O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Eu não sei o que sou / Eu não sou o que sei




"Eu não sei o que sou
Eu não sou o que sei:
Uma coisa e não uma coisa:
Um ponto ínfimo e um círculo"

- Angelus Silesius, Peregrino Querubínico, I, 5.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal!

"Que me importa que Cristo haja nascido ontem em Belém
se não nasce hoje na minha alma?"

- Angelus Silesius, Peregrino Querubínico

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"Man muss noch über Gott"/"Deve-se ir ainda além de Deus"




"Wo ist mein Aufenthalt? Wo ich und du nicht stehen.
Wo ist mein letztes End, in welches ich soll gehen?
Da, wo man keines findt. Wo soll ich denn nun hin?
Ich muss noch über Gott in eine Wüste ziehn"

“Onde é a minha morada ? Onde eu e tu não estamos.
Onde é o meu fim último, para o qual devo ir ?
Aí onde nenhum se encontra. Para onde irei então ?
Devo ir ainda além de Deus, para um deserto”

- Angelus Silesius, Cherubinischer Wandersmann, I, 7, in Sämtliche Poetische Werke, III, edição e introdução de Hans Ludwig Held, Munique, Carl Hanser Verlag, 1949, pp.7-8.

sábado, 11 de outubro de 2008

Não te confunda, Amigo, eu nada ver ou O Anjo da Silésia recriado pelo Anjo de Barca d'Alva

Não te confunda, Amigo, eu nada ver
pois deslumbrado estou com meu não ser.

[…]

Minha morada é onde não moramos
e convosco vivo eu onde não estamos.
Para nos vermos só lugar incerto,
talvez, além de Deus, só o deserto.

Em Deus minha grandeza, em mim seu nada,
mas sermos desiguais ideia errada.

[…]

Se te livras de tudo que é medida
é só de eternidade a tua vida.

[…]

Como podias tu herdar a Deus
se te não morresse Ele aos olhos teus.

[…]

Em Deus vivia eu antes do mundo
pois sempre Se me deu do mais profundo.

[…]

A rosa que tu vês com teu olhar
sempre assim foi em Deus, sem começar.

[…]

É Deus decerto o nada, e, quando assoma,
só em mim Ele existe se me toma.

[…]

A razão de ser rosa é só ser rosa
e bela assim surgir, silenciosa.

[…]

Meu salvador é Deus, eu salvo o mundo
se em mim entra como eu nEle me afundo.

[…]

Abandonar-se a Deus a Deus encanta,
mas abandonar Deus mais do que espanta.

[…]

Dá atenção a tudo o que vês hoje
pois, se foges ao tempo, Eterno foge.

[…]

Onde nasce esse eterno por que lido ?
Onde tu de ti próprio andas perdido.

[…]

Tão nobre sou que posso em terra ser
imperador ou rei; Deus, se quiser.

[…]

Nem chuva ou sol o são só para si,
dos outros deves ser, não só de ti.

[…]

Nunca entrarás no céu, daqui cativo,
se dentro em ti não fores tu céu vivo.

[…]

Se, na vida, tu foges ao inferno,
sem dúvida o terás na morte, eterno.

[…]

Já chega de leitura, se mais quer,
só se em si próprio escrita o ser lhe fere.

Nota final

Resumo, por enquanto: Ao que eu entendo,
só Deus existe. O resto é Ele sendo.

– Angélico Silésio [Angelus Silesius], Versos seus que, pelo Nada e Tudo, adoram Deus - Poetas de Fora em Linguagem de Dentro, versão livre de Agostinho da Silva [inédito, 1992].

sábado, 10 de maio de 2008

Das edelste gebet / A mais nobre oracao

"Das edelste gebet ist, wenn der beter sich / In das, vor dem er kniet, verwandelt inniglich"

"A mais nobre oracao é quando aquele que ora / Se transforma no mais íntimo nisso diante do qual se ajoelha"

- Angelus Silesius, O Peregrino Querubínico, 4, 140.