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domingo, 10 de maio de 2009
Um traço - Continuidade textual e fulgurações
(Para a Luiza, o Paulo, a Isabel, Lapdrey, José António Lozano e para todos os serpentíneos, em fim de tarde de "llansolianos" maios)
_______________A música é uma maneira de estar à escuta sobre a superfície sonora do papel. O que se eleva é uma partitura lançada sobre a montanha dos nomes do passado. Cada rosa é um canal de uma Veneza esquecida; cada nome é um segredo no sustenido da hora. Amplificar a hora poderia ser esta visão de um texto suspenso no ar, um texto como um agasalho para a nudez do pintor. Nos olhos da bailarina havia um fio que se prolongava até ao rio. Esse rio era frio. A música era um piano a escorregar da nota; a palavra a cair na pauta de um canto em Parasceve. Como um bosque o teu sorriso tinha a cor do espaço edénico de um fim que não tinha início em nenhum tempo preciso. E contudo do teu pescoço alto e dos teus olhos a fogo pintados na paisagem da ausência saia uma luz que se assemelhava às folhas em branco dos cadernos do fim da tarde. A imagem de uma girafa a arder. Isabel passeava pelo jardim com um ramo de palmeira nas mãos. Esperava a Primavera no desejo da luz que trazia nos lábios. Num espaço que não era deste mundo e se desvanecia no pó de milhares de estrelas, a cantora leitora derramava-se na beleza do azul. O mar e a montanha chamavam Camus e Vergílio para o deserto e para a montanha da geografia do texto. Je fixe mon attention sur ce feuillage, et sur les cheveux bien fournis qui sous la lumière... E o homem debruçado sobre o piano tinha os dedos-pássaros poisados no indimensionado piano do tempo. Havia um céu que descia para os pés do homem. As asas estavam escondidas, cobertas pelos ramagens das árvores. O homem pronunciava um som que era como a chuva a cair no sino da aldeia onde se perdeu a mágica partitura de uma palavra transparente. Uma gota a bater na tarde do sino. Je me transforme en (...) musiquante e ofereço um segredo aos amantes sem voz. Eu sou um traço. Não de silêncio, mas a continuidade de uma abertura ao espaço da epiderme das rosas. Ao espaço da minha pele, à libido da minha intocada sede. O espaço de uma palavra viva. A escrita que se abre como um rosto aceso nos olhos da escrita viva. A intensidade de um jardim fulgurante, vivido.
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