O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 17 de janeiro de 2009

Perguntas a Pablo Neruda no centenário de seu nascimento

“Quando se dita debaixo da terra
a designação da rosa?”
Pablo Neruda, Libro de las Preguntas

Janeiro é um pedaço de brasa extraviada
que inaugura o ciclo da água?


É verdade que os ingleses não saltam?
Os presidentes estão isentos de subir nos colectivos?

Por que às vezes quando dói a alma ri a poesia?
Por que não tem emprego se sobra o trabalho?

Um operário da Ford
vale menos que um carro?

O pedreiro que ergue maravilhas vive numa casa
sem reboco? Tem janela para ver o vizinho?

É que os varredores leva a terra do centro
das cidades para que reviva nas ourelas?

Tem essa mulher um homem em seu braço
ou uma carteira?

Quem se anima a jurar que o Chê é morto?
E por certo, querido Pablo, Miguel e Frederico?

Dobram os sinos?

Vale mais um homem ou a palavra?
Ou um homem de palavra?

Desmancha de rir o menino com chocalho
Ou é o chocalho que solta gargalhadas da justiça?

É que quem vai embora tinha pátria
ou a pátria é virtude em vias de extinção?

Sabe a história se alguma vez, o mundo,
respirou livre de impérios e traidores?

É a lua o jasmim mais próximo do abraço?

Terminará no cárcere também o silêncio cúmplice?

É que há muitos gatos ou os pássaros não morrem?

Desprendeu-se um retalho constelado
ou um menino traçou seu mapa da noite com um dedo?

Que aconteceria se nos hospitais
se deixasse de administrar amor em generosas doses?

Quando entenderá o homem que a mulher leva

a gota de sumo do mundo nos seus lábios?


Regressei um navio?

Por que os ministérios da Economia
são mais importantes que os ministérios da Cultura?

Onde se acabam as perguntam? Então calo, na boca?

Por que a poesia, Neftalí Reyes, companheiro,
entre os escombros como uma rosa indomável?

Poema de Gabriel Impaglione

Tradução de António Miranda

Pôr-do-sol





Praia de Carcavelos

Homens de Mármore

Sonho com claustros de mármore

onde em silêncio divino

repousam heróis, de pé.

De noite, aos fulgores da alma,

falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

Por entre as filas; as mãos

de pedra lhes beijo; entreabrem

os olhos de pedra; movem

os lábios de pedra; tremem

as barbas de pedra; choram;

vibra a espada na bainha!

Calada lhes beijo as mãos.


Falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

por entre as filas; choroso

me abraço a um mármore. — “Ó mármore,

dizem que bebem teus filhos

o próprio sangue nas taças

envenenadas dos déspotas!

Que falam a língua torpe

dos libertinos! Que comem

reunidos o pão do opróbrio

na mesa tinta de sangue!

Que gastam em parolagem

as últimas fibras! Dizem,

ó mármore adormecido,

que tua raça está morta!”


Atira-me à terra súbito,

esse herói que abraço; agarra-me

o pescoço; varre a terra

com meus cabelos; levanta

o braço; fulge-lhe o braço

semelhante a um sol; ressoa

a pedra; buscam a cinta

as mãos diáfanas; da peanha

saltam os homens de mármore!



poema de José Martí (1853–1895)-poeta cubano

Tradução portuguesa de Henriqueta Lisboa

L'AMOUREUSE

Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien a dire.


Paul Eluard, in Capitale de la douleur, Poésie/ Gallimard, 1966.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A Face Oculta dos Progressos Técnicos

Os progressos técnicos, que toda a gente está confundindo cada vez mais com progresso humano, vão criar cada vez mais também um suplemento de ócio que, excelente em si próprio, porque nos aproxima exactamente daquele contemplar dos lírios e das aves que deve ser nosso ideal, vai criar, olhado à nossa escala, uma força de ataque e de triunfo; mais gente vai ter cada vez mais tempo para ouvir rádio e para ir ao cinema, para frequentar museus, para ler revistas ou para discutir política, e sem que preparo algum lhe possa ter sido dado para utilizar tais meios de cultura: a consequência vai ser a de que a qualidade do que for fornecido vai descer cada vez mais e a de que tudo o que não for compreendido será destruído; raros novos beneditinos salvarão da pilhagem geral a sempre reduzida antologia que em tais coisas é possível salvar-se.
O choque mais violento vai dar-se exactamente, como era natural, nos países em que existir uma liberdade maior; nos outros, as formas autoritárias de regime de certo modo poderão canalizar mais facilmente a Humanidade para a utilização desse ócio; sucederá, porém, o seguinte: nos países não-livres, porque nenhum há livre, mas enfim mais livres, algumas consciências se erguerão dos destroços e pacientemente, com todas as modificações que houver a fazer, converterão o bárbaro ao antigo e sempre eterno ideal de «vida conversável»; nos outros, a não sobrevir uma revolução causada pelo tédio ou pelo próprio desabar da outra metade do mundo, o trabalho será mais difícil porque se terá de arrancar os homens, no seu conjunto, à ideia de que o que vale é a segurança material, o conforto técnico e, se for possível, nenhum rumor de pensamento dialogado.
Esta não já invasão mas explosão de bárbaros terminará a nossa Idade Média, aquela que veio ininterruptamente, só superficialmente mudando de aspecto, desde o século III ou IV até nossos dias, e que se caracterizará talvez pelo esforço de fazer regressar o homem de uma vida social a uma vida natural.


Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
Fonte: Citador

Às vezes

fotografia "Retorno-I" by Fernando Figueiredo in www.olhares.com/fernandofigueiredo

para a susana

às vezes
estou num ponto da casa,
e sei, e sinto,
que tu estás algures
noutro ponto
da mesma casa.

e sinto, e penso:
demos mais um passo
para a vida eterna.
cada um de nós deu mais
um passo
em direcção à sua morte.

e perdemos mais este momento
em que podíamos ter falado,
ou entretecido bocas
e olhares.

tomámos, em diferentes
sítios da casa,
diferentes caminhos;
iniciámos trajectos
discordantes
em direcção ao nosso
desaparecimento
na noite do espaço/tempo.

quando nos despedirmos,
que diremos?
até onde, até quando?

será possível termos
partilhado tanto,
e partir assim sem aviso,
como se nos tivesse sido roubada
toda a história anterior?

por isso, peço:
quando estiveres para morrer
noutro ponto da casa,
por favor diz primeiro.

combina comigo,
para eu ir morrer lá também.



Vítor Oliveira Jorge
Pequeno Livro de Aforismos
Seguido de Algumas Alumiações
Porto, 2005

Apontamento

Os jardins parecem abandonados. A infância também. No palácio, as estátuas reflectem, como espelhos, algo que não deixam partir. Prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. As salas estão arrefecidas e nada é real. O belo não existe, como bem sabia Kant. Inexiste. As salas e os jardins do palácio são belos. Mas quando ela se pergunta se o arrefecimento vem do clima, logo percebe que vem do que parece que finda.
A Ideia é ainda, para o humano, o que vem do que está fora do tempo, mas o visita. A Ideia não vem até ela, é ela que vai ao palácio, e o palácio, pensa, é uma obra que a invade de melancolia. A Ideia, no palácio, petrifica-a. Para ela, o palácio continua, como na infância, um lugar velho, um antiquíssimo lugar de reconhecimento. Continua velho, como na infância, continua com ela um continuum de mútuo envelhecimento. Agora ela sabe que a obra de arte não pode ser conhecida porque é um ethos de recolhimento e acolhimento. Na obra de arte, a Ideia é uma visão de reconhecimento e, na ruína da obra, a Ideia resgata-a para a Origem. É por isso que as ruínas brilham mesmo quando arrefecidas. A Ideia paira sobre elas como uma poeira de luz, como um vulto ou manto oculto vagando por entre as portas, no entreaberto, na altura dos tectos, nas sombras ou nas cores consumidas, nas colunas, nas volutas carcomidas. Sente-a em permanente vertigem pelo tempo. Pensa na Capela Sistina e experimenta a mesma sensação, Deus recua nos interiores da pintura de Miguel Ângelo, como recua em silêncio no Antigo Testamento, na obra de arte a Ideia recua. A Ideia de Beleza recua até à ruína…
É esse recuo que gera, no contemplativo, a obediência. É preciso ficar onde uma Ideia não parte mesmo quando se afasta. Assim é com ela, ela prefere obedecer à beleza que a transcende do que à lógica que domina. Assim, presa à Beleza, sente, o belo é belo. Fala para B. mas não consegue partilhar esse sentimento invasivo do Belo. Pensa ainda, antes do coro entrar, que sabe ela do sono? Sabe que o sono é sono. E se lhe sorri, a B., é porque passa à sua frente, como um vulto ou um manto que se quer oculto para sempre, a Ideia. Dela recebe uma bênção. E essa sabe-a, ou melhor consegue dizê-la, a bênção que vem da Beleza é a tristeza. Percebe, antes da música, por que razão consegue o melancólico a visão da Beleza. Há nele e nela um júbilo que talvez venha, Paulo e Lapdrey, da divina mania, talvez o divino ou a Ideia só se ofereça como um dom, porque, lembra-se de ter ouvido ou lido, não sabe a quem nem quando, Deus dá aos que estão em sono profundo e não tanto aos que estão em vigilância permanente. A Beleza abre ao que está vivo e com sono uma morada no sonho, promete um movimento interior ao olhar para o lugar onde dança a imagem pairante, como a pureza promete ao arrependido um lugar à direita do Pai. O melancólico adormece e envelhece, por isso, escutando e vendo a dança segundo a música do tempo. Acompanha com o olhar os coros que cantam, os coros que a dançam. O melancólico é como Janus, o dos dois rostos, é com o olhar elanguescido e adormecido pela música do tempo, o que está voltado para os que vivendo, na roda da vida, conhecem o prazer, a riqueza, a pobreza e a vitória e é, com o olhar rejuvenescido, o que olha para trás, para a Origem. Os homens melancólicos são como as estátuas, reflectem como os espelhos algo que não deixam partir, prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. Os homens melancólicos não perdem dentro de si a infância. Ela é, dentro deles, o Diónisos que o tempo sacrifica, mas o seu outro rosto voltado para trás, glorifica.



Escutando musicalmente Diónisos, o coro, os melancólicos esperam a apresentação da Ideia. Apolo visita-os nessa escuta adormecida. Só a escuta prepara a visão, como só o discurso não escrito treina a memória – como sabia Platão – para o reconhecimento da Ideia. E assim, sonham, que os humanos se reconhecerão filhos dos deuses: escutando a música dos coros que, transformando a dor em alegria, nos mostram a vida como festa da agonia. Os melancólicos esperam o trágico. Porque na música, a Ideia, ressurgindo num movimento do corcel dominado pela Ordem e pelo Ritmo – por Apolo – recua para dentro do homem. No corpo arrefecido, no corpo adormecido e no corpo ferido de mortalidade, a dança segundo a música do tempo, prende com a atenção o que da Ideia perpassa e de nós se afasta. O homem sonha esse outro que dentro de si, velho, é para sempre criança, a recriança. É na ruína que a Origem se anuncia e recria. É na infância que a voz é una com o todo.

Este breve apontamento sobre melancolia, Beleza e música nasceu por causa do poema de Platero que musicalmente escutei no palácio, o lugar onde a minha alma em criança se deu conta da sua melancolia e no domingo, recriando os movimentos do tempo, foi recriança. Grande e grande é a Beleza do poema e da oliveira. Puro o óleo que nos unge de inocência e lembrança.

Curso de Literatura Portuguesa na Galeria Matos Ferreira

MATOSFERREIRA - GALERIA DE ARTE

BAIRRO ALTO - Rua Luz Soriano, 18 / 1200 - 247 LISBOA * Tlf: 213 230 011 Tlm: 962 953 722

CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA

Por DUARTE DRUMOND BRAGA

21 de Janeiro a 11 de Março / 2009

A GALERIA MATOS FERREIRA vai promover em parceria com a ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA um interessante Curso sobre Literatura Portuguesa.

OBJECTIVO
O objectivo do Curso é fornecer um panorama da literatura portuguesa da geração de 70 até ao modernismo, um dos períodos mais ricos da nossa tradição literária.

O curso dividir-se-á em dois blocos, o primeiro dos quais respeitante ao período que vai de 1865 até às correntes finisseculares, e o segundo relativo ao modernismo, sendo que a primeira aula de cada bloco será sempre dedicada à necessária contextualização histórico-cultural.

PROGRAMA
I. Da Geração de 70 até às correntes do fim-de-século:
A geração de 70 e os caminhos do Fim-de-Século;
António Nobre: memória individual e memória nacional;
Cesário Verde: a transformação poética do mundo;
Os Pobres de Raul Brandão: a ficção no fim-de-século.

II. O Modernismo Português
O modernismo em Portugal e a modernidade estética;
Poesia de Teixeira de Pascoaes: panteísmo e saudade;
Introdução a Fernando Pessoa;
Alberto Caeiro: ignorância e revelação.

HORÁRIO, INSCRIÇÕES E PREÇO
As aulas serão realizadas em período pós-laboral às quartas-feiras, de 21 de Janeiro a 11 de Março, inclusivé, ou seja nos dias 21, 28, de Janeiro, dias 4, 11, 18 e 25 de Fevereiro e ainda nos dias 4 e 11 de Março, das 19h00 às 20h30.

O Curso tem um limite máximo de 20 (vinte) participantes. O seu preço é de EUR 70,00 (setenta euros), podendo ser pagos em duas prestações de EUR 35,00 cada, devendo a primeira ser paga até 28 de Janeiro e a segunda até 25 de Fevereiro. Inclui material de apoio e confere ainda o direito a certificado de participação.

Os interessados podem-se inscrever através do Tel 21 323 00 11, do Tlm 96 295 37 22, do Email: mfgaleria@netcabo.pt. Em qualquer das opções deverão indicar sempre o número de telemóvel para eventual contacto.

PERFIL DO FORMADOR
DUARTE DRUMOND BRAGA é licenciado em Estudos Portugueses pela FLUL - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prepara uma dissertação de mestrado em Estudos Comparatistas sobre literatura portuguesa do fim-de-século.
DUARTE BRAGA leccionou já também cursos sobre cultura e literatura portuguesa dos séculos XIX e XX. Tem publicado alguns trabalhos científicos sobre literatura, cultura e pensamento português, dentro dos quais se destaca a co-organização, com Paulo Borges, do volume "O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa". Pertence à direcção da ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA.

As Fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I, 1944

Casa Cheia

Começou por ser uma casa vazia. Portas e janelas sempre abertas. Chão e paredes de pedra. Tectos transparentes. Também a sua localização era importante. Não era uma casa fixa, circulava, ora rodeada de floresta, ora de nuvens, ora de estrelas. Era uma boa casa. Dormia no chão e nem sentia o frio da pedra. Era feliz. Amigos vinham e iam, como aves de arribação. Abraços, risos, conversas, algumas lágrimas. Era a melhor casa do mundo.

Até que um dia vieram aqueles que não partiram mais.

Começaram por pôr trancas nas portas e janelas e começaram a trazer coisas para dentro de casa. Depois, fixaram-na ao chão, com cabos de aço, para facilitarem a tarefa de acumulação e enchimento. Cobriram os tectos com placa sólida. Trouxeram raiva, amargura, frustração. E coisas, muitas coisas. Coisas sólidas, que ocupam tudo, de todos os tamanhos, côres e texturas, coisas grandes e coisas pequenas, bicudas e redondas, com e sem arestas, de formatos simples ou complexos. A paisagem desapareceu e a casa começou a encher-se do pó dos que não partiam e do envelhecer das coisas. Já nem havia espaço para as aves de arribação, que com tristeza, ainda pousavam nos beirais, de vez em quando, até que um dia deixaram de vir. A casa ficou cheia, muito cheia, e escura e triste. E a alma que vivia lá dentro, deixou de conseguir respirar e morreu, sem espaço e sem luz.

~

Gosto muito deste blog e dos seus membros e pedi ao Paulo Borges para participar. Espero contribuir de forma digna.
Um abraço a todos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Haiku

Nuas por fora
prenhes de verde por dentro
as árvores esperam.


David Rodrigues
Estações Sentidas. 111 Haiku, 2007
Indícios de Oiro, Edições, Lda


como nos diz o próprio poeta "Talvez a grande sedução do haiku seja o seu carácter conciso. Ainda que sem uma fórmula rígida, espera-se que o haiku tenha aproximadamente cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e, de novo, cinco no terceiro" (Rodrigues 2007, cit. in Estações Sentidas. 111 Haiku, p. 9)

ainda no dizer do poeta "hacaísta" brasileiro Paulo Franchetti "Haikai não é a síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras. É antes a arte de, com o mínimo, obter o suficiente"

Segundo Gonçalo M. Tavares "Se pensarmos com a fita métrica na cabeça diremos que há pouco para ler, no entanto a leitura de um Haiku É muito mais lenta do que o normal. Ler um Haiku é, de certa maneira, voltar de novo à experiência de aprender a ler, de ler como uma criança -letra a letra - como se a visão fosse menos ver do que tocar" (cit. in prefácio Estações Sentidas. 111 Haiku, 2007)

O universo como um holograma



A realidade objectiva existe, ou será o universo é fantasmático?
Eis parte dum artigo que pode ajudar-nos, ao menos, a pensar nisso.


"Em 1982 ocorreu um facto muito importante. Na Universidade de Paris uma equipa de investigação chefiada pelo físico Alain Aspect realizou o que pode tornar-se a mais importante experiência do século XX. Não se ouviu falar disso no noticiário da noite. De facto, a menos que se tenha o hábito de ler jornais e revistas científicos, o mais provável é nunca se ter ouvido falar no nome de Aspect.
Todavia muitos são os que pensam que o que ele descobriu pode mudar a face da ciência.
Aspect e a sua equipa descobriram que, sob certas circunstâncias, partículas sub-atómicas como os electrões são capazes de comunicar-se instantaneamente umas com as outras, não obstante a distância que as separe. Não importa se estão a um distância de 10 metros ou de 10 bilhões de quilómetros. De alguma forma uma partícula sabe sempre o que a outra está a fazer. O problema com esta descoberta é que isto viola a há por muita sustentada afirmação de Einstein de que nenhuma comunicação pode viajar mais rápido que a velocidade da luz. E como viajar mais rápido que a velocidade da luz é o objectivo máximo para quebrar a barreira do tempo, este facto perturbador tem feito com que muitos físicos tentem vir com formas elaboradas para rejeitarem as descobertas de Aspect.
Mas também tem proporcionado que outros procurem explicações mais radicais.
O físico da Universidade de Londres, David Bohm, por exemplo, acredita que as descobertas de Aspect implicam que a realidade objectiva não existe como tal, e que, a despeito da aparente solidez, o universo está no seio de um holograma fantástico, gigantesco e extremamente detalhado. Para entender porque Bohm faz tal afirmativa surpreendente, temos primeiro que saber um pouco sobre hologramas.
Um holograma é uma fotografia tridimensional feita com a ajuda de um laser. Para fazer um holograma, o objecto a ser fotografado é primeiro banhado com a luz de um raio laser. Então um segundo raio laser é colocado fora da luz reflectida do primeiro e o padrão resultante de interferência (a área aonde se combinam estes dois raios laser) é capturada no filme. Quando o filme é revelado, parece um redemoinho de luzes e linhas escuras. Mas logo que este filme é iluminado por um terceiro raio laser, aparece a imagem tridimensional do objecto original.
A tridimensionalidade destas imagens não é a única característica importante dos hologramas. Se o holograma de uma rosa é cortado ao meio, e em seguida iluminado por um laser, será ainda encontrada em cada metade uma imagem da rosa inteira. E mesmo que seja novamente dividida cada parte do filme sempre apresentará uma menor, mas ainda intacta versão da imagem original. Ao contrária das fotografias normais, cada parte de um holograma contém toda a informação possuída pelo todo.
A natureza de "todo em cada parte" de um holograma proporciona-nos uma maneira inteiramente nova de entender organização e ordem. Durante a maior parte da sua história, a ciência ocidental tem trabalhado dentro do pressuposto de que a melhor maneira para entender um fenómeno físico, seja ele um sapo ou um átomo, é dissecá-lo e estudar as partes que o constituem.
Um holograma ensina-nos que muitas coisas no universo não podem ser entendidas com tal abordagem. Se tentarmos tomar alguma coisa à parte, de alguma coisa construída holograficamente, não obteremos as peças da qual tal coisa é feita, obteremos apenas inteiros menores.
Este ponto de vista é o sugerido por Bohm como outra forma de compreender os aspectos da descoberta de Aspect. Bohm acredita que a razão que permite as sub- partículas de permanecerem em contacto umas com as outras, a despeito da distância que as separe, não é porque elas estejam a enviar algum tipo de sinal misterioso, mas porque tal separação é uma ilusão.
Argumenta ele que, num nível mais profundo de realidade, estas partículas não são entidades individuais, mas extensões da mesma coisa fundamental. Para permitir visualizarmos melhor o que ele quer dizer, Bohm ilustra-o da maneira seguinte.
Imagine-se um aquário que contém um peixe. Imagine-se também que não se consegue ver o aquário directamente e que o nosso conhecimento do aquário se dá através de duas câmaras de televisão, uma dirigida ao lado da frente e a outra à parte lateral.
Quando se observa atentamente os dois monitores, acaba-se presumindo que o peixe de cada uma das telas é uma entidade separada. Isto porque, como as câmaras foram colocadas em ângulos diferentes, cada uma das imagens será também ligeiramente diferente. Mas se continuarmos a olhar para os dois peixes, acabamos por adquirir a consciência de que há uma relação entre eles.
Quando um se vira, o outro faz uma volta correspondente apenas ligeiramente diferente; quando um se coloca de frente para a frente, o outro coloca-se de frente para o lado. Se não soubermos dos ângulos em que estão colocadas as câmaras, podemos ser levados a concluir que os peixes estão a intercomunicar-se, apesar de esse não ser claramente o caso.
Isto, diz Bohm, é precisamente o que acontece com as partículas sub-atómicas na experiência de Aspect. Segundo Bohm, a aparente ligação mais-rápido-do-que-a-luz entre as partículas sub-atómicas está a dizer-nos que de facto existe um nível de realidade mais profundo da qual não estamos privados, uma dimensão mais complexa além da nossa própria que é análoga à do aquário. E, acrescenta ele, vemos objectos como tais partículas sub-atómicas como se estivessem separadas umas das outras porque estamos vendo apenas uma parte da realidade delas.
Estas partículas não são partes separadas, mas sim facetas de uma unidade mais profunda e mais subliminar que é holográfica e indivisível como a rosa atrás referida. E como tudo na realidade física está compreendido dentro destes "eidolons", o próprio universo é uma projecção, um holograma.
A esta natureza fantástica acresce que tal universo possuiria outras características surpreendentes. Se a aparente separação das partículas sub-atómicas é uma ilusão, isso significa que, num nível mais profundo de realidade, todas as coisas do universo estão infinitamente interconectadas.
Os electrões num átomo de carbono no cérebro humano estão interconectados com as partículas sub-atómicas que compreendem cada salmão que nada, cada coração que bate, e cada estrela que brilha no céu.
Tudo interpenetra tudo e embora a natureza humana possa procurar categorizar como um pombal e subdividir os vários fenómenos do universo, toda a partição é de fato necessariamente artificial e tudo na natureza se mostra finalmente uma rede descosida.
Num universo holográfico, nem o tempo e o espaço podem já ser vistos como fundamentais. Porque conceitos como localização colapsam diante de um universo em que nada está verdadeiramente separado de nada, tempo e espaço tridimensional, como as imagens dos peixes nos monitores também podem ser vistos como projecções de uma ordem mais profunda.
Este tipo de realidade a nível mais profundo é um tipo de super-holograma no qual o passado, o presente, e o futuro existem simultaneamente. Isto sugere que, tendo as ferramentas apropriadas, um dia poderá ser possível entrar dentro deste nível de realidade super-holográfica e trazer cenas do passado há muito esquecido. Seja o que for que o super-holograma contenha, ele é ainda uma questão em aberto. Pode-se até admitir, por mera suposição, que o super-holograma é a matriz que deu origem a tudo no nosso universo e que, no mínimo, ele contém cada partícula sub-atómica que existe ou existirá. Cada configuração da matéria e energia que é possível - de flocos de neve a quasars, de baleias azuis aos raios gama - deve ser visto como um tipo de "depósito" de ''Tudo que é".
Embora Bohm admita que não há maneira de saber o que mais pode estar oculto no super-holograma, ele arrisca em dizer que não temos qualquer razão para admitir que ele não contenha mais. Ou - como ele coloca a questão - talvez o nível super-holográfico da realidade seja um simples estágio além do qual repousa 'uma infinidade de desenvolvimento posterior'."

Fonte: http://www.keelynet.com/biology/reality.htm

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A propósito do anonimato e assinatura como Anónimo no universo dos blogues

A propósito de anonimato e da assinatura como Anónimo no universo dos blogues, reputo de lucidamente incisivo o texto de Abel Barros Teixeira, que aqui cito, com indicação da respectiva fonte.


"Anóninos Anónimos",
por Abel Barros Baptista

"Há dias calhou que eu deixasse na «caixa de comentários» dum blogue umas frases destratando o respectivo autor. Assinei «anónimo». O sujeito abespinhou-se, e uma das coisas que logo lhe saiu foi a acusação de cobardia: que se eu fosse homem, hein? e valente, hein? não me escondia no anonimato. Estive a pique de retrucar que, fosse eu homem, e valente, hein! estaria no mar, a enfrentar a natureza a bordo dum veleiro frágil, em vez de ler blogues, demais o dele, que não presta para nada. Mas o assunto esgotara-se, ou melhor, esgotara-se o prazer, o da malandrice, que deve ser acarinhado sem apelo à temperança.
Depressa percebi que os anónimos, maltratados há muito tempo, ganhavam em constituir um grupo de auto-ajuda. Os blogues com caixas de comentários, creio eu que só asseguram a possibilidade do anonimato para os agredirem com o argumento fácil da acusação de cobardia. Fácil porque é verosímil a suposição de que o anonimato esconde. Acontece que um comentário assinado «Anónimo» mostra mais do que esconde. Por exemplo: mostra que o comentador não quer que saibam quem escreveu aquilo; ou, por pudor, não quer que saibam que lê aquele blogue; ou ainda que renuncia a assinar o comentário. São coisas distintas, e alinho-as na ordem crescente de dignidade. Quem renuncia a assinar, é indisputável que o pode fazer por generosidade, no caso em que não reivindica vantagens de uma frase particularmente inteligente ou lúcida; ou por sentido crítico, tendo compreendido que a pertinência do que escreve não se decide pela presença do nome; ou ainda por sentido autocrítico, no caso em que sabe que nada do que escreveu é lúcido, ou elegante, ou sequer necessário. Porque escreveu, então? Decerto para satisfazer alguma inclinação, que devemos aceitar, ainda quando perversa, ou algum impulso, que devemos abster-nos de condenar: não se negue nem reprima o prazer proveniente do escárnio.
Pergunto-me, de resto, se o mal do anonimato não estará antes em certo vício dos que se assinam em ordem e exuberantemente. Há pessoas convencidas de que a aleivosia dita em voz alta — «com toda a frontalidade»… — ganha só por isso certo mérito. Daí ao passo seguinte, o sofisma: a aleivosia assinada teria mais mérito do que a anónima, que não teria nenhum. Escapa-me a razão. Mas o problema não é moral. Reparem: um sujeito faz imprimir em papel um artigo ou ainda um livro inteiro e arrisca-se a que, à mesma hora, outro sujeito lhe chame imbecil em Braga enquanto um terceiro, em Lagoa, lhe decora as frases em estado de adoração. Quem vai saber de um e outro? Anónimos, indeterminados, dizem o que lhes apetece, para si próprios ou para quem estiver a ouvi-los: chama-se a isso crítica doméstica. Os comentários no blogue quase trazem para dentro de casa a crítica doméstica, como que impelidos pela etimologia. A coisa roça a promiscuidade, e daí que o anónimo em parte atenue mas sobretudo represente a indeterminação: já é bom saber que alguém leu; melhor ainda que deixou rasto; mas o anonimato mostra, evidencia, testemunha – tudo em vez de encobrir – a indeterminação dos sujeitos da crítica doméstica. Situação análoga, para os escritores juramentados, seria ouvirem vozes sem verem os corpos que as proferem: «idiota», «cretino», «despautério», mas também «magnífico», «hilariante», etc. Bela cena, hein?
O anonimato é útil; mais: é desejável; aliás, é inevitável. Princípio regulador, testa os mais capazes pela exposição a juízos gratuitos, afirmações infundadas, sarcasmos ofensivos, e por aí fora. Uns clamam por discussão séria… A desfortuna é que há ocasiões apenas adequadas a lembrar a precariedade do que se diz, a vaidade inerente à publicação, o esquecimento ali à espreita, ocasiões como que causadas por alguma força superior, força anónima, justamente. Sempre que alguém barafustar que o anonimato não vai com a discussão séria, decidamos logo que é tolo ou puritano, e apenas ao segundo valeria explicar que há outras coisas na escrita ou na dita blogosfera além da discussão séria. Mas não se espere do puritano que sequer perceba que essa perturbação da fronteira entre a crítica impressa e a doméstica, afinal aquilo que lhe permite exprimir-se livre e imediatamente, dá aos outros, os indeterminados, a possibilidade e o prazer, logo, a legitimidade de o considerar irrisório e de lhe bater à porta para lhe dizer isso mesmo.”

Fonte: http://ler.blogs.sapo.pt/250626.html
Postado em: Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Crónica publicada na LER nº75.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Adivinhem a quem dedico este outro Divesco instante

Tentação das Almas Condenadas


Senhor, se o cálice é para mim, se é para ser bebido, que o tornes amargo e insuportável aos sentidos, assim me lembrarás o que sou. Torna-o, pois, Senhor, de vagaroso beber, para que não precises de recordar-me tantas vezes o quão imperfeito sou. Se o cálice é para ser por mim bebido, deixa-me deitar-lhe fogo, assim me lembrarei de mais alguns males que tenha provocado. Se o Cálice, Senhor, está vazio (o que duvido), deixa-me enchê-lo de beijos, assim verás como o engano é doce, e a Serpente astuta. Se não é para ser bebido o que o cálice contém, para que me enganas com o oferecer-mo?



Se o Cálice é Silêncio, oculto até no seu revelar, porque o procuramos sem cessar, para o fazer calar...Aqui é Silêncio porque simplesmente não sei a resposta. Nem a poderia saber, sob o risco do cálice não ser o Cálice.

Cinema Paraíso

À Anita, à Saudades, à Isabel Santiago, ao Paulo Borges, ao Paulo Feitais, ao Platero e à Luiza Dunas. E às imagens de Tamborim e de Soantes.

Se tiver de haver um motivo para esta dedicatória... que seja porque vocês são muitas vezes o 'meu' Cinema Paraíso, com as vossas palavras e imagens. Não sendo do tempo do verdadeiro Cinema Paraíso... Este é o que tenho e me faz sonhar.
A todos, OBRIGADA* Espero que gostem





Era uma vez um rasgo de magia
Dança de sombra e de luz
De sonho e fantasia
Num ritual que me seduz
Cinema que me dás tanta alegria

Deixa a música crescer nesta cadência
Na tela do meu coração
Voltar a ser criança
E assim esquecer a solidão
Os olhos a brilhar numa sala escura

Voa a 24 imagens por segundo
Meu comovido coração
Aprendeu a voar
Neste Cinema Paraíso
E eu trago no olhar
E também no sorriso


Dulce Pontes & Ennio Morricone

Quando a luz se apaga




Quando a luz se apaga os nossos cabelos não esvoaçam ao vento.

E eu vejo crescer uma luzinha,
vejo uma dor sem fim,
loucura a minha!
de querer que fique junto a mim.

a última vez/valter hugo mãe

organizei uma festa para a qual
convidei apenas os meus
amigos suicidas. fazemos tudo como
se fosse a última vez

queres vir ao meu inferno

gostava de te mostrar as pequenas
cabeças falantes guardadas nos lugares mais
escuros da minha casa. gostava que
ouvisses o que dizem

os mortos, encostados às paredes e com
problemas de equilíbrio, disciplinam-se
lentamente. vês a minha casa

vou buscar o meu coração. guardei-o aqui
algures e, por ti, tenho a certeza, vale a
pena voltar a encontrá-lo e correr todos os
riscos de novo

cuidado com o cão, não morde, mas é
pesado e pode tirar-te o fôlego com as
patas no peito e depois vou querer
beijar-te

achas que podes não morrer antes

há champanhe e bolo de chocolate


Valter Hugo Mãe

folclore íntimo
Cosmorama Edições

Isso de mim que anseia despedida

Para a Adama, saudosa das suas fotos

"Isso de mim que anseia despedida
(para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro"

- Hilda Hilst, Cantares, São Paulo, Globo, 2005, p.19.

Diva

O anjo do Ocidente


“No topázio mais triste da minha clarividência, apareceu-me o anjo do Ocidente. Tropeçava de sombra em sombra e a espada com que guardava os jardins com buxos de livros da Europa despedaçara-se em números que espavoridos fugiam uns dos outros. Um horizonte de canções blindadas cantava a parábola das cidades brancas cobertas por noites laboriosas de formigas. As estátuas cambaleavam no alto de temerosos pensamentos. As catedrais eram levadas por um vento de elevadores endemoninhados. Mulheres a arder em revistas ilustradas faziam strip-tease para latas de conserva boquiabertas. E a Europa fugia para trás. Fugia parada na louca pulsação do seu movimento estático. E a Europa era a triste viuvinha no meio de uma roda de crianças que matavam índios num filme americano.
Desatei então a correr para o sítio onde se chora. O sítio onde se chora é na penumbra pensativa. No quarto de estalactites da alma onde se fazem poemas. Mas notei que no meu pranto faltava uma lágrima e essa lágrima era Portugal. Percebi finalmente que Portugal era eu a chorar trevos de cinza pela Europa.”

Natália Correia, “O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro”, in “Poesia Completa”, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, 2ª edição, pág.361.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Frio

O frio percorre-me o corpo e penetra na alma.

Recolho-me como pássaro sem asas, onda sem espuma, ou vento sem aroma.
Queria ser do mundo e de ninguém.

Apenas liberdade pura, espaço sem espaço, tempo sem tempo, ser sem ser... amplitude e essência, silêncio e comunicação.

Até lá... naufraga em memória, refém em ti, anjo que se queda e não sorri.

cl'amor Saudade

A Saudade é a chama
o chamamento, O Silêncio.

Os Mortos

Não há mortos que morram tanto como os nossos.
Se um daqueles que nos pertence morre sete
ou setenta vezes no coração,
de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data,
e os que sempre viveram longe
morrem-nos metade ou um oitavo. E metade
de uma morte é quase nada, são casas
decimais no sofrimento. (Que digo? Milésimas, milésimas!)

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D'Água Editores)

sábado, 10 de janeiro de 2009

Melancolia

"Porque é que todos os homens que foram excepcionais [perittoì] em filosofia, na política, na poesia ou nas artes eram manifestamente melancólicos [...]?"

- Aristóteles, Problemata, XXX, 1.

Impermanência



Um manto branco percorre a paisagem que os teus olhos contemplam. O frio também te envolve na brisa, que te beija, arrepia-te a pele, estremece-te, e adormece-te. Estranha sensação... como se o redespertar para a vida fosse readormecimento do ser em letargia de sentidos, e percepções, em tua razão. Razão? Ou essência, coração? Perdes-te num labirinto de inquietações que te fazem tudo, e nada, absoluta impermanência de ti.

O Umbigo do Ego e a Ética Marcial (arsénico...)

"O que está acontecendo na Palestina não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico."

Gandhi