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terça-feira, 14 de setembro de 2010
"Deus espera imóvel no meu sangue o instante de erguer a mão"
"Porque o que nos pertence não é a manhã, a verdade solar, mas o reino incerto da sombra. O que nos pertence é o vazio. Tão longe, porém, do que já foi habitado, que é quase o vazio do universo, antes do primeiro dia da criação. Deus espera imóvel no meu sangue o instante de erguer a mão"
- Vergílio Ferreira, Invocação ao meu corpo.
- Vergílio Ferreira, Invocação ao meu corpo.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
"Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"
"Um homem novo recria-se-me na transparência do seu ser. Sinto-o leve e lúcido, instantâneo e incandescente, por entre as cinzas que o fogo deixou. Frente à noite que submergiu os homens e as coisas, frente à anulação da vida transaccionável e plausível, na recuperação deste início do mundo, o homem primordial que em mim sobe tem a face atónita de uma primeira interrogação.
[...]
A invenção de um novo mundo não é uma invenção de ninguém. Não está na nossa mão criá-lo; está só, quando muito, ajudar ao seu parto. E todavia - sabemo-lo bem - é em nós que ele se gera; mas tão longe donde estamos, que só já quando irrevogável o sabemos. Um mundo acontece na escolha indeterminável de nós. Assim pois, testemunhas apenas à superfície desse acto de criação, instrumentos que se ignoram para a grande obra invisível, anterior à obra visível, nós cumprimos sempre as ordens que ninguém deu e não as pudemos pois discutir. [...]
[...] Frente ao grande sono dos homens que o esqueceram, na atenção inexorável ao sem limite de mim, a minha vigília arde como um fogo assassino. É um fogo alto e poderoso. Lume breve na minha intimidade, na brevidade de um pequeno ser, eu, anónimo e avulso, ocasional e frágil - eu. E todavia, esse lume vibra de vigor, brilha único e intenso contra o assalto da noite. Trago em mim a força monstruosa de interrogar, mais força que a força de uma pergunta. Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"
- Vergílio Ferreira, Invocação ao Meu Corpo, Lisboa, Bertrand, 1994, 3ª edição, pp.13-15.
[...]
A invenção de um novo mundo não é uma invenção de ninguém. Não está na nossa mão criá-lo; está só, quando muito, ajudar ao seu parto. E todavia - sabemo-lo bem - é em nós que ele se gera; mas tão longe donde estamos, que só já quando irrevogável o sabemos. Um mundo acontece na escolha indeterminável de nós. Assim pois, testemunhas apenas à superfície desse acto de criação, instrumentos que se ignoram para a grande obra invisível, anterior à obra visível, nós cumprimos sempre as ordens que ninguém deu e não as pudemos pois discutir. [...]
[...] Frente ao grande sono dos homens que o esqueceram, na atenção inexorável ao sem limite de mim, a minha vigília arde como um fogo assassino. É um fogo alto e poderoso. Lume breve na minha intimidade, na brevidade de um pequeno ser, eu, anónimo e avulso, ocasional e frágil - eu. E todavia, esse lume vibra de vigor, brilha único e intenso contra o assalto da noite. Trago em mim a força monstruosa de interrogar, mais força que a força de uma pergunta. Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"
- Vergílio Ferreira, Invocação ao Meu Corpo, Lisboa, Bertrand, 1994, 3ª edição, pp.13-15.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Lusofonia, o desafio da Viagem, a verdadeira Revolução
Excerto do "Diálogo Inacabado", de Maria Beatriz Serpa Branco
Recordar um amigo é como contemplar uma paisagem que guardamos viva, para lá do ilusório tempo da memória.
Nessa paisagem, Vergílio Ferreira aparece como um companheiro de viagem: a viagem de Édipo que como todo o ser humano repetimos, quando aceitamos enfrentar o desafio da Esfinge, relativamente à nossa condição.
Tal como Édipo, escutávamos a questão posta pela Esfinge. Mas, diferentemente dele, não tínhamos a resposta, segregada por certo pelos deuses, para que se cumprisse um destino já traçado. Restava-nos tactear no escuro, onde o diálogo por vezes iluminava as sombras...
Uma das mais gratas e comoventes recordações que guardo de Vergílio Ferreira é a seriedade do seu desejo de encontrar um Real mais profundo, que pressentia para além da superficialidade em que geralmente gastamos e destruímos as nossas vidas. E igualmente comovente para mim era a sua angústia velada perante um «espelho» que lhe não mostrava o Real que procurava, e em que parecia não ser capaz de penetrar."
[...]
O Vergílio gostava de repensar connosco algumas das modernas correntes do pensamento Ocidental. As minhas propostas de reflexão eram menos abstractas e mais vivenciais. Estavam sobretudo ligadas a uma Filosofia a que Aldous Huxley deu o nome, hoje consagrado de Filosofia Perene - uma sageza intemporal perpetuada quase sempre anonimamente por homens e mulheres em vários lugares da Terra e representada, por exemplo, por notáveis filósofos gregos (Pitágoras, Sócrates, Platão e outros), pela antiquíssima sageza conhecida como Theo-Sophia, por sages e místicos, ditos budistas, tauistas, hinduístas, judeus, cristãos, muçulmanos, etc, mas todos libertos de fronteiras, de dogmas e credos separando os homens.
Uma sageza - ensinamento nascido do autoconhecimento e da afeição - procurando libertar os seres humanos da ignorância de si mesmos que os acorrenta ao sofrimento.
Nos nossos dias, essa sageza adquire uma expressão particular com o filósofo-educador J. Krishnamurti, a cujo ensinamento Aldous Huxley se refere como «o que de mais impressionante já ouvi». E Henry Miller convida-nos também a «escutar» Krishnamurti, considerando-o como «um mestre da realidade».
Não só escritores e intelectuais de renome, mas também cientistas eminentes chamam a atenção para esta nova expressão, completamente independente e original, da Filosofia Perene, interessando-se vivamente pela investigação na consciência, realizada por Krishnamurti. Uma investigação que vai à raiz dos problemas humanos - a mente do homem. Uma mente com potencialidades imensas mas que está aprisionada numa rede de condicionamentos socioculturais que a tornam mecânica, insensibilizada, deformada - pelo hábito, o egoísmo, os preconceitos raciais, nacionalistas, etc. - o que causa enormes sofrimentos, miséria extrema, conflitos cada vez mais destruidores.
Daí a necessidade de uma revolução psicológica radical pelo autoconhecimento que, libertando a mente, a pode levar a funcionar numa dimensão totalmente diferente.
O físico Fritjof Capra, um dos cientistas interessados nesta pesquisa, diz: «Não posso deixar de reconhecer a influência decisiva que o ensinamento de Krishnamurti exerceu sobre mim». E outro desses cientistas, David Bohm, um dos grandes inovadores da Física moderna, salienta: «A obra de Krishnamurti está permeada por aquilo a que se pode chamar a essência da abordagem científica, quando esta é considerada na sua forma mais elevada e pura (...) A Proposta fundamental que ele apresenta é que todo o sofrimento e a enorme infelicidade que vemos existir por toda a parte têm a sua raiz num facto: a ignorância que temos de nós mesmos, da natureza dos nossos próprios processos de pensar».
A minha própria constatação desta realidade era a base da reflexão que gostava sempre de intriduzir no diálogo com o Vergílio, em face das sombras que frequentemente lhe habitavam o olhar. Sombras a que por vezes chamava de «dissonâncias» [...]
Devido à presença dessas sombras e para aprofundar a nossa reflexão no sentido de um percurso que poderia ser libertador, já alguns anos antes dos nossos últimos diálogos, lhe tinha dado para ler um livro de Krishnamurti - talvez A Primeira e Última Liberdade ou Libertar-se do Conhecido (no original, respectivamente, The First and Last Freedom e Freedom from the Known).
Era um proposta de uma surpreendente viagem interior, fora dos habituais padrões de pensamento em relação a nós mesmos. Uma viagem desafiando-nos à descoberta de uma nova dimensão da consciência, abandonando o fardo do passado, a «segurança» do conhecimento acumulado.
Mas o Vergílio, nesse tempo, estava ainda muito reticente à viagem. Ainda muito preso ao «conhecido», achou o livro tão fora dos trajectos de pensamento a que estava habituado e por isso tão «incómodo», que mo devolveu pouco depois, sem lhe ter dado verdadeira atenção. Sentia-se mais seguro preso às sombras, que lhe eram bem mais familiares...
Mas o desafio à viagem , pela qual, no fundo de si mesmo ansiava, estava apenas adiado... E abriu caminho por onde menos se poderá esperar...
Num dos nossos últimos encontros de Verão, fui encontrar o Vergílio e a Regina muito interessados em leituras sobre a Física moderna. Cientistas bem conhecidos como Jean Charon, Olivier Beauregard, além de Fritjof Capra, David Bohm e outros tinham considerado importante conceder entrevistas e escrever livros para o público interessado, informando sobre os novos horizontes da Física contemporânea.
Tratava-se de um assunto que também me era muito grato. Nesse Verão, eu tinha acabado de regressar de umas visitas que costumava fazer a uma das Escolas experimentais fundadas por Krishnamurti e também de conhecer o físico David Bohm (nessa altura Professor na Universidade de Londres).
Vários cientistas conhecidos participavam com Krishnamurti em seminários nessa Escola, altamente interessados na inovadora investigação na consciência que ele realizava. Além de físicos como David Bohm e Fritjof Capra, estavam presentes nesses seminários cientistas de renome como Rupert Sheldrake, Karl Pribam, Maurice Willkins, Jonas Salk (o criador da vacina contra a poliomielite) e outros.
Como eu regressara havia pouco tempo dessa Escola, o Vergílio mostrou muito interesse em saber algo sobre os seminários.
Os cientistas que procuravam Krishnamurti apreciavam muito o seu desafio à investigação e à descoberta.
Quer falasse para cientistas e intelectuais quer para o «homem comum», Krishnamurti abordava sempre com a mesma profunda simplicidade, a necessidade e também a dinâmica da transformação da mente - uma transformação que poderá trazer a urgente transformação da sociedade: porque a sociedade somos nós.
Dado que esse problema e a sua solução estão em nós, ele suscitava a autodescoberta, pondo-nos em face de nós mesmos, observando connosco a nossa realidade quotidiana: o sofrimento e o prazer, o conflito, o ciúme, o medo, a ambição, etc... E convidava-nos a olharmo-nos no espelho do nosso relacionamento (com as pessoas, com a Natureza, as coisas e as ideias) para que encontremos, por nós mesmos, uma compreensão do que realmente somos. Os cientistas estavam também particularmente interessados na pesquisa que ele fazia sobre a natureza do pensamento e seus limites - o que introduz o problema de descobrir se haverá algo para além dos limitados perímetros do pensamento e da linguagem. E aqui era particularmente relevante a investigação sobre a acção da inteligência e do insight (a percepção imediata e holística) na mutação da mente humana.
A intensidade desta pesquisa propiciava um percebimento do sentido da vida e da morte, da profundidade do silêncio, da meditação, da beleza, do Amor.
O Vergílio mostrou-se verdadeiramente tocado pela profundidade desta abordagem e também pelo interesse que os cientistas tinham por ela. Apercebia-se da grande convergência desta investigação com as suas leituras sobre a Física moderna.
Os cientistas que participavam nestes seminários com Krishnamurti caracterizavam-se, tal como ele, por uma visão holística. Assim, para eles, a compreensão do funcionamento da mente do homem é considerada indispensável para o estudo e a compreensão do Universo, dado que a mente é o «instrumento» fundamental para esse estudo e essa compreensão.
O físico Fritjof Capra diz-nos: «O físico, penetrando em estratos cada vez mais fundos da matéria, toma consciência da unidade essencial de todos os fenómenos e acontecimentos (...) aprende que ele próprio e a sua consciência são uma parte integrante desta Unidade».
Outros físicos, como Olivier Beauregard e Jean Charon mostram também que a Física mais avançada está em nítida convergência com as propostas da antiga Sageza, ao considerar o Universo, nas palavras de um deles, «uma totalidade orgânica, formando uma espécie de corpo cósmico que não é senão o nosso corpo, cuja realidade mais profunda, essencial, é de natureza espiritual». E talvez essa Realidade essencial, além de tudo, seja «o Intemporal», «o Imenso», a que alguns chamam Deus...
Apronfundámos assim a nossa reflexão sobre a Filosofia Perene que aponta para a Unidade de toda a Vida, considerando cada ser humano uma parte inseparável dessa Totalidade. Daí a percepção do carácter ilusório de um «eu» separado do resto do Universo. E, desta ilusão, desta ignorância da nossa verdadeira natureza, nasce a sensação e a angústia do isolamento, o egoísmo, o conflito, o medo, o sofrimento do homem.
Urgente se mostra portanto uma libertação da consciência, pela compreensão do que realmente somos e da nossa relação com o mundo.
Da necessidade dessa libertação se ia apercebendo o Vergílio. A sua sensibilidade acolhia agora menos hesitantemente o desafio proposto pela Filosofia Perene. Compreendia que não se tratava de um sistema de pensamento ou de crença, mas de um verdadeiro aprofundamento da consciência. Via também que a nossa pesquisa, com os dados científicos de que tínhamos conhecimento, poderia ser libertadora, dando-lhe pistas em relação às suas dúvidas e inquietações. E acima de tudo respondia à sua sede de transcendência, desbloqueando finalmente uma vivência nova, uma inocência reencontrada muito depois da infância... Aproximava-o da desejada passagem para lá do «espelho», que lhe mostrava apenas o lado de fora desta realidade - um conhecimento dos olhos que precisa de fundir-se com a sageza do coração...
E assim, naquela tarde, a última em que nos encontrámos, vimos no nosso amigo, num sorriso breve, quase feliz, uma aceitação de um outro norte, um abandonar das velhas conclusões que não traziam afinal qualquer resposta aos seus fundos problemas.
E não pude deixar de lhe dizer, saudando essa clareira na sua floresta de sombras, mas lamentando também o retardar da tranquilidade possível:
- Oh Vergílio, tudo afinal tão próximo da compreensão procurada... Se tivesse aceitado mais cedo o desafio da viagem, teria podido evitar tanta amargura, tanta inquietação...
E ele respondeu, com um sorriso entre humilde e afectuoso:
- Então eu não me posso enganar?...
Todos ficámos em silêncio.
O aroma dos pinheiros permeava a casa. Lá fora o Sol esmorecia...
Senti como que um halo de quietude a envolver-nos a todos.
Naquele reconhecimento do «engano» havia já uma viragem, uma promessa de aprofundamento do diálogo, numa abertura a novas «descobertas».
Mas o diálogo iria para sempre ficar inacabado... E não haveria mais necessidade de interrogações e de respostas...
Uma leve brisa, entrando pela janela entreaberta, trazia o som dos longes, afinal tão perto... Tão perto como a vida, tão perto como a morte, tão perto como o Amor.
E o pensamento, naturalmente aquietado, abria espaço a uma profundidade que desconhecíamos...
Nesse estado meditativo, desperto, nesse silêncio do pensamento e das palavras, todos nos sentíamos mais próximos...
Quando nos levantámos para nos despedir, podíamos sentir no amigo uma paz nova sublinhando o olhar...
Já com sérios problemas de saúde, a ideia da morte parecia não o atormentar. A ponto de, como diz a nossa amiga Regina, «ele se ter deixado morrer com um sorriso de verdadeira beatitude»...
Depois... só o Silêncio - que em nós fica habitando, além da onda regressada ao Mar...
in, In Memoriam de Vergílio Ferreira, Maria Joaquina Nobre Júlio (org.), Lisboa, Bertrand, 2003.
Recordar um amigo é como contemplar uma paisagem que guardamos viva, para lá do ilusório tempo da memória.
Nessa paisagem, Vergílio Ferreira aparece como um companheiro de viagem: a viagem de Édipo que como todo o ser humano repetimos, quando aceitamos enfrentar o desafio da Esfinge, relativamente à nossa condição.
Tal como Édipo, escutávamos a questão posta pela Esfinge. Mas, diferentemente dele, não tínhamos a resposta, segregada por certo pelos deuses, para que se cumprisse um destino já traçado. Restava-nos tactear no escuro, onde o diálogo por vezes iluminava as sombras...
Uma das mais gratas e comoventes recordações que guardo de Vergílio Ferreira é a seriedade do seu desejo de encontrar um Real mais profundo, que pressentia para além da superficialidade em que geralmente gastamos e destruímos as nossas vidas. E igualmente comovente para mim era a sua angústia velada perante um «espelho» que lhe não mostrava o Real que procurava, e em que parecia não ser capaz de penetrar."
[...]
O Vergílio gostava de repensar connosco algumas das modernas correntes do pensamento Ocidental. As minhas propostas de reflexão eram menos abstractas e mais vivenciais. Estavam sobretudo ligadas a uma Filosofia a que Aldous Huxley deu o nome, hoje consagrado de Filosofia Perene - uma sageza intemporal perpetuada quase sempre anonimamente por homens e mulheres em vários lugares da Terra e representada, por exemplo, por notáveis filósofos gregos (Pitágoras, Sócrates, Platão e outros), pela antiquíssima sageza conhecida como Theo-Sophia, por sages e místicos, ditos budistas, tauistas, hinduístas, judeus, cristãos, muçulmanos, etc, mas todos libertos de fronteiras, de dogmas e credos separando os homens.
Uma sageza - ensinamento nascido do autoconhecimento e da afeição - procurando libertar os seres humanos da ignorância de si mesmos que os acorrenta ao sofrimento.
Nos nossos dias, essa sageza adquire uma expressão particular com o filósofo-educador J. Krishnamurti, a cujo ensinamento Aldous Huxley se refere como «o que de mais impressionante já ouvi». E Henry Miller convida-nos também a «escutar» Krishnamurti, considerando-o como «um mestre da realidade».
Não só escritores e intelectuais de renome, mas também cientistas eminentes chamam a atenção para esta nova expressão, completamente independente e original, da Filosofia Perene, interessando-se vivamente pela investigação na consciência, realizada por Krishnamurti. Uma investigação que vai à raiz dos problemas humanos - a mente do homem. Uma mente com potencialidades imensas mas que está aprisionada numa rede de condicionamentos socioculturais que a tornam mecânica, insensibilizada, deformada - pelo hábito, o egoísmo, os preconceitos raciais, nacionalistas, etc. - o que causa enormes sofrimentos, miséria extrema, conflitos cada vez mais destruidores.
Daí a necessidade de uma revolução psicológica radical pelo autoconhecimento que, libertando a mente, a pode levar a funcionar numa dimensão totalmente diferente.
O físico Fritjof Capra, um dos cientistas interessados nesta pesquisa, diz: «Não posso deixar de reconhecer a influência decisiva que o ensinamento de Krishnamurti exerceu sobre mim». E outro desses cientistas, David Bohm, um dos grandes inovadores da Física moderna, salienta: «A obra de Krishnamurti está permeada por aquilo a que se pode chamar a essência da abordagem científica, quando esta é considerada na sua forma mais elevada e pura (...) A Proposta fundamental que ele apresenta é que todo o sofrimento e a enorme infelicidade que vemos existir por toda a parte têm a sua raiz num facto: a ignorância que temos de nós mesmos, da natureza dos nossos próprios processos de pensar».
A minha própria constatação desta realidade era a base da reflexão que gostava sempre de intriduzir no diálogo com o Vergílio, em face das sombras que frequentemente lhe habitavam o olhar. Sombras a que por vezes chamava de «dissonâncias» [...]
Devido à presença dessas sombras e para aprofundar a nossa reflexão no sentido de um percurso que poderia ser libertador, já alguns anos antes dos nossos últimos diálogos, lhe tinha dado para ler um livro de Krishnamurti - talvez A Primeira e Última Liberdade ou Libertar-se do Conhecido (no original, respectivamente, The First and Last Freedom e Freedom from the Known).
Era um proposta de uma surpreendente viagem interior, fora dos habituais padrões de pensamento em relação a nós mesmos. Uma viagem desafiando-nos à descoberta de uma nova dimensão da consciência, abandonando o fardo do passado, a «segurança» do conhecimento acumulado.
Mas o Vergílio, nesse tempo, estava ainda muito reticente à viagem. Ainda muito preso ao «conhecido», achou o livro tão fora dos trajectos de pensamento a que estava habituado e por isso tão «incómodo», que mo devolveu pouco depois, sem lhe ter dado verdadeira atenção. Sentia-se mais seguro preso às sombras, que lhe eram bem mais familiares...
Mas o desafio à viagem , pela qual, no fundo de si mesmo ansiava, estava apenas adiado... E abriu caminho por onde menos se poderá esperar...
Num dos nossos últimos encontros de Verão, fui encontrar o Vergílio e a Regina muito interessados em leituras sobre a Física moderna. Cientistas bem conhecidos como Jean Charon, Olivier Beauregard, além de Fritjof Capra, David Bohm e outros tinham considerado importante conceder entrevistas e escrever livros para o público interessado, informando sobre os novos horizontes da Física contemporânea.
Tratava-se de um assunto que também me era muito grato. Nesse Verão, eu tinha acabado de regressar de umas visitas que costumava fazer a uma das Escolas experimentais fundadas por Krishnamurti e também de conhecer o físico David Bohm (nessa altura Professor na Universidade de Londres).
Vários cientistas conhecidos participavam com Krishnamurti em seminários nessa Escola, altamente interessados na inovadora investigação na consciência que ele realizava. Além de físicos como David Bohm e Fritjof Capra, estavam presentes nesses seminários cientistas de renome como Rupert Sheldrake, Karl Pribam, Maurice Willkins, Jonas Salk (o criador da vacina contra a poliomielite) e outros.
Como eu regressara havia pouco tempo dessa Escola, o Vergílio mostrou muito interesse em saber algo sobre os seminários.
Os cientistas que procuravam Krishnamurti apreciavam muito o seu desafio à investigação e à descoberta.
Quer falasse para cientistas e intelectuais quer para o «homem comum», Krishnamurti abordava sempre com a mesma profunda simplicidade, a necessidade e também a dinâmica da transformação da mente - uma transformação que poderá trazer a urgente transformação da sociedade: porque a sociedade somos nós.
Dado que esse problema e a sua solução estão em nós, ele suscitava a autodescoberta, pondo-nos em face de nós mesmos, observando connosco a nossa realidade quotidiana: o sofrimento e o prazer, o conflito, o ciúme, o medo, a ambição, etc... E convidava-nos a olharmo-nos no espelho do nosso relacionamento (com as pessoas, com a Natureza, as coisas e as ideias) para que encontremos, por nós mesmos, uma compreensão do que realmente somos. Os cientistas estavam também particularmente interessados na pesquisa que ele fazia sobre a natureza do pensamento e seus limites - o que introduz o problema de descobrir se haverá algo para além dos limitados perímetros do pensamento e da linguagem. E aqui era particularmente relevante a investigação sobre a acção da inteligência e do insight (a percepção imediata e holística) na mutação da mente humana.
A intensidade desta pesquisa propiciava um percebimento do sentido da vida e da morte, da profundidade do silêncio, da meditação, da beleza, do Amor.
O Vergílio mostrou-se verdadeiramente tocado pela profundidade desta abordagem e também pelo interesse que os cientistas tinham por ela. Apercebia-se da grande convergência desta investigação com as suas leituras sobre a Física moderna.
Os cientistas que participavam nestes seminários com Krishnamurti caracterizavam-se, tal como ele, por uma visão holística. Assim, para eles, a compreensão do funcionamento da mente do homem é considerada indispensável para o estudo e a compreensão do Universo, dado que a mente é o «instrumento» fundamental para esse estudo e essa compreensão.
O físico Fritjof Capra diz-nos: «O físico, penetrando em estratos cada vez mais fundos da matéria, toma consciência da unidade essencial de todos os fenómenos e acontecimentos (...) aprende que ele próprio e a sua consciência são uma parte integrante desta Unidade».
Outros físicos, como Olivier Beauregard e Jean Charon mostram também que a Física mais avançada está em nítida convergência com as propostas da antiga Sageza, ao considerar o Universo, nas palavras de um deles, «uma totalidade orgânica, formando uma espécie de corpo cósmico que não é senão o nosso corpo, cuja realidade mais profunda, essencial, é de natureza espiritual». E talvez essa Realidade essencial, além de tudo, seja «o Intemporal», «o Imenso», a que alguns chamam Deus...
Apronfundámos assim a nossa reflexão sobre a Filosofia Perene que aponta para a Unidade de toda a Vida, considerando cada ser humano uma parte inseparável dessa Totalidade. Daí a percepção do carácter ilusório de um «eu» separado do resto do Universo. E, desta ilusão, desta ignorância da nossa verdadeira natureza, nasce a sensação e a angústia do isolamento, o egoísmo, o conflito, o medo, o sofrimento do homem.
Urgente se mostra portanto uma libertação da consciência, pela compreensão do que realmente somos e da nossa relação com o mundo.
Da necessidade dessa libertação se ia apercebendo o Vergílio. A sua sensibilidade acolhia agora menos hesitantemente o desafio proposto pela Filosofia Perene. Compreendia que não se tratava de um sistema de pensamento ou de crença, mas de um verdadeiro aprofundamento da consciência. Via também que a nossa pesquisa, com os dados científicos de que tínhamos conhecimento, poderia ser libertadora, dando-lhe pistas em relação às suas dúvidas e inquietações. E acima de tudo respondia à sua sede de transcendência, desbloqueando finalmente uma vivência nova, uma inocência reencontrada muito depois da infância... Aproximava-o da desejada passagem para lá do «espelho», que lhe mostrava apenas o lado de fora desta realidade - um conhecimento dos olhos que precisa de fundir-se com a sageza do coração...
E assim, naquela tarde, a última em que nos encontrámos, vimos no nosso amigo, num sorriso breve, quase feliz, uma aceitação de um outro norte, um abandonar das velhas conclusões que não traziam afinal qualquer resposta aos seus fundos problemas.
E não pude deixar de lhe dizer, saudando essa clareira na sua floresta de sombras, mas lamentando também o retardar da tranquilidade possível:
- Oh Vergílio, tudo afinal tão próximo da compreensão procurada... Se tivesse aceitado mais cedo o desafio da viagem, teria podido evitar tanta amargura, tanta inquietação...
E ele respondeu, com um sorriso entre humilde e afectuoso:
- Então eu não me posso enganar?...
Todos ficámos em silêncio.
O aroma dos pinheiros permeava a casa. Lá fora o Sol esmorecia...
Senti como que um halo de quietude a envolver-nos a todos.
Naquele reconhecimento do «engano» havia já uma viragem, uma promessa de aprofundamento do diálogo, numa abertura a novas «descobertas».
Mas o diálogo iria para sempre ficar inacabado... E não haveria mais necessidade de interrogações e de respostas...
Uma leve brisa, entrando pela janela entreaberta, trazia o som dos longes, afinal tão perto... Tão perto como a vida, tão perto como a morte, tão perto como o Amor.
E o pensamento, naturalmente aquietado, abria espaço a uma profundidade que desconhecíamos...
Nesse estado meditativo, desperto, nesse silêncio do pensamento e das palavras, todos nos sentíamos mais próximos...
Quando nos levantámos para nos despedir, podíamos sentir no amigo uma paz nova sublinhando o olhar...
Já com sérios problemas de saúde, a ideia da morte parecia não o atormentar. A ponto de, como diz a nossa amiga Regina, «ele se ter deixado morrer com um sorriso de verdadeira beatitude»...
Depois... só o Silêncio - que em nós fica habitando, além da onda regressada ao Mar...
in, In Memoriam de Vergílio Ferreira, Maria Joaquina Nobre Júlio (org.), Lisboa, Bertrand, 2003.
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Vergílio Ferreira
domingo, 28 de setembro de 2008
Arte
113
Como num bloco de mármore ou num dicionário ou no espectro solar ou numa série de sons, há em ti uma obra de arte ou do pensar adormecida. Tu não sabes qual seja e às vezes já não tens tempo de o saber. Mas que um artista ou um pensador crie essa obra e tu reconhecerás que a criou em ti. Toda a obra tem de existir em nós para existir. Porque toda a obra é impossível se ninguém a reconhece. Ela está em ti, no traçado invisível que lhe delimita o contorno, no submerso da sua latência, e é o artista que a faz vir à superfície, lhe define a visibilidade, mesmo do que lhe será sempre invisível. O artista ou o pensador criam a sua obra. Mas é em ti que eles a desenham para existir. Como Deus, aliás, que também.
Vergílio Ferreira, Pensar
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Para um bom entendedor... racional
Migalhas e sementes
in www.banhosdecinza.blogspot.com
VT
O mais perigoso no Homem é ser animal racional, sem fronteiras para ser uma coisa de cada vez. Assim é-se animal na racionalidade como se é racional na animalidade. Porque tem a razão a racionar-lhe o animal e o animal a animalizar-lhe a razão. E aí não é possível distinguir-lhe um coice de um silogismo.
Vergílio Ferreira
Para um bom entendedor... instantâneo

Fotografia, Vergílio Torres
E imprevistamente reparo que há luz no ar. Não vem do Sol para um sítio determinado, que é a Terra. Espalha-se por todo o lado, não vem de parte alguma, se o Sol desaparecesse, continuaria a iluminar. Porque é uma luz de si própria, da essência de si, que é ser luz sem mais na sua iluminação. E estou contente. E sou também da essência da alegria, que é ser feliz para antes de se saber que a felicidade e tem um nome.
Vergílio Ferreira
terça-feira, 1 de julho de 2008
Desmascarando-me
Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê.Vergílio Ferreira
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