domingo, 18 de maio de 2008
Encontro Serpentino Emplumado e outras coisas
Recordo o Colóquio sobre a Saudade, em homenagem a Dalila Pereira da Costa, que se inicia amanhã no Porto com uma conferência minha sobre "Experiência Mística e Saudade em Dalila Pereira da Costa" (ver aqui o programa em Actividades). Também amanhã à noite, pelas 21.30, na Fundação Escultor José Rodrigues, na Rua da Fábrica Social, no Porto, será lançada a "Nova Águia", que voa com várias plumas da Serpente. A apresentação será feita por Miguel Real. Na mesma ocasião será lançado o meu livro "Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes", apresentado por António Cândido Franco.
Depois parto para Paris onde falarei no dia 22, nas Jornadas Vieirinas que aí decorrem, no Centro Calouste Gulbenkian, sobre "A espiritualidade do Padre António Vieira" (ver programa). Pelo meio terei um retiro budista e regresso para falar sobre "Mestre Eckhart e Longchenpa: do fundo sem fundo primordial como Nada e Vacuidade" num Seminário que decorre no dia 30 no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (ver programa).
No dia 31 haverá o lançamento da "Nova Águia" em Lisboa, no Palácio Pombal, na Rua do Alecrim, pelas 17 h, bem como o lançamento do meu último livro "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido" (aforismos).
Quanto ao encontro Serpentino Emplumado, proponho que seja no dia 10 de Junho, no lançamento da "Nova Águia" na Feira do Livro, pelas 18 h, em local a indicar.
Até lá, se não nos virmos antes, e que façamos destas aventuras culturais o cultivo da intensidade e da sabedoria de viver !
Abraços
Air-Johann Sebastian Bach-Ouverture (Suit) Nº3 in D Major
( Talvez a tenham gravado em pedra, caríssimo Obscuro !)
(Onde tu vês anjos, eu encontro células e átomos, Isabel. Mas qual é a diferença afinal?)

sábado, 17 de maio de 2008
Ritos dionisíacos da Itália Meridional
«A picada do amor»
"O Tarantismo pode ser definido como um fenómeno histórico-religioso que caracterizou a Itália meridional e em particular a província de Puglia no final da Idade Média. (...) Sobrevive ainda em algumas áreas da Península Salentina."
Um texto a partir do texto anterior
Vivemos a era dos cursos. Hoje, há cursos para tudo e são necessários cursos para tudo, o que é liminarmente ridículo, na medida em que é possível que o maior filósofo de sempre seja um aparente Zé-Ninguém sentado no chão, na esquina ventosa, ou um raro pastor perdido num qualquer monte longínquo. No entanto, como vivemos não só na era dos cursos, como na dos papéis, privilegiam-se os papéis, os diplomas, que não são assertivos, excepto para inglês ver.
Vivemos não só a era dos cursos e dos papéis, como a dos currículos, tal é a desconfiança de uns para outros. A maior preocupação das pessoas é fazer currículo, não só para terem a justa preocupação de melhores possibilidades de empregabilidade futura, como para defenderem socialmente um status numa sociedade cada vez mais agressiva, encolhida, receosa.
Sou contra tudo isto: cursos, papéis, currículos e, portanto, talvez infelizmente, contra o modelo social em que vivemos, embora entenda que tanta burocracia pode visar a nossa própria segurança. Talvez a solução passe, como tem vindo a ser dito desde há uns anos para cá, por uma participação social mais local, onde o contacto humano e os afectos são maiores, e onde as pessoas são mais valorizadas na sua sensibilidade e não tanto na sua capacidade funcional.
Nas cidades, as pessoas são pouco afectuosas, muito carreiristas e individualistas, "não me chateies que eu também não", vivendo no entanto a estranha condição de extremamente desligadas da sua individualidade enquanto são extremamente individualistas, porque desligadas da vida e da morte, da terra e do céu, esquecendo facilmente, pequenas peças numa complexa engrenagem.
Os filósofos não devem pensar fechados nas suas redomas pseudo-individualistas, mas individualizar-se, livremente, para a colectividade, tendo a obrigação de, como pensadores da vida e da morte, da existência, da pessoa e da sociedade, das relações, do ideal, divulgá-lo, respeitando, no entanto, a clara incerteza das nossas noções acerca do mundo, porque o humano é o ser da crença, no que respeita ao ser da realidade para lá das aparências (se esta ou aquela existem... penso que sim!) e ao futuro.
Reflexões várias, sobretudo sobre o anarquismo, o mal no mundo e a visão errada dos filósofos objectivistas que querem matar o misticismo
Não me considero comunista nem socialista, visto que o objectivo destes é o fim do Estado e a criação de uma sociedade em tudo semelhante à anarquista, com a diferença de que os primeiros propõem uma mudança mediata e os últimos imediata. Penso que a mais plausível, de entre ambas, é a mediata, porque se passássemos imediatamente para a ausência de leis muitos dos mais desfavorecidos não teriam pejo em tomar de assalto as propriedades dos mais poderosos.
O que vai mal no mundo? O que vai mal em Portugal?
Ao contrário de alguns intelectuais que peroram na Internet, não sou da opinião de que Portugal seja uma pasmaceira locus de povo inculto e apático, até porque cultura e apatia são musts de qualquer sociedade humana. Na verdade, penso que esses anglicano-americanizados, sedentos de ciência e progresso progresso PROGRESSO, rejeitam, com todo o direito, a sua própria cultura, de que se envergonham, anuindo eventualmente às breves anuições que vêm de fora, relativas ao nosso pequeno e belo pedaço de terra.
Não me considero uma pessoa culta, na medida em que esqueci muito do que aprendi no liceu, desde a História (que considero fundamental) à Ciência, passando pela Matemática. Porém, penso que a educação, o facto de sermos educados desde a mais tenra idade, visa, não tanto nem apenas, criar máquinas produtoras de uma ilusão chamada progresso (exceptuando o fantástico e benéfico progresso da medicina e das áreas necessárias para o mesmo, como a tecnologia...), mas seres humanos dotados de fortes características morais - personalidade moral -, com o objectivo de minorar os conflitos que, necessariamente, surgem ao longo da vida das sociedades, entre os indivíduos.
Penso, por isso, que o maior e menos ilusório progresso que existe, o verdadeiro, é o progresso moral, porque é esse que permitirá a criação de uma sociedade mais justa, maior qualidade de vida, incremento de felicidade em cada um de nós, não obstante o sofrimento necessário associado à existência, especialmente à humana, mais que não seja pela consciência da morte e da possibilidade do sofrimento, da dor, da incapacidade, doença e fome.
Julgo que existem demasiados filósofos preocupados em fazer da filosofia uma espécie de ciência objectiva, não obstante o seu carácter não empírico, embora exista a chamada filosofia experimental, e até entendo o seu ponto de vista, na medida em que se rebelam contra aqueles que, como eu, pouco percebem de filosofia e, não como eu, dizem que a filosofia é uma área subjectiva em que cada um interpreta à sua maneira e em que não há uma mas inúmeras leituras de uma mesma frase. Talvez tenham razão, talvez. Porém, o ponto não é esse. O que me irrita profundamente nos objectivistas, vulgo analíticos, é a sua pretensão de extrema seriedade, como se tratassem dos assuntos mais importantes do mundo. Não é verdade. A maioria das vezes tratam de questiúnculas pseudo-sérias cujas respostas em nada contribuirão para o aumento da sua ou da felicidade dos outros, nem para que encontrem um qualquer sentido maior para as suas pequenas (e sérias, muito sérias) existências.
A filosofia deve ser feita com o coração. As pessoas não são máquinas argumentativas completamente racionais, e o mundo não é completamente racionalizável. Tem de existir -e há - espaço para o misticismo e para a fantasia. Naturalmente, a luta desses filósofos pseudo-sérios, que são seres bastante recalcados, é contra o misticismo e a fantasia, porque querem transformar a filosofia numa área respeitável, distinta das demais astrologias e cartomancias, próxima da Ciência. E, na verdade, a filosofia tem mais a ver com ciência do que com as referidas intrujices, na justa medida em que o filósofo é aquele que procura conhecer - como o cientista -, respostas para perguntas que tem acerca de aspectos, que desconhece, da realidade, ou para o seu todo:
Viverei para sempre? Sempre vivi? O que é a realidade? A realidade sensorial é aparente? Deus existe?
São perguntas, eventualmente, sem resposta ou, penso que mais apropriadamente, com respostas que desconhecemos, que nos transportam, naturalmente, para outras áreas que não a filosofia, como a religião, a arte, ou mesmo para atitudes, como a contemplação ou o desprezo pela nosso anterior materialismo prático e pouco pensado. Talvez a filosofia seja, infelizmente e ao contrário do que os falsos-filósofos-objectivistas querem fazer crer, um beco sem saída ou, por outro lado, uma tenaz abertura do (nosso) ser ao mundo, ao infinito, ao misticismo que os objectivistas querem matar porque são cientistas falhados (ou outras máquinas quaisquer).
Na verdade, querem tanto sobreviver intelectualmente, que rejeitam o projecto primeiro do filósofo, aquele que mais do que um mero argumentador era uma pessoa cuja praxis de vida se coadunava com uma série de pensamentos que, no passado, lhe haviam aberto a mente ao mundo, ao espaço, à distância, à noite... ao misticismo.
Querer transformar a filosofia em algo mais do que essa abertura-aventura, mística, do ser ao ser, é a busca de um milagre (no pior sentido do termo) tão repleto de fé como o da transubstanciação.
Céu e Pedras Falantes - Linguagem Serpentínea e do Sudoeste
arte de nadar
no pescoço do nosso ser
mas sim um diamante leve
luz inquebrável do horizonte...
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Hora para pensarmos seriamente no nosso "Encontro Serpentino"
Metade de Maio ja la vai, e esta na hora de decidirmos quando e onde vai ser o nosso encontro.
Proponho que seja dia 9 de Junho a noite, vespera do Dia de Portugal, ou entao dia de Santo Antonio.
Proponho tambem que passemos um bom serao na Tasca do Chico, uma casa de Fado Vadio, que fica ali na Rua do Diário de Notícias, nº 39, no coração do Bairro Alto.
Se decidirmos nos encontrar dia de Santo Antonio, poderiamos nos encontrar durante o dia para ver as marchas, e depois marcharmos para a Tasca do Chico para um belo serao de fados e vadiagem.
o que acham:-)?
Novas Lendas – Velhos Alfabetos

O povo de Apolo, adoradores de Odin, e o povo de Oestrimini não esqueceram o idioma. Mas os Strymonioi foram viver para as terras trácias perseguidos pelas serpentes.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Nova Águia e MIL - O que se espera de todos e cada um de nós ?
Digo isto porque não posso deixar de sentir um contraste entre o crescimento rápido e entusiasta das adesões à Nova Águia e ao MIL e as poucas iniciativas autónomas dos aderentes, que parecem continuar a passividade secular dos portugueses, que tendem a ficar à espera que decidam e pensem por eles. A Direcção da Nova Águia e a Comissão Coordenadora do MIL podem e devem impulsionar e catalisar este movimento, mas ele nunca existirá, como um verdadeiro movimento de renovação, se as nossas iniciativas não encontrarem eco nas iniciativas dos múltiplos núcleos de aderentes espalhados por todo o país e pelo mundo.
Espero que os vários lançamentos da Nova Águia sejam pontos de encontro para aqueles que abraçam este projecto, espero que os aderentes em cada cidade e região tomem a iniciativa de se conhecer e organizar para planearem estratégias conjuntas de divulgação deste movimento, espero que todos se mobilizem e dêem o melhor de si para que estejamos à altura do melhor da nossa história e cultura e daqueles que nos inspiram. Espero que desde já e até ao final das nossas vidas sintamos que estamos realmente a marcar uma diferença e a contribuir para que haja um novo Portugal, uma nova Comunidade Lusófona e um novo Mundo.
"Eu, da raça dos Navegadores, desprezo tudo o que seja menos do que descobrir um Mundo Novo !" - Álvaro de Campos
Hoje - V Encontro Inter-Religioso de Meditação - 18.30
Para que se cumpra o Portugal-V Império ecuménico, multi e trans-cultural, multi e trans-religioso de Pessoa e Agostinho da Silva !
Não faltes !
Centro de Estudos da Ordem do Carmo – Lisboa, R. de St. Isabel, 128-130 (ao Rato)
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Quis saber quem sou...
Creio que temos uma ideia errada do que é ser humano e que, não raras vezes, idealizamos o humano como se de um ser querúbico se tratasse, dotado de uma moral inabalável, como se os crimes cometidos por seres humanos fossem cometidos por uma qualquer sua parte inumana. Infelizmente, a realidade aí está para nos mostrar que não é assim e que o ser humano é capaz das maiores atrocidades de que alguma vez tivemos conhecimento, até na própria medida em que é capaz de premeditar os seus actos ignóbeis ou mesmo, no caso do exercício de poder, de prever verdadeiras hecatombes que se abatem, habitualmente, sobre os mais desfavorecidos sem que, no entanto, se demova das suas intenções.
O caso mais público, atroz e revoltante de sempre é, sem dúvida, o de Fritzl. Penso que o humano é o animal mais cruel de todos, na medida da sua própria racionalidade. Exemplos não faltam.
Uma breve reflexão sobre a existência de Deus a partir de uma notícia sobre uma carta de Einstein
Uma breve reflexão sobre modelos sociais, o Estado e a condição humana
Acontece que a razão pela qual os anarquistas criticam o modelo liberal é a sua descrença numa suposta bondade dos patrões, o que contradiz a sua teoria de que, educado, o ser humano é capaz de se tornar um animal fraterno porque, afinal, os patrões (nada mais) são (que) pessoas. Assim, só me resta crer que os anarquistas crêem que num modelo - que não o seu - as pessoas não têm escrúpulos e, noutro - o seu -, são maravilhosas e fraternas criaturas acabadas de sair de um colorido conto de fadas, anjos caídos num qualquer paraíso astral.
Tanto os liberais como os anarquistas têm problemas com a autoridade. Os primeiros, supostamente, porque defendem a treta do mercado livre, a auto-regulação, a iniciativa privada, blá blá blá, etc. Os segundos, supostamente, porque as leis são um instrumento opressivo do Estado, criado por um grupo de pessoas maquiavélicas, diabólicas, control-freaks cujo único prazer é o controlo e a instrumentalização dos outros, coitadinhos, pobrezinhos, sem culpa nenhuma.
Na minha opinião, o Estado, essa entidade abstracta à qual oferendamos entidades concretas, é uma entidade importante. Diria mesmo que se o Estado não existisse seria imperativo que o Estado existisse. Mais que não seja, por quatro razões: serviços de saúde, educação, reformas, segurança. Infelizmente, ao contrário dos anarquistas (e sendo momentaneamente caritativo), não creio que as pessoas sejam naturalmente viradas para a bondade, fraternidade e géneros afins. Creio que se não existissem leis e punições a criminalidade seria muito maior do que actualmente é. Penso que essa possível hecatombe, que seria a ausência de leis, não se deveria a uma qualquer falha moral humana, embora possamos tê-las em excesso, mas à nossa própria condição de esfomeados, sedentos e doentes.
Qualquer que seja o modelo socio-natural em vigor, haverão - sempre - pessoas melhor adaptadas do que outras ao mesmo, ou porque são mais inteligentes ou porque são mais fortes ou porque são mais bondosas ou porque... A verdade é que, até que encontremos a pílula-contra-todos-os-males, teremos de trabalhar para comer, beber água, ter roupa, casa, medicamentos, assistência na velhice (se lá chegarmos...) e assim por diante, pois a carência é uma das mais vibrantes propriedades da condição humana.
Nesta medida, penso que, embora hajam modelos sociais mais justos do que outros, o nosso maior problema - a carência, a necessidade - nasce connosco, em cada um de nós, sendo que não se augura solução no horizonte. No entanto, como disse, o mal pode ser parcialmente remediado, através da implementação de um modelo social mais justo do que outros e, a meu ver, esse modelo passa pela existência de um Estado que legisle e que tenha dinheiro, através de impostos, que seja utilizado justamente para cumprir a única função pedida a um Estado necessário: a minoração do sofrimento humano, na senda da melhoria da condição humana.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Diálogo
Hölderlin
Wie hast du mich gefunden, der Wald ist grün und dicht
der Fluss ein schimmernder Strom?
Ich lebe hier im Sommer sehr bis dieser Winter sich
in meine Wärme bricht mit einem weissen Tuch
das er den Dingen überzieht wie ein Gewicht
das alles in den Schlummer wiegt und anders färbt
Pascoaes
Dir dank ich für dein Angesicht
Mein Meer ist weit und sieht dich nicht
und meine Sicht ist weiter noch als dieses Herz
der Wein noch dunkler als mein Blut
Ich träume Nachts und auch am Tag
Wie singst du nur von Griechenland
und kennst mich nicht?
Hölderlin
Das Archipel, das nur ein Ikarus erschaut
ist mir ein tausendfaches Spiegelbild
den Göttern Griechenlands bin ich ein Freund
doch was du sagst, mag mich nicht schrecken
Wie ist das Meer, das weiter sich erstreckt
als alle Reisen der Hellenen je sich zugetraut?
Pascoaes
Nichts ist das Meer, das sich an meinen Ufern bricht
Nichts bin ich mehr als Mond und Gruft
der vielen Könige, die längst verloren sind
und noch viel weniger als alle Karavellen,
die den sehnsuchtsvollen Sinn aus Orchideenblüten trinken
und eine unendliche Süsse tropischer Nächte ersinnen
So sind wir fast wie ihr, von einem fernen Indien träumend,
denn unser Indien ist heute euer Indien der Vergangenheit.
Hölderlin
Unser Indien ein verlorenes Zeitalter der Ideen...
Pascoaes
Unser Indien ein verlorenens Land am Rande der Sehnsucht...
usw.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Ophyussae
sou um livro pendurado em ti.
uma leitura cada vez mais simples.
um espaço sem dimensão.
uno. sensível.
e abro-me por ti
na imensidão do amanhecer infinito.
in Nova Águia
Holderlin e Pascoaes, em Heidelberga
"Há tanto tempo que te amo já, e gostaria, pra alegria minha,
Chamar-te mãae e ofertar-te uma canção sem arte,
Ó tu, das cidades da pátria
A mais rusticamente bela de quantas vi.
Como a ave dos bosques voa sobre os cumes,
Assim sobre o rio, ao passar brilhante por ti, se lança
Leve e forte a ponte
Que ressoa de carros e homens.
Como enviado dos deuses, um encanto me prendeu
Um dia à ponte, enquanto passava,
E pra dentro dos montes
Me brilhava a lonjura atraente,
E o jovem rio se internava na planície,
Triste-alegre, como o coração, quando, a si demais belo,
Para morrer amando
Se atira pra as torrentes do tempo.
Fontes lhes deras, deras ao fugitivo
Frescas sombras, e as margens todas
C'o olhar o seguiam, e das ondas
Tremia a sua graciosa imagem.
Mas pesado para o vale pendia o gigantesco
Castelo provado do destino, rasgado das tormentas
Até aos fundamentos;
Mas o Sol eterno vertia
A sua luz rejuvenescente sobre a dec
répita
Imagem gigantesca, e em volta verdejava
Hera viva; bosques amenos
Sussurravam por sobre o castelo.
Tufos de flores pendiam até onde no vale ridente,
Encostadas à colina ou inclinadas pra margem,
As tuas alegres vielas
Entre jardins rescendentes repousam."
Holderlin, trad. de Paulo Quintela
Em Heidelberga a ponte é uma ave;
A lonjura está dentro, não está além;
O encanto foi enviado pelos deuses e os deuses escolhem quem atravessa pontes;
O rio atira-se para as torrentes do tempo para morrer amando, em convulsão?
O rio foge não se sabe para onde, para um lugar sem nome,
porque onde o destino mora há fundos fundamentos e luz rejuvenescida do Alto.
À volta do castelo a hera fala com o bosque e as flores brotam e, em torno de tudo, em Heidelberga, há um caminho de filósofos e da Serpente.
Em Heidelberga a ponte liga todos os caminhos: dos poetas e dos filósofos, das aves e das serpentes, da terra e do céu, da vida e da morte, dos homens e dos deuses.
Em Heidelberga há um só caminho para o peregrino: o caminho da saudade.
Em Heidelberga passeia, na ponte que une todos os caminhos, Pascoaes:
"(...) E as flores, na pureza da paisagem,
Exalam seus aromas matutinos;
E neles vão, em misteriosa imagem,
E mesmo em seus aspectos já corpóreos;
Pois cada aroma tem o mesmo talhe
Da flor que o gera e cria, em seu amor...
As mesmas brancas pétalas de neve,
O mesmo gesto vivo e viva cor.
A alma é um corpo em formas espectrais.
O perfume das rosas é uma rosa,
E o perfume dum lírio não é mais
Que um lírio alado, vago, quase espírito...
E assim a nossa alma, irradiação,
Perfume etéreo, ideal, da criatura,
Tem dela o mesmo talhe, o mesmo vulto,
A mesma escura ou lúcida figura.
Mas, de repente, ó cavaleiro, acordas!
E te vestes de flores (lindo enfeite!)
(...)
Galopas! E as florestas se desolam!
Os torvos ares tremem! E das patas
Do teu cavalo, como pó, se evolam
Sombrias, grossas nuvens de tormenta!
Eis porque choro e tremo, em grande abalo,
Quando bates, de noite, à minha porta,
E corro a abri-la, e em alta voz te falo!
E uma voz me responde, voz longínqua
Que vem talvez da negra intimidade
Da treva ou do meu ser...Quem sabe de onde?
(...)"
Teixeira de Pascoaes, A Sombra do Vento
Quem sabe de onde?
De Heidelberga onde Holderlin e Pascoaes moram na negra intimidade
e se passeiam nas margens e na ponte compondo hinos, recebendo as sombras
e escutado as vozes das aves e das serpentes e o poema, como a rosa, se abre no peito de quem tem uma voz alta e longínqua e desponta sempre e sem porquê na alma de quem os relê...

O gato responde às dúvidas existenciais
do filósofo
com um bocejo
e um olhar íntimo
do alto do sofá vermelho
aconchegado no torpor
da tarde
o gato de Agostinho tem bigodes
e não é homem
aquele olhar sedutor
sem ser mulher
espeta as orelhas para ouvir
a voz sonolenta
do pensador.
Palmela, Dezembro de 2007
© Brissos Lino
domingo, 11 de maio de 2008
sábado, 10 de maio de 2008
O que acontece quando o músico, o instrumento, a música e o público se fundem?

No espaço de uma semana, três concertos extraordinários:


Das edelste gebet / A mais nobre oracao
"A mais nobre oracao é quando aquele que ora / Se transforma no mais íntimo nisso diante do qual se ajoelha"
- Angelus Silesius, O Peregrino Querubínico, 4, 140.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Pascoaes em Heidelberg e a Festa do Espírito Santo na Arrábida
Entretanto convidei um jovem doutorando alemao a escrever um artigo para o segundo número da "Nova Águia" sobre a profunda impressao metafísica que lhe causou Lisboa, que ele descreve como a cidade onde identidade e nao-identidade se conjugam plenamente. Segundo ele, Lisboa revela a imperfeicao (no sentido de incompletude) das formas, abertas ao infinito... Concordo plenamente.
Com toda a pena nao poderei estar na Festa do Espírito Santo na Arrábida, no Domingo, dia 11, mas exorto a todos que a nao percam. O programa está na coluna direita deste blogue. Que as Línguas de Fogo do Santo Espírito sobre vós descam !
Um Abraco serpentino e emplumado
Paulo
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Coisinhas
O problema é: é tudo uma questão de hábito. Uma pessoa habitua-se, o que é uma pena.
Não é que a gente queira morrer, a gente não quer é viver.
Terrorismo é romantismo.
No coiso amoroso é requisito entendermo-nos, não nos estendermos.
Mete a física que eu meto a astrologia.
Embora acabar o que nem sequer começámos?
A privacidade é violada quando não é privada.
As pessoas estão menos modernas, olham para os sozinhos e acham estranho.
As pessoas não permanecem, depois ainda se diz que são comodistas.
Suicídio é fazer ou desfazer qualquer coisa?
Começa-se a ler quando se começa a deixa de saber coisas.
O bom trabalhador é fingidor.
Porque não fugir de mim se eu sou eu?
Nem tudo o que parece é o que não parece.
"Os malucos atraem-se uns pelos outros" - minha mãe.
Antes de o ser já o Herman.
Velha = sem tido juventude.
Não raras vezes me esqueço de respirar.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Notas sobre António Quadros
(...) Porquê a auto-biografia? Porque ela é a possível autenticidade. A impossível verdade. Porque nela se procura a súmula do escritor-autor, porque é a verdadeira existência a exprimir-se e a revelar-se depois da vida, depois do erro, depois da obra. Já não é o livro a construir-se, é a lucidez a confessar-se, é a suma existencial a dizer-se. (...)
Existem no arco-íris búzios ancoradosem que ecoam as lágrimas dos homens
que morreram no mar.
in A SEIVA
terça-feira, 6 de maio de 2008
Do fime "Into The Wild"
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more,
From these our interviews, in which I steal
From all I may be, or have been before,
To mingle with the Universe, and feel
What I can ne'er express, yet cannot all conceal.
Ao nascer, ao pôr do sol, na noite escura
Caspar David FRIEDRICHWoman before the Rising Sun (Woman before the Setting Sun)
1818-20
Oil on canvas,22 x 30 cm
Museum Folkwang, Essen
Difícil é ser os dois lados da questão, sem demora.
Lembrar tudo o que aprendi, a toda a hora.
Não me deixar envolver no novelo da emoção,
Nem tropeçar no delicado, fino, fio da razão.
Difícil é encontrar o equilíbrio que a roda ordena.
Seguir em frente sempre desperta pra toda a cena.
Olhar prà direita, esquerda, apreciar a aragem,
E, sem cair do triciclo, cruzar tão estreita passagem.
Difícil é fluir como ar ou como água da nascente.
Dar e dar sempre mais, sem temer o secar inclemente
Do Estio, nem comportas, represas, da consciência;
Sem jamais me enfadar, sem perder a paciência.
Difícil é ser assim tão só, tão somente humana,
Nem impassível deusa, nem demónio, nem tropel.
Ver o bem e mal que o todo exala e emana,
Sem atrair o paraíso, sem cair em inferno cruel.
Difícil é rir, rir muito... rir do absurdo de mim...
Desta sede me esquecer, e, enfim...
Sem esperar, presentear-me com um fim!
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Uma breve reflexão sobre o estado das coisas a partir do lixo televiso-(des)educativo
Diz-se, habitualmente, que vivemos em democracia e que esta é, supostamente, o governo para o povo, para a maioria que elegeu os deputados da Assembleia e os governantes. Mas se, de facto, quem legisla e aplica as leis e directrizes de uma nação, fá-lo para o povo, para a maioria, porque vive esta cada vez pior?
De quem é a culpa? Quais as causas desta crise? A meu entender, os culpados são os produtores e detentores das reservas mundiais de petróleo que, visando o tão almejado lucro, não olham a meios para, dia após dia, aumentar o preço daquele que, nos tempos em que vivemos, é o bem mais necessário para o homem, na medida em que o acesso a tudo o resto (e não é pouco: veja-se o acesso - e a crise de acesso - à comida) depende do acesso ao mesmo.
A verdade é que, desde o malogrado 911, o preço do barril de petróleo já mais do que dobrou, porque, se bem me lembro, estava a cerca de 50 doláres e, hoje, está a cerca de 116. Não é escandaloso? Será que a actual crise tem solução, ou estamos condenados a tornar-nos, cada vez mais, trabalhadores-consumidores descartáveis, sem quaisquer perspectivas de sucesso ou realização pessoal, sem sonhos, incapazes de vislumbrar o infinito, em busca da mera sobrevivência?
Da minha parte, acredito que é possível mudar, e isso passa, invariavelmente, por uma revolução, porventura inicialmente silenciosa, que nos leve, quiçá, para os caminhos da auto-gestão e de uma espécie de (ou aproximação ao) sonhado estado de natureza de Rousseau. O sistema tem de ser sabotado, para que seja mudado. A sabotagem passa por não consumir, por não ceder aos desejos publicitários, por empobrecer os patrões, numa suave transferência de desejo, para que eles próprios mudem.
Embora o liberalismo esteja em (final de) alta, penso que caminhamos para um mundo, uma sociedade, essencialmente de esquerda, da chamada extrema-esquerda, comunista ou mesmo anarquista. Naturalmente, isto não acontecerá em meia dúzia de anos, porque há que esgotar o já quase esgotado modelo capitalista-liberal-opressivo que vigora no mundo ocidental (em expansão para e pela China, Índia e Brasil) e substituí-lo pelo verdadeiro governo para e pelo povo que, actualmente, não passa de uma ilusão.
"Eu sou o meu próprio Comité Central", José Afonso.
Noiva perdida...
Retrato antigo: pinturas e superfícies.

“ O Senhor deu maior inteligência à mulher que ao homem”
“Com suma cautela e zelo honra à mulher; pois é a mulher quem traz à casa a benção de Deus”
“O ódio à mulher própria é um homicídio”
(Extraído de Bellezas del Talmud, de Rafael Cansinos Assens)
“A visão de Deus na mulher é a mais perfeita de todas” (Mohiuddin ibn al Arabi)
“Senhora da noite, erma donzela” (Teixeira de Pascoaes”)
I
Em aquelas tardes eu também adormecia.
Leves as flores respiravam pelos vasos, quando a transpiração da casa descansava ao final de corredores. Adormecia como estranha sonolência da Primavera que se acerca, pois no fundo de aquelas salas e retratos antigos, a rosa que permanecia se guardava numa memória de máscaras ou vozes que se enlenteciam, ou se congregavam. Vozes que atravessavam os tabiques da conversa íntima num murmúrio de ressonâncias e evocações distantes. As vozes de tia Letícia e de minha mãe Aurora, que sem cessar pintava, as vozes e os rumores das ruas de madeira que como uma linda imagem chegavam ao meu coração cansado. Pois, se queréis, a expressão das vozes recriava em mim cada gesto, cada olhar, cada veloz desejo que nascia dos poros subtilíssimos das minhas queridas amigas.
Eu então adormecia. Nos sofás ou na cama de lençóis claros, suava sobre o meu vestido floreado de cujas cores guardo uma memória tonal e rítmica: cores violáceas, amarelas, azúis que se tocavam como notas de piano ou breve luz. Atrás a janela, a janela verde da vida que avançava face mares antigos e longínquas histórias de olhos cálidos e terras luminosas. Sentia, na inquietação de um sono de tardes lentas e abandonadas, as figuras e os gestos, a cadência infatigável de Mago, o ferreiro que mostrava inacabáveis estórias sobre o metal e o ferro fundido; e era agora quando eu sentia, enfebrecida na tarde, o seu bater no metais de Vulcano: a sua velha frágua.
Os meus dedos, a minha fragilidade, o meu sorriso sobre os espelhos que dançavam nas tardes imprimiam em mim a gostosa música do baile: os meus pensamentos, sentidos, clamorosa pele saltava para que as barcas e os sorrisos que sem cessar pintava levassem aguarelas e tácteis óleos à superfície dos dias.
Em aquelas tardes eu também adormecia.
II
Quiçá o íntimo cansaço duma velha mão e um coração gasto se tenha iludido demais ao redor dum fôlego arrastado pelo tempo. Estranha ilusão duma velhice mórbida? Certamente, não responderei eu. Eu?
É preciso aguardar esta pulsão que devém ambígua e cuja devoção cresce nas tonalidades fosforescentes da memória sob o custo, quiçá, dum sem-sentido da escritura, trémula já na voz e no rasgo. Trémula como a vela que alumia os nossos sentimentos e as nossas páginas num sossego e numa calma branca. Luar dos quartos e prata das iluminações quando os passos e as vozes ressoam nova e lentamente atrás, atrás.
- Devo continuar?
- Continua!
- Mas onde estávamos?
- Não lembras? Tu adormecias.
- Como poderia lembrar se adormecia?
- Ah!. Sei lá! Acorda!
Mas eu também acordava na sala de bonecas de porcelana. Dir-vos-ei que me falavam? Cada uma era Laura, Marinha, Olga: a sua extensão e o seu dom.
Atrás, certamente atrás soavam os assobios e os signos que se introduziam pela janela verde da vida: as três esperavam e Mago esperava às quatro.
Sim, eu acordava, e depois de falar com as bonecas e de olhar as minhas aguarelas atravessava as ruas de madeira e casas de pedra antiga e alguns braços erguiam-se como para saudar-me, pois eu penso que muita gente gostava do meu vestido floreado comprado longe, em terras longínquas de nações esquecidas. Em realidade eu devia isto à tia Letícia que, abandonada à sua diletância, desaparecia subitamente durante dias, e até semanas, para voltar esgotada e ávida, carregada de tudo quanto era impossível encontrar.
Marinha, Laura, Olga e eu corríamos leves na tarde inumerável. Tínhamos ido até o cais, tínhamos brincado no dique negro, cantando nas doces barcas para encontrar um novo ritmo e um novo cair, um cair fugidio que reflectia no cais de prata, águas do nosso pensamento turvo.
Os olhos para o céu e os vestidos batidos pelo vento, irreverentes à sensualidade da nossa pele fazia-nos sentir a mais melancólica liberdade, pois o sol descia e vibrava o mar como a produzir ondas brancas: eram as suas piscadelas cúmplices.
Laura, loira, magrinha e de olhos verdes falava ao mar numa linguagem de peixe: Bu! Bu! Bu! e Ah! Ah! Ah! respondíamos todas.
Eram ecos, não é? Ecos duma escura devoção que nos envolvia.
Marinha, pensativa, pintava as unhas de púrpura vermelha vermelha e mais duma vez deixou cair gotas e gotas que choravam nas águas, pois então uma música falava por dentro das cores dum pequeno amor esconso: Marinha corava. Bu, bu, dizia, e uma lágrima cheia de sal deslizava-se, e nós, claro, fazíamos como que não víamos.
Olga era a silenciosa e subtil, indefinível voz dos nossos movimentos ligeiros.
Caminhávamos até ao Mago: esse ferreiro no Mar.
III
Através da febre e da ferocidade, sorrrir a pouco e pouco, a ferocidade dos dias impossíveis que nos traspassam e nos amam, a ferocidade da imaginação desvelada e rítmica que nos invade na ligeireza das estações e dos corpos, a nossa ferocidade, enfim, que a pouco e pouco sorri maliciosamente para abandonar a mão ao silêncio e à audácia: gestos, dias, olhos, vozes, ritmos, e Abril Abril nos nossos corações, nos nossos corações, nos nossos corações...
“...nos corações escravos de Lig e Lung. Porque Lig mata a Lung. Porque Lung mata a Lig.
Um silêncio fugaz envolve-os, uma quietude. E de súbito um resmungar de vozes e de espadas, de arcaicas maldições e de gestos que ocultam os dentes de lume e sangue.
Durante um tempo a luta dá-se num jogo de cegueiras e movimentos automáticos, de intuições precisas e assombrosos encontros marciais. Mas a pouco e pouco chega o declive, a decadência atonal e tudo se volta mais espesso, mais lento, mais insensato e temerário. Tudo se volta gris e perdido nos rostos de Lig e Lung, quando o sol vai perder-se no horizonte, quando tudo se perde definitivamente nos seus corações ecravos.
Porque Lig mata a Lung. Porque Lung mata a Lig”
E aí estava Mago na roda central do mercado, de movimentos astutos voltando a olhar, rápido e fugidio, para os ouvintes. Era o fim do conto. A perversa história dos ódios de Lig e Lung, das suas mulheres Mitsuru e Li –Po caídas na desgraça dos temores sem fim. Amadas personagens da nossa fantasia.
Aí estava Mago, entre as espadas, mostrando a sua ironia cúmplice, de olhar feroz. Contemplava assim a nossa ferocidade delicada e límpida e era então quando a sua boca alumiava o fogo, ele dizia, da sua velha frágua. Sim, sorríamos a pouco e pouco: febre e desvelo dos nosssos corações: do nosso brilho.
O mercado era como um formigueiro de milheiros de cores. Lentamente, ao fundo, chegavam cargueiros vagarosos cheios de centeio e milho, de trigo e chá.
E nós, nós voavamos pelo mercado mentres minha mãe pintava as grandes velas dos barcos, as túnicas estendidas ou os azulejos dos pátios: pintar os veleiros como pequenos homens e os homens como barcas lentos a cantar. Velas, pois, de barcas, e velas de pensamentos. Cores da juventude amaviosa e enfeitizada de minha mãe.
“Partir.Partir
Um feitiço de braços e de vozes. Braços brancos dos caminhos, promesas de estreitos abraços, e braços negros dos imensos buques que, erguidos contra a lua, falam de outros países apartados. E estão estendiddos para dizer-me: estamos sozinhos, vem! E as suas vozes chamam-me, a mim, a seu semelhante, já prontos a partir, agitando as asas da sua exultante e terrível juventude (1)
Assim pintava minha mãe quando nos esquecíamos do pequeno mar dos nossos olhos. Ser náufragas por entre o sal e por entre os barcos sem memória e sem rostos. Partir, como uma ideia, sem rumo fixo. Partir. Perder-se
IV
Laura entoava, como vidro, o seu encantamento:
Lig e lung estão perdidos
e as suas mulheres dormem
sob os seus olhos vadios
em tardes de arroz
e chumbo
Lig e Lung se vão ao fundo
e as suas mulheres dormem.
Tristeza e melancolia e, porém, a mais veloz e súbita felicidade do tempo que não passa. Pensar entre os cantos na amada Mitsuru de olhos oblíquos e nas suas flores: lírios, rosas, açucenas. Pensar em Li-Po, a astuta tecelã: os nossos amados tapetes!
Tapetes e flores que alcançavam e viviam a minha casa. Atravessar os corredores e habitar os quartos na recriação de Li-Po, de Mitsuru, dos seus terríveis homens.
E aí vem tia Letícia com grandes taças de chocolate. Era então quando fazíamos uma improvisada encenação com teias e vestidos passados de moda, papel, cartão, sedas: as nossas ilusões. Marionetes e títeres.
- Podemos começar?
- Adiante
- Quem fala?
- Adivinha com o coração, pensa com as tuas mãos. Respira pela ponta dos pés. Vês com os teus dedos?
- Onde está o meu chocolate?
- Cala e anda, bebe e cala. Fala Clara?
- Calma
- Clara!
- Chama!?
A chama da vela apagava-se. Bela chama que se extinguia numa doce impressão de revolta. Nós estávamos rígidas, tão rígidas como bonécos, tão incompreensíveis como as nossas fabulosas pistas.
Uma vela, um mínimo candeeiro e aí estavam os nossos jogos de pátios azúis e de distâncias de nuvem. Os nossos olhos de carvão e vinho reflecteriam-se nas taças de chocolate de tia Letícia: carvão, vinho (nos nossos olhos, no nosso brilho) e chocolate sobre as colecções de borboletas e cenários de roupas velhas que descem como um conto de falas ligeiras. Como escrever no círculo mágico das horas oblíquas um momento ou a intuição dum momento? Doce, pois, percorre pelos sensos a voz da casa e tudo acorda veloz, veloz como dedos finos, na sua mímica e no teatro do mundo: a nossa pequena estância.
Vagarosamente a tarde decaía e a noite antiquíssima impunha o seu desvelado sonho. Eu crescia com as minhas incomparáveis amigas na mais iluminada das excitações de seda ou antigas varandas. Era eu realmente?
Intuiir um poema e submergir-se, ingenua, no espírito das cousas, agora e antes, como buscando um devir estranho às nossas condições, ao que fomos e ao que somos. Perdidos esses momentos e esses tempos (todos os momentos e todos os tempos) voltam (voltavam) a ressoar em mim as velhas caracolas marítimas, labirínticas e adormecidas como uma sigilosa ventura. Fazer-me tangente ao sistema estilístico no que encontrava inumeravelmente situado na multiplicidade das minhas relações ambíguas e perder-me para sempre entre as personagens vivas e mortas nas que habitava. Absorver-me feroz e febril numa vidência dioturna.
Reparava, na minha imaginação de borboleta anoitecida, nas minhas necessidades expansivas correndo na quase-noite perto da Casa dos Matemáticos ou no Largo dos Filósofos, que nunca apagavam as suas horas de vaga-lume. Criavam um ritual de carácter peripatético para os seus encontros, como velhos animais noctâmbulos e eu ouvia as suas palavras de ressonâncias perdidas, entre arquivoltas e pátios de azulejos. Escrevia um poema, que era a minha cegueira branca ou sorriso de aquarela, e via a minha mãe conversar sobre as cores do mar com o inigualável Mago.
E depois dum tempo de vigílias e efervescências entre pinturas e poemas eu dormia profunda e sossegadamente. Era então quando uma caracola de mar soava aos meus ouvidos, ávida da noite. E imaginava Lig e Lung perdidos nos seus ódios no meio duma tempestade. E a noite era assim.
V
- Navegas sobre as palavras e os rumos incertos? Navegas sobre os dias e os tempos sem direcção nem rosto?
- Aqui estão os despojos do mercado. Como brilha o grande osso, a espinha dorsal da última baleia!
- Estas a fugir nos dias sem rasto. Que estratagema fazes?
- Deixa-me passear o meu pensamento descalço. Deixa-me guiar o diálogo ao vazio. Avançar suave e leve.
- Deixar, deixar. Deverias tomar tu a palavra, querida. Fazer com ela mais do que queixar-te e divagar. Não te lembras do jogo da verdade?
- A verdade? Já chegamos ao ponto de pormo-nos tão sérias? A verdade! Deverias saber que as mulheres nunca dizemos a verdade. A estas alturas!
- Tão desapiedadas somos? Ou é pura piedade?
- Uhm! Este osso de baleia, estas palavras imensas, este esqueleto tao branco: tão belo ao luar! Não sintes uma ligeireza?
- Divagas. Não sei se dizer que já estás senil, ainda que mais bem pareces uma rapariga mal educada. Aos teus anos, minha velha!
- Diria que estou a consentir excessivamente a tua vigilância. Vejo que não me posso descuidar uns breves instantes porque já estás prestes a censurar, para julgar-me. Quem és tu para julgar-me?
- Conheces perfeitamente a minha função: não brinques com a tua ingenuidade. Mas vejo que já nos começamos a entender. Já falas com um pouco mais de senso.
- Tão velha e tão rapariga, como poderia ter senso? Aliás, não vês que há lua cheia?
- Já sabia que hoje não me seria fácil conduzir-te. Senta aqui. Podemos ver muita cousa.
- O cais está como nunca esteve. Esta última baleia brilha com uma sinceridade excessiva. E sentar na sua cabeça a tocar o violino? Gostas?
- Realmente estás impossível. Não sei em que acabará tudo isto?
- Não tenhas mágoa, as mulheres somos realmente desapiedadas e o que seja será.
- Mas deves continuar e não dizes uma só verdade. És tão frívola que sinto vergonha. Que história é esta?
- Olha para aí. Aí está Mago dirigindo-se ao Pavilhão Vermelho. E lá para abaixo as nossas queridas amigas, Marinha, Laura e Olga. Não vês Lig e Lung entre elas? E aquela janela com duas sombras?: são Aurora e Letícia. E ao nosso lado Mitsuru e Li-Po. Como podes dizer que minto?
- Mitsuru e Li-Po, coitadas! Estão tão silenciosas que quase não reparava nelas.
- E nós estamos a falar demais. Realmente, às vezes, es odiosa. Sempre consegues os teus objectivos.
- Ah! Ah! As mulheres somos assim, minha velha!
- Silêncio!
E assim nos entregavamos à noite acesa, a de lantejoulas rápidas. Uma noite breve e desconhecida, de silenciosa soidade. As velhas vértebras da última baleia alumiando no cais deserto as cores de antigos versos demorados.
“E a grande cidade agora cheia de sol
e a hora real como um cais já sem navios” (2)
Ouvir, então, como o violino negro descansa sobre as horas descobrindo as difusas cidades. Ouvir na antiga sombra da melancolia o recanto enunciativo e perverso ancorado nas cordas, abrindo ao leve as janelas do nosso entendimento. Ouvir, mesmo empanhado na vaga luz dos candeeiros o amontoado coração das dúvidas: ferozes e vãs
Ouvir no silêncio...e acordar
VI
Contudo, fica posto o problema da verdade. Os fios mesclam-se e a memória dispersa-se numa penumbra de imagens. A verdade? Quiçá no final tudo seja develado. Mas é possível que haja final?.
O certo é que pensar no final deixa-nos como velhos títeres de fios cruzados.
Mago sempre acaba as suas estórias: esse narrrador perfeito. Escolhe com a elegância do seu espírito delicado o momento exacto para a conclusão. Lança ao chão o seu chapéu como numa dança de espadas e o súbito final aparece , impossível e redondo.
Lig e lung morreram, mas foi esse o final? Continuavam em nós o espírito aberto e infindável de Mitsuru e Li-Po. Entre nós tecíamos estranhas continuações que alimentávamos de rarezas e perguntas.
As cousas têm fim, mas os contos podem ter eles fim?
- Será que a verdade e o final irão unidos?
- Será?
- Tu que pensas, Mago?
Mago já não diz nada em direcção ao Pavilhão Vermelho. Silencioso e oculto.
Era o momento em que podia chover e eu nadava na cor que se definia entre os faróis distantes e a luminosidade de aquarela num verde claro ou num amarelo de fogo. A pele do anoitecer era sensível ao empapado sorriso do meu vestido, quiçá já povoado de olhos que espreitam na esconsa escuridão incontável. Uma noite astuta e vigilante que reescrevia sobre a sua textura as novas casas das marcas e dos corpos.
Os telhados que ardiam e as sílabas pronunciadas pelas vozes ocultas ou inexistentes configurando a nova dimensão da busca. Sim, duma busca nova: entre a perda e o esquecimento.
Aquela noite fugaz e sombria o meu corpo deambulava primeiro pelas telhas acesas, depois pelas praças e pelo chão. Primeira vez em que o corpo, solitário e fraco, se adentrava pelos meandros da solidão e das trevas. Sim, a primeira vez é também o final de algo.
Eu queria ver, imaginava ver, Mago dirigindo-se a uma partida de xadrez perfeita, como uma figura sombria que todas as noites jogava a sua liberdade numa batalha sem par. Ver a Mago dirigindo-se até um fundo cada vez mais encarnado até que se perde num combate inigualável e único. Ver os movimentos de minha mãe Aurora entre os países da sua devoção, a pintar as luzes vagas das noites de todos os povos interiores. Ver as minhas queridas amigas flutuar majestosamente entre lençóis brancos, estendidos e vivos. Ver a nossa juventude e a nossa admiração, a nossa devoção constante e silenciosa num labirinto secreto, profundo, a crescer por dentro. Ver a tia Letícia atravessando os mares para voltar de manhã cedo como se tivesse ido comprar o jornal, entrando nas pontas dos pés. Ver as personagens de Lig e Lung, do conto infindável mover-se em múltiplas combinações e ressurreições, alumiando e alumiados pelo espírito das cousas: a voz dum narrador que os acordasse.
Eu andava lenta, tão sombria como faróis gastos entre as almas que me desconheciam. Eu olhava para a janela verde da vida e via aquela rapariga adormecida entre os lençóis de seda e flores. Vibrar no almejo e nos cristais, vibrar nesse signo, nesses pequenos agoiros era já um lento cair que o tempo deita sobre nós. Ela, a lenta rapariga adormecida, ingénua e sorridente. Era eu realmente?
Por enquanto, caminhar na desolação da verdade, na sua separação infinita. Ver a Mago entre os faróis, perdido, á beira do esqueleto da última baleia, acercar-me a ele, estender a minha mão meiga e nada, nada: não ser reconhecida. Ver à minha tia Letícia e á minha mãe falar sossegadamente e ser invisível à sua beira. Marinha, Olga, Laura esquecidas entre si como se nunca tivessem falado.
Era uma noite só comparável à ferocidade da nossa existência juvenil e altiva. À minha memória acudia o poema escrito na vibração da insónia
Ao caminhar descalça pelas aquarelas
um porto perdido espreita
os pequenos fósforos
pelas aquarelas
e um olhar de criança
é o que me faz pintora
perdida entre os malecões (3)
entre um cais de prata
a pintar
de negro e de negro
o vazio dos barcos
ardendo nos fósforos
pelas aquarelas
Se queréis é o final, com a certeza acutelante do ser e da verdade. O final que me envolve fugidia e tremulenta, quando penso que em aquelas tardes eu também adormecia. Sempre fica essa saudade e essa metáfora, esse salto entre os sentidos e as certezas, essa indagação de uma experiência inexplicável. Sempre fica uma pergunta:
1 Um fragmento do livro de James Joyce A Portarit of the Artist as a Young Man.
2 Fernando Pessoa
3 Diques
domingo, 4 de maio de 2008
Acorde(m)
tem a saudade como musa
e o ensejo de progredir
Porque o progresso real
esconde-se neste pantanal
como graal a descobrir...
Somos, como povo, os eleitos
que das cinzas hão-de ir
percorrendo redutos imperfeitos
tal qual reluzente eremita
que expande e excita
quem dele soube rir.....
A luz cega de Lisboa
emerge ávida da escuridão
tal o seu fado entoa
a tristeza alegre da solidão
Quem, nau do Tejo, se atreveu
a voar por mares escondidos
e do antigo quadrado bebeu
perfumes redondos esquecidos?
A nossa serpente tem asas
maiores que o inconsciente
e tu, corvo eminente,
porque endeusas tábuas rasas?
é que tu és mais vasto que tu
e ninguém a não ser tu
responderá ao teu caos
senão embarcares nas naus
Miguel Barroso
(Título da fotografia: Anjo sem asae)
Se voares
tudo não voa contigo
para que voar seja a tua amálgama de tudo
a tentar conquistar o sol
e a treva que dardeja do interior do mundo de fora
promete-te
a frescura das ervas à sombra da elevação estival
da música de depois nos interstícios do canto das cigarras
e na queda
as asas do anjo
rasgarão as dimensões sem nome
de seres o gume e a carne em flor
e outra vez de novo
a verdade é espuma e vento
ossatura de não estares aqui
sábado, 3 de maio de 2008
A "Nova Águia" prepara-se para levantar voo
Nova Águia, Serpente Emplumada, golpes d'asa a partir das entranhas... A ver se ressuscitamos.
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sexta-feira, 2 de maio de 2008
O cuco
Seja na Cidade ou no Campo, há vários sítios onde sempre volto, para estar. Sob a mesma árvore, sentada na mesma pedra, a olhar o mesmo vale, a escutar, a observar. Têm as histórias que o Vazio proporciona e a memória não é de lembrança nem se descreve. São sítios de saudade, miradouros do tempo que a frequência e os anos tornam intemporais.
O que me surpreende infinitamente como uma terna explosão é a consciência de estar a existir no momento em que me dissolvo ante a beleza do mutável. As estações são o meu fascínio, parece que tudo se repete uma e outra vez e nunca encontro as mesmas cores, as mesmas flores, os mesmos frutos; os sons, os pássaros, os cheiros, a familiaridade do novo, ciclicamente novo.
Mal desci a ladeira, eis o cuco. Não o vejo, só o escuto. Ah… e tudo se transforma em cucar, os véus de nuvens, o sol que se abre, a vinha do pai, o rosmaninho, as giestas, tudo o que é passível de diferenciação e encanto próprio fica submerso no cucar do cuco. E a Manhã é pura sonoridade.
"Vocês aí dentro são muitos ?"
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Maio de 68, 40 anos depois
http://www.youtube.com/watch?v=WDgF6FtG0oY
Sous les pavés, la plage.......
Cassez la télé, ouvrez les yeux....
E, acima de tudo, matemos todas as ilusões para que finalmente possamos sonhar.








