O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 2 de junho de 2008

Agradecer: as estrelas do mar


Vinha o vento da voz de Deus. Ninguém o escutava como sendo a sua ira. Mas os elementos não são nem estão desligados de Deus. A mulher avançava no areal branco da luz intensa, não contra o vento, mas para dentro da voz de Deus. Não tinha nada que levar, a mulher, na mão direita até Deus. No real encontrava apenas, mas muitas, conchas e búzios, caracóis marinhos, pequenas mas diversas pedras luzidias pela sua passagem pela morada na água do mar. Algumas partidas, não perdiam a beleza, eram até símbolo dela, uma reminiscência de uma perfeição que a vida e o tempo não conseguem destruir, desfazer na sua acção corrosiva. Algumas escondidas, semi-ocultas, na irregularidade dos pequenos sulcos da areia, numa obediência à necessidade das correntes do vento e do mar. Algumas sobrepostas, na reunião que só as criaturas afins conseguem encontrar, na unificação da diferença com que a natureza promove revelações que nunca o espírito descodificaria. Algumas irreconhecíveis, desmedidas na sua forma para a forma da Língua e das palavras; algumas surpreendentes pela sua persistência ao ritmo do mar e do vento. Como se fossem palavras antigas, muito antigas, marcas de um tempo sem diversidade de significados. Tão remotas que parecia evidenciarem que houve na Terra uma experiência de identidade entre ver e dizer. Entre matéria e som, entre visível e invisível. Talvez no tempo em que Deus andava sobre a Terra.
A mulher caminhava, afinal, para dentro do vento e vinha do mar. Desolada. Cansada. Rastejava. Os braços abriam-se e fechavam-se, marcavam os tempos, trazidos pelo ufanar das asas dos anjos; não procurava, não escolhia, não via. Como se os seus braços não tivessem mãos, os seus olhos fossem cegos, o corpo não pesasse na sua marcha pelo areal, e ela fizesse um caminho irreal. O cansaço fosse uma película com que o vento cobria o corpo, mas não os braços, quais asas, cumprindo uma promessa arrastada desde o princípio dos tempos e orlada como o fio de ouro da eternidade. Numa mulher assim não se pode falar de rosto. O rosto é sem traços. É uma declaração da noite, uma aparição da treva e da esperança. Porque uma esperança bem guardada é como um céu nocturno sem estrelas. Guarda-as para a orientação própria. Uma esperança partilhada é uma impossibilidade ontológica. Só a alma individual se orienta na escuridão e no inaudível. Nessas condições, ela nada podia comunicar que fosse visível e escutável aos que se crêem não ser surdos nem mudos.
Adentrando-se na voracidade mais audível do vento, na sua expressão não só mais intensa como rápida, diríamos na sua irritação suprema, a mulher sentiu uma breve e suave comichão nas asas. Uma picada breve, mais sentida devido à ausência de penas, do que à agressividade da mesma. As suas asas acabavam de ser travadas, o seu ritmo abrandado pela presença, pela descoberta de uma estrela-do-mar. Mínima, dir-se-ia, imperceptível aos que são videntes. A estrela evidenciava algumas dessas características que os outros seres do mar e da praia revelavam: estava escondida, sobreposta, era irreconhecível. Não estava partida. Era um signo intacto.Um signo capaz de preencher a esperança desta mulher cega e sem logos.
Arquivou-a junto ao seio esquerdo. Como se acrescentasse o sentido ao som repetido pelo coração e, depois do que apareceu num rosto nocturno ser um esgar humano semelhante ao sorriso, retomou a marcha, o seu semi-voo na vasta e imponderável indefinição de mar e praia.
A razão pela qual a arquivou não é uma certeza. Ela reconheceu-a pelo toque, pelo contacto cego. Não por uma apurada inspecção, pela consulta de algum velho compêndio de papel ou mental. Arquivou-a no corpo porque o seu corpo arcaico, sobrevivente ao Éden pensado e não ao Éden criado, o seu corpo nem humano nem angélico, era o último vestígio de um pensamento de Deus, de um esboço provável para o que viria a ser a humanidade sem mal. Nesse sentido, o seu corpo seria mais antigo do que a biblioteca de Alexandria, e não guardava livros ou folhas de papel. O seu corpo guardava todos os pensamentos de Deus, antes da criação do homem, até ao homem, depois do Apocalipse. Ninguém o sabia. Nem ela.
Suavemente erguida, mas indireccionada ora pela rebentação das ondas, ora pela reverberação inquieta do vento, a mulher perdia as pequenas penas brancas da sua velhice incontável. Os que passarem na praia, depois dela tomá-las-ão, por penas de gaivotas desavindas, alvoraçadas na declaração da tempestade. Mas os que assim pensarem são apenas criaturas do mundo visível e ignorantes da convivência cósmica entre seres e entre tempo e eternidade, entre o humano e o divino.
Ora fosse por já ter perdido muitas, ora fosse por ser, inversamente aos humanos, nua, de novo a mulher foi acometida pela mesma dor na asa. Repetiu os mesmos gestos. Não por serem formas mecânicas de reacção, mas por serem intuições esperadas, preparadas por uma sabedoria em que a eternidade a educou. Desta vez, a estrela-do-mar, pequenina mas perfeita, foi deposta no seio direito. Sem certeza desta vez, como da primeira, o seu rosto inexpressivo como a noite sem luz, suspirou. O seu corpo despediu-se do cansaço. As suas asas fecharam-se, uniram-se não para a frente, como se rezando esperassem a aparição frontal de Deus, mas para trás. O vento cessou e Deus, sem mais motivo para se perpetuar irado, abraçou-a com cuidado. Naqueles cujo poder se pensa ilimitado, o abraço é sem força. É, afinal, a carícia na qual morreu todo o poder. O amor é, por isso, como suspeitámos, a carícia sem poder.
Nesse instante o seu rosto revelou-se. Os olhos sem cor tinham e davam a ver a extensão e o fundo sem fundo do mar, do seu nariz expulsavam-se as redolências do Paraíso e da sua boca entreaberta as palavras sagradas com que Adão nomeou os primeiros seres.
Deus perguntou-lhe como se sentia, que tinha guardado. Ela retirou com um zelo extremo as estrelas. Deus disse-lhe:
-Foram as primeiras que pensei.
Ela chorou para que as estrelas ganhassem a vida em que foram pensadas. Deus indagou com ternura:
- Como te sentes?
Ela respondeu:
-Bem. – Sentindo que os que esperam voltam sempre ao lugar de onde se perderam.
E Deus, assentindo, e recebendo da mão direita da mulher as duas estrelas confessou.
-Também espero, com alguma impaciência na turbulência do vento e do mar, que as outras criaturas que descobrem na sua humanidade a divindade, na arqueologia dos elementos, descubram os seres com que preenchi, sonhando, a Terra e as ideias com que organizei a alma dos homens.
E, depois sentou-se a soprar vento e enrolar ondas no mar.
Este é o "Jadis pur" com que agradeço e respondo por ontem e pelo tempo sem tempo ao Paulo Borges; esta é a asa com que agradeço o Mar do Nascimento, à asa da Águia e aos golpes de asa que a Ana Margarida deseja para o mundo; esta é a asa da Pomba com que um reencontro da infância do tempo, até ontem, me levou à Luíza, é a asa da Cinda que anda sempre no voo dos pássaros selvagens que atraem pela música os da mesma espécie, é a asa com que a Ana me abraça e a asa da Etty Hillesum que o Paulo Feitais me ofertou. Esta é a asa que consigo para os que são do mundo da Serpente e da Águia e que me chegou no entusiasmo do excerto de Pascal Quignard que ontem me foi deixado: "Dans quel temps le simple fait d'appeler faisait-il venir? C'est l'enfance. C'est l'enfance indifféremment animale ou humaine. C'est l'enfance quand elle est heureuse. Comment définir l'enfance heureuse? Le crie entraîne la mère. " in Abîmes, p.161
Este é a asa em que escondo o grito, le crie entraîne la mère.

domingo, 1 de junho de 2008

dia 10, algures na Feira do Livro...

Sobre a glândula pineal

"But the head has a hole in it. The pineal eye, the organ of not-knowing, is the undoing of science. If science thought up man, the pineal eye unthinks him, spends him extravagantly, makes him lose the reserve in which, at the summit, from his head position, he was guarding himself."

"When I carefully seek out, in deepest anguish, some strange absurdity, an eye opens at the top, in the middle of my skull. This eye opening up onto the sun in all its glory, to contemplate it in its nakedness, privately, is not the work of my reason: it is a cry escaping from me. For at the moment when the flash blinds me I am the splintering brilliance of a shattered life, and this life - agony and vertigo - opening up onto an infinite void, bursts and exhausts itself all at once in this void."

Dennis Hollier - Against Architecture

Muito obrigada ao mamada_man pela sugestão do artigo da Wikipedia sobre este assunto.

Notas sobre António Quadros (a partir da leitura da sua obra)

(...) O homem concreto é hoje um homem desconhecido. Predomina o especialismo e triunfa o homem abstracto. Triunfa o novo homem bárbaro, como já anunciara José Ortega y Gasset, ou o homem sem aura, no sentido benjaminiano, o homem incapaz, inapto, porque sendo apenas um profissional, especializado na actividade profissional que exerce, não tem ou não consegue ter, ideias para além do seu ofício. A especialização e os efeitos perniciosos da tecnologia no homem, a absorção de tudo o que é estrangeiro, sobretudo americano, contribuem para a degradação da experiência e para a perda de sentido. A sociedade é hoje recreativa. «A grande indústria está a infantilizar a sociedade. As crianças comportam-se como adultos, e os adultos querem divertir-se como crianças. A bem do consumo.»[1] Essa perda de sentido, onde o homem sem ideais é reduzido ao geral e ao artificial, sem consciência cultural, conduz-nos para uma sociedade onde predomina a produção, onde triunfa a igualdade, o «homem economicus», o homem sem ideia de espaço e de tempo, e onde o “ter” e não o “ser” nos surge quase como a única característica existencial que nos une, como o único elemento de partilha, de conversa e de encontro e como o único sinal visível, ou verosímil, de existência de cada um de nós. Proliferam os computadores e multiplicam-se as televisões, os telemóveis e todo o tipo de tecnologias que ao se interporem entre as pessoas, ao invés de as aproximarem as afastam, e o resultado é a simplificação generalizada, a formatação dos conhecimentos e o recuo do sentido no pensamento.
O homem concreto é hoje um homem desconhecido. Desconhecido porque se ignora. Desconhecido porque não se lhe não concede o tempo necessário para se conhecer e emergir. Porque não se lhe admite a diferença. Porque se recriminam as suas questões, o seu lado subjectivo: as suas leituras, os seus estudos, as suas perguntas mais profundas, em suma, o seu lado invisível e a sua diferença interior: «(…) e a cortina deste esquecimento desce sobre nós (…) começamos a moldar as palavras, as formas, as cores, as ideias, numa contradição flagrante entre actuar e ser.»[2] E o que fica do que somos? Do nosso lado verdadeiro, sincero e profundo nada conhecemos. Do nosso plano individual, nacional e universal nada alcançamos. De nós mesmos nada sabemos. E o jovem pensador de hoje? O poeta e o homem de espírito? Enquanto criador, atento às profundidades existenciais, mas também voltado para o real que o envolve, perdido ele próprio num movimento de massas uniformizado, e por isso limitado, se quisermos, angustiado, à procura de si mesmo, quando tudo lhe indica o oposto que se lhe opõe, que se lhe recusa, que se lhe foge. (...)

[1] Andrade, Rui, A sociedade Recreativa, Revista Actual, Expresso, 29 de Dezembro de 07
[2] Quadros, António, A angústia do nosso tempo e a crise da universidade, Lisboa, Cidade Nova, 1956, p. 23

um segredo:
ter-te é perder-te
singrarmos
sangramento
sofrimento
largarmos a arder pelas veredas sonâmbulas de sermos nós
mesmo que no instante
gume cortante e repetido
porque partir é o salto na mão do sonho
no alto dos cumes
no centro da treva que há onde nos procuramos
sempre que queremos ser o que se mente
na saudade quando perdida de todas as ilusões que bradam ecos de termos sido
perder-te
no próprio acto de possuir o coração da noite
entre as sombras as cinzas e os medos
se o vento vem de dentro
trazer arrepios e vazios à roda solta de mais além
com as entranhas do mundo em convulsão
vergastadas de tédio e alvenaria de tempos idos
e o cheiro a incenso que o ar consente
tudo
até o reverso da solidão no lado intentado da pele
mesmo que aberta em flor e rastros de luz que passou de repente
até isso
é nunca te ter tido
no futuro de não seres tudo o que não te é para que sejas

A Nova Águia dirige-se para Sul

No forno alquímico
da Palavra
A pedra liberta o fogo
do Espírito.

Enquanto aguardamos que ela poise

no solo de Além

Joguemos o jogo Real de Ur.







Perguntas potencialmente incómodas no Dia Mundial da Criança

Porque será que se idealiza tanto o ser-se criança, quando não há seres neste mundo que sofram mais do que as crianças - Seja pela fome e outras formas de miséria, pela exploração laboral e sexual, ou, até em meios supostamente mais "privilegiados", pelo narcisismo e estupidez dos adultos que projectam sobre elas os seus sonhos frustrados, as suas ânsias de mobilidade sociale a sombra que recusam encarar em si mesmos?

Porque será que a vulnerabilidade e a dependência são tantas vezes representadas como estados "angelicais"?

Porque será que insistimos em representar as crianças como "inocentes" e "puras", quando elas exibem, tantas vezes com orgulho, uma crueldade que na vida adulta continua a ser exercida, mas com "luva branca" e sob um manto hipócrita de subtileza e boas maneiras?

Porque será que os adultos congratulam tanto as crianças por estas estarem constantemente em vias de o deixar de o ser, e as apressam a entrar num mundo que todos eles lá no fundo se revoltam por terem sido obrigados a entrar pelas leis da Natureza e da sociedade - O dos adultos?

Porque será também que os adultos tantas vezes tendem a mostrar o seu próprio mundo de uma forma idealizada às crianças, engolindo todo o "veneno" que este acarreta?

"Que bom que gostas tanto de ler, Sara. Quando fores grande, hás de ser uma grande advogada como teu tio X e assim seres uma senhora muito importante que ajuda muita gente." - Diz um pai bem-intencionado à sua filha, sobrinha de um jurista especializado em ajudar empresas a fugir ao fisco.

"Pedro, estás um homenzinho, cada vez mais bonito e parecido com o teu pai. Espero que sigas os seus passos." - Diz a mãe divorciada e ainda amargurada.

"Ó vizinha, a Joana já é mulherzinha. Ondem manchou as cuecas pela primeira vez." - Diz a mãe a altos berros na varanda, ainda a recuperar de uma histerectomia provocada por dois miomas, indiferente ao corar de vergonha da sua filha, à beira das lágrimas por ter a sua intimidade assim exposta.

"é preciso muito caos interior para parir uma estrela que dance"


O tempo vai minguando no seu infinito abstracto,

esmagado por aglomerações flutuantes mas determinadas

no percurso promíscuo de sons e satélites únicos

que irão diminuir em compassos de ampulheta mutilada –

quando o germe adoecer e fôr engolido pela criação –

constelações irão desfalecer em fontes e regorgitar este

jogo multifacetado sob a forma dum camarão marinho

que suspirou e fez bolhinhas no fundo dos oceanos,

perdido entre brumas de aguda aglutinação primordial,

como a essência da força da gravidade num abismo.


Ouço sinos da tal voz indolente em tom revolucionário

com respostas de beleza utópica e acordes usados

ante o ramo duma oliveira, caroço maçã mosquito ou rosa

que explique todos os trauteares, basta agir ao olhar e ler

pureza sentida a fazer efeito, expandir-se austera

para lá dos horizontes do conhecimento dos morangos,

entre as inevitabilidades extremistas da memória

a razão imagina-se nas trocas intrínsecas respirando

mas, nada tudo foi porque do nascimento não nos lembramos,

são questões apenas segredadas diariamente sem cor.


À medida que letras se unem, conjuram e sucedem-se

criam raciocínios inerentes ao anterior último

e pintam, com a língua, seu próprio caminho invísivel

em comunhão com o escorregar de folha caída na relva sintética

como avalanche ansiolítica, atropelamento mútuo

de genético esquecimento, bisturi obsessivo por

lutar, existir em simultâneo com o acontecer de todos

os acasos que propagam e sorriem e encontram-se e

em magia transformam-se, seguindo o frémito necessário

e original, somente vislumbrável na unicidade anatómica.


No mundo em que fui cuspido muita teoria já cá vive e

verdadeiras pequenas descobertas perdem-se às recentes,

sob autoriedade empedrada do pós-bacharelato que nos cega,

prende a castração em coro às demagogias dum bem-comum de

entretenimento que não ajuda ninguém e, impede de esvoaçar

até ao ilimitado harmónico onde reflectirás atempadamente,

na companhia de borboletas parecidas, sobre os mistérios

da Natureza que admiramos e com quem queremos passear a

morte de criar nova pele doutro deus trabalhador, buracos negros

rodeados de palmeiras, cascatas e impossibilidades inexistentes.


Um é o número triangular que adormece vacas e vegetais

ao vogarem com códigos de barras instintivos no coração,

pretendem violentar visões na doçura territorial da sede

apreciando, sem dúvidas, o prazer fulcral do momento presente,

enquanto inspiram subjugamos, dispersando ebriedade constante

no corpo-cobaia, através dos devaneios da invenção das raças

trocam corridas homicidas na livre pradaria sub-sariana

por assentos, carros confortáveis e pastiches no centro comercial,

invejosos por não terem esperneado essa consciência ociosa

dirigida pela parabólica bolorenta do mesmo remoto fabricante.


Qualquer putrefacção procriada provém do sentimento imediato

cuja beleza intragável, é de tão onírica expressão que, só não será

fútil para a calmia do sismo emocional contido na insegurança

interior das contradições amargurantes que todos perseguem

com tormentos cinzento-gelado, relances de calor e mal-entendidos,

nesse ritmo das ancas erectas devemos aproveitar cada fímbria de verde ou

a predisposição sonhada nunca se construirá em narrativa, enquanto a

juventude ingrata propaga reverente e segrega regra contra o virus da velhice,

graças a ocasionais hábitos de revelações banais de sujas sagitárias,

desde o egoísmo do adeus até à plenitude permanente do remorso.


O barulho, toque do movimento é semelhante ao sabor

duma cereja a desabrochar como flôr amarela, felina no tojo

à deriva por entre a turbulência de vingativas ondas gigantes

na adrenalina de atingir uma ilha pacífica sem chá elitista,

onde nada se paga, ninguém corrompe sacro suor e trai

seus companheiros por miseráveis assoares bubónicos, são

mentes já obscurecidas por iates e bijutarias reconhecíveis, mais

todas suas divinais e dolorosamente omnipresentes expressões

fictícias de vida, lá longe o chocar dum ovo soa ao gemido duma orca

abandonando, comovida, as raízes sugadoras na solidão das árvores.


Minha família veio dum cometa televisivo, tal como quando

o baço exclama ao aspirar tocar no céu astral banalizado

e, nos lembramos da alforreca que a custo sobreviveu,

comendo-se a si mesma, pelo plâncton pré-fotossintético

que a engasgou, perto do centro, antes da primeira maçonaria

evaporar, contentou-se sendo lenda e originar missas modernas

que publicitam ser mais reais que signos luzídios, detêm

no cerne do seu seio de desejo mais antiquado e mal gasto,

este fumo de especiaria excedentária que hipnotiza a prescrever

insanamente, brincadeiras fugazes de quereres e consequências.


Observo os melros, bancos de jardim com cartas e copos de bagaço

comodistas, displicentes, arrogantes sãos afogados em mágoas

e doenças antigas que já só sentiram, desaparece o dia noctívago

sem calma, sem entusiasmo, sem esforço, no riso criticamos clones

desinteressados pelo sentido conhecido e sem atenção pela entidade,

deixa-se passar mais esta almofada como não se devia ter feito antes

e morre-se a acordar noutra geração sem reencarnação, quem afirma

peca obrigando o receio a recompôr rápido tanto defeito de fantasmas

falaciosos, atafulhos rasgados em lúxuria e poder d’intervenção impune

cravando a estaca na destinada estrela que sempre irá suspirar chão.


Ou então, fechemos as asas e olhos à informação masterizada

e vamos deixá-los tropeçar em ilusões de sorrisos simples

que atingem altas velocidades longe do asfalto conspurcado,

de mãos dadas com a chuva libertadora do fogo que assusta

e pariu o tempo, tal qual O zero vazio que contêm a luz ciclíca,

atordoante dádiva de vozes expectantes neste vórtice animalesco

incapaz de se rebaixar à condição de estar quieta na bicicleta,

aceita precisar mais querer perder-se no que abençoa, como

a trajectória inevitável dum beijo humano destinado a alado local

sem palavras, influenciado por todas as poeiras ocasionais

deste polivalente erro premeditado, a triunfante charada atómica
confluí na imagem de duas plantas numa, fodendo N0 pedestal.


in Trepidação/Trepanação (ou a ausência de evolução) 2004

sábado, 31 de maio de 2008

MAR DE NASCIMENTO

Mar do Mediterrâneo
Um lugar para nascer
Uma passagem
Um voo rente às águas
Um atravessar
Um mar de nascimento
Renascimento, despertar!
Um mar para abraçar.
Um mar para não ser.



Para ti, Maria


Para a Isabel Santiago, com um sorriso de Parabéns do tamanho de não o haver !

"Dans la transe le corps tombe en arrière. Toute image de corps humain vacillant bras levés et s'apprêtant à tomber dos contre terre figure l'instant de transe au cours d'une petit mort qui parle à tort et à travers et de laquelle on ne sait si on reviendra vivant.
Le passage à l'autre monde définit le passage au monde in illo tempore.
Monde non pas ab origine mais premier royaume du Jadis pur"
- Pascal Quignard, Abîmes, p.160

Libertação de Deus

Não me apetece escrever mais sobre Deus. É um tema alienante. Transporta-nos para um mundo que existe apenas na imaginação e fecha-nos em nós mesmos. Parece-me certo que existe ou existiu algo que deu origem a tudo isto, mas desconheço as suas propriedades; provavelmente, serão, um dia, descobertas pela Ciência. Até lá, vivamos em liberdade, até porque se alguma vez existiu um Deus todo-inteligente (a Inteligência), todo-consciente (a Consciência), não quis, decerto, que o conhecêssemos, pois que se o quisesse, mostrar-se-ia, teria criado condições para tal. Talvez descobrir Deus seja descobrir o Mundo.

sexta-feira, 30 de maio de 2008



Jardim III


ODE XXXI

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ainda Eckhart e Longchenpa, lançamento da Nova Águia e de "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido"

Recordo o convite para as conferências sobre a questão de Deus, que decorrem hoje, a partir das 14 h 30 m, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde falarei pelas 17 h 30 m sobre «Mestre Eckhart e Longchenpa: do Fundo sem fundo primordial como Nada e Vacuidade» (trata-se de comparar a experiência espiritual de um teólogo dominicano alemão e de um mestre budista tibetano, absolutamente desconhecidos entre si mas contemporâneos e afins no espírito).

Fica também o renovado convite para o lançamento da "Nova Águia", amanhã, dia 31, pelas 17 h, no Palácio Pombal, Rua do Alecrim, em Lisboa, onde será também lançado o meu último livro, "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido" (Zéfiro)(aforismos, fragmentos e provocações, sobretudo a mim próprio, mas também a todos vós), apresentado pelo Jorge Telles de Menezes, poeta, ensaísta e eminente tradutor da língua alemã.

"Sopra-te. E atravessa cantando a ilusória solidez do mundo"

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Depois dos Jardins

Trabalho de Mariana e Fábio "Comment peut-on être angélique
Enfant, si tu veux être un ange, tu peux l'être tout de suite:
Et comment? Ils vivent toujours dans l'inconfort"
Silesius, Le Voyageur Chérubinique, II, 167
&
" Ce qu'est l'humanité
Tu demandes ce qu'est l'humanité?
Je te le dis: c'est la surangélité."
Silesius, Le Voyageur Chérubinique, II, 44

Jardins I e II


"...quão formosos são teus pés nas sandálias
filha de príncipe
as curvas dos teus quadris parecem colares
obra das mãos de um artista
teu umbigo uma taça redonda
que o vinho nunca falte
teu ventre monte de trigo
cercado de lírios
teus seios dois filhotes
gémeos de gazela
teu pescoço torre de marfim
teus olhos as piscinas de Hesbon
junto às portas de Bat-Rabim
teu nariz como a torre do Líbano
voltada para Damasco
levanta-se tua cabeça como o Carmelo
e teus cabelos côr de púrpura
um rei trazem cativo dos seus laços

como és bela como és desejável
amor em delícias
semelhante à palmeira é o teu porte
cachos de uvas são teus seios
Pensei vou subir à palmeira
vou colher dos seus frutos
sejam teus seios cachos de uvas
o hálito da tua boca perfume de maçãs
tua boca guarda o melhor vinhoque na minha se derrama
molhando-me lábios e dentes".

Cântico dos Cânticos, Quinto Poema, VII



"À sua frente surgiu o jardim dos deuses,com árvores de pedras preciosas de todas as cores,maravilha de se ver.Havia árvores de rubis, árvores com floresde lapis-lazuli, árvores com cachos de corais gigantescomo se fossem tâmaras. Por todo o lado,brilhando em todos os ramos, havia jóias enormes:esmeraldas, safiras, hematites,cornalinas, pérolas.Gilgamesh contemplava tudo deslumbrado."


Descrição do Jardim de Gilgamesh




O que é a Religião? Notas várias

A noite é a mãe da religião.

Feuerbach em "A essência do Cristianismo".

A religião pura, originária e, provavelmente, única verdadeira, é a que vem de dentro da mente de quem a tem, que coincide perfeitamente com as suas crenças mais profundas acerca da origem e do ser da realidade - qual a sua origem? O que é, para mim, a realidade? -, sendo impossível, tautologia, um humano acreditar em algo em que não acredita. Quero com isto dizer que, provavelmente, sendo que cada pessoa tem a sua própria visão do mundo, semelhante e dissemelhante das outras, tem, também, a sua própria religião: relação de si com tudo, acto de se religar ao todo. Não podendo ser todas verdadeiras, as diferentes religiões (seis biliões?) têm, contudo, todas elas, algo de verdadeiro, na medida em que nada melhor do que a interioridade justamente para se expressar, imageticamente, ou conhecer-se.

Feuerbach escreve que Deus é a objectivação do humano, a essência de Deus a essência humana, à qual foram retiradas as características consideradas desagradáveis, portanto, uma idealização da essência humana: o bem, a virtude, o poder, a justiça, não o mal, o vício, a impotência ou a injustiça. Assim, aparentemente, poderíamos dizer que o humano se conhece a si mesmo. Porém, a religião originária, como o próprio autor frisa, revela-se, principalmente, na oração, e a oração é não apenas o pedido de ajuda para enfrentar os males do mundo mas, também, como surpreendemos por exemplo em Agostinho, a expressão, objectivação, de uma quase angustiante vontade de conhecer e de, principalmente, conhecer-se. Dado isto, poderíamos dizer que o humano não sabe se se conhece a si mesmo, vive na dúvida, pensa que há sempre mais, desconhece.

E, assim, dizemos que o grande desejo do religioso, o sumo, é conhecer-se. Deste modo, a pergunta primeira, última, essencial, da religião é: quem sou eu?, que pode ser dita de outro modo, desligada de eventuais referências à história de vida de quem se interroga: o que sou eu? A questão evoca o desejo, a ânsia, que o humano tem em conhecer o seu fundo, aquilo que está primeiro, a fonte, a origem, pois julga qúe é aí que se encontrará... à sua essência, aquilo que é mais profundamente, verdadeiramente: a verdade acerca de si.

Esse fundo é Deus, muito especialmente o hindu, Brahman-Atman, visto que a expressão refere, simultaneamente, algo que a pessoa não é, porque a pessoa é um ser particular no espaço-tempo, com uma história de vida, distinto da origem, etc., e algo que a pessoa é, porque é, em última instância, essencialmente aquilo, verdadeiramente aquilo, no fundo aquilo: não poderá não sê-lo, tal a natureza da ligação umbilical à Nave-Mãe, tal a natureza da Natureza. Nesse sentido, todos somos o incriado e não poderemos não sê-lo.

A religião é a tentativa de percorrer o cordão umbilical até à origem. E, embora possamos encetar o caminho através deste mundo, da contemplação que convida à viagem, a origem, o fim, não está neste mundo, é transcendente, invisível, é longe, é fora, é para lá, é além e, provavelmente, se o víssemos, teríamos de ir para lá dele, porque é essa a nossa Natureza, eis a da imaginação, querer ir para lá do dado, querer criar mundos, viver insatisfeitos, escapar, dominar ou não dominar, escolher, ser plenamente livre, um produto da imaginação, sem constrangimentos: ser Deus: livre, liberdade.

Assim, a pergunta "quem sou eu?" esconde a pergunta "por que é tudo assim?" que, por sua vez, esconde o desejo "quero ser livre". Deste modo, as duas perguntas resumem-se na seguinte: por que não sou livre? E, dada a imaginação, perguntamos: serei livre? "Desejo ser livre": por que não procurar, então, a liberdade? Eis o valor/ideal supremo que subjaz à religião pura (e purificada da superstição), a liberdade. Talvez por isso a essência de Deus permaneça um mistério, indefinida, sem propriedades... para ser plenamente livre, até da própria liberdade.

Assim, o religioso põe como Princípio aquilo a que aspira; mas não só por razões subjectivas ou de satisfação pessoal, como Feuerbach decerto pensaria, mas pela própria questão objectiva de que o Princípio tem de estar para lá das leis, sejam elas, por exemplo, físicas ou lógicas, não podendo nós, no entanto, justificar este pensamento supondo a liberdade do Princípio, tendo, então, de encontrar o caminho que nos indique que elas têm de ter sido criadas ou que Ele não é elas e é-lhes anterior e superior. Estou a escrever isto de uma Biblioteca e o tempo de uso do computador está a acabar e, por isso, não escrevo mais, publico-o.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Cenas do quotidiano

Rossana deita-se ao comprido. O seu pêlo é um entrançado branco por onde os fios de luz se intensificam. É uma espécie de primeiro cão do mundo. Olho para ela e penso que ela atravessou todas as idades, todas as eras, todas as casas dos homens. O crepúsculo é tal e qual como se estivéssemos no Outono mais denso, os tons amenos e belos, de uma tranquilidade lúcida, pura. Mas há uma luz. Uma luz intensa mas velada, uma atmosfera liquefeita, com a água solta, liberta do seu âmbito, intuitiva. A Rossana tem a pequena bola cor de laranja junto ao focinho, entre as patas. Está ali como no início de tudo. Mexo-me na cadeira, há um som. Rossana olha-me, de repente ela. Estou sentado no quintal, leio. É como se as palavras fossem o movimento de Deus, uno e distante. Reparo que o charro se apagou. É necessário acender outro fósforo. Meus pais não imaginam que faço isto. É por isso que o faço agora. Acendo o fósforo. Eis que a Rossana olha para mim e é ela mesma e todos os cães ao mesmo tempo, a dupla face do signo. Os animais são os seus nomes por inteiro, vivem na combustão inicial do fogo, trazem a translúcida quietação de tudo. Recosto-me, paro de ler. O fumo eleva-se. Penso que os meus amigos estão no vórtice das suas vidas, tal como eu. Curioso como nunca reparo nas flores do quintal. Estão em vasos que alguém, um dia, moldou. As flores são a mais delicada manifestação de vida. E ao mesmo tempo, a mais fortemente fundada no espaço. Irremovíveis, as suas raízes fundem-se com a terra. Agora que penso nisso, as flores são também o ser vivo mais propenso à levitação. Não o voo furtivo dos pássaros, não, a fluidez mais tensa do vento, a dança demiúrgica do estar sendo. A impossibilidade de repouso. Os pássaros têm os seus ramos de árvore, os seus cabos eléctricos onde abrigar. As flores vivem no eterno mover do mundo, etéreas e telúricas, sem síntese, só paradoxo. A Rossana pressente um barulho lá fora. Levanta-se. O charro apagou-se de novo.

Os três tipos do religioso e um comentário a propósito de "A essência do Cristianismo"

Os três tipos do religioso: ser tudo, nada ser, ser sem ser.

"A essência do Cristianismo" é uma leitura importante não tanto no seu aspecto demolidor dos mistérios do Cristianismo, mas na medida em que poderá ajudar-nos a construir uma religião mais natural, menos inconsciente, guiar-nos na prossecução da nossa sabedoria em relação aos nossos desejos mais recônditos e a nós próprios e, também, libertar-nos da tirania do eu, de nós em/para nós. Afinal, depois deste autor, quem é o verdadeiro Deus? Qual o Deus que poderemos procurar tanto dentro como fora de nós, pessoal e impessoal, subjectivo e objectivo...? Deus do cientista e do religioso, fim sem fim de uma busca... direccionada... interior e exterior, racional e contemplativa, princípio e fim sem fim desejado...

O mundo antes e depois de Feuerbach

Deus é o outro de mim. O eu é a essência da Religião.

De "Naked Lunch" (William S. Burroughs)

"Dr. Benway had been called in as an advisor to the Freeland Republic, a place given over to free love and continual bathing. The citizens are well adjusted, cooperative, honest, tolerant and above all clean. But the invoking of Benway indicates all is not well behind that hygienic facade: Benway is a manipulator and a cooprdinator of symbol systems, an expert on all phases of interrogation, brainwashing and control. I have not seen Benway since his precipitate departure from Annexia, where his assignment has been T.D. - Total Demoralization. Benway´s first act was to abolish concentration camps, mass arrest and, except under certain limited and special circumstances, the use of torture.
"I deplore brutality," he said. "It´s not efficient. On the other hand, prolonged mistreatment, short of physical violence, gives rise, when skillfully applied, to anxiety and a feeling of special guilt. A few rules or rather guiding principles are to be borne in mind. The subject must not realize that the msitreatment is a deliberate attack of an anti-human enemy on his personal identity. He must be made to feel that he deserves any treatment he receives because there is something (neveer specified) horribly wrong with him. The naked need of control addicts must be decently covered by an arbitrary and intricate bureaucracy so that the subject cannot contact his enemy direct."

p. 19, edição de 2001, Grove Press: New York

terça-feira, 27 de maio de 2008

A busca de Deus e a busca do Eu

Quem é Deus? Religiões, filosofias, ciências... procura-se saber o que é a realidade última, não só o que deu origem à realidade como a conhecemos, mas a verdadeira realidade, por oposição à contingente, portanto a necessária, incondicionada, que de nada depende, supostamente mais real. No nosso caminho da ignorância para o conhecimento, Deus é esse ponto de partida, fim da busca, eventualmente infindável. É, portanto, a realidade última, primeira, a explicação que a si mesma se explica, referente de um pensamento que a evoque correctamente. Mas... quem é Deus? O que é Deus? Quais as suas propriedades? O que o caracteriza? Há quem afirme que Deus é isento de propriedades, o que me parece um contra-senso, pois que se existe algo o caracteriza; mas, quem assim defende, afirma também que Deus não existe no mesmo sentido em que nós existimos, que não é um objecto como os restantes, que não é simplesmente o apogeu da hierarquia dos seres, mas algo diferente, cuja essência permanece coberta, reconhecível apenas através das suas dinâmicas, actos, consequências, efeitos - será necessário que, na nossa análise da realidade, exista algo que nos escapa? Como podemos saber isso? A resposta é que não sabemos, pois que para que o soubéssemos, teríamos de conhecer toda a realidade - será possível virmos a conhecer toda a realidade? Os seus fundamentos? A sua justificação, explicação que a si mesma se explica, ser que a si mesmo se explica? Nessa possibilidade, o ser que a si mesmo se explica seria realmente uno, simples, na medida em que, se o não fosse, seria explicado por outros factores, que seriam Deus e não aqueloutro. Desconhecemos Deus; mas, na nossa busca, como quer que seja feita, necessariamente através da mente, pois que é o nosso meio de contacto com a realidade, sabemos que temos de encontrar aquilo que é auto-suficiente, independente de tudo o mais, primeiro na cronologia mental da ordem da existência, causa-efeito, que cada um de nós tem dentro de si. Penso que todos estamos de acordo em que existe a realidade incriada, até porque é implicada pelo seu contrário, que implica o (tempo) infinito. Outra questão é: como é possível que algo que é simples, uno, eterno, imutável, tenha, em dado momento, começado a criar, que tenha mudado? É incomportável. Por isso, ou não cria de todo, o que é em tudo estranho, ou está sempre a criar, o que em parte lhe retira o fascínio afectivo que sentimos pela sua transcendência, paz, alheamento do mundo, retirando-nos também o sonho de um dia virmos a viver essa espécie de paz quase inconsciente, o idílio... retorno a nós mesmos, conhecermo-nos: talvez por isso o Hinduísmo tenha construído/identificado o par Brahman-Atman como a realidade última, Cristo seja filho do Pai, Buda a natureza última das coisas. A busca de Deus é a busca da realidade última acerca da Natureza que nos envolve, a nossa própria busca interior (quem somos? Quem sou eu? O que sou eu? O que está no fundo de mim, isso que sou eu profundamente, inalienável, inabalável, que me constitui sempre?), a busca pela identificação Humano-Cosmos (desumanizando o Humano ou humanizando o Cosmos... as pontes) embora, muito provavel e egoisticamente, seja mais relevantemente, não por qualquer condicionamento exterior, mas pelo mais intenso desejo escondido, a nossa própria busca interior, que não é uma brincadeira em que procuramos as nossas características, assins e assados, mas o acto místico fundador no qual, supostamente alheados de nós, buscamos integrar-nos connosco mesmos - queremos conhecer-nos. Afinal, amamo-nos mais a nós mesmos do que a um pretenso deus desconhecido que uma qualquer tradição estranha nos queira impingir. Não há espelhos onde nos possamos ver, eternos avatares de nós mesmos. Ir além, ser além.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

ECCE HOMO!


credo

Acredito na altíssima origem dos reis.

Acredito na encarnação dos augúrios.

E no voo e no pasto dos auspícios.

Acredito no pressentimento dos cães

E nas pessoas cozidas depois de mortas.

Acredito na ritualização das leis.

Acredito na sagração da nobreza.

Acredito nos homens sentados num altar.

Em busca do dharma perdido-esquecido

I - Deus e a razão de Deus

Deus: a razão de Deus.
A razão de Deus: inescrutável.

II - Epifanias e Avatares

Ele é vermelho-sangue, pois o seu corpo é Sangue
Fita-nos, através do seu azul-olhar, deitado, aparecido
Adormecido e acordado, assustado (e assustador) e ternurento (e triste)
Repleto de sexualidade e castrado: Animal Racional
Inominável surpresa, desaparecida - outra ilusão? Desilusão
Após a abertura dos portais do tempo, o Ser liberto da morte
Contempla o verdadeiro dharma: Eterno Retorno
O coração pula, intensamente, tudo é finalmente-primeiramente a alegria e o saber
E queremos dizê-lo, levantamo-nos do nosso leito, "Descobri, descobri! Eu sei a verdade, conheço a solução!"
Até que as simples palavras, a simples frase que tínhamos se dissipa
E, então, percebemos que magicamente perdemos-esquecemos a verdade
Que desconhecemos o caminho, e vivemos mundos para voltar a abrir a porta
Cujo nome-visão esquecemos por entre uma espécie de estranha confusão-convulsão.


III - Do mundo ao mundo transcendido - duas notas solares

Silêncio: êxtase do espaço-tempo.
Praia: o lugar da Utopia.

Paixão autêntica é a que nos consome, nos anula, nos transporta para além dos limites da condição humana.

Triste condição a nossa, a condição humana

As palavras libertadoras de todos os Mestres são corrompidas por discípulos que as transformam em veículos de engrandecimento do seu ego e controle dos demais, desovando sectarismos e violência.

Todo o amor por um ser existente, incluindo Deus, contém em si uma vontade de poder que o consome e destrói o amante e o amado.

Todas as amizades partem do pressuposto que o amigo, para o ser, tem de nos reflectir a nós mesmos e se encaixar em formas de comportamento que achamos "normais" na nossa insanidade. O sinal de que estamos a "sair dos eixos" e que a amizade está em risco é quando o amigo passa o tempo todo em que estamos juntos a tentar convencer-nos a pensar e viver segundo o que ele pensa que é melhor para n´so, ou vice-versa.

Em qualquer realização humana que implica a participação num grupo ou reconhecimento por parte de outrém, o saber fazer um sorriso vápido, bater as pestanas, fazer uma voz falsamente meiga, fingir modos que reflectem uma certa sub-cultura, ou, acima de todo, saber alimentar o ego de quem tem o poder de nos reconhecer ou enxotar para a obscuridade tem muitíssimo mais relevo do que as nossas competências, capacidade de trabalho e qualidade da nossas realizações. Pois a própria noção de qualidade é relativa e depende do quanto o ego de quem reconhece se sente reconfortado pela nossa presença.

Por essa razão, é muito provável que, mais cedo ou mais tarde, as escolas e universidades se esvaziem de quase toda a filosofia e ciência, excepto aquela que é estritamente necessária para a manutenção do sistema e sobrevivência na "selva" das interacções humanas, e se transformem em fábricas de camaleões sociais.

A verdadeira filosofia e ciência são mais venenosas que o Antrax.

Uma cabeça que pensa por si mesma é a mais perigosa das armas de destruição maciça.

É preciso, acima de tudo, encontrar a chave que nos liberte destas relações de circunstância e nos abra a porta para o céu aberto da autenticidade no pensar, no sentir, no relacionar-se e no produzir. O preço da posse dessa chave é nos tormarmos marginais.

Algumas dicas sobre a forma e a localização dessa chave;-)?

domingo, 25 de maio de 2008

Eckhart e Longchenpa, lançamento da Nova Águia e de A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido

De passagem rápida por Lisboa, a caminho de mais uma viagem, deixo-vos o convite para as conferências sobre a questão de Deus, que decorrem no dia 30 no Anfiteatro III da Faculdade de Letras (ver programa em Actividades, na coluna da direita), onde falarei pelas 17h30m sobre «Mestre Eckhart e Longchenpa: do Fundo sem fundo primordial como Nada e Vacuidade» (será uma versão, com alguns acrescentos, da comunicação que fiz no Colóquio de Outubro de 2007, "O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa".

Fica também o convite para o lançamento da Nova Águia, no próximo Sábado, dia 31, pelas 17 h, no Palácio Pombal, Rua do Alecrim, em Lisboa. Aí será também lançado o meu último livro, A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido (aforismos e fragmentos), apresentado pelo Jorge Telles de Menezes, poeta, ensaísta e eminente tradutor da língua alemã. Deixo-vos com o texto da contra-capa e espero-vos por lá, no esplendor da in-ex-istência.

Escrevo. Para iluminar o Inferno. Tu, que lês, comigo para sempre arderás nas trevas da luz infinita.

És o que há de mais precioso em todo o infinito universo. E por não o suportares tanto te prezas.

Busca o que mais temes, beija-o na boca e sê feliz para sempre !

Este livro é o diário de bordo da viagem instantânea e infinita entre o antes e o depois de haver alguma coisa. O diário da experiência do que se não pode dizer, com todas as suas potências e possibilidades, todos os deuses, demónios, labirintos e abismos, todos os sagazes vislumbres e furiosos arrebatamentos que se acoitam nisso a que se chama existência e vida. O surpreendê-lo na anulação da distância, na palavra súbita e mínima, incandescente ou transida do impossível que incarna.

Na verdade este livro não existe, nunca começou a ser escrito e nunca cessará de o ser. Porque quem o escreve não é só quem julgas, mas, simultaneamente, tu próprio e Todo o Mundo-Ninguém. Aqui dialoga a presença com a ausência, aqui ressoa a presença-ausência, aqui canta a Saudade. Pois em tudo irrompe o mesmo fundo sem fundo da universal metamorfose, a mesma serpente que a tudo abandona como peles da nudez que para além de si e de tudo se empluma.

Este livro é um dos seus rastos. Não tentes segui-lo, pois o que importa é que te libertes, dele, de tudo e de ti. Que agora mesmo te dispas e morras e, neste preciso instante e lugar, ressuscites proclamando a todas as coisas o seu e teu eterno Despertar.

sábado, 24 de maio de 2008

"... do Alguma coisa ao Nada"

"Deves amar Deus não intelectualmente (nichtgeistig), é o mesmo que dizer que a tua alma deve ser não intelectual e despojada de toda a intelectualidade, pois, enquanto a tua alma for intelectual (geistformig), tem imagens; enquanto tiver imagens, tem intermediários; enquanto tiver intermediários, não tem unidade nem simplicidade. Enquanto não tiver a simplicidade, jamais verdadeiramente amou Deus, pois o verdadeiro amor reside na simplicidade. É por isso que a tua alma deve ser não intelectual, despojada de toda a intelectualidade, permanecer sem intelecto, pois se tu amas Deus enquanto é Deus, enquanto é intelecto, enquanto é Pessoa, enquanto é imagem, tudo isso deve desaparecer. - Como devo então amá-lo ? - Deves amá-lo enquanto é um Não-Deus, um Não-Intelecto, uma Não-Pessoa, um Não-separado de toda a dualidade. E neste Uno devemos eternamente nos abismar: do Alguma coisa ao Nada" - Mestre Eckhart, Sermão 83.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Cavalo alado em azul infantil



Pégaso nasceu do sangue de Medusa. Mais tarde, foi oferecido a Belerofonte para combater a Quimera. No Parnaso viveu com as Musas e fez nascer a fonte Hipocrene, com um dos seus coices. Dessa fonte jorra a fonte de inspiração dos poetas.



Com as suas asas voou para o livro imaginado de Isabel e daí para a Sepente Emplumada...


Misticismo e Racionalidade

O misticismo é a tentativa de dissolução do sujeito no objecto de pensamento. Não implica o abandono da razão (se isso é sequer possível... e o que é a razão?), podendo até ser implicado ou despoletado (experiência mística) por uma ascensão racional, por exemplo através de argumentação. Pensa-se, muitas vezes, que os místicos não são racionais e que os racionais não são místicos, o que é um erro, uma pequena guerra sem sentido. As tentativas de redução do mundo a uma ou outra categoria, quando é evidente que co-existe com outras, é uma idiotice. Assim, tentar eliminar o misticismo ou a racionalidade do nosso pensamento é uma idiotice, porque o modo como o mundo é permite o misticismo, no nosso próprio desconhecimento e tentativa de saber mais, procurando um objecto transcendente que tenha gerado o mundo, e a racionalidade (e o que é a racionalidade? Não esqueçamos que são os próprios lógicos a afirmar que o modo como pensamos é bastante mais caótico do que a representação idealizada e simplificada das linguagens formais da lógica proposicional e de predicados), nessa mesma busca (e noutras). Dois mundos perfeitamente compatíveis, especialmente quando a busca é abertura-aventura, divino caminho para os enormes e etéreos portais da Deusa.

Deus e Filosofia

Disse, há dias, que o objecto de pensamento da filosofia é Deus e que se o objecto não é Deus, não é filosofia. A filosofia é a busca de sentido para a existência de que nos apercebemos e, nessa busca, Deus seria aquilo em que encontraríamos sentido, porque é a razão de ser do mundo, a sua explicação. Afinal, enquanto não (nos) interrogarmos (acerca de) Deus, o princípio, não obteremos respostas que expliquem por que é que este mundo existe e por que é como é. Uma ciência perfeita, que explicasse de verdade em verdade o porquê de cada coisa, começaria por Deus e deduziria tudo a partir d'Ele. Sem o conhecimento de Deus, o nosso conhecimento do mundo será sempre incompleto, porque desconhecemos o princípio, e viveremos assombrados por dúvidas constantes acerca de realidades e ilusões. Por isso, Deus é o objecto primeiro dos pensadores que buscam o sentido para a ou a explicação da existência (ou de alguns seus aspectos como, por exemplo, a arte) - os filósofos.

Histórias com Imagens - O Dragão

Imagem retirada de Filatelicamente.online

O poder deste animal reune as características de vários outros e comunica com os elementos. «O dragão protege a “pérola da noite”, que é suposta possuir virtudes miraculosas contra a doença. Os dois ramos que saem da “pérola da noite” simbolizam os raios luminosos. O dragão é o seu guardião.»

P.S. 1 Que o dragão possa proteger os que sofrem, os que são perseguidos por qualquer razão ou sem razão.
P.S. 2 Que o dragão ganhe asas e leve esta mensagem aos quatro cantos do círculo que é o mundo.

Histórias com Imagens - A Serpente e a Águia

Imagem de selo retirada de Filatelicamente.online

Neste momento em que as asas são mais necessárias, devemos invocar Hermes. Que ele nos empreste as asas para que a Serpente alada leve ágil a mensagem de uma nova idade.

A serpente símbolo da paz para os Gregos e para os Hindus.

o Cavalo



“O cavalo é a montada, o veículo, do homem peregrino, conduzindo-o por entre as escarpas das vastidões terrenas. Ele representa a sensualidade e a emoção, estando muitas vezes conotado precisamente com o elemento Água. Ele é a força fecundante. No Bhagavad-Gita, os cavalos são associados aos sentidos que é necessário primeiro, apurar e adestrar, e depois, dominar- para a glória do espírito.

Frequentemente o cavalo assume uma simbologia de purificação e de transcendência espiritual - quando sugere, justamente, a necessidade de dominação das forças inferiores e crónicas.”


quarta-feira, 21 de maio de 2008

Eu, a Pedra e a Montanha somos Um - Mito do HighLander


Eu, a Pedra e a Montanha somos Um





Este é o Mito do HighLander que eu ilustro com o relato sumário da última caminhada Ben Nevis acima e abaixo. (HighLands, Julho 2005)


Primeiro, foi o meu sorriso, convencido da benevolente quietude e beleza da Montanha.
Os primeiros passos quase não os senti, nem em mim, nem na Montanha. Levitava ou voava, o corpo em desmaterialização com uma receptividade inocente como se não soubesse o que o esperava. Ou se o sabia, não se adiantou no tempo como acontece nos presságios. No céu, algumas nuvens levitavam no azul, e os raios de sol prometiam a imensidão. Uns leves chuviscos salpicavam o meu contentamento com mais ânimo e à medida que subia, mais claro e mais amplo se tornava o vale com o rio a serpentear pelos sopés.

O vento, já presente em brisa na partida, começou a agitar-se com repentinos sopros e mais fortes, com chuva. O terreno crescia mais acidentado e pedregoso. Andar é fixar o olhar no chão, um exercício tenso de esvaziamento. Anelante e cinzenta, uma camada de nevoeiro cobria agora o céu não deixando antever a mínima expectativa de distância do cume. Por sua vez, e mais cedo do que davam a entender, as nuvens, como que densas cortinas, transmudavam o colorido do vale em passado. Agora tudo era estreito, não havia nada para ver com os olhos de fora, a imensidão? só na memória ou em algum paraíso imaginado, o verde e o horizonte teriam sido uma ilusão...

Finalmente o frio a expulsar todos os vãos desejos de conquistar o cume, se os havia, e a extrair a quintessência do pulsante Propósito da Viagem. A dor e a imobilização das mãos trouxeram-me emoções de impotência, que durante alguns instantes, longos, me dominaram e desnortearam. No entanto, em momento algum me ocorreu voltar para trás, e tão-pouco continuar a subir foi um acto de valentia. Foi um percurso iniciático.

O cume seria alcançado no sopé do regresso, lugar das alturas que os pés não tocam e que só é vislumbrado pelo espírito do Highlander que vê
a montanha, a missão e a si próprio como um só.



Uma reflexão sobre a filosofia

Que quer dizer a frase "O Homem é o ser para a morte"? Penso que mais do que dizer que os humanos são seres mortais, o que seria banal, diz que os humanos são os seres, de entre aqueles que conhecemos, que têm consciência da morte, sua e dos outros. E isso não é banal, embora seja uma simples constatação de um facto. Não é banal porque o facto de termos consciência da morte influencia, determina, toda a nossa construção de vida, individual e colectiva - a morte é o fatum fundamental e a consciência da morte é o seu mensageiro.

Na verdade, ao contrário de Nietzsche, não creio que os factos fundamentais da existência humana sejam a saciedade, a força, tudo o que possamos apelidar de bom, porque o filósofo era, afinal, um moralista, mas a fome, a sede, a fraqueza e o enfraquecimento, a doença e o sentimento de impotência, o desconhecimento e a fina percepção do acaso, enfim, a necessidade. Concordo, porém, com o filósofo, na medida em que considero que, de facto, o ser humano não tem culpa pelos seus actos, porque não pediu para nascer, nasceu no desconhecimento e na errância, não sabe por que está aqui, como se tivesse nascido de um ovo posto por um qualquer demónio cartesiano.

Contudo, acredito na existência de Deus, embora não saiba como Ele é: se é bom, se é mau, se não é bom nem mau, se é consciente ou inconsciente, enfim. Penso que a filosofia, que mais não é do que o filosofar, consiste justamente na tentativa de apreensão desse ser originário, fontal, que é mística e intuitiva. Mística, porque visa a união do sujeito que pensa com o objecto pensado; intuitiva, porque mais do que pensá-Lo através de conceitos, palavras, linguagem verbal, o sujeito tenta pensá-Lo através de algo para o qual a melhor metáfora é a da imagem, usando, portanto, a imaginação.

Neste sentido, penso que a filosofia é a actividade humana que tem as propriedades de ser, simultaneamente, religião, ciência e arte. Religião, porque toda a sua actividade se foca em Deus; ciência, porque todo o objectivo da sua actividade é conhecer o que se desconhece; arte, porque toda a sua actividade é criativa. Resta dizer, porém, que, enquanto religião, não tem o seu fundamento na fé, senão na intuição primeira de que o mundo tem uma origem; que, enquanto ciência, não é empírica; que, enquanto arte é, no máximo, arte conceptual, não porquanto malabara conceitos, mas dado que labora com imaginações-intuições puras.

Mas... de onde nasce a filosofia, o filosofar? Os manuais não têm pejo em afirmar, seguindo as tradições platónica e aristotélica, que o filosofar nasce do espanto, da aporia, da insolubilidade de problemas, de questões que o humano coloca à Natureza. Penso que, mais do que nascer da aporia, o filosofar nasce da intuição primeira de que o mundo tem uma origem, seja ela qual for, o que for, que, por sua vez, nasce do amor, ainda que muitas vezes recôndito, nas profundezas da alma, que o humano sente pelo Cosmos, amor esse que nasce da consciência do belo e, especialmente, do sublime, físico - como uma flor, uma paisagem, o vento - ou meramente mental - como a consciência do tempo, do espaço enquanto espaço. Daí, por sua vez, talvez nasça a aporia que, porém, mais não é que um sintoma.

O filosofar não é uma actividade argumentativa que visa descobrir verdades que nunca serão descobertas, senão numa sua versão espúria e muito em voga, que remonta a Parménides, aquando da viragem lógica do filosofar, actualmente praticada pelos chamados filósofos analíticos, que tratam principalmente de assuntos mundanos e pouco transcendentes - enquanto o filosofar visa o transcendente, o que está além, na medida em que é abertura-aventura. Alguns desses assuntos podem até ser importantes, como sejam os da Bioética, embora sejam assuntos de especial importância prática, não obstante o facto de serem especiais não os dotar de especial valor ou interesse filosófico.

O filosofar não é nem a actividade argumentativa referida no parágrafo anterior, nem um corpo de conhecimentos, embora se possa construir um corpo de conhecimentos a partir das experiências que os vários filósofos têm tido ao longo dos séculos, na senda do seu objectivo. Esse objectivo constitui, justamente, o filosofar: a apreensão mística intuitiva do todo. Esta actividade, que assim mais parece um palavrão, tem, por si e como é, todo o interesse público, porque é ela que vai permitir a existência de uma sociedade melhor, mais (e acima de tudo) preocupada em minorar o sofrimento humano e em aumentar o prazer. Querer transformá-la, como de resto tem sido transformada a partir de Parménides, por génios como Platão ou Aristóteles, e raridades subsequentes, numa eterna perpetuação pastosa de um pensar egocêntrico, inconsequente e exibicionista, é, mais do que uma negação, um crime. Mais do que um crime, uma estupidez.

domingo, 18 de maio de 2008


«Quanto ao encontro Serpentino Emplumado, proponho que seja no dia 10 de Junho, no lançamento da "Nova Águia" na Feira do Livro, pelas 18 h, em local a indicar.»


faço minhas as palavras do Paulo Borges

Encontro Serpentino Emplumado e outras coisas

Car@s Amig@s, vou estar de novo algum tempo em viagem e por vezes longe do blogue, mas sei que a Serpente vive e empluma-se por si própria e que vocês serão plumas bem vivas das suas asas de imensidão.
Recordo o Colóquio sobre a Saudade, em homenagem a Dalila Pereira da Costa, que se inicia amanhã no Porto com uma conferência minha sobre "Experiência Mística e Saudade em Dalila Pereira da Costa" (ver aqui o programa em Actividades). Também amanhã à noite, pelas 21.30, na Fundação Escultor José Rodrigues, na Rua da Fábrica Social, no Porto, será lançada a "Nova Águia", que voa com várias plumas da Serpente. A apresentação será feita por Miguel Real. Na mesma ocasião será lançado o meu livro "Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes", apresentado por António Cândido Franco.
Depois parto para Paris onde falarei no dia 22, nas Jornadas Vieirinas que aí decorrem, no Centro Calouste Gulbenkian, sobre "A espiritualidade do Padre António Vieira" (ver programa). Pelo meio terei um retiro budista e regresso para falar sobre "Mestre Eckhart e Longchenpa: do fundo sem fundo primordial como Nada e Vacuidade" num Seminário que decorre no dia 30 no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (ver programa).
No dia 31 haverá o lançamento da "Nova Águia" em Lisboa, no Palácio Pombal, na Rua do Alecrim, pelas 17 h, bem como o lançamento do meu último livro "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido" (aforismos).
Quanto ao encontro Serpentino Emplumado, proponho que seja no dia 10 de Junho, no lançamento da "Nova Águia" na Feira do Livro, pelas 18 h, em local a indicar.
Até lá, se não nos virmos antes, e que façamos destas aventuras culturais o cultivo da intensidade e da sabedoria de viver !
Abraços

Air-Johann Sebastian Bach-Ouverture (Suit) Nº3 in D Major





A espiral mais perfeita que alguém, alguma vez, pôde expressar. A harmonia ascendente capaz de tudo irmanar.
Esta é a língua de todos os seres, de todas as tribos, aquela que sempre foi nossa, que calámos e misteriosamente deixámos de entoar. Tão óbvia e ancestral que, imperceptivelmente, se repete no vagar do dia, no pulsar da florescência, na contingência da luz na noite mais profunda, no nosso código genético, em todos os átomos. Mergulha na origem de todas as origens, desvenda um trilho de união, converge na fusão de todos os seres numa única constelação que se repete no mais etéreo céu e no mais profundo mar.

( Talvez a tenham gravado em pedra, caríssimo Obscuro !)

(Onde tu vês anjos, eu encontro células e átomos, Isabel. Mas qual é a diferença afinal?)

passar a ponte
estabelecer pontos de comunicação, de interesse
estar aqui e dar um passo para ali ficar

sábado, 17 de maio de 2008

Ritos dionisíacos da Itália Meridional

http://www.youtube.com/watch?v=igUTPVPdA-E

«A picada do amor»

"O Tarantismo pode ser definido como um fenómeno histórico-religioso que caracterizou a Itália meridional e em particular a província de Puglia no final da Idade Média. (...) Sobrevive ainda em algumas áreas da Península Salentina."

Um texto a partir do texto anterior

Por que faço, no texto anterior, a crítica aos pretensos filósofos objectivistas? Porque, a mando de falsos caprichos e irritações pessoais contra o mundo que, para eles, se divide entre leigos e não-leigos, provocando-me irritações cutâneas, como sejam os da clareza de linguagem para que a filosofia seja acessível a todos, transformam-na, na verdade, numa actividade completamente académica e desligada da realidade, das velhas com a pele enrugada pela passagem do tempo, dos agricultores e pescadores, da terra, das suas suaves, simples e profundas intuições, de crenças religioso-metafísicas acerca da realidade vividas com uma incrível intensidade, da realidade-verdade, crua, para a idealização-alienação, construída.

Vivemos a era dos cursos. Hoje, há cursos para tudo e são necessários cursos para tudo, o que é liminarmente ridículo, na medida em que é possível que o maior filósofo de sempre seja um aparente Zé-Ninguém sentado no chão, na esquina ventosa, ou um raro pastor perdido num qualquer monte longínquo. No entanto, como vivemos não só na era dos cursos, como na dos papéis, privilegiam-se os papéis, os diplomas, que não são assertivos, excepto para inglês ver.

Vivemos não só a era dos cursos e dos papéis, como a dos currículos, tal é a desconfiança de uns para outros. A maior preocupação das pessoas é fazer currículo, não só para terem a justa preocupação de melhores possibilidades de empregabilidade futura, como para defenderem socialmente um status numa sociedade cada vez mais agressiva, encolhida, receosa.

Sou contra tudo isto: cursos, papéis, currículos e, portanto, talvez infelizmente, contra o modelo social em que vivemos, embora entenda que tanta burocracia pode visar a nossa própria segurança. Talvez a solução passe, como tem vindo a ser dito desde há uns anos para cá, por uma participação social mais local, onde o contacto humano e os afectos são maiores, e onde as pessoas são mais valorizadas na sua sensibilidade e não tanto na sua capacidade funcional.

Nas cidades, as pessoas são pouco afectuosas, muito carreiristas e individualistas, "não me chateies que eu também não", vivendo no entanto a estranha condição de extremamente desligadas da sua individualidade enquanto são extremamente individualistas, porque desligadas da vida e da morte, da terra e do céu, esquecendo facilmente, pequenas peças numa complexa engrenagem.

Os filósofos não devem pensar fechados nas suas redomas pseudo-individualistas, mas individualizar-se, livremente, para a colectividade, tendo a obrigação de, como pensadores da vida e da morte, da existência, da pessoa e da sociedade, das relações, do ideal, divulgá-lo, respeitando, no entanto, a clara incerteza das nossas noções acerca do mundo, porque o humano é o ser da crença, no que respeita ao ser da realidade para lá das aparências (se esta ou aquela existem... penso que sim!) e ao futuro.

Reflexões várias, sobretudo sobre o anarquismo, o mal no mundo e a visão errada dos filósofos objectivistas que querem matar o misticismo

O anarquismo é um fenómeno regional, na medida em que é impossível que um grupo grande de pessoas, como acontece nas cidades, sobreviva sem leis, que deveriam existir para, infelizmente, nos protegermos uns dos outros, e sem alguém cujo trabalho é gerir o trabalho e o fruto do trabalho dos outros, papel que, de resto, está consignado aos sindicalistas no anarco-sindicalismo, sendo que, portanto, nesse modelo, os sindicatos seriam uma espécie de governo.

Não me considero comunista nem socialista, visto que o objectivo destes é o fim do Estado e a criação de uma sociedade em tudo semelhante à anarquista, com a diferença de que os primeiros propõem uma mudança mediata e os últimos imediata. Penso que a mais plausível, de entre ambas, é a mediata, porque se passássemos imediatamente para a ausência de leis muitos dos mais desfavorecidos não teriam pejo em tomar de assalto as propriedades dos mais poderosos.

O que vai mal no mundo? O que vai mal em Portugal?

Ao contrário de alguns intelectuais que peroram na Internet, não sou da opinião de que Portugal seja uma pasmaceira locus de povo inculto e apático, até porque cultura e apatia são musts de qualquer sociedade humana. Na verdade, penso que esses anglicano-americanizados, sedentos de ciência e progresso progresso PROGRESSO, rejeitam, com todo o direito, a sua própria cultura, de que se envergonham, anuindo eventualmente às breves anuições que vêm de fora, relativas ao nosso pequeno e belo pedaço de terra.

Não me considero uma pessoa culta, na medida em que esqueci muito do que aprendi no liceu, desde a História (que considero fundamental) à Ciência, passando pela Matemática. Porém, penso que a educação, o facto de sermos educados desde a mais tenra idade, visa, não tanto nem apenas, criar máquinas produtoras de uma ilusão chamada progresso (exceptuando o fantástico e benéfico progresso da medicina e das áreas necessárias para o mesmo, como a tecnologia...), mas seres humanos dotados de fortes características morais - personalidade moral -, com o objectivo de minorar os conflitos que, necessariamente, surgem ao longo da vida das sociedades, entre os indivíduos.

Penso, por isso, que o maior e menos ilusório progresso que existe, o verdadeiro, é o progresso moral, porque é esse que permitirá a criação de uma sociedade mais justa, maior qualidade de vida, incremento de felicidade em cada um de nós, não obstante o sofrimento necessário associado à existência, especialmente à humana, mais que não seja pela consciência da morte e da possibilidade do sofrimento, da dor, da incapacidade, doença e fome.

Julgo que existem demasiados filósofos preocupados em fazer da filosofia uma espécie de ciência objectiva, não obstante o seu carácter não empírico, embora exista a chamada filosofia experimental, e até entendo o seu ponto de vista, na medida em que se rebelam contra aqueles que, como eu, pouco percebem de filosofia e, não como eu, dizem que a filosofia é uma área subjectiva em que cada um interpreta à sua maneira e em que não há uma mas inúmeras leituras de uma mesma frase. Talvez tenham razão, talvez. Porém, o ponto não é esse. O que me irrita profundamente nos objectivistas, vulgo analíticos, é a sua pretensão de extrema seriedade, como se tratassem dos assuntos mais importantes do mundo. Não é verdade. A maioria das vezes tratam de questiúnculas pseudo-sérias cujas respostas em nada contribuirão para o aumento da sua ou da felicidade dos outros, nem para que encontrem um qualquer sentido maior para as suas pequenas (e sérias, muito sérias) existências.

A filosofia deve ser feita com o coração. As pessoas não são máquinas argumentativas completamente racionais, e o mundo não é completamente racionalizável. Tem de existir -e há - espaço para o misticismo e para a fantasia. Naturalmente, a luta desses filósofos pseudo-sérios, que são seres bastante recalcados, é contra o misticismo e a fantasia, porque querem transformar a filosofia numa área respeitável, distinta das demais astrologias e cartomancias, próxima da Ciência. E, na verdade, a filosofia tem mais a ver com ciência do que com as referidas intrujices, na justa medida em que o filósofo é aquele que procura conhecer - como o cientista -, respostas para perguntas que tem acerca de aspectos, que desconhece, da realidade, ou para o seu todo:

Viverei para sempre? Sempre vivi? O que é a realidade? A realidade sensorial é aparente? Deus existe?

São perguntas, eventualmente, sem resposta ou, penso que mais apropriadamente, com respostas que desconhecemos, que nos transportam, naturalmente, para outras áreas que não a filosofia, como a religião, a arte, ou mesmo para atitudes, como a contemplação ou o desprezo pela nosso anterior materialismo prático e pouco pensado. Talvez a filosofia seja, infelizmente e ao contrário do que os falsos-filósofos-objectivistas querem fazer crer, um beco sem saída ou, por outro lado, uma tenaz abertura do (nosso) ser ao mundo, ao infinito, ao misticismo que os objectivistas querem matar porque são cientistas falhados (ou outras máquinas quaisquer).

Na verdade, querem tanto sobreviver intelectualmente, que rejeitam o projecto primeiro do filósofo, aquele que mais do que um mero argumentador era uma pessoa cuja praxis de vida se coadunava com uma série de pensamentos que, no passado, lhe haviam aberto a mente ao mundo, ao espaço, à distância, à noite... ao misticismo.

Querer transformar a filosofia em algo mais do que essa abertura-aventura, mística, do ser ao ser, é a busca de um milagre (no pior sentido do termo) tão repleto de fé como o da transubstanciação.