
A mulher caminhava, afinal, para dentro do vento e vinha do mar. Desolada. Cansada. Rastejava. Os braços abriam-se e fechavam-se, marcavam os tempos, trazidos pelo ufanar das asas dos anjos; não procurava, não escolhia, não via. Como se os seus braços não tivessem mãos, os seus olhos fossem cegos, o corpo não pesasse na sua marcha pelo areal, e ela fizesse um caminho irreal. O cansaço fosse uma película com que o vento cobria o corpo, mas não os braços, quais asas, cumprindo uma promessa arrastada desde o princípio dos tempos e orlada como o fio de ouro da eternidade. Numa mulher assim não se pode falar de rosto. O rosto é sem traços. É uma declaração da noite, uma aparição da treva e da esperança. Porque uma esperança bem guardada é como um céu nocturno sem estrelas. Guarda-as para a orientação própria. Uma esperança partilhada é uma impossibilidade ontológica. Só a alma individual se orienta na escuridão e no inaudível. Nessas condições, ela nada podia comunicar que fosse visível e escutável aos que se crêem não ser surdos nem mudos.
Adentrando-se na voracidade mais audível do vento, na sua expressão não só mais intensa como rápida, diríamos na sua irritação suprema, a mulher sentiu uma breve e suave comichão nas asas. Uma picada breve, mais sentida devido à ausência de penas, do que à agressividade da mesma. As suas asas acabavam de ser travadas, o seu ritmo abrandado pela presença, pela descoberta de uma estrela-do-mar. Mínima, dir-se-ia, imperceptível aos que são videntes. A estrela evidenciava algumas dessas características que os outros seres do mar e da praia revelavam: estava escondida, sobreposta, era irreconhecível. Não estava partida. Era um signo intacto.Um signo capaz de preencher a esperança desta mulher cega e sem logos.
Arquivou-a junto ao seio esquerdo. Como se acrescentasse o sentido ao som repetido pelo coração e, depois do que apareceu num rosto nocturno ser um esgar humano semelhante ao sorriso, retomou a marcha, o seu semi-voo na vasta e imponderável indefinição de mar e praia.
A razão pela qual a arquivou não é uma certeza. Ela reconheceu-a pelo toque, pelo contacto cego. Não por uma apurada inspecção, pela consulta de algum velho compêndio de papel ou mental. Arquivou-a no corpo porque o seu corpo arcaico, sobrevivente ao Éden pensado e não ao Éden criado, o seu corpo nem humano nem angélico, era o último vestígio de um pensamento de Deus, de um esboço provável para o que viria a ser a humanidade sem mal. Nesse sentido, o seu corpo seria mais antigo do que a biblioteca de Alexandria, e não guardava livros ou folhas de papel. O seu corpo guardava todos os pensamentos de Deus, antes da criação do homem, até ao homem, depois do Apocalipse. Ninguém o sabia. Nem ela.
Suavemente erguida, mas indireccionada ora pela rebentação das ondas, ora pela reverberação inquieta do vento, a mulher perdia as pequenas penas brancas da sua velhice incontável. Os que passarem na praia, depois dela tomá-las-ão, por penas de gaivotas desavindas, alvoraçadas na declaração da tempestade. Mas os que assim pensarem são apenas criaturas do mundo visível e ignorantes da convivência cósmica entre seres e entre tempo e eternidade, entre o humano e o divino.
Ora fosse por já ter perdido muitas, ora fosse por ser, inversamente aos humanos, nua, de novo a mulher foi acometida pela mesma dor na asa. Repetiu os mesmos gestos. Não por serem formas mecânicas de reacção, mas por serem intuições esperadas, preparadas por uma sabedoria em que a eternidade a educou. Desta vez, a estrela-do-mar, pequenina mas perfeita, foi deposta no seio direito. Sem certeza desta vez, como da primeira, o seu rosto inexpressivo como a noite sem luz, suspirou. O seu corpo despediu-se do cansaço. As suas asas fecharam-se, uniram-se não para a frente, como se rezando esperassem a aparição frontal de Deus, mas para trás. O vento cessou e Deus, sem mais motivo para se perpetuar irado, abraçou-a com cuidado. Naqueles cujo poder se pensa ilimitado, o abraço é sem força. É, afinal, a carícia na qual morreu todo o poder. O amor é, por isso, como suspeitámos, a carícia sem poder.
Nesse instante o seu rosto revelou-se. Os olhos sem cor tinham e davam a ver a extensão e o fundo sem fundo do mar, do seu nariz expulsavam-se as redolências do Paraíso e da sua boca entreaberta as palavras sagradas com que Adão nomeou os primeiros seres.
Deus perguntou-lhe como se sentia, que tinha guardado. Ela retirou com um zelo extremo as estrelas. Deus disse-lhe:
-Foram as primeiras que pensei.
Ela chorou para que as estrelas ganhassem a vida em que foram pensadas. Deus indagou com ternura:
- Como te sentes?
Ela respondeu:
-Bem. – Sentindo que os que esperam voltam sempre ao lugar de onde se perderam.
E Deus, assentindo, e recebendo da mão direita da mulher as duas estrelas confessou.
-Também espero, com alguma impaciência na turbulência do vento e do mar, que as outras criaturas que descobrem na sua humanidade a divindade, na arqueologia dos elementos, descubram os seres com que preenchi, sonhando, a Terra e as ideias com que organizei a alma dos homens.
E, depois sentou-se a soprar vento e enrolar ondas no mar.
Este é a asa em que escondo o grito, le crie entraîne la mère.








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