Um espaço para expressar, conhecer e reflectir as mais altas, fundas e amplas experiências e possibilidades humanas, onde os limites se convertem em limiares. Sofrimento, mal e morte, iniciação, poesia e revolução, sexo, erotismo e amor, transe, êxtase e loucura, espiritualidade, mística e transcendência. Tudo o que altera, transmuta e liberta. Tudo o que desencobre um Esplendor nas cinzas opacas da vida falsa.
O CAMINHO DA SERPENTE
"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".
"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga. E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"
Não será de todo inútil comparar - com o que, para Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, seja o mais fundo sentido de escrever - aquilo que um tal de Nobel, glória provavelmente muito meramente fortuita, diz do “acto” (diz ele) de escrever. Se não, vejamos:
“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(...) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias(...)”
José Saramago, “A jangada de pedra”
“Escrevendo, cedo apenas a uma necessidade espiritual de revelação ou confissão. Cumpro uma lei da vida”
Teixeira de Pascoaes, “São Jerónimo”
“À minha sensibilidade cada vez mais profunda, à minha consciência cada vez maior da terrível e religiosa missão que todo o homem de génio recebe de Deus com o seu génio, tudo quanto é futilidade, mera-arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e repugnante. Pouco a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento íntimo de uma evolução cujos fins me são ocultos, tenho vindo erguendo os meus propósitos e as minhas ambições cada vez mais à altura daquelas qualidades que recebi. Ter uma acção sobre a humanidade, contribuir com todo o poder do meu esforço para a civilização, vêm-se-me tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me cada vez mais importante coisa, mais terrível missão – dever a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador-de-civilização de toda a obra artística. E por isso o meu próprio conceito puramente estético da obra de arte subiu e dificultou-se; exijo agora de mim mesmo muito mais perfeição e elaboração cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo à missão que me sinto uma perfeição absoluta no realizado, uma seriedade integral no escrito”.
Fernando Pessoa, “Cartas de Fernando Pessoa a Armando Côrtes-Rodrigues”, citado por António Quadros, “Fernando Pessoa – A Obra e o Homem” vol. I, Editora Arcádia, Lisboa, 1981, pág. 146 e seg.
Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.
- Heiner Müller, "O anjo do desespero", in O Anjo do Desespero, tradução, posfácio e notas de João Barrento, Lisboa, Relógio d'Água, 1997, p.51.
toca a arrebitar. já agora, curtia aqui avisar que voltei a escrever no meu blogue. serão, com certeza, só parvoíces, mas assim o é também a filosofia. é andarmos aqui a fazer ficção com conceitos. já chateia.
"Vejo vermelhos, verdes, blaus, brancos, cobaltos Vergéis, plainos, planaltos, montes, vales; A voz dos passarinhos voa e soa Em doces notas, manhã, tarde, noite. Então todo o meu ser quer que eu colora o canto De uma flor cujo fruto é só de amor, O grão só de alegria e o olor de noigandres*."
"Noigandres", de Arnaut Daniel (citado em Ezra Pound, "ABC da Leitura",Editora Cultrix, São Paulo, 1977, pág.185)
*Nota dos tradutores: "noigandres, enoi gandres" - expressão provençal, de sentido incerto. Num dos seus Cantos - o XX - Ezra Pound narra este diálogo que teve com o notável provençalista alemão Emil Lévy a respeito da enigmática palavra:
"...Sim, Doutor, o que querem dizer com noigandres?" E ele disse: "Noigandres! NOIgandres! Faz seis meses já Toda a noite, qvando fou dormir, digo para mim mesmo: Noigandres, eh, noigandres, Mas que DIABO querr dizer isto!"
"Clou mon frère fou, toi que souvent la folie exaspère, tu es le seul être qui a ri d'un grand rire sain, lorsque je t'ai dit qu'un sexe de femme caressé par une fleur sauvage pouvait donner naissance à un androgyne de cristal"
- Daniel Pons, Le Fou et le Créateur, Canto 39, Paris, Albin Michel, 1990, p.373.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais."
Demissão
Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo de mais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos, se dependentes.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis" Lisboa, Caminho, 1999
E olla meu amigo. Agora perante nós o nada xurde derradeiro coma toda orixe.
Olla no valeiro do ver.
Aonde, dime, agora, ou en cal peito baixaría a mañán para alumear os páxaros que endexamáis voaron das miñas maus ao dia.
Imaxe de ninguén em tódollos espellos.
A ponla do mencer esmoreceu na noite e ti no irse meu eu de min. O nada.
E olla meu amigo.
- José Angél Valente [Orense, 25.4.1929-Genebra, 18.7.2000], Cántigas de alén, in El Fulgor, Antología poética (1953-2000), Barcelona, Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2001, p.342.
O tempo cura tudo, dizia a minha avó. A água do mar cura as feridas. Tantas pessoas a quererem que o tempo não passe tão depressa e eu à espera que ele passe o mais rapidamente possível. Passa Tempo, passa. A água do mar cura as feridas, o tempo cura tudo, só a água do mar cura tudo. Quero afogar-me devagarinho neste mar, deixar-me cair suavemente até à areia do fundo, macia, perder-me entre os corais e os peixes multicoloridos, talvez ser devorada por um tubarão ou salva por um golfinho, mas nunca cedo demais. Quero mergulhar no azul, verde e prata do esquecimento. Quero que o fogo se apague na água salgada, que o sol se filtre em luz branca no macio do ventre do planeta. Quero perder a memória, que o coração se plante no fundo e crie raízes e que as correntes abanem suavemente as veias e artérias desfeitas e as abracem. Quero que a mente se recrie ostra e os cabelos, algas, verde-escuras. Quero que as mãos se transfigurem em pequenos cavalos marinhos e as pernas em barcos afundados por piratas. Quero que a boca se esqueça das palavras e solte os beijos todos na espuma do mar. Quero que os ouvidos ensurdeçam para tudo o que não seja o cantar das baleias. Quero que as asas se soltem nos albatrozes e nos papagaios do mar. Quero que os braços se agigantem em tímidos marmotos que brincam. E no final, quero descer ainda mais, muito mais, ao coração da Terra, curada pela água e regressar núcleo vivo, equilíbrio, plenitude e brilhar na aurora boreal.
agonimais se esforem morituros, necrotentavos de escancárias duros, tantisqua abradimembra a teia canta.
Jorge de Sena, "Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena", in "Poesia II", Moraes Editores, Lisboa, 1978, págs. 151 e seg.
Na sua nota sobre “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, que consta do posfácio ao livro “Metamorfoses", dois dos quais aqui se transcrevem, diz Jorge de Sena:
"Quanto aos Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, […] trata-se de uma experiência (...) para sugerir mais amplamente do que a própria metáfora ambígua, com as suas fixações de sentido, o poderia fazer. Não se trata, portanto, creio eu, nem da transposição do limbo onírico da linguagem, como faz o Joyce de Finnegans Wake, nem da amplificação estilística da linguagem escrita, pela intromissão das formas da deformação oral, como faz Guimarães Rosa. O que eu pretendo é que as palavras deixem de significar semanticamente, para representarem um complexo de imagens suscitadas à consciência liminar pelas associações sonoras que as compõem. Eu não quero ampliar a linguagem corrente da poesia; quero destrui-la como significação, retirando-lhe o carácter mítico - semântico, que é transferido para a sobreposição de imagens (no sentido psíquico e não estilístico), compondo um sentido global, em que o gesto imaginado valha mais do que a sua mesma designação. No último soneto, a maior parte das palavras não é inventada, mas os epítetos gregos de Afrodite. E creio ser curioso como, ligeiramente transformados na acentuação (alguns), igualmente contribuem para a criação de uma atmosfera erótica, concreta, cuja concretização não depende do sentido das palavras, mas da fragmentação delas integrada num sentido mais vasto, evolutivo e obsessivo. E creio que, assim, é possível dizer tudo em linguagem poética, sem dizer o que, pelo carácter simbólico e conciso desta linguagem, não pode ser dito sem mau gosto e sem ridículo, como aconteceu ao D.H. Lawrence, quando quis misturar "poesia" e "prosa" para dizer "tudo". O tudo expressamente dito, é, e tem de ser cada vez mais, o apanágio da ficção. E é preciso que se liquide de uma vez a ilusão de que a ficção pertence à poesia como tal: só pertence à poesia genericamente considerada como criação e construção de estilo. A poesia como criação de linguagem é supra-real, isto é, engloba a realidade e a sua mesma representação linguística."
Nota: Se bem que com pressupostos e intenções diferentes, também Ângelo de Lima e Antonin Artaud haviam feito anteriormente experiências com os limites da linguagem, de que se transcrevem alguns exemplos.
EDD'ORA ADDIO...--MIA SOAVE!..._ Ângelo de Lima
Aos meus amigos d'Orpheu
--Mia Soave...--Ave?!...--Alméa?!... --Maripoza Azual...--Transe!... Que d'Alado Lidar, Canse... --Dorta em Paz...--Transpasse Idéa!...
--Do Occaso pela Epopéa... Dorto... Stringe... o Corpo Elance... Vae Á Campa...--Il C'or descanse... --Mia Soave...--Ave!...--Alméa!...
--Não Doe Por Ti Meu Peito... --Não Choro no Orar Cicio... --Em Profano...--Edd'ora... Eleito!...
--Balsame--a Campa--o Rocío Que Cahe sobre o Ultimo Leito!... --Mi' Soave!... Edd'ora Addio!...
Fonte: http://www.gutenberg.org/ebooks/23621
Poemas em glossolalia Antonin Artaud
ratara ratara ratara atara tatara rana
otara otara katara otara retara kana
ortura ortura konara kokona kokona koma
kurbura kurbura kurbura kurbata kurbata keyna
pesti anti pestantum putara pest anti pestantum putra
* * *
potam am cram katanam anankreta karaban kreta tanamam anangteta konaman kreta e pustulam orentam taumer dauldi faldisti taumer oumer tena tana di li kunchta dzeris dzama dzena di li
* * *
Talachtis talachtis tsapoula koiman koima Nara ara trafund arakulda
O homem invisível decidiu dar cabo de mim A sua presença é um convite permanente para a depressão Estou sempre à espera de mais algum dos seus golpes baixos Empurra-me para labirintos donde não há evasão
Ele já sabe há muito tempo que eu não posso detê-lo Já sabe há muito tempo que eu não tenho meios para o apanhar Sou eu quem dá a cara Quem desperdiça a força que ele acaba por neutralizar
O homem invisível foi uma péssima invenção Vive à custa do meu mal e não tem nada de bom para dar E embora, às vezes, ele faça aliciantes promessas Nenhuma delas até hoje me conseguiu acalmar
Eu sou apenas mais um entre os seus milhões de vítimas Muitos já tentaram dar-lhe a volta, atirá-lo ao chão Mas toda a gente falha São todos contaminados pela sua má vibração
O homem invisível já é velho e cheira mal Extremamente imoral, é capaz de vender a própria mãe Não acredita no sonho, o seu amor é o dinheiro E vive no terror constante de perder o que tem
Talvez eu nunca mais chegue a ver-me livre do monstro Mas enquanto ele anda aí também vai ter que me aturar Enquanto eu tiver voz E algum sangue nas veias ele não vai conseguir descansar
Hoje deixo aqui dois poemas. Um de Sophia de Mello Breyner, em resposta a Morrer de Luz e outro de Eugénio de Andrade, sobre As Palavras, por ocasião do aniversário do seu nascimento. E aproveito para desejar um bom dia a todos, cheio de claridade...
Não se perdeu nenhuma coisa em mim. Continuam as noites e os poentes Que escorreram na casa e no jardim, Continuam as vozes diferentes Que intactas no meu ser estão suspensas. Trago o terror e trago a claridade, E através de todas as presenças Caminho para a única unidade.
[Sophia de Mello Breyner]
As Palavras
São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?
"Wo ist mein Aufenthalt? Wo ich und du nicht stehen. Wo ist mein letztes End, in welches ich soll gehen? Da, wo man keines findt. Wo soll ich denn nun hin? Ich muss noch über Gott in eine Wüste ziehn"
“Onde é a minha morada ? Onde eu e tu não estamos. Onde é o meu fim último, para o qual devo ir ? Aí onde nenhum se encontra. Para onde irei então ? Devo ir ainda além de Deus, para um deserto”
- Angelus Silesius, Cherubinischer Wandersmann, I, 7, in Sämtliche Poetische Werke, III, edição e introdução de Hans Ludwig Held, Munique, Carl Hanser Verlag, 1949, pp.7-8.
“Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”
- Emil Cioran, Sur les Cimes du Désespoir, in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.31.
Marcando o bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe, escritor americano e celebrado autor do poema justamente célebre "The Raven"("O Corvo"), traduzido em português, entre outros, por Fernando Pessoa e Machado de Assis, aqui se deixa uma singela homenagem à sua memória.
The Raven Edgar Allan Poe
Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary, Over many a quaint and curious volume of forgotten lore, While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping, As of some one gently rapping, rapping at my chamber door. "'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my chamber door- Only this, and nothing more."
Ah, distinctly I remember it was in the bleak December, And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor. Eagerly I wished the morrow;- vainly I had sought to borrow From my books surcease of sorrow- sorrow for the lost Lenore- For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore- Nameless here for evermore.
And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain Thrilled me- filled me with fantastic terrors never felt before; So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating, "'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door- Some late visitor entreating entrance at my chamber door;- This it is, and nothing more."
Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer, "Sir," said I, "or Madam, truly your forgiveness I implore; But the fact is I was napping, and so gently you came rapping, And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door, That I scarce was sure I heard you"- here I opened wide the door;- Darkness there, and nothing more.
Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing, Doubting, dreaming dreams no mortals ever dared to dream before; But the silence was unbroken, and the stillness gave no token, And the only word there spoken was the whispered word, "Lenore!" This I whispered, and an echo murmured back the word, "Lenore!"- Merely this, and nothing more.
Back into the chamber turning, all my soul within me burning, Soon again I heard a tapping somewhat louder than before. "Surely," said I, "surely that is something at my window lattice: Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore- Let my heart be still a moment and this mystery explore;- 'Tis the wind and nothing more."
Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter, In there stepped a stately raven of the saintly days of yore; Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayedhe; But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door- Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door- Perched, and sat, and nothing more.
Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling, By the grave and stern decorum of the countenance it wore. "Though thy crest be shorn and shaven, thou," I said, "art sure no craven, Ghastly grim and ancient raven wandering from the Nightly shore- Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!" Quoth the Raven, "Nevermore."
Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly, Though its answer little meaning- little relevancy bore; For we cannot help agreeing that no living human being Ever yet was blest with seeing bird above his chamber door- Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door, With such name as "Nevermore."
But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only That one word, as if his soul in that one word he did outpour. Nothing further then he uttered- not a feather then he fluttered- Till I scarcely more than muttered, "other friends have flown before- On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before." Then the bird said, "Nevermore."
Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken, "Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store, Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster Followed fast and followed faster till his songs one burden bore- Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore Of 'Never- nevermore'."
But the Raven still beguiling all my fancy into smiling, Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door; Then upon the velvet sinking, I betook myself to linking Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore- What this grim, ungainly, ghastly, gaunt and ominous bird of yore Meant in croaking "Nevermore."
This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core; This and more I sat divining, with my head at ease reclining On the cushion's velvet lining that the lamplight gloated o'er, But whose velvet violet lining with the lamplight gloating o'er, She shall press, ah, nevermore!
Then methought the air grew denser, perfumed from an unseen censer Swung by Seraphim whose footfalls tinkled on the tufted floor. "Wretch," I cried, "thy God hath lent thee- by these angels he hath sent thee Respite- respite and nepenthe, from thy memories of Lenore! Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!" Quoth the Raven, "Nevermore."
"Prophet!" said I, "thing of evil!- prophet still, if bird or devil!- Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore, Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted- On this home by horror haunted- tell me truly, I implore- Is there- is there balm in Gilead?- tell me- tell me, I implore!" Quoth the Raven, "Nevermore."
"Prophet!" said I, "thing of evil- prophet still, if bird or devil! By that Heaven that bends above us- by that God we both adore- Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn, It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore- Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore." Quoth the Raven, "Nevermore."
"Be that word our sign in parting, bird or fiend," I shrieked, upstarting- "Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore! Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken! Leave my loneliness unbroken!- quit the bust above my door! Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!" Quoth the Raven, "Nevermore."
And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting On the pallid bust of Pallas just above my chamber door; And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming, And the lamplight o'er him streaming throws his shadow on the floor; And my soul from out that shadow that lies floating on the floor Shall be lifted- nevermore!
Para a tradução de Fernando Pessoa: http://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Fernando_Pessoa)
Para a tradução de Machado de Assis: http://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_-_Tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Machado_de_Assis Portal dedicado a Poe: http://www.poebrasil.com.br
À Ana Moreira, que comemorando o seu aniversário ontem tão generosamente nos prendou com o magnífico "Faust", de Charles Gounod, no São Carlos. Esta litografia de Wilhelm Hensel (1794-1861) ilustra o "Sie ist gerichtet! Ist gerettet!" ("Ela está condenada! Está salva!"), o instante sublime em que Margarida recusa a possibilidade de libertação que Mefistófeles e Fausto lhe oferecem e se entrega, como vítima sacrificial, ao cadafalso, assimilando-se assim ao Cristo cuja ressurreição imediatamente após se proclama. Possamos nós assim nos oferecer, transmutando no coração toda a dor e treva em luz, pelo bem de todos os seres! Gratos, Ana!
Ainda não parti, mas a minha viagem já começou. A alma lança-se primeiro para a frente, na antecipação do vôo. A mente segue-a, receosa, medrosa, ainda hesitante. Assim se vai abrindo o caminho que me vai separar de ti. Colocar o meu pé físico nos primeiros centímetros desse caminho vai ser uma das coisas mais difíceis que já fiz. O meu corpo não quer separar-se de ti. Nem a alma, mas essa, essa anda sempre a esvoaçar de um lado para o outro. Vai e volta, vai e volta. Nem sabe que vai para sempre. Sabe o quê, a alma? A alma é uma tonta. Feita apenas de voo, emoção e luz e sombras, sabe lá para onde vai, ela. Vai para onde a mandam, ora essa. Vai com o corpo, porque está presa a ele. A mente é que tem medo, mas foi a mente que decidiu. A mente protege em primeiro lugar o corpo. E o corpo, ultimamente, fora muito atacado pelas bicadas da alma, que se queria libertar. A alma enterrou-lhe o bico e as garras e começou a destruir o corpo. O corpo não se mexe. Ou melhor, não se mexia. Mas a mente começou a ver que a coisa estava a ir longe demais. Sentiu o corpo a falhar, as células a avariarem e a errarem a programação, a respiração cada vez mais ofegante, a visão a nublar-se, a circulação a interromper-se em vários pontos. Por isso, olhou no futuro e mudou-o imperceptivelmente. Poucos sabem, mas quando o presente acontece, não é causado pelo passado. É causado pelos nossos pensamentos colocados no futuro. O tempo, ao contrário do que se pensa, tem dois sentidos. O corpo pode percorrer apenas um, mas a mente percorre os dois, infindavelmente, sem mesmo se dar conta. Quando a mente olhou para o futuro e viu a morte do corpo, assustou-se e criou um futuro diferente. Do futuro para o presente chegaram então novos acontecimentos, devagar, ao princípio, depois numa sucessão cada vez mais rápida. Embateram um a um, primeiro como cascalho, depois pedras, depois pedregulhos, contra os muros que rodeavam o corpo, até que estes caíram. O caminho abriu-se. O caminho que me separa de ti. Onde irei dar em breve o primeiro passo. A alma é uma tonta, mas acaba por conseguir sempre o que quer. O corpo prende a alma, a mente é que decide, mas afinal a alma é que manda. Essa tonta. Não sabe para onde vai, só sabe que não quer ficar. Sofre e nem sabe porquê. Morde e arranha, quando enlouquece e pouco lhe importa o mal que faz ao corpo, porque afinal, para ela, o corpo não passa de uma prisão. Não fosse a mente e a alma matava o corpo em três tempos. Talvez num tempo apenas. Como um traço de pincel flutuante ou um lenço de seda puxado pelo vento na direcção de um caminho que ainda mal se abriu, branco, tão branco, como uma fina tela pousada no chão, mal sabe a alma o que a espera. Quando sentir a tua falta, quererá voltar. Mas será tarde demais. O corpo só pode percorrer o tempo num sentido e também os caminhos abertos pela vida não têm regresso. Não sei como a mente e o corpo irão conseguir acalmá-la, à tonta da alma, quando ela perceber que se quebraram os laços entre ela e a tua alma. Neste momento ainda está entrelaçada na tua. Não sabe que vai separar-se. Chilreia, alegremente, numa estúpida emoção sem sentido, que a minha mente se apressa a tentar esmagar. Em vão. A mente é mais densa do que a alma, tal como o corpo é mais denso que a mente. Mas enquanto a mente tenta acertar com um tabefe na alma tonta, esta vai-se distraindo e por vezes, até já se separa da tua, esvoaçando para um lado e para o outro. A tua alma está presa em ti, mas a minha alma não corre para mim, que ainda aqui estou, traça pinceladas coloridas no caminho branco e canta. À medida que o caminho se vai abrindo, com pinceladas e mais pinceladas de vôo, o meu corpo prepara-se para partir também. Eu também vou ter de ir com ele. Estou presa à minha alma. Sou ainda menos densa que ela. Pensam que ela é tonta? Parece tonta, mas não é, sou eu que a controlo. Mas nada decido e nunca intervenho. Nem sei quem sou. Desdobro-me em multiplicidades infinitas. Interrogo-me. Tão sómente.
Publico um comentário ao post anterior, de Petrus, lido também no mesmo blog:
A invenção de aparelhos sem fio, por Jagadis Chandra Bose, foi anterior à de Marconi. Bose foi o primeiro a inventar um coesor sem fio e um instrumento para indicar a refração das ondas elétricas. Mas o inventor indiano não explorou comercialmente suas invenções. sua atenção logo se desviou do mundo inorganico para o organico. Suas revolucionarias descobertas sobre a fisiologia das plantas estão ultrapassando até mesmo suas radicais realizações como físico. No dia seguinte fiz uma visita ao sábio em sua casa, que ficava próxima da minha.
....Regressei recentemente de uma visita as sociedades científicas ocidentais, disse Bose. Seus membros manifestaram intenso interesse nos delicados instrumentos de minha invenção, que demonstram a unidade indivisivel de toda vida. O crescógrafo Bose permite ampliar dez milhões de vezes. O microscópio aumenta apenas alguns milhares de vezes, apesar disso, deu impulso vital a ciencia biológica. O crescógrafo desvenda incalculaveis horizontes.
....Estudei em Cambridge. Admirável é o método ocidental de submeter toda teoria à escrupulosa verificação experimental. Tenho aliado sempre o procedimento empírico ao dom da introspecção, que é a minha herança oriental. Juntos, os dois processos me permitiram sondar os silencios dos reinos da natureza, incomunicaveis há longo tempo. Os reveladores gráficos de meu crescógrafo são provas, aos olhos mais céticos, de que as plantas possuem um sistema nervoso sensivel e uma vida emocional variada. Amor, ódio, alegria, medo, prazer, dor, excitabilidade, esturpor e inúmeras outras reações a estímulos são tão universais nas plantas como nos animais.
....O singular palpitar da vida em toda a criação poderia parecer uma imagem poética antes de sua descoberta, professor! Conhecí um santo que jamais arrancava um flôr. " Deveria ofender sua dignidade com meu rude gesto de despi-la?"
As palavras de compaixão do santo são literalmente comprovadas pelas descobertas que o senhor fez. ....Afirmou Yogananda.
....O poeta é um íntimo da verdade, enquanto o cientista se aproxima dela desajeitadamente.
Um dia, venha ao meu laboratório e veja o inequívoco testemunho do crescógrafo.
Quando o Instituto Bose foi inaugurado, compareci a solenidade.
Seguem trechos do discurso de abertura pelo cientista Bose.
No decorrer de minhas pesquisas, fui inconscientemente levado às fronteriras da física e da fisiologia. Para meu espanto, descobrí que as linhas limítrofes se desvaneciam, e que pontos de contato emergiam entre os reinos do vivo e do não vivo.
A matéria inorganica foi percebida como algo não inerte, vibrava intensamente sob a ação de forças numerosas.
Uma reação universal parecia colocar o metal, o vegetal e o animal sob a mesma lei. Todos exibiam essencialmente os mesmos fenômenos de fadiga e depressão, com possibilidades de recuperação e de estímulo, bem como permanente falta de reação associada à morte.
Cheio de assombro diante desta fantástica generalização, foi com grandes esperanças que anunciei minhas descobertas para o Royal Society - descobertas demonstradas através de experiencias.
Os fisiologistas presentes, porém me aconselharam a limitar minhas pesquisas ao campo da física, onde reconheciam meu sucesso, em vez de invadir os seus reinos estanques. Sem querer, eu me extraviara nos dominios de um desconhecido sistema de castas, ofendendo a sua etiquêta.
Um inconsciente preconceito teológico apresentou-se tambem: o que confunde ignorancia com fé.
Frequentemente esquecemos que Aquele que nos cercou com o mistério da criação, sempre em evolução, deu-nos tambem o desejo de questionar e de entender.
Incompreendido pelos outros durante muitos anos, finalmente entendí que a vida de um devoto da ciencia está inevitavelmenbte repleta de esforços interminaveis.
Cabe a ele lançar sua vida em ardente oferenda--encarando perda e ganho, sucesso e fracasso, como a mesma coisa.
Com o tempo as principais sociedades cintíficas do mundo aceitaram minhas teorias e descobertas, reconhecendo a importancia da contribuição indiana à ciencia.
O trabalho já realizado pelo laboratório Bose sobre a reação da matéria e sobre as inesperadas revelações da vida vegetal, descortinou vastas áreas de pesquisa na física, na fisiologia, na medicina, na agricultura, e até na psicologia.
Problemas até então encarados como insolúveis são agora trazidos à esfera da investigação experimental.
Foram comprovados através do teste do crescógrafo,o delicadíssimo sistema circulatório que conduz a seiva pelas plantas.
A vida mineral registrada através de impulsos amplificados e projetados numa tela mostraram que os metais manifestam várias reações.
Os instrumentos Bose demonstraram que metais como o aço, usados em tesouras e maquinaria, estão sujeitos à fadiga e recuperam a eficiencia após pausas periódicas.
A pulsação da vida nos metais sofre danos sérios, e pode até ser extinta, quando se emprega correntes elétricas ou pressão muito forte.
Trechos extraídos do livro Autobiografia de um Yogue, de Paramhansa Yogananda.
A água tem memória e registra o que ocorre à sua volta, à semelhança dos seres humanos. Esta é a conclusão a que cientistas japoneses e russos chegaram após estudos com a água em diversas condições: sob a forma de gelo, pura, contaminada por esgotos ou mesmo quando presente a manifestações das emoções e sentimentos humanos.
O livro “A mensagem da água”, do pesquisador japonês Masaro Emoto, traz fotografias com o registro de como a água ‘reage’ tanto diante de fenômenos físicos como a poluição ambiental, como de emoções, casos do amor e do ódio. Os resultados da pesquisa foram confirmados por acadêmicos russos, como o cientista Iúri Rakhmanín, vice-presidente da Academia das Ciências Naturais: “A água é uma fonte de energia e armazena informação. Ela pulsa oxigênio e hidrogênio”, diz. O vídeo (com áudio em espanhol) Os segredos da água (clique no título para assistir), com cerca de uma hora de duração, apresenta depoimentos e experimentos sobre o tema.
Histórica e curiosamente, a ex-URSS (e atual Rússia) sempre esteve na vanguarda das investigações supra ou paranormais, muitas vezes desdenhadas -ou apenas temidas- pela Ciência convencional. Não por acaso, foram os russos que criaram a chamada fotografia Kirlian, pela qual é possível registrar os movimentos do campo bioeletromagnético dos seres vivos conhecido como aura.
Embora o mecanismo que demonstre como a água armazena informações ainda não esteja inteiramente explicado, a descoberta deverá contribuir para um avanço na compreensão do funcionamento de medicinas como a homeopatia e Florais de Bach. Na homeopatia, a matéria-prima original utilizada para a formulação do remédio é diluída (dinamizada) até não deixar traços; e nos Florais de Bach não há nenhum agente diluído, exceto a água exposta ao sereno da madrugada. Ambas medicinas são reconhecidas e recomendadas pela própria OMS – Organização Mundial da Saúde.
As imagens a seguir mostram cristais de gelo vistos sob as lentes de um microscópio. As legendas são auto-explicativas. As fotos revelam ainda outra curiosidade: quanto mais harmoniosas as formas assumidas pela água, maior sua semelhança com as células de uma colméia, o núcleo de formato hexagonal onde as abelhas depositam seu alimento (o mel) ou que serve de berço para as operárias do reino das flores. Há 300 milhões de anos, esta forma se mantém imutável.
Livros recomendados:
A mensagem da Água, de Masaro Emoto A vida secreta das plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird A vida das abelhas, deMaurice Maeterlinck
Andas aí Na Margem A roubar para os teus cabelos Verdes A brisa do mar A noite peca por tocar-te Queria, fosse lua Contigo contrastar, Incrustrar no escuro Imóvel e nua
"Depois que eu descobri Que há você Nunca mais existi..." (Djavan - Doidice)
Ser é estranho. A experiência de haver algo é estranha. Haver realidade, sujeito e mundo, haver eu, outros e coisas, haver estes pensamentos e palavras que o nomeiam - seja isso o que for, real, ilusório ou real e ilusório - , é de um estranhamento sem fundo. O mais estranho de tudo é o sentimento de ser, o sentimento de se ser, o sentimento/pensamento de se ser um ser, de existir. O que é isto de me sentir, de me sentir um ser distinto do mundo e dos outros seres, de me sentir aqui e não ali, de me sentir um/num corpo que oculta uma contínua metamorfose emocional e mental? O que é isto que se diz ser um corpo e um corpo humano? O que é isto de haver uma forma e de a considerar a minha forma? O que é isto de haver uma cabeça, um pescoço, um tronco, dois braços e duas mãos, duas pernas e dois pés? O que é isto de haver um rosto e de o considerar o meu rosto? O que é isto de haver dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca? O que é isto de ter pele, carne, ossos, tendões, nervos, músculos, órgãos, sangue, linfa, secreções, mucos, fezes e urina? O que é isto de passar o tempo imóvel e em movimento, a deitar-me, levantar-me, sentar-me e a andar? O que é isto de estar sempre acordado ou a dormir, a sonhar ou não? O que é isto de passar o tempo a fazer coisas ou a não fazer nada e ter consciência disso? O que é isto de estar em silêncio, respirar, pensar, falar, agir? O que é isto de percepcionar continuamente o que julgo e se diz ser o meu corpo, as minhas emoções e os meus pensamentos? O que é isto de percepcionar continuamente o que considero seres e objectos e o que é considerá-los isso? O que é isto de poder continuamente tocá-los, agarrá-los, falar-lhes, afectá-los? O que é estar aqui, neste preciso instante, a sentir-me sentado no que se diz ser uma cadeira, a bater com o que se diz serem dedos no que se diz ser um teclado, enquanto sinto e penso o que se diz ser sentir e pensar isto e contemplo o que se diz serem caracteres a aparecerem no que se diz ser um ecrã, enquanto o que se diz ser um gato se levanta e desloca para junto do que se diz ser um aquecedor? E o que é isto que se diz ser a minha vida? O que é este contínuo, dia após dia e noite após noite do que se diz serem dias e noites, manhãs e tardes, acordar, levantar-me, lavar-me, fazer exercícios físicos e espirituais, vestir-me, saudar a família, estudar, escrever, traduzir, conduzir, dar aulas, comer, beber, urinar, evacuar, dormir? O que é isto que se diz ter família, filhos e companheira, amigos, inimigos e indiferentes? O que é isto que a tudo isso acompanha, a babélica multidão do que se diz serem sentimentos e emoções, sempre mutáveis, a sucederem-se e a converterem-se uns nos outros: amor, apego, ódio, raiva, medo, indiferença, ciúme, inveja, ternura, orgulho, vaidade, compaixão, avareza, desejo, alegria, tristeza, esperança e seus contrários? E o que é a vertiginosa turbamulta do que se diz serem pensamentos e palavras, de tudo isso inseparáveis? O que é ter um nome? O que é responder a ele como se efectivamente me designe, quando não sei o que é isso ou esse que designa nem o que é ser? E o que é ter passado pelo que se diz ser o nascimento e ir passar pelo que se diz ser a morte? O que é interrogar e pensar tudo isto e o que ou quem é – se, como dizem, o há – quem assim interroga e pensa? O que é cada um destes pensamentos e palavras? O que é um pensamento e uma palavra? O que é dizer e pensar o quer que seja? Haver palavras e pensamentos é tão estranho quanto haver o que se pense e diga.
Porque não sei responder em absoluto a estas questões, se me libertar das respostas que outros antes de mim sem as colocar deram e que quase todos sem as colocar e dar dão? E porque julgo quase sempre saber ou faço de conta que sei o que em verdade não sei? Porque me sinto tão incomodado com o súbito despertar a saber que o não sei e, por hábito ou opção, consciente ou inconsciente, sempre por conforto, quase logo disso me distraio e o esqueço? Porque é tão difícil pairar suspenso no abismo da interrogação e tão facilmente resvalo para o chão de tão incertas certezas e inseguras seguranças?
Tudo é tão estranho. E em verdade, mais estranho ainda que o sentimento da estranheza de tudo, é ele ser tão estranho. Pois que há ou se crê haver que se não estranhe? Que há que seja em absoluto familiar, conhecido e próximo, a começar pelo que digo e me dizem ser eu próprio? O que é ser eu próprio?
Ser é muito estranho.
E o que é estranhar? Ser em suspensão de si e de ser? In-ex-istir? Estar aqui alhures?
(Dedico este texto à memória do Fernando Neves, companheiro de escola e brincadeiras na rua, bom jogador de futebol e nada intelectual, com o qual, num belo dia, deveríamos ter uns 8 anos, sentados em cima de um muro que já não existe perto da casa de meus pais, descobri que o sentimento do terrível enigma de tudo, e a interrogação do porque há ser, era algo compartilhado. Recordo-me como se fosse agora de, subitamente, confessarmos mutuamente como pensávamos nisso até à exaustão e à sensação da iminência da loucura ou da explosão. Jamais encontrei na Universidade, ou na leitura e convívio com poetas e filósofos, momento mais gratificante. Tudo o que aqui escrevo não é senão uma redutora extensão desse relampejante diálogo. O Fernando Neves passou a ter uma doença estranha a partir da adolescência e acabou por se suicidar, após se lançar uma segunda vez da janela da casa dos pais, perto de onde moro. Não se inquietem ou alegrem todavia os leitores, pois não creio ir no mesmo caminho. Creio que a estranheza e a incerteza acerca da própria existência se substituem ao suicídio com evidentes vantagens)
1- Coroação (Coroa do Espírito Santo a ser oferecida a SS o Dalai Lama)
(foto: Adama)
The King of Gaps
There lived, I know not when, never perhaps - But the fact is he lived - an unknown king Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps. He was lord of what is twist thing and thing, Of interbeings, of that part of us That lies between our waking and our sleep, Between our silence and our speech, between Us and the consciousness of us; and thus A strange mute kingdom did that weird king keep Sequestered from our thought of time and scene.
Those supreme purposes that never reach The deed between them and the deed undone He rules, uncrowned. He is the mistery which Is between eyes and sight, nor blind nor seeing. Himself is never ended nor begun, Above his own void presence empty shelf All He is but a chasm in his own being, The lidless box holding not-being's no-pelf. All think that he is God, except himself.
- Fernando Pessoa, Poesia Inglesa, I, edição e tradução de Luísa Freire, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p.280.
"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material" - Agostinho da Silva
"A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros"
- Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, tradução de Joana Varela, Lisboa, Dom Quixote, 2000, p.329.
"Quanto aos homens, penso assim: Deus os põe à prova para mostrar-lhes que são animais. Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento; o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade.
Tudo caminha para um mesmo lugar:tudo vem do pó e tudo volta ao pó"
- Eclesiastes, 3, 18-20.
"Por isso rogamos a Deus que de "Deus" nos livremos e acolher e fruir eternamente a verdade aí onde são iguais os anjos mais elevados, a mosca e a alma, aí onde me mantinha e queria o que era e era o que queria"
"Na Holanda discute-se agora, alto e bom som, se os animais são máquinas. As pessoas até se divertem a ridicularizar os cartesianos, por estes conceberem que um cão que é agredido emite um som que é similar ao de uma gaita de foles quando é comprimida"
- G. W. Leibniz, Carta de 1648 a Ehrenfried Walter von Tschirnhaus, in G. W. Leibniz, Philosophical Papers and Letters, Dordrecht, Reidel, 1969, pp.275-276.
“A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como trata os seus animais” - Gandhi
Caminho da Serpente
Sem porquê nem para quê, revolvem-se ventos eternos num espaço infinito. Puro jogo de nada-tudo acontecer. A cegueira de o não ver dá nome e forma, nascer e morrer, ao incriado.Assim me disseram que nasci e existo. Assim acreditei. Cresci vendo-me pele-vermelha a cavalgar nos planaltos livres e selvagens. Depois foram as pontes: tanta excitação quando atravessava uma ponte, sobre as águas ! Adolesci em romantismo e revolta: vislumbre do amor absoluto, conjunção esplendorosa dos amantes no espaço constelados a romper e inflamar todas as coisas; insurreição de cada um e de todos contra a falsa ordem do mundo, pela anarquia e a liberdade. Gritei-o nos palcos, vocalista sem saber cantar, embriagado de insubmissão, em plena fúria punk: queria ver "Lisboa a arder", a arder da Paixão que morria e morre no tédio da vida normalizada e medíocre, mesmo após um ensaio de revolução. Foram os Minas & Armadilhas: desejo de fazer explodir o universo. Nas pausas do Apocalipse e das descidas ao Inferno, em busca da Perséfone que sempre se desvanecia, nos intervalos de mortes e ressurreições múltiplas, estudei Filosofia, onde hoje ensino. Metamorfose da Arqueologia, pois afinal o que nela procurava era o Princípio (Arché), o Primordial, a fonte primeira e última de tudo. Um dia, há mais de um quarto de século, descobri Portugal, a luz de Lisboa e seus miradouros, a barra do Tejo e suas Ninfas, o finisterra atlântico e suas Musas, a sibilina e amorosa língua das Cantigas d'Amigo, de Gil Vicente e Camões, de Vieira, Pascoaes e Pessoa, o Fado cantado e vencido. Estive a 4 de Agosto, com amigos, em Alcácer-Quibir, no ano em que fazíamos 24 anos, a data em que o Desejado se converteu, com a mesma idade, em Encoberto. Descobri Portugal e seu fundo arcaico, a infinita possibilidade aberta sobre a persistente mediocridade e estreiteza da sua vida social e institucional: Ophyussae, a Terra das Serpentes, Oestrímnia, o estro, o transe criador, Lusitânia, a i-lusão dissolvente e libertadora, o V Império, Império do Santo Espírito, arrepio de abraço armilar e fraterno, sem Imperador que não seja a Eterna Criança que somos. Conheci Agostinho da Silva e a filosofia portuguesa, razão atlântica e poética, aberta à alteridade e ao sagrado. Descobri Portugal, a Saudade e com ambos o caminho extremo-ocidental para o Oriente, exterior, interior e secreto, para a Ecúmena e o Infinito. Dei por mim na via budista tibetana, a contribuir para trazer ao finisterra atlântico a sabedoria dos Himalaias que desde António de Andrade demandamos. Uma via para além de todas as ilusões. Sobretudo a de haver vias e quem as percorra, de haver de onde e para onde. Sim, sempre que veja o Buda, mato-o ! Para que assim morra a dualidade que me ofusca. Não o deixo fora de mim, para que de mim me liberte. Assim Cristo pede aos cristãos, que o devorem e por ele sejam assimilados. Tive filhos, da carne e do espírito. Vivi muitas coisas. Fui devorado e parido, repetidas vezes, das entranhas de uma Serpente em chamas. Hoje sei que desde tempos sem início durmo e sonho, em tua companhia, ó universo ! Esfrego os olhos e tento despertar. O que tarda, porque o sono é muito: vem desde a eternidade, vestido de ignorância e egoísmo. E assim, sonâmbulo e trôpego, verto fortuitos acessos de loucura e lucidez em muitas e desvairadas coisas: orar e meditar, estudar e ensinar, traduzir, escrever poesia, filosofia, romance e teatro, promover associações, conspirar movimentos, construir pontes, rasgar horizontes. "Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva" e "Folia. Mistério de uma Noite de Pentecostes" contêm para já o essencial do que tenho a dizer e propor. Se agora morresse, estaria quanto a isso tranquilo.Conspiro um movimento de libertação universal, que também assuma todo o potencial de sabedoria, amor e universalidade da cultura portuguesa e lusófona, vocacionada para ser uma cultura alternativa, especializada em diálogos, pontes e mediações planetárias. Um movimento que contribua para o que mais importa: a Revolução profunda, que desde sempre urge e tarda, a Revolução do Despertar, a Revolução do desencobrir o Infinito em si e em tudo, no apocalipse de todas as máscaras. Revolução ! Aqui e Agora. Já ! Para o bem de todos os seres vivos, nossos irmãos e irmãs, nossos pais e mães, nós mesmos, desde o não haver início. Para que vivamos o mundo como, no fundo sem fundo, é: Jogo puro, livre e insubstancial, Festa para a qual todos são convidados, eterno e infinito Jardim de Delícias.
Que a Serpente ganhe asas e, dançando no espaço, de si e de tudo se dispa !
ACTIVIDADES
Se estiver interessado em Cursos de Introdução à Meditação Budista e ao Budismo, bem como sobre outros temas, como Religiões Comparadas, Fernando Pessoa, Mestre Eckhart, Saudade, Quinto Império, contacte: 918113021.
LIVROS - PAULO BORGES
Escrever como quem despe peles até se despir de si e desaparecer na aparição de tudo...
Ensaio filosófico, antologias e livros organizados:
1 - Agostinho da Silva - Dispersos (apresentação e organização), Lisboa, ICALP, 1988; 1989 (2ª edição). 2 - A Plenificação da História em Padre António Vieira - estudo sobre a ideia de "Quinto Império" na "Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício", Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1995. 3 - Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. 4 – Pensamento Atlântico. Estudos e ensaios de pensamento luso-brasileiro, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002. 5 - Obras de Agostinho da Silva - Textos e Ensaios Filosóficos - I (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 1999; Lisboa, Círculo de Leitores, 2001. 6 - Obras de Agostinho da Silva - Textos e Ensaios Filosóficos - II (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 1999; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 7 - Obras de Agostinho da Silva - Ensaios sobre Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira - I (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 2000; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 8 - Obras de Agostinho da Silva - Ensaios sobre Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira - II (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 2001; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 9 - Obras de Agostinho da Silva – Estudos sobre Cultura Clássica (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2002. 10 - Obras de Agostinho da Silva – Estudos e Obras Literárias (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2002. 11 - Obras de Agostinho da Silva – Textos Vários. Dispersos (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2003. 12 - (Com Matthieu Ricard e Carlos João Correia) O Budismo e a Natureza da Mente, Lisboa, Mundos Paralelos, 2005. 13 – Agenda 2006. Agostinho da Silva (introdução geral, selecção de textos, introduções específicas e coordenação editorial), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005. 14 - Agostinho da Silva. Uma Antologia (organização e introdução), Lisboa, Âncora Editora, 2006. 15 – Tempos de ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva, Lisboa, Âncora Editora, 2006. 16 - O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa (organização, com Duarte Braga), Lisboa, Ésquilo, 2007. 17 - Agenda 2008. Padre António Vieira (introdução e selecção de textos), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007. 18 - A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido (aforismos), Sintra, Zéfiro, 2008. 19 - Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008. 20 – Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008. 21 - A Pedra, a Estátua e a Montanha. O Quinto Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália, 2008. 22 - O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, Lisboa, Portugália, 2008. 23 - A Dor de Deus. Homogeneidade, Diferenciação e Reintegração em Sampaio Bruno, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda (no prelo).
Romance:
Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, Lisboa, Ésquilo, 2006.
Teatro:
Folia. Mistério de Pentecostes em três actos, Lisboa, Ésquilo, 2007.
Conto:
A Hieródula, Setúbal, Plurijornal, 1992.
Abertura de "Línguas de Fogo"
AVISO
Esta é a história e o romance da minha e das vossas vidas, caros leitores. Não porque seja uma boa história e um bom romance – vós o sabereis, não eu - , mas porque é a história e o romance do despertarmos de haver nascer e morrer, vida e morte, ser e não ser. A história e o romance do despertarmos da história e do romance de existirmos ou não, de sermos ou não alguém. A história e o romance do Despertar. O Despertar de todos nós no Despertar de alguém que foi um pouco e um muito de todos nós: Agostinho da Silva. Um dos maiores turbilhões de vida, pensamento e acção que têm vindo desinquietar este mundo onde quase todos acima de tudo procuramos a paz do cemitério da vida fácil, fútil e sem sentido. Nascido há um século, após escolher no céu o lugar de nascer na terra, partiu há doze anos, na madrugada do Domingo da Ressurreição. Esta é a história do que nesse momento e a partir daí lhe aconteceu. A história do que nesse momento e a partir daí nos aconteceu. A história do que nesse momento e a partir daí te aconteceu, leitora e leitor. Pois, queiras ou não, gostes ou não, estás aqui, na mais funda e incandescente substância deste livro. E contigo todas as coisas. É tarde de mais ! Tudo o que aqui acontece em ti e no mundo acontece. Mesmo que agora mesmo o largues e devolvas à estante de onde nunca o deverias ter tirado. O que vivamente te aconselho. Duvido é que o consigas. Esta é a história da paixão, morte e iluminação de Agostinho da Silva. A nossa paixão, morte e iluminação e a de todas as coisas. Tudo o que aqui se narra é absoluta e rigorosamente verdadeiro. A realidade e a verdade é que o podem não ser. Seja como for, não escrevo senão o que vejo, ouço, sinto e sei. As entranhas secretas do mundo e da realidade, as entranhas da nossa ilusão, ignorância e maldade e da nossa desilusão, sabedoria e bondade, intimamente entrelaçadas na oculta e libertadora metamorfose de algo a que se chamou Agostinho da Silva. Sim, se quiseres ler este livro tens de estar preparado para te leres e veres ao espelho, vendo que ele afinal não existe e no mais fundo do ser se te dissolve. Tens de estar preparado para leres e veres, intimamente e sem anestesia, aquilo que te desconheces ou que pretendes acima de tudo ocultar. Dos outros e, fundamentalmente, de ti próprio. Tens de estar pronto para visitares todas as mais recônditas possibilidades da vida, da morte e do que há para além de vida e morte. Todas as tuas mais fundas possibilidades, incluindo o que há em ti para além de ti mesmo. Tens de estar pronto para te despires. De tudo e de ti próprio. E sobretudo da ideia de que não andas sempre nu. Se é isso que por esta via queres, tens de acompanhar Agostinho. Tens de agarrar com coragem e firmeza a mão que ele, generoso e forte, agora mesmo te estende e deixá-lo guiar-te, de olhos e coração bem abertos, ao longo da estreita e larga via que percorreu e infinitamente percorre, sempre que haja quem com ele queira ir. Quem com ele queira entrar no real e na sua ilusão, descer às suas alturas e subir às suas funduras, explorar as suas veredas e sendas mais inóspitas. É isso que desejas ? Tens a certeza !?... Não será melhor pousares o livro e regressares ao que te acarinhe, console e distraia ? Se é isso que queres eu vou contigo. Farei de novo e infinitas vezes a viagem. Agarraremos juntos a mão do Professor e caminharemos a seu lado, quem sabe se dele e de mais do que ele inseparáveis. Mas não te esqueças: temos de estar prontos para tudo ! Viver, sentir e ver tudo o que há para ver, viver e sentir. A começar pelo que mais deixamos para os chamados “outros”: a dor, a morte e o inferno. Só pela sua experiência em carne viva, para dela libertarmos a todos, ressuscitaremos com Agostinho para a vida e, porventura, dependendo da nossa sabedoria, coragem e amor, para algo além ainda da vida. Mas não esperes que te conte tudo o que vais encontrar. Jamais o faria, mas a verdade é que não posso. Não te posso dizer o que só por ti, despido de ti, encontrarás. Se ainda quiseres, vem então. Entra comigo e com Agostinho neste romance ilusório e verdadeiro, sisudo e louco, contemplativo e insurrecto, onde te arriscas a tudo, incluindo gozar e sofrer, chorar e rir, perderes-te e encontrares-te. E se quiserem vir muitos, de uma só vez, venham pois ! Agostinho tornou-se forte, extremamente forte, e bem aguenta puxar-nos a todos para o fundo de nós mesmos. Para o sem fundo de si, onde já estamos todos, dele e de nós despidos. Se vão gostar ou não, não sei e em absoluto não me importa. Não escrevi para o vosso nem para o meu prazer. Por isso o fiz com todo o deleite e todo o incómodo. Embora num sentido prefira que não gostem. E até ache que em muitas páginas fiz tudo por isso. Pois assim serão mais livres. Mais livres de mais um livro e de mais um autor. Mais livres de se distraírem a idolatrar algo e alguém, esquecendo-se do que verdadeiramente importa em vocês próprios. Se quiserem abandonar os vossos berços e os vossos túmulos venham então. De outro modo não comprem nem leiam o livro. E, se o comprarem e lerem, esqueçam-no e destruam-no o mais depressa possível. Porque esta é, repito e acrescento, a história e o romance das nossas vidas e das nossas mortes, a história e o romance da nossa libertação e do nosso Despertar de haver vida e morte, e isto não se conta, nem escreve, nem pode conter-se em livros. Avisei-vos. Se ainda quiserem vir, dispam-se, não ponham cintos de segurança e não se queixem.
LIVROS INTERESSANTES
LES FOUS D’AMOUR Au Moyen Âge. Orient-Occident
ISBN : 978-2-296-04535 ; Prix 38 € ; 332pages
Être fou d’amour, aimer jusqu’à la folie ! Cette expérience des extrêmes engendre des œuvres d’art. Parole poétique, parole chantée, parole mise en scène…, l’amour, la folie d’amour ne peuvent se dissocier du « chant ».
L’Occident déteste perdre la tête, privilégie le libre arbitre, le contrôle de soi par la raison. Le Fou d’amour qui se perd lui-même au profit d’un autre n’est plus prisé car la valeur prédominante est la stabilité du sujet qui garantit la stabilité de l’individu dans une catégorie de comportements admis, propres à son rang. La maîtrise de soi au moyen de la conscience rationnelle est vue comme la condition même de l’homme éveillé.
Au Proche-Orient, la folie d’amour est l’occasion privilégiée d’approcher l’Unicité divine. L’amour et la beauté sont les plus formidables « éveilleurs » car ils poussent le petit ‘moi’ hors de lui-même. Même relégué au désert, le Fou d’amour est celui qui court la plus haute aventure réservée à l’humain. La folie d’amour conduit le ‘moi’ à son extinction : elle réveille l’homme pseudo éveillé de son sommeil égotique, elle lève le voile qui le séparait de sa propre divinité.
Entre ces deux attitudes de l’Occident et de l’Orient médiévaux, se dessinent de nombreux ponts : les mystiques en sont le plus lumineux.
Claire Kappler, chargée de recherche au CNRS, médiéviste et orientaliste, spécialiste de littérature persane classique, se consacre aux comparaisons entre les cultures du Moyen Âge européen et proche-oriental.
Suzanne Thiolier-Méjean, professeur à l’Université Paris IV – Sorbonne, spécialiste de littérature médiévale occidentale, en particulier en langue d’Oc. A publié des ouvrages sur l’Alchimie.
Peinture de couverture : Isabelle Bazinet, Ó « Les jaillissements de lumière » Graphisme : Pascal Auffinger
LES FOUS D’AMOUR, TABLE DÉDICACE INTRODUCTION Introduction I- AXES ET PERSPECTIVES FOLIE ET RAISON D’AMOUR Philippe Ménard Folie et folie d'amour au Moyen Âge Suzanne Thiolier Qui ama desena « qui aime perd la raison » : la folie d’aimer chez les troubadours Jean-Marie Fritz Translatio stultitiæ Les fous de Dieu entre Orient et Occident Vincent Déroche Byzance a-t-elle eu ses fous d'amour ? Johann Christoph Bürgel L'amour fou chez les Arabes au début de l'Islam Manijeh Nouri-Ortega L'enchantement, la stupéfaction : miroirs de la folie d'amour dans la littérature persane II- ERRANCES ET VÉRITÉ S DU MIROIR SE TROUVER ET SE PERDRE EN L’AUTRE Mireille Séguy Amour fou et folie d’amour dans le Chevalier au lion de Chrétien de Troyes :;de la métaphore poétique au récit romanesque Leili Anvar-Chenderoff L’amour de Majnûn pour Leyli : folie ou sagesse ? Fabienne Pomel L’Écho et le masque : le fou d’amour dans la logique du double et la crise de la communication (Narcisse, Écho, Tristan, Lancelot) Charles-Henri de Fouchécour Le narcisse qui rend fou, selon Hâfez, poète lyrique persan du XIVe siècle Dominique Demartini-Franzini Folie d’amour, folie de mots dans le Tristan en prose :« plus fou même que celui qui s’en va jetant des pierres dans l’eau … » III- ALCHIMIE ET FOLIE D’AMOUR AU PAYS DU CONTE Éric Phalippou Le fou d'amour et la femme noire : ou comment l'Europe s'est approprié un conte indo-persan sur la possession IV- ÊTRES SINGULIERS AU CREUSET DE L’AMOUR FOU David Williams Folle d'amour, sage d'amour : l’amour de Thècle pour l’apôtre Paul Brigitte Saouma Aimer sans mesure : le thème de l’âme-épouse chez Bernard de Clairvaux Dominique de Courcelles Discours de la folie d’amour et discours sur la folie d’amour : la folie d’amour dans quelques œuvres de Raymond Lulle, « homme qui follement parle » Leo Carruthers La sainte folie : Margery Kempe, mystique ou malade ? Claire Kappler La Zoleikhâ de Jâmî : comment une folle d’amour devient maître spirituel V- AU-DELÀ DE LA FOLIE L’ESSENCE DE L’AMOUR Jad Hatem Majnun et sa folie d'amour : je suis Layla Catherine Guimbard « I fedeli d’Amore » : une mystérieuse secte ? Leila Khalifa Dévoilement (Folie) et voilement (Fidélité) dans l’amour chez Ibn ‘Arabî :le fou et le fidèle au secret de Laylâ Ève Feuillebois-Pierunek Désirer la séparation d’avec l’aimé, folie ou sagesse ? L’exemple de ‘Erâqi, poète persan du XIIIe siècle Alain Sainte-Marie L’amour qui fait aimer l’amour. Dans le Nuage de l’Inconnaissance Paul Ballanfat L’amour et l’itinéraire spirituel chez Najm al-dîn Kubrâ CONCLUSION Résumés des communications (en français) Abstracts (en anglais) Les auteurs REMERCIEMENTS www.harmattan-editions.fr