O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 6 de dezembro de 2008

Farol de Alexandria: o paradigma

A grande admiração contemporânea pela pólis ateniense e pelas suas instituições, assim como pela arte, filosofia e literatura que nela se desenvolveram tem ensombrado a espectacular criação da cosmópolis e da cultura helenística, cuja plena compreensão ainda está, na nossa opinião, por acontecer. Efectivamente, a época clássica da cultura grega tem sido restringida aos séculos V e IV a.C., considerando-se o período imediatamente sucessivo, a época helenística, como o início da decadência, em muitos aspectos, dos valores clássicos originais. Não há dúvida de que a época clássica foi um momento glorioso e de grande esplendor na história da Antiguidade; embora se tenha convencionado designar como «clássica» toda a cultura greco-romana, a exemplaridade do classicismo é tradicionalmente atribuída àquele momento específico da cultura grega. Constatamos, contudo, que a rígida indentificação do Ocidente com uma «pátria grega» criada na Alemanha há duzentos anos atrás, num contexto histórico-cultural bem concreto – marcado sobretudo por um forte nacionalismo etnocêntrico – se revela, na actual conjuntura planetária, improdutivo. Como europeus e ocidentais encontramo-nos, quanto à nossa identificação cultural, numa crise: para além do facto de se considerar obsoleto e desnecessário o conhecimento em primeira mão da cultura clássica, insistimos em identificarmo-nos exclusivamente com um determinado e bem delimitado momento da cultura grega, que nada tem de cosmopolita, quando, na verdade, nos encontramos numa realidade que nos exige, imperiosamente, uma visão cosmopolita do mundo.

A passagem do polítēs para o cosmopolítēs representa uma profunda mutação na noção de ser humano, mutação essa que conduziu a cultura grega, em determinados aspectos, à sua maturidade espiritual. A partir do momento em que, após as conquistas de Alexandre, a colossal ecúmena persa passa a estar sob o domínio da cultura grega, a dicotomia aristotélica grego/bárbaro, fundada na oposição entre a liberdade grega e o despotismo persa, deixa de fazer sentido. Na verdade, se por um lado o homem helenístico perde liberdade em termos de exercício político, que passa a estar nas mãos do soberano (encontrando-se aqui uma das principais justificações para a desvalorização desta época), por outro lado, o sentido de liberdade desloca-se da exterioridade cívica para a interioridade filosófica e espiritual. É sobretudo no Egipto ptolemaico, com o seu centro em Alexandria, que se dá a grande síntese cultural das tradições grega, egípcia e orientais. O encontro e a convivência entre múltiplas raças, mentalidades, filosofias e religiões promove uma «refinada época de fusão e difusão culturais»[1], da qual irá surgir uma concepção universal do ser humano até então inexistente. A especulação filosófica, com o surgimento do estoicismo e do epicurismo, passa a concentrar-se sobretudo no estudo e na análise da alma humana e na liberdade individual. «O homem sábio dos Cínicos e dos Estóicos, dos Epicuristas, dos Cépticos não está especificamente ligado a um povo ou uma raça. Qualquer elemento, fosse qual fosse a região de onde viesse ou a raça a que pertencesse, podia ter acesso a esse ideal. Assim se elimina a distinção entre Gregos, não Gregos ou escravos»[2].

A maioria dos imigrantes era constituída por homens, pelo que as novas fundações procuravam mulheres entre as populações nativas, dando origem a frequentes casamentos mistos – prática que era incentivada desde Alexandre e que contribuiu para diluir a já frouxa dicotomia grego/bárbaro e ajudou a estabilizar a sociedade [...]. Isso vai provocar a lenta infiltração de costumes e práticas locais, sobretudo em matéria de religião. Esta torna-se mais individual e menos oficial e estatal, o que constitui um progresso. Novas inquietações levam à convivência das divindades gregas com as orientais, convertidas em algo de supranacional. As divindades semíticas eram identificadas com as do pateão grego. No Egipto, ao lado dos deuses helénicos e egípicos tradicionais, Ptolomeu I Soter favorece a afirmação de uma divindade nova, Serápis, com traços mistos, destinada a ser cultuada por gregos e indígenas.[3]

Do ponto de vista do pensamento filosófico e religioso, a cultura egípcia sempre mereceu um profundo respeito e uma grande consideração por parte dos gregos. A dimensão poética e religiosa da tradição órfico-pitagórica – da qual deriva a origem mítica da poesia e da música, assim como a importante doutrina da divindade e imortalidade da alma – era reconhecida como de proveniência egípicia (Heródoto, Isócrates)[4]; ainda que os mitos também associem a origem do orfismo à Trácia, a tradição fala-nos das viagens de Orfeu, de Pitágoras e de Platão ao Egipto[5]. De qualquer das formas, os gregos estavam bem conscientes da origem estrangeira desta tradição, que veio a desempenhar um papel absolutamente fundamental, como se sabe, no pensamento platónico, no neoplatonismo e, através deste, no Cristianismo (ou seja, em toda a mentalidade Ocidental). De máxima importância é igualmente a tese de Heródoto – que nos revela a consciência que os Antigos tinham acerca da evolução do fenómeno religioso – segundo a qual o Egipto teria sido o local de origem não só de quase todas as divindades gregas, mas também de muitas divindades de diversos povos.

Os egípicos sabiam, tal como os babilónios, que os deuses são os mesmos e que só os seus nomes mudam de cultura para cultura. É possível fixar as equivalências se se conhecer a definição dos deuses tendo como base a sua função e/ou manifestação cósmica: o deus do Sol de uma religião corresponde ao deus do Sol de outra e assim por diante. O que os egípcios queriam dizer a Heródoto era que eles tinham sido os primeiros a descobrir a natureza dos deuses e a estabelecer a sua mitologia e teologia assim como o contacto cultual com os mesmos, e a fixar as definições conceptuais. A eles os outros povos tinham ido buscar os seus conhecimentos sobre os deuses.[6]

Ora, a consciência de todas estas questões ampliou-se consideravelmente não só pela síntese alexandrina das culturas grega e egípcia, mas também pelo grande afluxo de sábios babilónios, judeus e indianos para aquela cidade. Embora ainda haja muito a explorar e a descobrir sobre a difusão das ideias filosóficas e religiosas na Antiguidade, a complexidade de toda esta questão aumenta quando temos em conta as semelhanças entre a filosofia grega, o cristianismo e as doutrinas da tradição indiana.

Mas também as influências indianas se fizeram sentir no mundo mediterrânico. Ashoka enviou missionários para o Egipto (para Alexandria), para Cirene, para a Macedónia, para o Epiro. Nos seus éditos ele proclama que, até nos países mais remotos, a lei budista encontrou os seus adeptos. Alexandria foi um dos grandes centros de trocas, não só comerciais mas também artísticas, filosóficas e científicas entre a Índia e o mundo ocidental. Clemente Alexandrino não hesitava em afirmar que "os Gregos tinham roubado a sua filosofia aos Bárbaros". As analogias entre o Samkhya e a filosofia pitagórica são evidentes, facto sublinhado já, em finais do século XVIII, por William Jones. Durante o século VI a.C., ou seja na época de Pitágoras, o império aqueménida, que se estendia desde a Índia até à Grécia, tinha transformado a Pérsia no grande centro de encontro entre a Índia e o mundo mediterrânico. Shröder sublinhou (Pythagoras und die Inder, Leipzig, 1884) que quase todas as doutrinas filosóficas e matemáticas atribuídas a Pitágoras estavam na época difundidas pela Índia, sob uma forma muito mais evoluída.

Eusébio, citando Aristóxenes, conta que um indiano tinha encontrado Sócrates e lhe tinha perguntado qual era o objectivo da sua filosofia: "O estudo do fenómeno humano", ter-lhe-á respondido Sócrates. Então o indiano terá rido dizendo: "De que maneira um homem poderia compreender o fenómeno humano, se ignora os fenómenos divinos?". Isto indica, de qualquer modo, que os filósofos indianos viajavam para a Grécia e falavam grego durante o quinto século anterior à nossa era. Os conceitos fundamentais do Samkhya podem ser encontrados em Anaximandro, Heraclito, Empédocles, Anaxágoras, Demócrito e Epicuro.A contribuição hindu, jaina e budista é considerável na formação do pensamento dos cépticos, tal como no dos neo-platónicos. Muitas das seitas que se desenvolveram na Palestina durante o século I a.C. inspiraram-se em conceitos indianos. Os Essénios e o Cristianismo dos primeiros tempos foram decerto profundamente influenciados pelas ideias vindas da Índia.(Daniélou, A., Storia dell’India, Roma, Ubaldini Ed., 1992, pp. 94-95).

Sem dúvida que uma das mais interessantes criações da cultura helenística, com um teor universalizante que ainda não foi alcançado no mundo contemporâneo, foi a instituição, por parte de Ptolomeu I Soter, de um novo deus e de um novo culto ecuménico «de síntese» olímpico-faraónica, Serápis, o qual reunia os elementos simbólicos necessários (Ámon, Osíris, Ra, Zeus, Hades, Dioniso, Hélio, Ptah, Hefesto) [7]para que nele se pudessem reconhecer diversas religiões de diversas culturas. Associado a este novo culto, foi também instituída e amplamente difundida uma forma helenizada dos mistérios de Ísis, que se tornou igualmente numa divindade «omnicompreensiva, transnacional, transcultural e transreligiosa»[8]. Diz-nos o hino a Ísis inscrito no templo de Medinet Madi:

Todos os mortais que vivem na terra infinita,Trácios, Gregos e bárbaros,pronunciam o teu belo nome, um nome altamente honrado por todos,[mas] cada um fala na sua própria língua, no seu próprio país. Os Sírios chamam-te Astarte, Ártemis, Nanaia; as estirpes lícias chamam-te Leto, a Senhora; os Trácios chamam-te Mãe dos deuses, e os Gregos chamam-te «Hera do grande trono», Afrodite, Héstia a benévola, Reia e Deméter. Mas os Egípcios chamam-te Thiouis [pois sabem]que tu, a Única, és contemporaneamente todas as que são invocadas pelos povos dos homens.[9]

Neste culto a religião mistérica de Elêusis (Ísis = Deméter) e os mistérios báquicos (Osíris = Serápis = Dioniso) combinam-se com os mitos e os rituais egípcios. O fascínio que os gregos sentiam pela cultura egípcia encontra neste culto um enquadramento institucional e espiritual. Aqui, com as aretologias isíacas gregas e com os hinos a Ísis de Isidoro de Narmuthis, também eles escritos em grego, nascem textos de uma cultura mista greco-egípcia, que se furta a uma atribuição únivoca à parte grega ou à egípcia. (ibidem, p. 415)


Da mesma maneira, Lúcio Apuleio, no século II, ou seja em pleno império romano, fala-nos de Ísis como «a única divindade, que sob múltiplos aspectos, vários ritos e diversos nomes o mundo inteiro honra»[10]. Esta mentalidade, que se difundiu amplamente por todo o mundo antigo – tendo sido o mais aguerrido concorrente do Cristianismo – concebe um «Ser Supremo» ou «o Altíssimo» (Hýpsistos, em grego), como o princípio divino universal e único, do qual derivam todas as tradições espirituais; o estoicismo é considerado como o desenvolvimento filosófico desta consciência.

A influência da concepçção estóica foi verdadeiramente extraordinária, sobretudo no homem da época helenística e das imediatamente posteriores. Esta concepção uniu de maneira indissolúvel a filosofia e a religiosidade. A Stoa coloca o homem numa estrutura grandiosa e ensina-o a considerar-se como membro dessa grandiosa estrutura. Em primeiro lugar, vê-o sob uma perspectiva cósmica: o homem é uma parte do cosmos, que se encontra mais próximo da divindade. A sua alma é uma partícula viva, uma centelha divina. O conceito de humanidade é um conceito criado pela Stoa sobre as bases que oferecia o império de Alexandre, depois de ter ficado superada a antiga oposição entre Gregos e Bárbaros.[11]

Efectivamente, no mundo contemporâneo, que muitos consideram como «cosmopolita», ainda não se generalizou globalmente um pensamento filosófico-religioso que conceba e aceite as diversas religiões e filosofias do mundo como diferentes expressões culturais de um único princípio universal - o princípio a que Agostinho da Silva deu nome de Espírito Santo. As três grandes religiões adâmicas - judaísmo, cristianismo e islamismo - continuam, mesmo nos dias de hoje, envolvidas em infindáveis carnificinas e «culturicídios», justificados pelo dogma obstinado de que o seu deus é o único deus verdadeiro. A difusão de outras culturas no Ocidente contemporâneo, e em especial de culturas orientais, não é propriamente uma novidade e tem contribuído para o surgimento de uma consciência verdadeiramente cosmopolita. Não obstante, a cultura geral veiculada pelas escolas e universidades atribui um reduzidíssimo valor cognitivo a outras tradições culturais, tão ou mais antigas do que a ocidental; continua a ser prática corrente julgar as tradições do outro como cognitivamente inválidas a priori, ou seja, sem um conhecimento razoável sobre as mesmas. Não há dúvida de que a tese hegeliana – irremediavelmente condicionada pela mentalidade do século XIX – segundo a qual os gregos teriam eliminado tudo o que fosse estranho à sua própria cultura, se encontra subjacente a esta mentalidade limitada que, em comparação com o universo helenístico, não pode deixar de ser considerada como provinciana. Para além de sabermos que a «pátria do Ocidente» pensada por Hegel, a pequena pólis dos séculos V e IV a.C., não surgiu, como que por milagre, isoladamente em relação à complexíssima rede de relações e intercâmbios culturais do mundo antigo, essa mesma «pátria» tornou-se, nos séculos sucessivos, numa gigantesca cosmópolis em que sábios oriundos de toda a ecúmena helenística, que se estendia até ao vale do Indo, reuniram diferentes tradições sapienciais sob o signo da cultura greco-egípcia, a qual se expressava em língua grega. Mais uma vez, embora as nossas instituições de ensino continuem, ainda hoje, a habituarmo-nos a preconceber o helenismo como um período decadente da cultura clássica (sendo muitas vezes estudado, por essa mesma razão, à pressa e «por alto») foi precisamente nessa época que se deu um espectacular e inédito desenvolvimento cultural.

O nacionalismo helénico, nesta época, já era mais cultural do que racial. Dissera Isócrates, ainda no primeiro quartel do séc. IV a.C., que o nome «Helenos» já não designava uma raça, mas uma cultura (Panegírico, 50) [...]. As pessoas cultivadas, mas não apenas elas, tornam-se gregas e os Gregos, sobretudo os filósofos, tornam-se cosmopolitas.[12]

A Biblioteca de Alexandria, a mais famosa da Antiguidade, foi o centro da cultura helenística e ali se reuniam, sob a protecção real, eruditos e artistas de todo o mundo.[13]

A filosofia do período helenístico é bem o símbolo de que se ultrapassara o espaço restrito da pólis e se caminhara para o universalismo e para a unidade da raça humana [...]. Aliás os estóicos, com uma filosofia de domínio universal, pugnaram pelo princípio da igualdade de todos os homens, se bem que isso não implicasse a exigência da libertação dos escravos, e consideravam de importância insignificante as diferenças nacionais (cf. Plutarco, Moralia 329 A-D). Para eles a pátria não era a pólis, mas o mundo. Os primeiros cínicos, com o seu ideal de homem sábio, parecem não apresentar o preconceito contra os Bárbaros e os escravos e colocam de lados as afinidades políticas: Diógenes considera-se cidadão do universo e Crates proclama que a sua cidadela e fortaleza é a terra inteira (cf. Diógenes Laércio 6.96)[...]. Se Arsitóteles considerava o bárbaro um escravo por natureza – o filósofo morre em 322 a.C., portanto no dealbar da época helenística – Teofrasto, seu discípulo e continuador da escola, afirma ser a terra a morada comum dos deuses e dos homens e mostra a existência de um parentesco a unir todos os homens e até os seres vivos; primeiro os laços de membros da família, depois os cidadãos da pólis, de parte integrante do ethnos ou raça e da humanidade; por fim, parentesco de todos os seres que vivem.[14]

O que interessa, como se depreende do passo de Isócrates (Panegírco, 50) já citado e que, ao que parece, também em Menandro, não é pertencer a um povo ou a uma raça, mas estar integrado em determinada cultura, ter um determinado ideal ou concepção da existência. Desde que assim aconteça, não importa que seja grego, persa, trácio, judeu ou romano. A difusão fora feita, a fusão em grande parte conseguida. A oikoumene estava formada.[15]

Só para terminar, nesta tentativa de abrir um Horizonte à vocação ecuménica da cultura lusófona, não poderíamos deixar de citar umas breves palavras de Selma Velho. Esta ilustre goesa defende que a obra de Luís de Camões revela uma profunda compreensão comparativa das tradições culturais com as quais o poeta entrou em contacto. Julgamos que este trabalho, fruto da cultura luso-indiana, é um de entre os vários exemplos que ilustram as reais potencialidades - e responsabilidades - da Lusofonia.

Conseguiria Camões, com a sua bagagem cultural greco-romana, entender e comparar as culturas e civilizações da Índia e do Extremo Oriente com a sua herança ocidental? Teria sido Camões o primeiro poeta e humanista da Renascença a entender as semelhanças existentes entre a Índia e a Grécia (e algumas vezes até o Egipto), quanto às suas mitologias e filosofias? Até que ponto essas semelhanças encontraram eco na obra de Camões? Sabemos que Camões viveu mais de dezasseis anos na Índia e no Oriente. Sabemos também que quase todos os historiadores portugueses que se debruçaram sobre a herança indiana após a viagem de Gama apontaram flagrantes semelhanças que eles viam entre mitos gregos e hindus, como também se referiram algumas vezes ao Egipto. (Velho, S., A Influência da Mitologia Hindu na Literatura Portuguesa dos séculos XVI e XVII, tese de doutoramento (1983), Universidade de Bombaim, ed. Instituto Cultural de Macau, 1988. p. 449).

Uma leitura cuidadosa de Camões veio reforçar a nossa opinião de que Camões utilizou as tradições hindus que tinham paralelos com a Grécia e às vezes também no Cristianismo, explorando-as através da sua familiaridade greco-romana, e não através da novidade e do exotismo, como seria de esperar ao primeiro impulso. (ibidem,p. 463).

[1] J.Ribeiro Ferreira, A Grécia Antiga,Ed. 70, Lisboa, 1992. p. 209.[2] Ibidem, p. 241.[3] Ibidem, 228.[4] Cf. M. Vegetti, «L’io, l’anima, il soggetto», in I Greci 1 (noi e i Greci), S. Settis (coord.), Turim, Einaudi, 2001, p. 444.[5] W. Nippel, «La costruzione dell’ “altro”», in I Greci 1 (noi e i Greci), S. Settis (coord.), Turim, Einaudi, 2001, p. 168.[6] J. Assman, «L’immagine greca della cultura egiziana», in I Greci 3 (i Greci oltre la Grecia), S. Settis (coord.), Turim, Einaudi, 2001, p. 423-424.[7] Ibidem, p. 430.[8] Idem, ibidem, p. 432.[9] Idem, ibidem, p. 431-432.[10] Idem, ibidem, p. 432.[11] W. Capelle, apud M.H. Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica – Cultura Grega, Lisboa, Gulbenkian, 1993.[12] J.Ribeiro Ferreira, A Grécia Antiga,Ed. 70, Lisboa, 1992, p. 229.[13] Ibidem, p. 232.[14] Ibidem, p. 237.[15] Ibidem, p. 241.

Pensar Pessoa - Paganismo transcendental

Se a religião é a verdade, como afirma Pessoa-filósofo, e se a verdade é a existência, e se “ser verdadeiro é existir”; a forma inteligente, porque verdadeiramente humana, da verdade, é a religião. Ainda assim se coloca uma questão central: qual delas, de entre tantas que existem, é a verdadeira? Também Pessoa encontra, para este problema, três soluções possíveis:- existe apenas uma religião, sendo que existem várias formas dela;-existe uma religião verdadeira, de que as outras, sendo aproximações, seriam falsas; -todas elas são falsas, apenas representam um caminho para a religião verdadeira.
Como chega, então, o homem, intelectualmente, à religião? A partir da intelectualização dos elementos míticos, reduzindo-os a símbolos. Complicando os elementos míticos, ficando-se na complexidade dos sentimentos, subjectivamente, sendo que esta forma não interpreta, simplifica, num certo sentido, e complica, exteriormente.
Seguindo a exposição de Pessoa, o Paganismo teria seguido o caminho da intelectualização, mas, ao ver-se misturado com elementos do oculto, ter-se-ia afastado da dimensão humana e da essência do paganismo que, para além da pluralidade dos deuses que enformam essa mitologia, assentaria na criação como ideal humano, e na concepção do unviverso como fenómeno na sua essência objectivo.
Vimos que os elementos do oculto são os “elementos orientalizantes”, “bárbaros”, o que afasta, de algum modo, o intelecto, descentrando a religião da “região” da verdade. O Paganismo Superior de Pessoa, rejeitou (ou não?) esse elementos orientalizantes, bárbaros e ocultos.
Que aspiração a uma realidade divina os deuses emprestaram aos homens que vêem o Real como Ilusório?
E qual seria o papel do Destino, nesse Paganismo transcendental? E já agora, Portugal? E o Quinto Império? E a Saudade?

BARAKA

Em 1992, o cineasta Ron Fricke apresentou BARAKA, um documentário experimental filmado em 23 países. Ninguém narra estas imagens. Não há diálogos. As cenas não são coesas e os locais não são identificados. Viajamos sem pés, sem asas, entre mundos livres de palavras e inundados de sons, música e imagens. Não interessa onde estamos... mas em 104 minutos gravitamos em torno do planeta Terra; arrastamo-nos, somos empurrados, levitamos, reconhecemo-nos nossas mil faces mascaradas, chafurdamos em lixeiras, caminhamos nas ruas e não sabemos ao certo se somos o burro, o cão, a mulher ou o homem. Tudo é, e nós somos tudo isto!









sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Considerações politicamente incorrectas de um mestre budista

Durante a batalha em Bodh Gaya, Mara [o símbolo da ilusão e da negatividade]manifestou múltiplas armas contra Siddhartha. Tinha, em particular, uma colecção de flechas especiais. Cada flecha possuía poderes ruinosos: a flecha que causa desejo, a flecha que causa obtusidade mental, a flecha que causa orgulho, a flecha que causa conflito, a flecha que causa arrogância, a flecha que causa obsessão cega e a flecha que causa a ausência de consciência, para nomear algumas. Nos sutras budistas lemos que Mara permanece sem ser derrotado em cada um de nós: ele envia-nos constantemente as suas flechas envenenadas. Quando somos atingidos pelas flechas de Mara, tornamo-nos inicialmente entorpecidos, mas o veneno espalha-se então por todo o nosso ser, destruindo-nos lentamente. Quando perdemos a consciência e nos apegamos ao eu, é o veneno entorpecedor de Mara. Lenta, seguramente, seguem-se as emoções destruidoras, vertendo-se no nosso ser.
Quando atingidos pela flecha do desejo, todo o nosso senso comum, sobriedade e sanidade saem pela janela, enquanto a falsa dignidade, a decadência e a imoralidade escorrem para dentro. Envenenados, nada nos detém para obter o que queremos. Alguém ferido pela paixão pode até achar sexy uma prostituta-hipopótamo, enquanto uma bela rapariga o espera em casa. Tal como mariposas atraídas pela chama e peixes por iscas em anzóis, muitos nesta terra foram apanhados numa armadilha pelo seu desejo de comida, fama, louvor, dinheiro, beleza e veneração.
A paixão pode também manifestar-se como concupiscência pelo poder. Tomados por uma tal paixão, os líderes são completamente indiferentes a como a sua ânsia de poder destrói o planeta. Se não fosse a cobiça de riqueza de algumas pessoas, as auto-estradas estariam cheias de carros movidos pelo sol e ninguém morreria de fome. Tais progressos são tecnológica e fisicamente possíveis, mas aparentemente não são emocionalmente possíveis. E entretanto murmuramos acerca da injustiça e censuramos pessoas como George W. Bush. Atingidos nós próprios pelas flechas da ganância, não vemos que é o nosso próprio desejo – ter comodidades como aparelhos electrónicos de importação barata e luxos como Humvees – que na realidade sustenta as guerras que estão a devastar o mundo. Todos os dias, durante a hora de ponta em Los Angeles, a via reservada aos veículos com duas ou mais pessoas está vazia enquanto milhares de carros atravancam o resto da estrada, cada um com apenas um ocupante. Mesmo aqueles que desfilam nos protestos “Não ao Sangue por Petróleo” contam com o petróleo para importar os kiwis para os seus batidos.
As flechas de Mara criam um conflito infindável. Ao longo da história, figuras religiosas, aquelas que supostamente estão acima do desejo, os nossos modelos de integridade e correcção, mostraram estar igualmente esfomeadas de poder. Manipulam os seus seguidores com ameaças de inferno e promessas de céu. Vemos hoje políticos a manipular eleições e campanhas ao ponto de não terem escrúpulos de bombardear um país inocente com mísseis Tomahawk se isso inclinar a opinião pública a seu favor. Quem se importa que ganhemos a guerra desde que ganhemos a eleição? Outros políticos ostentam hipocritamente religiosidade, fazem-se alvejar a si mesmos, manufacturam heróis e encenam catástrofes, tudo para satisfazer o seu desejo de poder.
Quando o eu está inchado de orgulho, manifesta-se de modos incontáveis: estreiteza de espírito, racismo, fragilidade, medo de rejeição, medo de ser ferido, insensibilidade, para nomear uns poucos. Por orgulho masculino, os homens sufocaram a energia e as contribuições de cerca de metade da raça humana: as mulheres. Durante o namoro, cada um dos lados deixa o orgulho atravessar-se no caminho, avaliando constantemente se a outra pessoa é suficiente boa para eles ou se eles são suficientemente bons para a outra pessoa. Famílias orgulhosas gastam fortunas numa cerimónia de casamento de um dia para um matrimónio que pode ou não durar, enquanto no mesmo dia, na mesma povoação, as pessoas morrem de fome. Um turista faz alarde de dar uma gorjeta de dez dólares ao porteiro por empurrar uma porta giratória e no minuto seguinte regateia uma T-shirt de cinco dólares a uma vendedora que tenta sustentar o seu bebé e família.
O orgulho e a piedade estão intimamente relacionados. Crer que a nossa vida é mais dura e triste do que a de todos é pura e simplesmente uma manifestação de apego ao eu. Quando o eu desenvolve auto-piedade, elimina qualquer espaço que os outros possam ter para se sentir compassivo em relação a eles. Neste mundo imperfeito tantas pessoas sofreram e sofrem ainda, mas o sofrimento de algumas pessoas foi categorizado como um sofrimento mais “especial”. Se bem que não estejam disponíveis estatísticas reais, parece seguro dizer que o número de nativos americanos chacinados quando os europeus colonizaram a América do Norte é pelo menos igual ao de outros genocídios reconhecidos. E todavia não existe nenhum termo largamente usado – tal como anti-semitismo ou o Holocausto – para esta chacina inconcebível.
Os assassínios em massa levados a cabo por Estaline e Mao Tse-tung também não possuem etiquetas reconhecidas, nem são objecto de museus prestigiados, acções judiciais por retaliação e infindáveis documentários e filmes de longa-metragem. Os muçulmanos clamam serem perseguidos, esquecendo a destruição a que deram curso os seus antepassados mogols, quando conquistaram vastas partes da Ásia como missionários. É ainda visível a evidência da sua devastação: as escalavradas ruínas de monumentos e templos outrora criados por amor a um diferente deus.
Existe também o orgulho de pertencer a uma certa escola de pensamento ou religião. Cristãos, judeus e muçulmanos crêem todos no mesmo Deus e num sentido são irmãos. Contudo, por causa do orgulho de cada uma destas religiões e por pensarem que estão “certas”, a religião causou mais mortes do que as duas guerras mundiais reunidas.
O racismo pinga da flecha envenenada do orgulho. Muitos asiáticos e africanos acusam os brancos ocidentais de serem racistas, mas o racismo é também uma instituição na Ásia. Pelo menos no Ocidente existem leis contra o racismo e ele é publicamente condenado. Uma rapariga de Singapura não pode trazer o seu marido belga para casa para conhecer a família. As etnias chinesas e indianas na Malásia não podem ter o estatuto de bhumiputra [filho da terra], mesmo após muitas gerações. Muitos coreanos de segunda geração no Japão não estão ainda naturalizados. Se bem que muitas pessoas brancas adoptem crianças de cor, é improvável que uma abastada família asiática adopte uma criança branca. Muitos asiáticos acham detestável tal mistura cultural e racial. Perguntamo-nos como se sentiriam os asiáticos se as posições estivessem invertidas: se as pessoas brancas tivessem de emigrar aos milhões para a China, Coreia, Japão, Malásia, Arábia Saudita e Índia. O que aconteceria se estabelecessem as suas próprias comunidades, ficassem com empregos locais, importassem noivas, falassem durante gerações a sua própria língua, recusando-se a falar a língua da nação anfitriã e, além disso, sustentassem o extremismo religioso no seu país de origem ?
A inveja é outra das setas de Mara. É uma das emoções do grande perdedor. Manifesta-se irracionalmente e engendra histórias fantásticas para nos distrair. Pode ferir subitamente nos momentos mais inesperados, porventura mesmo enquanto nos deleitamos com uma sinfonia. Mesmo que não tenhamos a intenção de nos tornarmos um violoncelista, e que não tenhamos jamais tocado sequer um violoncelo, podemos tornar-nos ciumentos de uma inocente tocadora de violoncelo que nunca encontrámos sequer. O simples facto de ela ser talentosa é suficiente para envenenar a nossa mente.
Grande parte do mundo tem ciúmes dos Estados Unidos. Muitos dos fanáticos políticos e religiosos que ridicularizam e criticam os Estados Unidos, chamando aos americanos “satânicos” e “imperialistas”, colocar-se-iam de pernas para o ar para obter o cartão verde do título de estadia, se já não o têm. Por pura inveja, a sociedade – frequentemente conduzida pelos media – quase sempre faz tombar alguém ou algo que experimente o sucesso, seja financeiro, físico ou intelectual. Alguns jornalistas pretendem defender os fracos e os oprimidos, mas frequentemente receiam mostrar que alguns “oprimidos” são realmente fanáticos. Estes jornalistas recusam-se a expor qualquer dos seus delitos e os poucos que falam com franqueza correm o risco de ser estigmatizados como extremistas.
Devido ao desejo egoísta de Mara ter mais discípulos, ele prega com esperteza a liberdade, mas, se alguém exerce realmente a liberdade, Mara não gosta necessariamente disso. Fundamentalmente gostamos de ter liberdade apenas para nós mesmos, mas não para os outros. Não é de admirar que, se nós ou alguém exercemos realmente todas as nossas liberdades, não sejamos convidados para todas as festas. Esta assim chamada liberdade e democracia é apenas outro instrumento de controle de Mara.

- Dzongsar Jamyang Khyentse, O que não faz de ti um budista, tradução de Paulo Borges, Lisboa, Lua de Papel, 2009 [no prelo].

À margem dum certo solilóquio a várias vozes, e alguma desafinação ...

À margem ainda daquele particular "diálogo-debate" como lhe chamou benevolamente a Inês (eu chamar-lhe -ia antes, de melhor grado, solilóquio a várias vozes, e alguma desafinação) à volta do vídeo “God is a DJ”: interrompido apenas, o íntimo monólogo do único com o Único é na verdade interminável, ou está sempre a ponto de realmente (re)começar.
Depende porventura de ancorarmos o “ponto” de vista, ou nos fins ou nos princípios ...
A interrupção do "debate", essa, decorreu da táctica, e não da estratégia, entenda-se.
De facto, o que se mostra “inútil” curso de coisas (o que amiúde ocorre em certos blogs, e em toda a parte também) não parece, ao menos por isso, percurso viável, mas tão-só desviante ou, no mínimo, enviesante do caminhar, qual ele seja ou haja.
Entenda-se também que quando digo inútil, quero significar o in-útil, coisa que tem sempre como referencial algo que há ou se tenha ou tivesse em vista e que, se bem que não haja de ser limitante, delimitante deverá ser, para não resultar errática nem ínvia.
Concordo com a Inês, em que é “a partir do inefável que (brotam) as mais belas, rigorosas e comunicantes palavras”. Tanto mais que o inefável se me afigura algo que roça a raiz do mito.
Ocorre citar aqui Ananda Coomaraswamy que chama ao Mito “verdade penúltima, de que toda a experiência é reflexo temporal”, e o diz por exemplo a propósito do “ no principio...”, da “geração eterna” do Cristo ou até do “Era uma vez...”, dos contos tradicionais.
Diz ele, interessantemente, que esta habitual expressão de começo das narrativas tradicionais ou dos contos “não quer dizer ‘uma vez apenas’, mas ‘uma vez por todas’".
Quanto a “berechith ”, palavra hebraica vulgo traduzida por “No princípio”, certa tradição da Qabbalah decompõe-na em duas outras dela constituintes, a saber, “berith” (aliança) e “esch” (fogo), resultando assim interpretativamente em que o que chamamos “criação” é, presumivelmente, antes uma “aliança de fogo”, vínculo que, entre o Divino “innefabilis” e o criado “efabilis”, ou já efabulante, assim se estabelece.
Se, retornando a A. Coomaraswamy, atentarmos em que ele escreve logo a seguir ao citado acima (“Neste começo eterno [nota minha: se em português traduzíssemos por “eterno começo”, teríamos um sentido bem diverso mas, porventura, não ilícito], não há senão a Identidade Suprema d’ “Esse Um” , sem distinção de ser e não-ser, de luz e de trevas, ou ainda sem separação do céu e da terra”), veríamos que afinal Deus poderia, num certo sentido, ser um DJ que "manipula" o disco ("ondulado", segundo mais recentemente e defendido pela M Theory), pois cada instante é, de novo, começo eterno e eterno começo de tudo, no nada, neste tudo nada que é o estarmos aqui a falar disto, tendo eventualmente coisa melhor para fazer...
Neste universo (e falo aqui para a Joana), - nos outros universos, paralelos ou nem por isso, desconheço como seja - a metáfora ainda é livre! Haja Deus!
Ups… De pronto corrijo: Com Deus ou sem Ele...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O homem que tem fé, obtém o conhecimento, disciplinando todos os sentidos; e, deste conhecimento detentor, então, muito depressa chega à paz suprema.
Bhagavad Gita
4ª lição

Antidoto para a loucura pouco sadia que atravessa a nossa cultura?

Algum de voces sabe se "The Transcendent Unity of Religions", do Fritjof Schuon, esta publicado em Portugal?



Paulo e outros filosofos, conhecem alguma coisa da obra deste autor? Podem dar uma opiniao honesta?



http://www.centerforsacredsciences.org/traditions.html



The Mystical Core of the Great Traditions



Six great religions have shaped the major civilizations that exist today: the three Abrahamic religions (Judaism, Christianity, and Islam) and the three Eastern religions (Hinduism, Buddhism, and Taoism/Confucianism). These religions seem to be quite at odds with each other when we look at their outer, or exoteric, forms. Not only do they have different rites, rituals, prayers and precepts, but in many cases their most fundamental doctrines about the nature of Reality appear to contradict each other. For example, Judaism's "Thou shalt have no other gods but Me" seems to stand in direct opposition to Hinduism's exuberant worship of three million gods. Christianity's Triune Deity contrasts sharply with Taoism's amorphous Way, while Islam's central tenet, "There are no gods but God," appears completely antithetical to Buddhism's insistence that there is no God at all.
If we dig more deeply, however, we find within each of these religious traditions an inner, or esoteric, stream of teachings given by their mystics—those men and women who claim to have had a direct Realization, or Gnosis, of the Ultimate Nature of Reality. Moreover, if we compare the testimonies of these mystics about the Nature of this Reality, we find that, despite vast separations in time, place, language, and culture, they are strikingly similar—so much so that many scholars have come to view their teachings as constituting a single perennial philosophy which, like some irrepressible flower, keeps blooming again and again in the human psyche.
One of the primary goals of the Center for Sacred Sciences is to preserve and promote the teachings of these mystics and to show exactly what it is they have in common. Here, for example, are nine points agreed upon by mystics of all the great traditions, together with a sampling of quotes which demonstrate this agreement.
1. All mystics agree that Ultimate Reality—whether It is called Allah, Brahman, Buddha-nature, En-sof, God, or the Tao—cannot be grasped by thought or expressed in words. (In fact, the word mystic is related to the word mute, both of which derive from the Greek root mustes, meaning "close-mouthed.") The Tao which can be named is not the true Tao. —Lao Tzu (Taoist)
The Spirit supreme is immeasurable, inapprehensible, beyond conception, never-born, beyond reasoning, beyond thought. —Upanishads (Hindu)
Words and sentences are produced by the law of causation and are mutually conditioning—they cannot express highest Reality. —The Lankavatara Sutra (Buddhist)
That One which is beyond all thought is inconceivable by all thought. —Dionysius the Areopagite (Christian)
The gnostics know, but what they know cannot be communicated. It is not in the power of the possessors of this most delightful station...to coin a word which would denote what they know. —Ibn 'Arabi (Muslim)
2. The reason Ultimate Reality cannot be grasped by thought or communicated in words is that thoughts and words, by definition, create distinctions and, hence, duality. Even the simple act of naming something creates duality because it distinguishes the thing that is named from all other things that are left unnamed. However, the mystics of all the great traditions agree that all distinctions are imaginary and that the Ultimate Nature of Reality is non-dual. In essence things are not two but one. ...All duality is falsely imagined. —Lankavatara Sutra (Buddhist)
No matter what a deluded man may think he is perceiving, he is really seeing Brahman and nothing else but Brahman. ...This universe, which is superimposed upon Brahman, is nothing but a name. —Shankara (Hindu)
If we will see things truly, they are strangers to goodness, truth and everything that tolerates any distinction. They are intimates of the One that is bare of any kind of multiplicity and distinction. —Meister Eckhart (Christian)
That Oneness is on the other side of descriptions and states. Nothing but duality enters speech's playing-field. —Rumi (Muslim)
There all things are as one; Distinctions between "life" and "death," "land" and "sea," have lost their meaning. —anonymous Hasidic master (Jewish)
3. Although mystics cannot define Ultimate Reality in words, they still use words to point to That which is beyond words. For instance, all mystics agree that, while Ultimate Reality constitutes the true nature of everything, in itself It is nothing. Neti neti (not this, not that)—Upanishads (Hindu)
Emptiness (shunyata)...is the ultimate nature of everything that exists. —Lama Yeshe (Buddhist)
The myriad creatures in the world are born from Something, and Something from Nothing. —Lao Tzu (Taoist)
It is within our intellects, souls and bodies, in heaven, on earth, and whilst remaining the same in Itself, It is at once in, around and above the world, super-celestial, super-essential, a sun, a star, fire, water, spirit, dew, cloud, stone, rock, all that is; yet It is nothing. —Dionysius the Areopagite (Christian)
He is not accompanied by thingness, nor do we ascribe it to Him. The negation of thingness from Him is one of His essential attributes. —Ibn 'Arabi (Muslim)
The hidden God, the innermost Being of Divinity so to speak has neither qualities nor attributes. —Gershom Scholem (Jewish)
4. Although mystics say Ultimate Reality is not a thing, they also agree that this emptiness or no-thingness is not a mere vacuum. It is radiant with the Light of Pure Spirit, Primordial Awareness, Buddha Mind, or Consciousness Itself. He is the Eternal among things that pass away, pure Consciousness of conscious beings. —Upanishads (Hindu)
All the Buddhas and all sentient beings are nothing but the One Mind, besides which nothing exists. —Huang Po (Buddhist)
The light by which the soul is illumined, in order that it may see and truly understand everything...is God himself. —St. Augustine (Christian)
He is the spirit of the cosmos, its hearing, its sight, and its hand. Through Him the cosmos hears, through Him it sees, through Him it speaks, through Him it grasps, through Him it runs. —Ibn 'Arabi (Muslim)
Mind comes from this sublime and completely unified source above; it is divided only as it enters into the universe of distinctions. —Menahem Nahum (Jewish)
5. Mystics of all traditions also agree that when distinctions created by imagination are taken to be real—especially the distinction between 'subject' and 'object', 'I' and 'other', 'self' and 'world'—we lose sight of the Ultimate Nature of Reality and fall into delusion. This is the cause of all our suffering. The fundamental dysfunction of our minds takes the form of a separation between I and other. We falsely grasp at an "I" on which attachment grafts itself at the same time as we conceive of an "other" that is the basis of aversion. —Bokar Rinpoche (Buddhist)
So long as the sense of "me" and "mine" remains, there is bound to be sorrow and want in the life of the individual. —Anandamayi Ma (Hindu)
Every man has plenty of cause for sorrow but he alone understands the deep universal reason for sorrow who experiences that he is. —Cloud of Unknowing (Christian)
As long as you are 'you', you will be miserable and impoverished. —Javad Nurbakhsh (Muslim)
How can any finite vessel hope to contain the endless God? Therefore, see yourself as nothing; only one who is nothing can contain the fullness of the Presence. —Menahem Nahum (Jewish)
6. The fact that distinctions are not ultimately real means that we are not truly separate selves. In Reality, all mystics declare, our True Nature is God, Brahman, Buddha-Nature, the Tao, or Consciousness Itself. Our very self-nature is the Buddha, and apart from this nature there is no other Buddha. —Hui-Neng (Buddhist)
Having left aside Life and Death, he is now completely one with the universal Transmutation. —Kuo Hsiang (Taoist)
God is one's very own Self, the breath of one's breath, the life of one's life, the Atman. —Anandamayi Ma (Hindu)
Some simple people think that they will see God as if he were standing there and they here. It is not so. God and I, we are one. —Meister Eckhart (Christian)
Thou art He, without one of these limitations. Then if thou know thine own existence thus, then thou knowest God; and if not, then not. —Ibn 'Arabi (Muslim)
For now he is no longer separated from his Master, and behold he is his master and his Master is he. —Abraham Abulafia (Jewish)
7. Although the Truth of one's identity with Ultimate Reality cannot be grasped by thought, all mystics testify that It can be Realized or Recognized through a Gnostic Awakening (Enlightenment) which by-passes the thinking mind altogether. The time will come when your mind will suddenly come to a stop like an old rat who finds himself in a cul-de-sac. Then there will be a plunging into the unknown with the cry, "Ah, this!"—Yun-man (Buddhist)
When the mirror of my mind became clear... I saw that God is not other than me, and this non-dual knowledge completely destroyed all thought of "you" and "I." I came to know that this entire world is not different from God. —Lalleshwari (Hindu)
Here, renouncing all that the mind may conceive, wrapped entirely in the intangible and the invisible, he belongs completely to him who is beyond everything. Here, being neither oneself nor someone else, one is supremely united by a completely unknowing inactivity of all knowledge, and knows beyond the mind by knowing nothing. —Dionysius the Areopagite (Christian)
He sees only God as being that which he sees, perceiving the seer to be the same as the seen. This is enough, and God is the giver of grace, the Guide. —Ibn 'Arabi (Muslim)
It is by descending into the depths of his own self that man wanders through all the dimensions of the world; in his own self he lifts the barriers which separate one sphere from the other; in his own self, finally, he transcends the limits of natural existence and at the end of his way, without, as it were, a single step beyond himself, he discovers that God is 'all in all' and there is 'nothing but Him'. —Gershom Scholem (Jewish)
8. All mystics agree that Realizing our Identity with this Ultimate Reality brings freedom from suffering and death. When a man knows God, he is free: his sorrows have an end, and birth and death are no more. —Upanishads (Hindu)
What is suffering? What is death? In reality, they do not have any existence. They appear within the framework of the manifestations produced by the mind wrapped up in an illusion. ...In the emptiness of mind, there is no death. No one dies. There is no suffering and no fear. —Bokar Rinpoche (Buddhist)
When the false apprehension is negated...from the heart of the enlightened ones, then "death shall be swallowed up forever and God will erase tears from every face."—Abraham Abulafia (Jewish)
Suddenly, I realized..."it really is like this, in reality there is not a single thing!" With this single thought, all entanglements were broken. Suddenly, it was as if a load of a hundred pounds had fallen to the ground in an instant. It was as if a flash of lightning had penetrated the body and pierced the intelligence. —Kao P'an-lung (Confucian)
This man lives in one light with God, and therefore there is not in him either suffering or the passage of time, but an unchanging eternity. —Meister Eckhart (Christian)
I have been delivered from this ego and self-will—alive or dead, what an affliction! But alive or dead, I have no homeland other than God's Bounty. —Rumi (Muslim)
9. Finally, mystics of all traditions agree that their teachings about the Ultimate Nature of Reality should not be taken on faith alone. Just as scientific theories can be verified by anyone willing to perform appropriate experiments, mystical teachings can be verified by anyone willing to engage in appropriate spiritual practices and disciplines. (This, incidentally, is why we at the Center believe mystical teachings and practices are rightly said to constitute a science of the sacred.) Those who practice know whether realization is attained or not, just as those who drink water know whether it is hot or cold. —Dogen (Buddhist)
The pure truth of Atman, which is buried under Maya and the effects of Maya, can be reached by meditation, contemplation and other spiritual disciplines such as a knower of Brahman may prescribe. —Shankara (Hindu)
If you don't wash out the stone and sand, how can you pick out the gold? Lower your head and bore into the hole of open non-reification, carefully seek the heart of heaven and earth with firm determination. Suddenly, you will see the original thing!—Liu I-ming (Taoist)
The patriarchs opened up the channels of the mind in the world, teaching all who were to come into the world how to dig within themselves a spring of living waters, to cleave to their fount, the root of their lives. —Menahem Nahum (Jewish)
The way of the sufis is the way of the exact gnosis of God, and of the knowledge of the diverse ways of self training necessary for the gnosis of God. —'Abd al-Wahab Sha'rani (Muslim)
If you follow my teachings, then you are truly my disciples and you shall come to a gnosis of the truth, and the truth shall make you free. —Jesus of Nazareth (Christian)




Resources and Links



For further reading on the mystical traditions and their universal principles we recommend the following resources: CSS Resources
Can We Honor All Religions?by Joel CSS recommended reading list Other Resources
Books The Transcendent Unity of Religions by Fritjof Schuon Forgotten Truth by Huston Smith The Perennial Philosophy by Aldous Huxley
Websites Mysticism in World Religions by Deb Platt Mysticism Texts by Prof. G. Thursby Religious Studies Resources by Prof. G. Thursby Who's Who in the History of Western Mysticism by Prof. B. Janz Western Mysticism Resources by Prof. B. Janz

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Será Deus um DJ...?




Se “ser” Deus (será que Deus “é”?) fosse uma espécie de pilotagem meta-holónica de tudo, em toda a parte, de todas maneiras, por todas razões, para todos os fins, por Si, para Si, através da nossa liberdade, no nosso acerto ou na nossa errância, se ser Deus fosse isso, talvez nós um dia chegássemos a sê-lo, quando, por todos os modos e meios de desenvolvimento da ciência e da técnica, do saber e da sabedoria, fosse atingido o extremo vórtice de intersecção entre o desenvolvimento pessoal, a interagência colectiva e a expansão cósmica.
O problema - nosso, não de Deus - é que, se porventura Deus (coisa que, obviamente, a razão jamais logrará provar conclusiva e inegavelmente: um Deus provável seria claramente um “flop” inenarrável de Si mesmo e uma infinita “desilusão” para quem d’Ele “careça”), Deus é infinitamente mais e menos do que sequer supomos: mais, porque está inapreensivelmente para além de todo o limite ou limitação; menos, porque Ele é incompreensivelmente mais simples do que a imparável des-simplificação em que estamos, pela qual tendemos (tendemos, apenas) a aproximarmo-nos d’Ele, ou de sermos como Ele.
É como se o que em nós apenas cresce para Ele “aritmeticamente”, n’Ele se nos furtasse “geometricamente”. Vão propósito, inglória vaidade …
Afinal, talvez o divino Platão tenha mais uma razão para afirmar que (o) Deus geometriza.
Se o faz como um DJ, confesso que não sei …

Siddhartha

E ali ficou, na margem do rio. Sentou-se por debaixo de uma árvore Bô, na margem da ribeira Niranjana, e permaneceu imóvel enquanto não encontrou o que pretendia. A noite não esperava por ele mas, não se importava com tal. O mais importante era ultrapassar os vários níveis e obstáculos que tinha na sua mente, até alcançar a verdade. Mas quando a estrela, a leste do horizonte se ergueu, ele percebeu que se tinha tornado Buda.

Saúde

Das Narrenschiff - A Nau dos Loucos



Somos a Nau dos Loucos. Navegamos a ilusão de ser.

Mundo: Festa do(s) Louco(s).

Tudo é uma Festa de Loucos. Maior demência do que não ver a sua profunda seriedade é levá-la a sério.

O mundo é a Dança dos Mortos-Vivos.

Loucura: "a inspiração caótica, tempestuosa, anterior ao Fiat divino" - Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo.

E se a loucura não fosse uma fuga ou desvio da realidade, mas antes o sentimento de realidade um efeito da loucura ?

O mundo é a torre da fortuna que desaba. E só o louco ri de nem ele ficar de pé.

- in A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido, Sintra, Zéfiro, 2008.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

quadras p´ra pulares

os mais altos pedestais
em que por vezes nos pomos
é para apagar sinais
da nossa altura de gnomos

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Saudade

Saudade é reconhecimento e nostalgia, é identificação postura e carácter.
A escrita é apenas uma mera ramificação da comunicação entre os seres, a comunicação é sentimental, sentida, que se serve das palavras e dos sinais de fumo para chegar até outros. Muito sinceramente, essas ramificações por vezes só atrapalham, e desfiguram o verdadeiro sentimento comunicativo.
O ser é uma coisa muito pura que se deixou, de certa forma, contaminar pelas comunicações e por diversos outros estorvos que supostamente o integrariam na sociedade.
A sociedade está para os seres como a poluição está para o meio ambiente.
Olhando para bem para isto, deslumbra-se com nitidez a fragilidade humana, e fica bem à vista a sua irracionalidade. Vivem atrapalhados numa situação pós-traumatica qualquer. As suas reacções são parecidas às reacções de alguém que acaba de ter um acidente de viação, por exemplo, e reage em choque, atrapalhadamente vasculhando papeis e agindo sem pensar.
Por exemplo, o mundo tem recursos suficientes para que não haja fome, aqueles que aglomeram fortunas estão a reagir conforme eu vos disse no exemplo, aglomeram tudo sem pensar racionalmente. A guerra também não é uma coisa necessária, mas enfim.
A humanidade está doente, com graves problemas psíquicos. As pessoas elegem pessoas com distúrbios mentais, para as governar, e o resultado está à vista.
Pessoas saudáveis não faziam leis nem constituições como estas, que são bem doentias.
O mundo transformou-se num grande manicómio.
Por isso é que as pessoas têm saudade, saudade do bem, saudade da identidade do ser.
Saudade deles próprios, saudade da vida. . .

Lusofonia, o desafio da Viagem, a verdadeira Revolução

Excerto do "Diálogo Inacabado", de Maria Beatriz Serpa Branco

Recordar um amigo é como contemplar uma paisagem que guardamos viva, para lá do ilusório tempo da memória.
Nessa paisagem, Vergílio Ferreira aparece como um companheiro de viagem: a viagem de Édipo que como todo o ser humano repetimos, quando aceitamos enfrentar o desafio da Esfinge, relativamente à nossa condição.
Tal como Édipo, escutávamos a questão posta pela Esfinge. Mas, diferentemente dele, não tínhamos a resposta, segregada por certo pelos deuses, para que se cumprisse um destino já traçado. Restava-nos tactear no escuro, onde o diálogo por vezes iluminava as sombras...
Uma das mais gratas e comoventes recordações que guardo de Vergílio Ferreira é a seriedade do seu desejo de encontrar um Real mais profundo, que pressentia para além da superficialidade em que geralmente gastamos e destruímos as nossas vidas. E igualmente comovente para mim era a sua angústia velada perante um «espelho» que lhe não mostrava o Real que procurava, e em que parecia não ser capaz de penetrar."
[...]
O Vergílio gostava de repensar connosco algumas das modernas correntes do pensamento Ocidental. As minhas propostas de reflexão eram menos abstractas e mais vivenciais. Estavam sobretudo ligadas a uma Filosofia a que Aldous Huxley deu o nome, hoje consagrado de Filosofia Perene - uma sageza intemporal perpetuada quase sempre anonimamente por homens e mulheres em vários lugares da Terra e representada, por exemplo, por notáveis filósofos gregos (Pitágoras, Sócrates, Platão e outros), pela antiquíssima sageza conhecida como Theo-Sophia, por sages e místicos, ditos budistas, tauistas, hinduístas, judeus, cristãos, muçulmanos, etc, mas todos libertos de fronteiras, de dogmas e credos separando os homens.
Uma sageza - ensinamento nascido do autoconhecimento e da afeição - procurando libertar os seres humanos da ignorância de si mesmos que os acorrenta ao sofrimento.
Nos nossos dias, essa sageza adquire uma expressão particular com o filósofo-educador J. Krishnamurti, a cujo ensinamento Aldous Huxley se refere como «o que de mais impressionante já ouvi». E Henry Miller convida-nos também a «escutar» Krishnamurti, considerando-o como «um mestre da realidade».
Não só escritores e intelectuais de renome, mas também cientistas eminentes chamam a atenção para esta nova expressão, completamente independente e original, da Filosofia Perene, interessando-se vivamente pela investigação na consciência, realizada por Krishnamurti. Uma investigação que vai à raiz dos problemas humanos - a mente do homem. Uma mente com potencialidades imensas mas que está aprisionada numa rede de condicionamentos socioculturais que a tornam mecânica, insensibilizada, deformada - pelo hábito, o egoísmo, os preconceitos raciais, nacionalistas, etc. - o que causa enormes sofrimentos, miséria extrema, conflitos cada vez mais destruidores.
Daí a necessidade de uma revolução psicológica radical pelo autoconhecimento que, libertando a mente, a pode levar a funcionar numa dimensão totalmente diferente.
O físico Fritjof Capra, um dos cientistas interessados nesta pesquisa, diz: «Não posso deixar de reconhecer a influência decisiva que o ensinamento de Krishnamurti exerceu sobre mim». E outro desses cientistas, David Bohm, um dos grandes inovadores da Física moderna, salienta: «A obra de Krishnamurti está permeada por aquilo a que se pode chamar a essência da abordagem científica, quando esta é considerada na sua forma mais elevada e pura (...) A Proposta fundamental que ele apresenta é que todo o sofrimento e a enorme infelicidade que vemos existir por toda a parte têm a sua raiz num facto: a ignorância que temos de nós mesmos, da natureza dos nossos próprios processos de pensar».
A minha própria constatação desta realidade era a base da reflexão que gostava sempre de intriduzir no diálogo com o Vergílio, em face das sombras que frequentemente lhe habitavam o olhar. Sombras a que por vezes chamava de «dissonâncias» [...]
Devido à presença dessas sombras e para aprofundar a nossa reflexão no sentido de um percurso que poderia ser libertador, já alguns anos antes dos nossos últimos diálogos, lhe tinha dado para ler um livro de Krishnamurti - talvez A Primeira e Última Liberdade ou Libertar-se do Conhecido (no original, respectivamente, The First and Last Freedom e Freedom from the Known).
Era um proposta de uma surpreendente viagem interior, fora dos habituais padrões de pensamento em relação a nós mesmos. Uma viagem desafiando-nos à descoberta de uma nova dimensão da consciência, abandonando o fardo do passado, a «segurança» do conhecimento acumulado.
Mas o Vergílio, nesse tempo, estava ainda muito reticente à viagem. Ainda muito preso ao «conhecido», achou o livro tão fora dos trajectos de pensamento a que estava habituado e por isso tão «incómodo», que mo devolveu pouco depois, sem lhe ter dado verdadeira atenção. Sentia-se mais seguro preso às sombras, que lhe eram bem mais familiares...
Mas o desafio à viagem , pela qual, no fundo de si mesmo ansiava, estava apenas adiado... E abriu caminho por onde menos se poderá esperar...
Num dos nossos últimos encontros de Verão, fui encontrar o Vergílio e a Regina muito interessados em leituras sobre a Física moderna. Cientistas bem conhecidos como Jean Charon, Olivier Beauregard, além de Fritjof Capra, David Bohm e outros tinham considerado importante conceder entrevistas e escrever livros para o público interessado, informando sobre os novos horizontes da Física contemporânea.
Tratava-se de um assunto que também me era muito grato. Nesse Verão, eu tinha acabado de regressar de umas visitas que costumava fazer a uma das Escolas experimentais fundadas por Krishnamurti e também de conhecer o físico David Bohm (nessa altura Professor na Universidade de Londres).
Vários cientistas conhecidos participavam com Krishnamurti em seminários nessa Escola, altamente interessados na inovadora investigação na consciência que ele realizava. Além de físicos como David Bohm e Fritjof Capra, estavam presentes nesses seminários cientistas de renome como Rupert Sheldrake, Karl Pribam, Maurice Willkins, Jonas Salk (o criador da vacina contra a poliomielite) e outros.
Como eu regressara havia pouco tempo dessa Escola, o Vergílio mostrou muito interesse em saber algo sobre os seminários.
Os cientistas que procuravam Krishnamurti apreciavam muito o seu desafio à investigação e à descoberta.
Quer falasse para cientistas e intelectuais quer para o «homem comum», Krishnamurti abordava sempre com a mesma profunda simplicidade, a necessidade e também a dinâmica da transformação da mente - uma transformação que poderá trazer a urgente transformação da sociedade: porque a sociedade somos nós.
Dado que esse problema e a sua solução estão em nós, ele suscitava a autodescoberta, pondo-nos em face de nós mesmos, observando connosco a nossa realidade quotidiana: o sofrimento e o prazer, o conflito, o ciúme, o medo, a ambição, etc... E convidava-nos a olharmo-nos no espelho do nosso relacionamento (com as pessoas, com a Natureza, as coisas e as ideias) para que encontremos, por nós mesmos, uma compreensão do que realmente somos. Os cientistas estavam também particularmente interessados na pesquisa que ele fazia sobre a natureza do pensamento e seus limites - o que introduz o problema de descobrir se haverá algo para além dos limitados perímetros do pensamento e da linguagem. E aqui era particularmente relevante a investigação sobre a acção da inteligência e do insight (a percepção imediata e holística) na mutação da mente humana.
A intensidade desta pesquisa propiciava um percebimento do sentido da vida e da morte, da profundidade do silêncio, da meditação, da beleza, do Amor.
O Vergílio mostrou-se verdadeiramente tocado pela profundidade desta abordagem e também pelo interesse que os cientistas tinham por ela. Apercebia-se da grande convergência desta investigação com as suas leituras sobre a Física moderna.
Os cientistas que participavam nestes seminários com Krishnamurti caracterizavam-se, tal como ele, por uma visão holística. Assim, para eles, a compreensão do funcionamento da mente do homem é considerada indispensável para o estudo e a compreensão do Universo, dado que a mente é o «instrumento» fundamental para esse estudo e essa compreensão.
O físico Fritjof Capra diz-nos: «O físico, penetrando em estratos cada vez mais fundos da matéria, toma consciência da unidade essencial de todos os fenómenos e acontecimentos (...) aprende que ele próprio e a sua consciência são uma parte integrante desta Unidade».
Outros físicos, como Olivier Beauregard e Jean Charon mostram também que a Física mais avançada está em nítida convergência com as propostas da antiga Sageza, ao considerar o Universo, nas palavras de um deles, «uma totalidade orgânica, formando uma espécie de corpo cósmico que não é senão o nosso corpo, cuja realidade mais profunda, essencial, é de natureza espiritual». E talvez essa Realidade essencial, além de tudo, seja «o Intemporal», «o Imenso», a que alguns chamam Deus...
Apronfundámos assim a nossa reflexão sobre a Filosofia Perene que aponta para a Unidade de toda a Vida, considerando cada ser humano uma parte inseparável dessa Totalidade. Daí a percepção do carácter ilusório de um «eu» separado do resto do Universo. E, desta ilusão, desta ignorância da nossa verdadeira natureza, nasce a sensação e a angústia do isolamento, o egoísmo, o conflito, o medo, o sofrimento do homem.
Urgente se mostra portanto uma libertação da consciência, pela compreensão do que realmente somos e da nossa relação com o mundo.
Da necessidade dessa libertação se ia apercebendo o Vergílio. A sua sensibilidade acolhia agora menos hesitantemente o desafio proposto pela Filosofia Perene. Compreendia que não se tratava de um sistema de pensamento ou de crença, mas de um verdadeiro aprofundamento da consciência. Via também que a nossa pesquisa, com os dados científicos de que tínhamos conhecimento, poderia ser libertadora, dando-lhe pistas em relação às suas dúvidas e inquietações. E acima de tudo respondia à sua sede de transcendência, desbloqueando finalmente uma vivência nova, uma inocência reencontrada muito depois da infância... Aproximava-o da desejada passagem para lá do «espelho», que lhe mostrava apenas o lado de fora desta realidade - um conhecimento dos olhos que precisa de fundir-se com a sageza do coração...
E assim, naquela tarde, a última em que nos encontrámos, vimos no nosso amigo, num sorriso breve, quase feliz, uma aceitação de um outro norte, um abandonar das velhas conclusões que não traziam afinal qualquer resposta aos seus fundos problemas.
E não pude deixar de lhe dizer, saudando essa clareira na sua floresta de sombras, mas lamentando também o retardar da tranquilidade possível:
- Oh Vergílio, tudo afinal tão próximo da compreensão procurada... Se tivesse aceitado mais cedo o desafio da viagem, teria podido evitar tanta amargura, tanta inquietação...
E ele respondeu, com um sorriso entre humilde e afectuoso:
- Então eu não me posso enganar?...
Todos ficámos em silêncio.
O aroma dos pinheiros permeava a casa. Lá fora o Sol esmorecia...
Senti como que um halo de quietude a envolver-nos a todos.
Naquele reconhecimento do «engano» havia já uma viragem, uma promessa de aprofundamento do diálogo, numa abertura a novas «descobertas».
Mas o diálogo iria para sempre ficar inacabado... E não haveria mais necessidade de interrogações e de respostas...
Uma leve brisa, entrando pela janela entreaberta, trazia o som dos longes, afinal tão perto... Tão perto como a vida, tão perto como a morte, tão perto como o Amor.
E o pensamento, naturalmente aquietado, abria espaço a uma profundidade que desconhecíamos...
Nesse estado meditativo, desperto, nesse silêncio do pensamento e das palavras, todos nos sentíamos mais próximos...
Quando nos levantámos para nos despedir, podíamos sentir no amigo uma paz nova sublinhando o olhar...
Já com sérios problemas de saúde, a ideia da morte parecia não o atormentar. A ponto de, como diz a nossa amiga Regina, «ele se ter deixado morrer com um sorriso de verdadeira beatitude»...
Depois... só o Silêncio - que em nós fica habitando, além da onda regressada ao Mar...

in, In Memoriam de Vergílio Ferreira, Maria Joaquina Nobre Júlio (org.), Lisboa, Bertrand, 2003.

Quem precisa dum farol?


Por muito que se fale do amor e se escreva acerca dele até que as palavras se incendeiem e nos transportem para lá do habitual e do quotidiano, parece que se esquece que aquilo que, justa ou injustamente, chamamos quotidiano, o viver da proximidade e da tangência, resulta da forma como amamos ou não amamos. E é verdade que a moral pode ajudar a cercear as divagações, os desvios do comum e do sabido. Mas se acolhemos o imprevisível no âmago do que vivenciamos, as fronteiras e as estradas são estilhaços, o cenário duma fantasmagoria que abandonamos de livre vontade.

Hoje, por ser feriado, não pude ir à prisão dar a minha aula das Segundas-feiras. Nem sei se estas reflexões são partilháveis ou se a partilha delas será uma profanação, mas haverá sempre um leitor com coração e por enquanto a partilha parece-me importante.

Hoje, neste dia invernoso, o impacto do início do dia de trabalho teria sido, certamente, muito intenso. Lembro-me do amanhecer do dia em que dei a segunda aula na prisão, como me impressionou o caminhar abatido dos homens envoltos em bruma da primeira brigada, composta por aqueles que trabalham no complexo prisional. Caminhavam calados, de olhos no chão, acompanhados pelos guardas armados. Parecia que a esperança fora encorraçada daquele espaço penal. O que vale o ser humano? Por muito que queiramos arrumar a patência do si e da vida, vivida na sua concretude constritora, no caixote dos brinquedos inúteis, o que vale um ser humano?

Depois veio a brigada dos alunos da escola. Ainda havia nevoeiro e senti que tinha que fazer alguma coisa na aula para convocar o sol e a elevação para o centro da aula. Mas era difícil. As primeiras aulas foram um tímido arremedo das aulas a que me tenho habituado. Há olhares tristes que, se não nos agarrarmos com todas as forças à luz que vem de dentro, nos deixam vazios e gélidos, completamente vencidos pela melancolia.

Mas a Aula, encarada como espaço de liberdade e entrega, foi desabrochando semana a semana. Até se atingir um clímax, duas semanas atrás. Começo sempre com uma pequena divagação e naquela aula, não sei bem porquê, conduzi os alunos para um terreno pantanoso: a reflexão sobre a felicidade. As três horas seguintes foram, talvez, as mais intensas da minha vida...

A conversa começou, como é costume com as turmas de adolescentes, cada um foi falando da sua ideia de felicidade, sempre apontando para o futuro como o horizonte de conquista desse objectivo supremo. Eu fui sempre usando da ironia: o que é que os impede de serem felizes hoje? Aqui? Agora? Um aluno apontou para as grades do lado de fora das janelas e eu respondi-lhe que não via grades do lado de dentro. E aí o mais brusco e menos colaborante disparou: “e você, o que é a felicidade para si, não me vai dizer que é feliz...”

Eu respondi-lhe: “É claro que sou feliz!”

- “Então, tem tudo o que quer?”, respondeu rindo em tom de desafio.

- “Não tenho nada do que não quero e acho que isso já me ajuda em muito”. Isto fez com que o brutamontes, sempre com um sorriso trocista, dissesse entre dentes: “Já vi tudo, você já está pronto para arrumar as botas, que idade tem?”

À minha resposta informou-me que tem menos uma década do que eu, mas que ainda lhe falta fazer muita coisa na vida e que não estava pronto para morrer e nem o estaria quando chegasse à minha idade. Eu disse-lhe que a felicidade talvez não tivesse nada a ver com coisas que se podem fazer, ou não, na vida e que poderíamos ser felizes, alcançássemos, ou não, os nossos objectivos.

- Então diga lá qual é o seu conceito de felicidade...

É. Eu não tenho um conceito de felicidade. “Toda a gente tem um, você está para aí a falar, a falar só para gozar com a nossa cara... diga lá qual é o seu conceito de felicidade.”

Perante a risota geral, mesmo dos rostos mais tristes que me deixaram apreensivo ao longo das aulas anteriores, eu disse: “vocês estão a ser fedorentos sem gato!” e lembrei-lhes a história do camponês em frente da lei do texto de Kafka que deixou meia turma pensativa na aula anterior. Que importa termos muitas coisas ou fazermos muitas coisas, se não acabarmos com a nossa insatisfação? E se, tal como acontece com o camponês que tinha uma porta da lei só para ele, mas só o soube no fim da vida, nós tivermos uma vida toda para nós? De que é que podemos usufruir para além da nossa vida? Por isso a nossa vida parece-nos o que há de mais precioso, porque é que não poderá ser isso a dar sentido às coisas e aos acontecimentos por que passamos?

E nisto ouviu-se uma voz que me cortou o fio ao raciocínio:

- E se só levámos porrada? O professor já alguma vez comeu sopa com os dentes partidos, com o sabor da sopa e do sangue misturados? Com dez anos?

Não. É claro que não. Essa é uma experiência sua, João. O João deu sentido a esta interpelação na aula da semana passada quando dei à turma uma tarefa “perigosa”: cada um iria escrever uma carta à pessoa a quem mais odiasse. O João, um menino de trinta e poucos anos, escreveu uma carta ao padrasto. Costuma ser dos últimos a acabar as tarefas, desta vez foi o primeiro: uma folha A4 que me foi entregue por uma mão trémula e naqueles olhos acesos percebi o sofrimento e autenticidade daquela prova. Tem uma infância terrível o João. “Foste tu quem me pôs aqui, correste comigo do amor da minha mãe, fizeste-me mau e agressivo, deste-me tanta porrada...”. “Sabes o que me apetecia fazer contigo? Nem imagines...”.

Mas o mais interessante da carta é a frase: “roubaste-me tudo, seu porco, mas não vais roubar-me uma coisa: não me vais impedir de ser feliz.”

Quando li isto fiquei na dúvida se deveria dar continuidade à actividade. Mas... E, na posse das cartas, informei a turma de que agora cada um deveria colocar-se no lugar do destinatário da carta e responder. Houve muita agitação, um aluno disse-me que eu não sabia o que estava a provocar. O João perguntou-me: “e se essa pessoa já morreu?” Eu respondi-lhe que o ódio tem o condão de ressuscitar qualquer morto, pelo que seria fácil escrever a carta. E o João escreveu. Poucas linhas, algo assim: “não quero que me perdoes, sei que te fiz muito mal, mas deixa-me arder em paz no inferno.”

Mas, voltemos à aula sobre a felicidade. O que é que se pode responder ao João? Foi aí que peguei numa ficha sobre Etty Hilessum que e eu trazia dentro da minha pasta desde a primeira aula, à espera dum momento propício. O João começou a ler os textos. A minha colega das aulas de 5ª-feira passara o filme “A vida é bela” e o João estudou o fascismo, tendo ficado muito impressionado com o anti-semitismo. As palavras de Etty comoveram-no. E, contrariamente ao que é costume, quis ler os textos em voz alta.


"Acredito verdadeiramente que é possível criar, mesmo sem jamais ter escrito uma palavra ou pintado um quadro, apenas moldando a nossa vida interior. E isso também é uma proeza." |Etty Hillesu


O João é uma obra de arte... Enoja-me a imbecilidade, a tendência para discriminar, para distinguir e julgar os homens. Não há homens superiores, apenas a superioridade de ser homem, ou cão, ou formiga, não estou a ser antropolátrico, se manifesta de formas muito estranhas, por vezes quase invisíveis. Cada vida é um alvor incontível. E nada de lançar cinzentismos ou qualquer forma de cloro conceptual sobre a mirífica paleta que se abre aos olhos do coração quando queremos ver o que há. Se queremos ver, vemos. Não é João?

Ora, tudo isto desemboca no amor. Só quem ama se liberta da necessidade de vir a ser isto ou aquilo. A criatividade mais pura...

E isto já tinha ecoado nas quatro paredes daquela sala com grades por fora, logo na primeira aula. Duma forma quase descabida disse aos alunos que todos éramos capazes de fazer milagres, de criarmos amando, de sermos para lá do feito e do consumado. E quando perguntei se alguém ali já tinha feito um milagre, um vozeirão respondeu no fundo da sala:

- Eu já, a minha filha!

Eu respondi-lhe que não lhe devia ter custado nada fazer esse milagre, o que arrancou a seguinte tirada do colega do lado do dono do vozeirão que provocou o riso geral: “custou-lhe uma dor de costas!”


"Sei do grande sofrimento humano que se vai acumulando, sei das perseguições e da opressão… Sei de tudo isso e continuo a enfrentar cada pedaço de realidade que se me impõe. E num momento inesperado, abandonada a mim própria — encontro-me de repente encostada ao peito nu da Vida e os braços dela são muito macios e envolvem-me, e nem sequer consigo descrever o bater do seu coração: tão fiel como se nunca mais findasse…" |Etty Hillesum


A aceitação! Só vive mesmo quem aceita a vida. Só tem mérito quem se merece e só se merece quem aceita, incondicionamente, a si próprio e aos outros. A aceitação! Esta palavra, como eu esperava, incendiou a aula. Mas duma forma que eu não imaginara.

O joão continuava a ler as palavras de Etty:


Nova certeza: que querem o nosso extermínio. Também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Esta certeza não vai ser corroída ou invalidada pela outra. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade, e eu aceito tudo como uma unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente para mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém, como é que as coisas são.” |Etty Hillesum


A leitura deste excerto do Diário provocou uma reacção muito enérgica dos alunos de origem africana: “aceitação?! Temos que aceitar o racismo?!”. Tinham ficado chocados com uma reportagem dum telejornal sobre o racismo. Perguntaram-me se se poderia aceitar a acção do branco que tinha agredido um menino negro que ocupava um baloiço para que o seu filho pudesse andar no baloiço. Ao reagir a mãe do menino fora também agredida. A revolta dos meus alunos explodiu ali bem à minha frente. O que tem esta terra de especial para a considerarmos razão suficiente para a discriminação? Nascer aqui, ou além, qual a diferença? E tudo jorrou cá para fora: o racismo inerente ao sistema prisional (na perspectiva dos condenados), a discriminação que existe mesmo na escola primária: o Duarte diz que se alguém lhe tivesse dado a mão na escola não teria ido parar à prisão com 16 anos. Era preto, era natural ser bandido. Toda a gente achou natural e inevitável. A prisão é só para alguns.

A revolta dos meus alunos, que já não conseguiam sequer estar sentados enquanto desabafavam, levava a que me bombardeassem com a pergunta: “acha bem?!” Eu apenas respondia: “vocês acha bem? Então porque é que eu haveria de achar bem?”

A dada altura o aluno mais revoltado deu-se conta de que eu ainda não os tinha “mandado” calar. Eu perguntei-lhe porque é que ele dizia isso e respondeu-me: “É o que toda a gente faz connosco, mas já estamos há mais de uma hora a falar.”

- E professor, eu cresci nas barracas, fui atirado para um bairro social longe de tudo, fui apontado a dedo, maltratado...

E eu:

- De onde onde julgam que eu venho?

E contei-lhes as minhas origens e de que elas não me impedem de ver que todos os homens são dignos da mais alta consideração e que ninguém é mais ou menos do que ninguém...

- Então o professor compreende-nos! - E vi duas lágrimas a correr naquela cara exaltada e dura. - Agora sei porque é que o professor nos olha nos olhos e está aqui connosco...

E alguém lembrou as minhas primeiras palavras, na primeira aula. Esse alguém acabou por confessar que na primeira aula ficou com a convicção de que eu era maluco.

Essas primeiras palavras foram: os muros da prisão têm dois lados, vocês estão presos deste lado, as outras pessoas estão presas do outro lado. A grande diferença entre “cá dentro” e “lá fora” é que lá fora há muito mais criminosos do que cá dentro. As pessoas lá de fora julgam-se diferentes e melhores do que vós, essa é a sua prisão. O que eu gostava era que vocês se libertassem da prisão de cá de dentro e lá de fora.

Quando saírem e se sentirem discriminados, encarem isso como o resultado da prisão lá de fora. Muitas pessoas querem-se sentir melhores do que os outros, apontam o dedo aos que “falharam”. A melhor reacção que podemos ter perante os outros não é o moralismo, mas a aproximação. E isso começa com os que nos são próximos: todos precisam de ser amados, se um amigo não se mostrar conforme aos nossos padrões morais o que merece mais respeito e amor é o nosso amigo e não os nossos padrões morais, quem sabe se o seu abismo não está apenas no distanciamento que colocamos entre nós e ele? Quem pode cair no abismo do amor e magoar-se?

Da minha parte... nunca o servilismo ou a subserviência. Nem a dúvida sobre se vale a pena amar, mesmo que o deserto esconda a visão das flores.

E sobre o racismo, enfim, disse que estava muito triste porque os porcos dos racistas estavam a ganhar. Eram mesmo melhores do que os meus alunos, porque conseguiram vencê-los e tomar conta do seu coração e envenenar cada um dos seus dias. O toque impediu mais desenvolvimentos, mas o futuro promete.

A minha vida já mudou por causa disto. Que mais se seguirá?


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Dança...




dança d'eternidade...o percurso da minha efemeridade

De olhos fechados


Não sei se a alma do tempo é uma floresta escura. Mas sei que às vezes há névoa nas palavras que morrem na boca dos vivos. Nessa névoa densa quem por ninguém chama? A que altar se erguem as mãos dos ausentes da sua mesma ausência? A que ouvidos chegam os ecos surdos de nenhuma palavra? Dizem que brotam de nenhum lugar as flores sem tempo! de onde nascem, então, as sombras dos peregrinos do crepúsculo? De que paisagens se despedem os olhos, se o coração é deserto? Que beleza do mundo se revela, se a não cria o pensamento e a palavra que de si mesma despe a sua dupla nudez? Há uma passagem secreta entre instantes em que a realidade é e não é. É uma passagem estreita, um vórtice, uma direcção sem referência, inextensa e superiormente existente. Onde vivem e de que se alimentam essas palavras, flores de mortalha, ecos de nenhuma voz? O coração deserto é uma língua de fogo. Aturdidos os pássaros chegam à boca do silêncio. Não se levantam as folhas, porque não há vento, e os livros apagados têm as páginas coladas. As coisas fechadas em si mesmas ainda estão por nascer. Dormem as estátuas dos jardins e os quatro anjos seguram as quatro portas seladas. O tempo desligado da memória do ser não tem saída para fora de si. Deus não cria fora da sua morte e o homem morre eternamente na sua criação.

arames de luz farpada