O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sábado, 14 de novembro de 2009

Imagens de Outono



Não sei. Deve ter sido no Outono, porque as folhas ferviam vermelho no ferrete do muro. Em brasa eram as horas em que descia e subia no corpo, na alma e no espírito, uma dança voraz, uma paz doce e dormente entrega, uma subida de mim à coroa, uma vontade vaga e lassa de ser triste. Coisas de mulher a quem o céu amanheceu tardio. Porque, assim, a vinha ganhou aquela cor que ao branco do muro arranha, e à alma dorida faz vibrar em mais alto tom as cordas afinadas do violino breve. O poente atravessa a ponte e eu, que nem sequer existo, sou a ponte que entra no mar afunilando a distância, como uma serpente de madeira que em deserto e ondulado rio, entra invisível no azul. Não sei onde vai dar esse caminho, mas pode a vida perder-se nesse lugar: uma Veneza de alma, funâmbula, gótica. Moribunda, a lua bate no clarão do rosto em rima e som tão ardente como a clara Aurora a nascer do passado poente.
Passamos a ponte, para o outro lado do rio. Para o rio lavado de uma moldura de árvores respirando o verde; cobrindo de sons de flauta os trigais e os roseirais floridos. Há-de rebolar-se pela encosta a redonda palavra levantada em chamas. Hão-de pisá-la as folhas que caem persistentemente; vermelhas, em vento levadas. Para que ardam de uma treva eterna os ventos, os nevoeiros e as gotas lentas, redondas e grossas, que se ouvem longe. Lá onde dormem as rãs e os olhares se viram para a beleza nostálgica de um sombrio postal em prateado rio. Aqui chegado pelo mesmo caminho e corrente de pensamento.
Outras correntes são como os livros e a Vida. Levam águas que se misturam e rios que se bifurcam de amanhecente e anoitecente rima e som e tom. A Poesia é como a beleza, mas não é a Beleza. Cristo não teria olhos azuis e Deus não tem face. A beleza tem apenas, do rosto, a rota e a ilusão da face. Os padrões são marcos de pedra e colunas de nada. Não é a poesia medida de clara fonte, nem o é o murmúrio fundo e cavernoso, já que a Poesia, como a Beleza não têm padrão. Não podemos acorrentá-la a um padrão, pois que o não há para a extrema beleza de uma sombra no muro, onde há feixes de luz futuros e passados. Tudo a acontecer. Tudo a mostrar-se! E a poesia crepuscular é como a outonal beleza de uma baga dourada na sombra do muro; um céu abísmico de nuvens pretas e uma árvore nua de ramos duros e doridos na paisagem da tarde que se afunda em poente renascente e belo. Nascemos e morremos em nós, onde mora a poesia e nos visita Deus, ou a sombra dele, a sua assombração. A poesia é a linguagem do ser. Provavelmente tinha razão, Heidegger!
Não sei, devia de ter sido no Outono que esta vaga saudade se me nasceu alto som, e me morre, em silente dança: uma queda nascente de uma remanescente e antiquíssima Origem e fonte. Um levantado sonho, alumiando a morte, como Pascoaes prevê que seja a Vida que se esqueceu de regressar. Não sei. Não devo querer saber! Sei que a vide atou ao pescoço do limoeiro, aquela fita em fogo! Outras correntes... são como asas... fazem um som uníssono quando voam juntas e súbitas; cortam como lâminas o céu nublado da manhã.