Pessoal!

toca a arrebitar. já agora, curtia aqui avisar que voltei a escrever no meu blogue. serão, com certeza, só parvoíces, mas assim o é também a filosofia. é andarmos aqui a fazer ficção com conceitos. já chateia.

"Noigandres", Arnaut Daniel (1180-1210)




"Vejo vermelhos, verdes, blaus, brancos, cobaltos
Vergéis, plainos, planaltos, montes, vales;
A voz dos passarinhos voa e soa
Em doces notas, manhã, tarde, noite.
Então todo o meu ser quer que eu colora o canto
De uma flor cujo fruto é só de amor,
O grão só de alegria e o olor de noigandres*."

"Noigandres", de Arnaut Daniel
(citado em Ezra Pound, "ABC da Leitura",Editora Cultrix, São Paulo, 1977, pág.185)


*Nota dos tradutores:
"noigandres, enoi gandres" - expressão provençal, de sentido incerto. Num dos seus Cantos - o XX - Ezra Pound narra este diálogo que teve com o notável provençalista alemão Emil Lévy a respeito da enigmática palavra:

"...Sim, Doutor, o que querem dizer com noigandres?"
E ele disse: "Noigandres! NOIgandres!
Faz seis meses já
Toda a noite, qvando fou dormir, digo para mim mesmo:
Noigandres, eh, noigandres,
Mas que DIABO querr dizer isto!"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"...un sexe de femme caressé par une fleur sauvage..."

"Clou mon frère fou, toi que souvent la folie exaspère, tu es le seul être qui a ri d'un grand rire sain, lorsque je t'ai dit qu'un sexe de femme caressé par une fleur sauvage pouvait donner naissance à un androgyne de cristal"

- Daniel Pons, Le Fou et le Créateur, Canto 39, Paris, Albin Michel, 1990, p.373.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais."


Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

José Saramago,
in "Os Poemas Possíveis"
Lisboa, Caminho, 1999

Um Ícaro

Trabalho de António Couvinha

Cansados estão os olhos
De ver subir as águas
Espelho do céu
Pedra polida
Ao pensamento torna
Acesa em luz e vida.
(...)
Um arrepio longo
De viagem
Nos olhos tardos do frio.

"De amigo"

E olla meu amigo.
Agora
perante nós
o nada xurde derradeiro
coma toda orixe.

Olla no valeiro do ver.

Aonde, dime, agora, ou en cal peito
baixaría a mañán
para alumear os páxaros
que endexamáis voaron
das miñas maus ao dia.

Imaxe de ninguén
em tódollos espellos.

A ponla do mencer
esmoreceu na noite
e ti no irse
meu eu de min.
O nada.

E olla meu amigo.

- José Angél Valente [Orense, 25.4.1929-Genebra, 18.7.2000], Cántigas de alén, in El Fulgor, Antología poética (1953-2000), Barcelona, Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2001, p.342.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Água do Mar

O tempo cura tudo, dizia a minha avó. A água do mar cura as feridas. Tantas pessoas a quererem que o tempo não passe tão depressa e eu à espera que ele passe o mais rapidamente possível. Passa Tempo, passa. A água do mar cura as feridas, o tempo cura tudo, só a água do mar cura tudo. Quero afogar-me devagarinho neste mar, deixar-me cair suavemente até à areia do fundo, macia, perder-me entre os corais e os peixes multicoloridos, talvez ser devorada por um tubarão ou salva por um golfinho, mas nunca cedo demais. Quero mergulhar no azul, verde e prata do esquecimento. Quero que o fogo se apague na água salgada, que o sol se filtre em luz branca no macio do ventre do planeta. Quero perder a memória, que o coração se plante no fundo e crie raízes e que as correntes abanem suavemente as veias e artérias desfeitas e as abracem. Quero que a mente se recrie ostra e os cabelos, algas, verde-escuras. Quero que as mãos se transfigurem em pequenos cavalos marinhos e as pernas em barcos afundados por piratas. Quero que a boca se esqueça das palavras e solte os beijos todos na espuma do mar. Quero que os ouvidos ensurdeçam para tudo o que não seja o cantar das baleias. Quero que as asas se soltem nos albatrozes e nos papagaios do mar. Quero que os braços se agigantem em tímidos marmotos que brincam. E no final, quero descer ainda mais, muito mais, ao coração da Terra, curada pela água e regressar núcleo vivo, equilíbrio, plenitude e brilhar na aurora boreal.

Criação e destruição da linguagem, dinamitação e pulverização de sentido



I
PANDEMOS


Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!

Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrica donstália penicela
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão boíneos, ó primana!

Dentívolos palpículos, baissai!
Lingâmicos dolins, refucarai!
Por manivornas contumai a veste!

E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.



IV
AMÁTIA


Timbórica, morfia, ó persefessa,
meláina, andrófona, repitimbídia,
ó basilissa, ó scótia, masturlídia,
amata cíprea, calipígea, tressa

de jardinatas nigras, pasifessa,
luni-rosácea lambidando erídia,
erínea, erítia, erótia, erânia, egídia,
eurínoma, ambológera, donlessa.

Áres, Hefáistos, Adonísio, tutos
alipigmaios, atilícios, futos
da lívia damitada, organissanta,

agonimais se esforem morituros,
necrotentavos de escancárias duros,
tantisqua abradimembra a teia canta.


Jorge de Sena, "Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena",
in "Poesia II", Moraes Editores, Lisboa, 1978, págs. 151 e seg.



Na sua nota sobre “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, que consta do posfácio ao livro “Metamorfoses", dois dos quais aqui se transcrevem, diz Jorge de Sena:

"Quanto aos Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, […] trata-se de uma experiência (...) para sugerir mais amplamente do que a própria metáfora ambígua, com as suas fixações de sentido, o poderia fazer. Não se trata, portanto, creio eu, nem da transposição do limbo onírico da linguagem, como faz o Joyce de Finnegans Wake, nem da amplificação estilística da linguagem escrita, pela intromissão das formas da deformação oral, como faz Guimarães Rosa. O que eu pretendo é que as palavras deixem de significar semanticamente, para representarem um complexo de imagens suscitadas à consciência liminar pelas associações sonoras que as compõem.
Eu não quero ampliar a linguagem corrente da poesia; quero destrui-la como significação, retirando-lhe o carácter mítico - semântico, que é transferido para a sobreposição de imagens (no sentido psíquico e não estilístico), compondo um sentido global, em que o gesto imaginado valha mais do que a sua mesma designação. No último soneto, a maior parte das palavras não é inventada, mas os epítetos gregos de Afrodite.
E creio ser curioso como, ligeiramente transformados na acentuação (alguns), igualmente contribuem para a criação de uma atmosfera erótica, concreta, cuja concretização não depende do sentido das palavras, mas da fragmentação delas integrada num sentido mais vasto, evolutivo e obsessivo. E creio que, assim, é possível dizer tudo em linguagem poética, sem dizer o que, pelo carácter simbólico e conciso desta linguagem, não pode ser dito sem mau gosto e sem ridículo, como aconteceu ao D.H. Lawrence, quando quis misturar "poesia" e "prosa" para dizer "tudo".
O tudo expressamente dito, é, e tem de ser cada vez mais, o apanágio da ficção. E é preciso que se liquide de uma vez a ilusão de que a ficção pertence à poesia como tal: só pertence à poesia genericamente considerada como criação e construção de estilo. A poesia como criação de linguagem é supra-real, isto é, engloba a realidade e a sua mesma representação linguística.
"


Nota: Se bem que com pressupostos e intenções diferentes, também Ângelo de Lima e Antonin Artaud haviam feito anteriormente experiências com os limites da linguagem, de que se transcrevem alguns exemplos.


EDD'ORA ADDIO...--MIA SOAVE!..._
Ângelo de Lima

Aos meus amigos d'Orpheu


--Mia Soave...--Ave?!...--Alméa?!...
--Maripoza Azual...--Transe!...
Que d'Alado Lidar, Canse...
--Dorta em Paz...--Transpasse Idéa!...

--Do Occaso pela Epopéa...
Dorto... Stringe... o Corpo Elance...
Vae Á Campa...--Il C'or descanse...
--Mia Soave...--Ave!...--Alméa!...

--Não Doe Por Ti Meu Peito...
--Não Choro no Orar Cicio...
--Em Profano...--Edd'ora... Eleito!...

--Balsame--a Campa--o Rocío
Que Cahe sobre o Ultimo Leito!...
--Mi' Soave!... Edd'ora Addio!...


Fonte: http://www.gutenberg.org/ebooks/23621


Poemas em glossolalia
Antonin Artaud


ratara ratara ratara
atara tatara rana

otara otara katara
otara retara kana

ortura ortura konara
kokona kokona koma

kurbura kurbura kurbura
kurbata kurbata keyna

pesti anti pestantum putara
pest anti pestantum putra


* * *

potam am cram
katanam anankreta
karaban kreta
tanamam anangteta
konaman kreta
e pustulam orentam
taumer dauldi faldisti
taumer oumer
tena tana di li
kunchta dzeris
dzama dzena di li

* * *

Talachtis talachtis tsapoula
koiman koima Nara
ara trafund arakulda


Fonte: http://gismontizado.blogspot.com/2008/12/antonin-artaud.html

O Homem Invisível

O homem invisível decidiu dar cabo de mim
A sua presença é um convite permanente para a depressão
Estou sempre à espera de mais algum dos seus golpes baixos
Empurra-me para labirintos donde não há evasão

Ele já sabe há muito tempo que eu não posso detê-lo
Já sabe há muito tempo que eu não tenho meios para o apanhar
Sou eu quem dá a cara
Quem desperdiça a força que ele acaba por neutralizar

O homem invisível foi uma péssima invenção
Vive à custa do meu mal e não tem nada de bom para dar
E embora, às vezes, ele faça aliciantes promessas
Nenhuma delas até hoje me conseguiu acalmar

Eu sou apenas mais um entre os seus milhões de vítimas
Muitos já tentaram dar-lhe a volta, atirá-lo ao chão
Mas toda a gente falha
São todos contaminados pela sua má vibração

O homem invisível já é velho e cheira mal
Extremamente imoral, é capaz de vender a própria mãe
Não acredita no sonho, o seu amor é o dinheiro
E vive no terror constante de perder o que tem

Talvez eu nunca mais chegue a ver-me livre do monstro
Mas enquanto ele anda aí também vai ter que me aturar
Enquanto eu tiver voz
E algum sangue nas veias ele não vai conseguir descansar

Jorge Palma
Álbum Lado Errado da Noite, 1985

Olhar magistral

Reconhece na Tristeza as alegrias que choras
e prossegue desequivocado a queda nos abismos que te erguem fundo.

Sophia de Mello Breyner e Eugénio de Andrade

Hoje deixo aqui dois poemas. Um de Sophia de Mello Breyner, em resposta a Morrer de Luz e outro de Eugénio de Andrade, sobre As Palavras, por ocasião do aniversário do seu nascimento. E aproveito para desejar um bom dia a todos, cheio de claridade...

Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.

[Sophia de Mello Breyner]

As Palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

[Eugénio de Andrade]

"Man muss noch über Gott"/"Deve-se ir ainda além de Deus"




"Wo ist mein Aufenthalt? Wo ich und du nicht stehen.
Wo ist mein letztes End, in welches ich soll gehen?
Da, wo man keines findt. Wo soll ich denn nun hin?
Ich muss noch über Gott in eine Wüste ziehn"

“Onde é a minha morada ? Onde eu e tu não estamos.
Onde é o meu fim último, para o qual devo ir ?
Aí onde nenhum se encontra. Para onde irei então ?
Devo ir ainda além de Deus, para um deserto”

- Angelus Silesius, Cherubinischer Wandersmann, I, 7, in Sämtliche Poetische Werke, III, edição e introdução de Hans Ludwig Held, Munique, Carl Hanser Verlag, 1949, pp.7-8.

Morrer de luz

“Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”

- Emil Cioran, Sur les Cimes du Désespoir, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.31.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Edgar Allan Poe (1809-1849) - Bicentenário do nascimento



(Poema dito pelo actor Vincent Price)



Marcando o bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe, escritor americano e celebrado autor do poema justamente célebre "The Raven"("O Corvo"), traduzido em português, entre outros, por Fernando Pessoa e Machado de Assis, aqui se deixa uma singela homenagem à sua memória.


The Raven
Edgar Allan Poe

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
"'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door-
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore-
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore-
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating,
"'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door-
Some late visitor entreating entrance at my chamber door;-
This it is, and nothing more."

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
"Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;-
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!"
This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"-
Merely this, and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
"Surely," said I, "surely that is something at my window lattice:
Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore-
Let my heart be still a moment and this mystery explore;-
'Tis the wind and nothing more."

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and
flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore;
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayedhe;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door-
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door-
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore.
"Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven,
Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore-
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning- little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door-
Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore."

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered-
Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before-
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before."
Then the bird said, "Nevermore."

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore-
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never- nevermore'."

But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;
Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore-
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore
Meant in croaking "Nevermore."

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor.
"Wretch," I cried, "thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee
Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil!- prophet still, if bird or devil!-
Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted-
On this home by horror haunted- tell me truly, I implore-
Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Prophet!" said I, "thing of evil- prophet still, if bird or
devil!
By that Heaven that bends above us- by that God we both adore-
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore-
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore."

"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting-
"Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!"
Quoth the Raven, "Nevermore."

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the
floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted- nevermore!



Para a tradução de Fernando Pessoa:
http://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Fernando_Pessoa)

Para a tradução de Machado de Assis:
http://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_-_Tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Machado_de_Assis

Portal dedicado a Poe:

http://www.poebrasil.com.br

Uma folha de erva

fotogafia "Death is not the end" by Paulo A. in www.olhares.com/Dion

Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia acerca
de como uma folha de erva
se torna cada vez mais difícil de oferecer

e de como quanto mais envelheces
uma folha de erva
se torna mais difícil de aceitar.


Brian Patten
Qual é a minha ou a tua língua?
Cem poemas de amor de outras línguas,
organização - Jorge Sousa Braga,

"Ela está condenada! Está salva!"

À Ana Moreira, que comemorando o seu aniversário ontem tão generosamente nos prendou com o magnífico "Faust", de Charles Gounod, no São Carlos.
Esta litografia de Wilhelm Hensel (1794-1861) ilustra o "Sie ist gerichtet! Ist gerettet!" ("Ela está condenada! Está salva!"), o instante sublime em que Margarida recusa a possibilidade de libertação que Mefistófeles e Fausto lhe oferecem e se entrega, como vítima sacrificial, ao cadafalso, assimilando-se assim ao Cristo cuja ressurreição imediatamente após se proclama.
Possamos nós assim nos oferecer, transmutando no coração toda a dor e treva em luz, pelo bem de todos os seres!
Gratos, Ana!

domingo, 18 de janeiro de 2009

Viagem

Ainda não parti, mas a minha viagem já começou. A alma lança-se primeiro para a frente, na antecipação do vôo. A mente segue-a, receosa, medrosa, ainda hesitante. Assim se vai abrindo o caminho que me vai separar de ti. Colocar o meu pé físico nos primeiros centímetros desse caminho vai ser uma das coisas mais difíceis que já fiz. O meu corpo não quer separar-se de ti. Nem a alma, mas essa, essa anda sempre a esvoaçar de um lado para o outro. Vai e volta, vai e volta. Nem sabe que vai para sempre. Sabe o quê, a alma? A alma é uma tonta. Feita apenas de voo, emoção e luz e sombras, sabe lá para onde vai, ela. Vai para onde a mandam, ora essa. Vai com o corpo, porque está presa a ele. A mente é que tem medo, mas foi a mente que decidiu. A mente protege em primeiro lugar o corpo. E o corpo, ultimamente, fora muito atacado pelas bicadas da alma, que se queria libertar. A alma enterrou-lhe o bico e as garras e começou a destruir o corpo. O corpo não se mexe. Ou melhor, não se mexia. Mas a mente começou a ver que a coisa estava a ir longe demais. Sentiu o corpo a falhar, as células a avariarem e a errarem a programação, a respiração cada vez mais ofegante, a visão a nublar-se, a circulação a interromper-se em vários pontos. Por isso, olhou no futuro e mudou-o imperceptivelmente. Poucos sabem, mas quando o presente acontece, não é causado pelo passado. É causado pelos nossos pensamentos colocados no futuro. O tempo, ao contrário do que se pensa, tem dois sentidos. O corpo pode percorrer apenas um, mas a mente percorre os dois, infindavelmente, sem mesmo se dar conta. Quando a mente olhou para o futuro e viu a morte do corpo, assustou-se e criou um futuro diferente. Do futuro para o presente chegaram então novos acontecimentos, devagar, ao princípio, depois numa sucessão cada vez mais rápida. Embateram um a um, primeiro como cascalho, depois pedras, depois pedregulhos, contra os muros que rodeavam o corpo, até que estes caíram. O caminho abriu-se. O caminho que me separa de ti. Onde irei dar em breve o primeiro passo. A alma é uma tonta, mas acaba por conseguir sempre o que quer. O corpo prende a alma, a mente é que decide, mas afinal a alma é que manda. Essa tonta. Não sabe para onde vai, só sabe que não quer ficar. Sofre e nem sabe porquê. Morde e arranha, quando enlouquece e pouco lhe importa o mal que faz ao corpo, porque afinal, para ela, o corpo não passa de uma prisão. Não fosse a mente e a alma matava o corpo em três tempos. Talvez num tempo apenas. Como um traço de pincel flutuante ou um lenço de seda puxado pelo vento na direcção de um caminho que ainda mal se abriu, branco, tão branco, como uma fina tela pousada no chão, mal sabe a alma o que a espera. Quando sentir a tua falta, quererá voltar. Mas será tarde demais. O corpo só pode percorrer o tempo num sentido e também os caminhos abertos pela vida não têm regresso. Não sei como a mente e o corpo irão conseguir acalmá-la, à tonta da alma, quando ela perceber que se quebraram os laços entre ela e a tua alma. Neste momento ainda está entrelaçada na tua. Não sabe que vai separar-se. Chilreia, alegremente, numa estúpida emoção sem sentido, que a minha mente se apressa a tentar esmagar. Em vão. A mente é mais densa do que a alma, tal como o corpo é mais denso que a mente. Mas enquanto a mente tenta acertar com um tabefe na alma tonta, esta vai-se distraindo e por vezes, até já se separa da tua, esvoaçando para um lado e para o outro. A tua alma está presa em ti, mas a minha alma não corre para mim, que ainda aqui estou, traça pinceladas coloridas no caminho branco e canta. À medida que o caminho se vai abrindo, com pinceladas e mais pinceladas de vôo, o meu corpo prepara-se para partir também. Eu também vou ter de ir com ele. Estou presa à minha alma. Sou ainda menos densa que ela. Pensam que ela é tonta? Parece tonta, mas não é, sou eu que a controlo. Mas nada decido e nunca intervenho. Nem sei quem sou. Desdobro-me em multiplicidades infinitas. Interrogo-me. Tão sómente.

E ainda um comentário ao post anterior, que vale por si...

Publico um comentário ao post anterior, de Petrus, lido também no mesmo blog:

A invenção de aparelhos sem fio, por Jagadis Chandra Bose, foi anterior à de Marconi. Bose foi o primeiro a inventar um coesor sem fio e um instrumento para indicar a refração das ondas elétricas. Mas o inventor indiano não explorou comercialmente suas invenções. sua atenção logo se desviou do mundo inorganico para o organico. Suas revolucionarias descobertas sobre a fisiologia das plantas estão ultrapassando até mesmo suas radicais realizações como físico. No dia seguinte fiz uma visita ao sábio em sua casa, que ficava próxima da minha.

....Regressei recentemente de uma visita as sociedades científicas ocidentais, disse Bose. Seus membros manifestaram intenso interesse nos delicados instrumentos de minha invenção, que demonstram a unidade indivisivel de toda vida. O crescógrafo Bose permite ampliar dez milhões de vezes. O microscópio aumenta apenas alguns milhares de vezes, apesar disso, deu impulso vital a ciencia biológica. O crescógrafo desvenda incalculaveis horizontes.

....Estudei em Cambridge. Admirável é o método ocidental de submeter toda teoria à escrupulosa verificação experimental. Tenho aliado sempre o procedimento empírico ao dom da introspecção, que é a minha herança oriental. Juntos, os dois processos me permitiram sondar os silencios dos reinos da natureza, incomunicaveis há longo tempo. Os reveladores gráficos de meu crescógrafo são provas, aos olhos mais céticos, de que as plantas possuem um sistema nervoso sensivel e uma vida emocional variada. Amor, ódio, alegria, medo, prazer, dor, excitabilidade, esturpor e inúmeras outras reações a estímulos são tão universais nas plantas como nos animais.

....O singular palpitar da vida em toda a criação poderia parecer uma imagem poética antes de sua descoberta, professor! Conhecí um santo que jamais arrancava um flôr. " Deveria ofender sua dignidade com meu rude gesto de despi-la?"

As palavras de compaixão do santo são literalmente comprovadas pelas descobertas que o senhor fez.
....Afirmou Yogananda.

....O poeta é um íntimo da verdade, enquanto o cientista se aproxima dela desajeitadamente.

Um dia, venha ao meu laboratório e veja o inequívoco testemunho do crescógrafo.

Quando o Instituto Bose foi inaugurado, compareci a solenidade.

Seguem trechos do discurso de abertura pelo cientista Bose.

No decorrer de minhas pesquisas, fui inconscientemente levado às fronteriras da física e da fisiologia. Para meu espanto, descobrí que as linhas limítrofes se desvaneciam, e que pontos de contato emergiam entre os reinos do vivo e do não vivo.

A matéria inorganica foi percebida como algo não inerte, vibrava intensamente sob a ação de forças numerosas.

Uma reação universal parecia colocar o metal, o vegetal e o animal sob a mesma lei. Todos exibiam essencialmente os mesmos fenômenos de fadiga e depressão, com possibilidades de recuperação e de estímulo, bem como permanente falta de reação associada à morte.

Cheio de assombro diante desta fantástica generalização, foi com grandes esperanças que anunciei minhas descobertas para o Royal Society - descobertas demonstradas através de experiencias.

Os fisiologistas presentes, porém me aconselharam a limitar minhas pesquisas ao campo da física, onde reconheciam meu sucesso, em vez de invadir os seus reinos estanques. Sem querer, eu me extraviara nos dominios de um desconhecido sistema de castas, ofendendo a sua etiquêta.

Um inconsciente preconceito teológico apresentou-se tambem: o que confunde ignorancia com fé.

Frequentemente esquecemos que Aquele que nos cercou com o mistério da criação, sempre em evolução, deu-nos tambem o desejo de questionar e de entender.

Incompreendido pelos outros durante muitos anos, finalmente entendí que a vida de um devoto da ciencia está inevitavelmenbte repleta de esforços interminaveis.

Cabe a ele lançar sua vida em ardente oferenda--encarando perda e ganho, sucesso e fracasso, como a mesma coisa.

Com o tempo as principais sociedades cintíficas do mundo aceitaram minhas teorias e descobertas, reconhecendo a importancia da contribuição indiana à ciencia.

O trabalho já realizado pelo laboratório Bose sobre a reação da matéria e sobre as inesperadas revelações da vida vegetal, descortinou vastas áreas de pesquisa na física, na fisiologia, na medicina, na agricultura, e até na psicologia.

Problemas até então encarados como insolúveis são agora trazidos à esfera da investigação experimental.

Foram comprovados através do teste do crescógrafo,o delicadíssimo sistema circulatório que conduz a seiva pelas plantas.

A vida mineral registrada através de impulsos amplificados e projetados numa tela mostraram que os metais manifestam várias reações.

Os instrumentos Bose demonstraram que metais como o aço, usados em tesouras e maquinaria, estão sujeitos à fadiga e recuperam a eficiencia após pausas periódicas.

A pulsação da vida nos metais sofre danos sérios, e pode até ser extinta, quando se emprega correntes elétricas ou pressão muito forte.


Trechos extraídos do livro Autobiografia de um Yogue, de Paramhansa Yogananda.

Os Mistérios da Água

Então aqui fica algo sobre a água, lido aqui: Liberdade de Expressão e Cultura

A água tem memória e registra o que ocorre à sua volta, à semelhança dos seres humanos. Esta é a conclusão a que cientistas japoneses e russos chegaram após estudos com a água em diversas condições: sob a forma de gelo, pura, contaminada por esgotos ou mesmo quando presente a manifestações das emoções e sentimentos humanos.

O livro “A mensagem da água”, do pesquisador japonês Masaro Emoto, traz fotografias com o registro de como a água ‘reage’ tanto diante de fenômenos físicos como a poluição ambiental, como de emoções, casos do amor e do ódio. Os resultados da pesquisa foram confirmados por acadêmicos russos, como o cientista Iúri Rakhmanín, vice-presidente da Academia das Ciências Naturais: “A água é uma fonte de energia e armazena informação. Ela pulsa oxigênio e hidrogênio”, diz. O vídeo (com áudio em espanhol) Os segredos da água (clique no título para assistir), com cerca de uma hora de duração, apresenta depoimentos e experimentos sobre o tema.

Histórica e curiosamente, a ex-URSS (e atual Rússia) sempre esteve na vanguarda das investigações supra ou paranormais, muitas vezes desdenhadas -ou apenas temidas- pela Ciência convencional. Não por acaso, foram os russos que criaram a chamada fotografia Kirlian, pela qual é possível registrar os movimentos do campo bioeletromagnético dos seres vivos conhecido como aura.

Embora o mecanismo que demonstre como a água armazena informações ainda não esteja inteiramente explicado, a descoberta deverá contribuir para um avanço na compreensão do funcionamento de medicinas como a homeopatia e Florais de Bach. Na homeopatia, a matéria-prima original utilizada para a formulação do remédio é diluída (dinamizada) até não deixar traços; e nos Florais de Bach não há nenhum agente diluído, exceto a água exposta ao sereno da madrugada. Ambas medicinas são reconhecidas e recomendadas pela própria OMS – Organização Mundial da Saúde.

As imagens a seguir mostram cristais de gelo vistos sob as lentes de um microscópio. As legendas são auto-explicativas. As fotos revelam ainda outra curiosidade: quanto mais harmoniosas as formas assumidas pela água, maior sua semelhança com as células de uma colméia, o núcleo de formato hexagonal onde as abelhas depositam seu alimento (o mel) ou que serve de berço para as operárias do reino das flores. Há 300 milhões de anos, esta forma se mantém imutável.




Livros recomendados:

A mensagem da Água, de Masaro Emoto
A vida secreta das plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird
A vida das abelhas, deMaurice Maeterlinck

sábado, 17 de janeiro de 2009

Dama Imóvel




Andas aí
Na Margem
A roubar para os teus cabelos
Verdes
A brisa do mar
A noite peca por tocar-te
Queria, fosse lua
Contigo contrastar,
Incrustrar no escuro
Imóvel e nua


"Depois que eu descobri
Que há você
Nunca mais existi..." (Djavan - Doidice)

A cintura é a parte mais importante

photography by Edward Weston, American, (1886-1958)


a cintura é a parte mais importante

do corpo de uma mulher,

o pequeno arco em que gira

todo o seu movimento.


para baixo e para cima fica a desordem

que as rotações imprimem:

imagens fugitivas, desfocadas,

de costelas, seios,

braços, ombros e cabelos;

ou virilhas, nádegas,

pernas múltiplas, como

na dança, sob a retina fotográfica.


formam-se assim linhas circulares,

pura luz,

mas com uma trajectória, que cria

o espaço e o tempo.


quem quisesse porém encontrar

um eixo vertical imóvel, ou seja,

possuir ilusoriamente a mulher,

teria de a pontuar no olhar, no meio

dos lábios, no umbigo,

no ponto mais sensível do clítoris,

na junção dos pés.



esta é a ciência antiga do tacto

- o que fixa o fluido,

e crucifica a carne

à eternidade do conceito.


Vítor Oliveira Jorge
“Pequeno Livro de Aforismos
Seguido de Algumas Alumiações”
Porto, 2005




Estranheza

À memória de Fernando Neves

Ser é estranho. A experiência de haver algo é estranha. Haver realidade, sujeito e mundo, haver eu, outros e coisas, haver estes pensamentos e palavras que o nomeiam - seja isso o que for, real, ilusório ou real e ilusório - , é de um estranhamento sem fundo.
O mais estranho de tudo é o sentimento de ser, o sentimento de se ser, o sentimento/pensamento de se ser um ser, de existir. O que é isto de me sentir, de me sentir um ser distinto do mundo e dos outros seres, de me sentir aqui e não ali, de me sentir um/num corpo que oculta uma contínua metamorfose emocional e mental? O que é isto que se diz ser um corpo e um corpo humano? O que é isto de haver uma forma e de a considerar a minha forma? O que é isto de haver uma cabeça, um pescoço, um tronco, dois braços e duas mãos, duas pernas e dois pés? O que é isto de haver um rosto e de o considerar o meu rosto? O que é isto de haver dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca? O que é isto de ter pele, carne, ossos, tendões, nervos, músculos, órgãos, sangue, linfa, secreções, mucos, fezes e urina? O que é isto de passar o tempo imóvel e em movimento, a deitar-me, levantar-me, sentar-me e a andar? O que é isto de estar sempre acordado ou a dormir, a sonhar ou não? O que é isto de passar o tempo a fazer coisas ou a não fazer nada e ter consciência disso? O que é isto de estar em silêncio, respirar, pensar, falar, agir? O que é isto de percepcionar continuamente o que julgo e se diz ser o meu corpo, as minhas emoções e os meus pensamentos? O que é isto de percepcionar continuamente o que considero seres e objectos e o que é considerá-los isso? O que é isto de poder continuamente tocá-los, agarrá-los, falar-lhes, afectá-los?
O que é estar aqui, neste preciso instante, a sentir-me sentado no que se diz ser uma cadeira, a bater com o que se diz serem dedos no que se diz ser um teclado, enquanto sinto e penso o que se diz ser sentir e pensar isto e contemplo o que se diz serem caracteres a aparecerem no que se diz ser um ecrã, enquanto o que se diz ser um gato se levanta e desloca para junto do que se diz ser um aquecedor?
E o que é isto que se diz ser a minha vida? O que é este contínuo, dia após dia e noite após noite do que se diz serem dias e noites, manhãs e tardes, acordar, levantar-me, lavar-me, fazer exercícios físicos e espirituais, vestir-me, saudar a família, estudar, escrever, traduzir, conduzir, dar aulas, comer, beber, urinar, evacuar, dormir? O que é isto que se diz ter família, filhos e companheira, amigos, inimigos e indiferentes? O que é isto que a tudo isso acompanha, a babélica multidão do que se diz serem sentimentos e emoções, sempre mutáveis, a sucederem-se e a converterem-se uns nos outros: amor, apego, ódio, raiva, medo, indiferença, ciúme, inveja, ternura, orgulho, vaidade, compaixão, avareza, desejo, alegria, tristeza, esperança e seus contrários? E o que é a vertiginosa turbamulta do que se diz serem pensamentos e palavras, de tudo isso inseparáveis? O que é ter um nome? O que é responder a ele como se efectivamente me designe, quando não sei o que é isso ou esse que designa nem o que é ser? E o que é ter passado pelo que se diz ser o nascimento e ir passar pelo que se diz ser a morte?
O que é interrogar e pensar tudo isto e o que ou quem é – se, como dizem, o há – quem assim interroga e pensa? O que é cada um destes pensamentos e palavras? O que é um pensamento e uma palavra? O que é dizer e pensar o quer que seja? Haver palavras e pensamentos é tão estranho quanto haver o que se pense e diga.

Porque não sei responder em absoluto a estas questões, se me libertar das respostas que outros antes de mim sem as colocar deram e que quase todos sem as colocar e dar dão? E porque julgo quase sempre saber ou faço de conta que sei o que em verdade não sei? Porque me sinto tão incomodado com o súbito despertar a saber que o não sei e, por hábito ou opção, consciente ou inconsciente, sempre por conforto, quase logo disso me distraio e o esqueço? Porque é tão difícil pairar suspenso no abismo da interrogação e tão facilmente resvalo para o chão de tão incertas certezas e inseguras seguranças?

Tudo é tão estranho. E em verdade, mais estranho ainda que o sentimento da estranheza de tudo, é ele ser tão estranho. Pois que há ou se crê haver que se não estranhe? Que há que seja em absoluto familiar, conhecido e próximo, a começar pelo que digo e me dizem ser eu próprio? O que é ser eu próprio?

Ser é muito estranho.

E o que é estranhar? Ser em suspensão de si e de ser? In-ex-istir? Estar aqui alhures?

(Dedico este texto à memória do Fernando Neves, companheiro de escola e brincadeiras na rua, bom jogador de futebol e nada intelectual, com o qual, num belo dia, deveríamos ter uns 8 anos, sentados em cima de um muro que já não existe perto da casa de meus pais, descobri que o sentimento do terrível enigma de tudo, e a interrogação do porque há ser, era algo compartilhado. Recordo-me como se fosse agora de, subitamente, confessarmos mutuamente como pensávamos nisso até à exaustão e à sensação da iminência da loucura ou da explosão. Jamais encontrei na Universidade, ou na leitura e convívio com poetas e filósofos, momento mais gratificante. Tudo o que aqui escrevo não é senão uma redutora extensão desse relampejante diálogo.
O Fernando Neves passou a ter uma doença estranha a partir da adolescência e acabou por se suicidar, após se lançar uma segunda vez da janela da casa dos pais, perto de onde moro. Não se inquietem ou alegrem todavia os leitores, pois não creio ir no mesmo caminho. Creio que a estranheza e a incerteza acerca da própria existência se substituem ao suicídio com evidentes vantagens)