quinta-feira, 13 de março de 2008
Um apelo
Acima de tudo, para lá de todas as teorias e "teias conceptuais" (como uma comentadora lhes chamou), desejo que todos vivamos em paz e harmonia, uns com os outros, pelo menos, e que criemos, aqui, algo verdadeiramente bom, que nos apegue de orgulho, por fazermos, com as nossas palavras, o bem (o que é o bem?).
Muito mais, infinitamente, haveria para ser dito mas, por ora, penso que fica o essencial. Participem! Sejamos Um! Paz.
Identidade pessoal e Eterno Retorno
Amo-as - profundamente! (não se trata de apego ao eu, porque são outras... É amor puro... apego ao sentimento?)
Sinto-me bem com isso.
Ainda hoje sou aquela criança que brincava na praia deserta com os pais.
Eterno retorno? Tudo está sempre a acontecer. Não neste espaço, não neste tempo, mas noutros, passados ou futuros.
Assim creio, e não apenas na existência do presente, disto, nu e cru, como o vemos.
Abraços
SIMgularidades
Muse - Sing For Absolution
Quero, com este post, agradecer a todos os que comentaram o post sobre o meu despedimento e que demonstraram, assim, que a Serpente é uma sangha virtual unida mas, mais que unida, compassiva. E é disso - compassividade - que são feitas as boas pessoas. Gostaria de ser tão compassivo quanto vós, mas sou, tantas vezes, demasiado comodista.... Muita paz e amor para todos! Felicidade! Concretização! Vida!
Sobre o apego e a fruição da realidade
Supostamente é uma coisa má.
Pergunta-se: como viver sem apego?
Respondo que não sei mas que, para que vivamos desapegados, teremos de viver desapegados da ideia do desapego, caso contrário estaremos apegados a ela e perguntaremos, a cada passo que dermos: estarei apegado?
A solução não é viver com a ideia do desapego na cabeça mas, penso, viver sem ideia alguma pré-concebida na cabeça.
Fruir o tal sabor, que é saber, da realidade que não é "realidade" mas algo indizível.
O ramo dourado do irreparável
Desalento e tristura. Desalento e tristura são só dois dos sentimentos possíveis dos que se sentem afectados pelo Irreparável.
O Irreparável
“O Irreparável é o facto das coisas serem como são, deste ou daquele modo, entregues sem remédio à sua maneira de ser. Irreparáveis são os estados de coisas, sejam elas como forem: tristes ou alegres, cruéis ou felizes. Como és, como é o mundo – é isto o Irreparável.
(…)
Que o mundo seja assim como é – eis a raiz de toda a alegria e de toda a dor puras. Uma dor ou uma alegria por o mundo não ser como parecia ou como queríamos que fosse são impuras e provisórias. Mas o grau extremo da sua pureza, no assim seja, dito ao mundo quando desapareceu toda a legítima causa de dúvida ou de esperança, dor e alegria não têm por objecto qualidades negativas ou positivas, mas o puro ser-assim, sem nenhum atributo.
(…)
O mundo do feliz e do infeliz, o mundo do bom e do malvado contêm os mesmos estados de coisas, são, quanto ao seu ser-assim, perfeitamente idênticos. O justo não vive num outro mundo. O eleito e o condenado têm os mesmos membros. (…) O que muda não são as coisas, mas os seus limites. É como se sobre elas estivesse agora suspensa qualquer coisa como uma auréola, uma glória.” Agamben, A Comunidade que Vem, trad. António Guerreiro, pp. 71 a 73
O Assim
O assim seja é a aceitação de tudo como acontece, nos acontece, a aceitação do que somos e como somos, do que são os outros e como são os outros. Esta aceitação sem limites é que pode mudar os nossos limites. E, se mudam os nossos, mudam os dos outros. Porque o ser assim e não de outro modo é que deixa ser e funda como somos, uns com os outros, limite e “deslimitação” permantes, a comunidade por vir. A comunidade que vem, vem de nós, os que sentido o Irreparável, o ser nos seus modos diversos e em nós, não o negam mas não se apropriam dele – inglória tarefa de tentar manter o que muda para outro modo, irá ser de outro modo, outro assim e outrossim, de nós apenas outro sim – mas não o querem ou desejam. Sermos singularidades sem identidades e sem estarmos cada um a pensar “sou assim” e “queria ser de outro modo”. Só há este assim como somos. Aceitar isto é também aceitarmos ser, não singularidades, mas SIMgularidades!
O SIM
Peço-o emprestado a Nietzsche que todos conhecem, mas não o peço emprestado para o explicar. Já todos o sabem, peço para o cantarmos. Assinarmos com ele o dia que já nasce, assim como nascer, cinzento ou ensolarado, assim como ele for o aceitaremos e, com ele, cada um de nós e todos, SIMgularidades que em todos os modos e de todos os modos somos a comunidade que em torno de uma Ideia, a de serpente, abraçaremos todos e cada um, como se nesta roda que é a Vida, o Irreparável, nós recebêssemos o que está suspenso em cada um e nisso viesse a bênção do Amor.
O Amor
“Ver simplesmente algo no seu ser-assim: irreparável, mas nem por isso necessário; assim, mas nem por isso contingente – é isto o Amor.” Op.cit., p. 86
Assim, só assim se faz o caminho da serpente. Com todos e com cada modo de sermos assim como somos, ainda somos. Não singularidades, mas SIMgularidades. Esperando o que está suspenso. Não vendo, relendo, revendo o que caiu, quem caiu, quem atirou ao chão. O que está suspenso deve vir do céu. Ser azul ou luz. Assim:
The Golden Bough - Joseph Mallord William Turner
quarta-feira, 12 de março de 2008
Beck - Lonesome Tears
Uma das minhas canções favoritas. Recorda-me o Verão em que andava perdido num descapotável pelas estradas solitárias do Sul do país em busca de praias desertas. Uma parte de mim?
O Incrível e incomparável Nasrudim
Para um galego a apresentação do Mullah Nasrudim é quase inevitável. A figura do parvo-louco-sábio tem muito da nossa Galiza. De facto muitas das suas histórias já as tinha ouvido dos lábios do meu avô mas tendo como protagonista ao inefával e saudoso Pir-i-Lampo, um protótipo de ares celtas e gaitas ao vento. Quiçá a única diferença seja certo quixotismo meigo do nosso Pir, algo ensonhador demais e com certas teimas metafísicas que ele próprio se encarrega de boicotear à beira de um copo de vinho Amandi e uma lareira perdida nas montanhas do Courel. Lá, perto d’O Cebreiro (onde se diz que está escondido ainda o Santo Graal) ouvi as suas sentenças e flechas enquanto encenava para mim umas anedotas vestido à moda dos bobos da corte medievais. Mas, enfim, essa é uma história que algum dia contarei, mas é agora outra história e deve deixar-nos aqui. Vejamos algumas das iluminadas histórias do INCRÍVEL E IMCOMPARÁVEL MULLAH NASRUDIM que segundo me contaram anda pelo Brasil e de lá não quere sair. Enfim, como ele diz: “Desfruta ou tenta aprender, chatearás alguém. Não o faças e chatearás alguém”
Como Nasrudim criou a verdade
"Estas leis não tornam melhores as pessoas", disse Nasrudim ao Rei; "elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente."
O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o faria. Ele poderia faze-las praticar a autenticidade. O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca. Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem. Um édito foi proclamado: "Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado."
Nasrudim deu um passo à frente.
"Aonde vai?"
"Estou a caminho da forca", respondeu Nasrudim calmamente.
"Não acreditamos em você!"
"Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!"
"Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!"
O Tolo que era Sábio
Todos os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor. A história correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse:
Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.
O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.
Afastando tigres
Certo dia ele estava jogando migalhas de pão em torno de sua casa. Um vizinho que passava perguntou:
Mullah, porque você está fazendo isso?
Ah, eu faço isso para manter os tigres afastados, explicou Nasrudim.
Mas não há tigres nesta região!
Casamento
Nasrudim estava proseando com um conhecido , que lhe indagou:
Mullah, responda-me, você nunca pensou em se casar?
Sim, claro que já. Quando eu era jovem, determinei-me a achar o meu par perfeito. Cruzei o deserto, cheguei em Damasco, e conheci uma mulher belíssima e espiritualmente muito evoluída; mas as coisas triviais, do dia a dia, a atrapalhavam.
Mudei de rumo e lá estava eu, em Isfahan; ali pude conhecer uma mulher com dom para as coisas materiais, da vida caseira, e além disso se mostrou muito espiritualizada. Porém, carecia de beleza física. Pensei: o que fazer?
E resolvi ir ao Cairo. Lá cheguei e logo fui apresentado a uma linda jovem, que também era religiosa, boa cozinheira e conhecedora dos afazeres do lar. Ali estava a minha mulher ideal.
Entretanto você não se casou com ela. Porquê?
- Ah, meu amigo. Entretanto ela buscava o seu homem ideal.
O anúncio
Nasrudim postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão:
Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?
Logo juntou-se um grande número de pessoas, com todo mundo gritando:
- Queremos, queremos!
Excelente! Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a respeito, caso algum dia descubra algo assim.
O sermão de Nasrudim
Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudim. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita. Ele concordou. Chegado o tal dia, Nasrudim subiu ao púlpito e falou:
Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?
Não, não sabemos
Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja - disse o Mulla, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.
Nasrudim começou a pregação com a mesma pergunta de antes. Desta vez, a congregação respondeu numa única voz:
Sim, sabemos
Neste caso não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora.
E voltou para casa. Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da Sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.
Sabem ou não sabem?
A congregação estava preparada.
Alguns sabem, outros não.
Excelente - disse Nasrudim - então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem.
E foi para casa.
O barco e o homem letrado
Em dada ocasião, Nasrudim estava em um barco com um homem letrado, quando o Mullá disse algo que contrariava as regras gramaticais:
Você nunca estudou gramática? - perguntou o estudioso.
Não, nunca - respondeu Nasrudim.
Nesse caso, metade de sua vida se perdeu - retrucou outro.
Nasrudim ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:
Você nunca aprendeu a nadar? - disse o Mullá ao homem letrado.
Não, nunca - este respondeu.
Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.
Desculpem mandar mais um post ...
Mas quando esses funcionários taparem todos os buracos, cuidado, pois é a nós que eles - os de pensamento morto e frio - querem sufocar.
Atiram para cima da gente um muro de pedra disfarçado de ar e um muro de ar disfarçado de pedra. Mas o problema não é o muro de pedra ou o muro de ar..."
Se pensamos por medo e agredimos a realidade com o conceito de haver ...
Sera que ...
You're fired
Triste, mas não mortal
No entanto, nunca pensei que a minha participação neste espaço pudesse ser tão polémica, ao ponto de, praticamente a cada post, receber comentários muito negativos, alguns chegando mesmo a ser insultuosos, se eu assim o quiser. Na verdade, penso não ter escrito nada que relegasse para esse tipo de reacções, já que o que escrevi foram, essencialmente, uma série de conjecturas, prontas a ser refutadas.
Se escrevi, ontem, um argumento, foi porque penso que os argumentos são uma boa forma de chegarmos à verdade, objectivamente, e porque, de certo modo, esperava que os leitores pensassem sobre o assunto e que se gerasse uma discussão saudável, prós e contras, relativamente ao que foi dito. Infelizmente, a maioria dos leitores não teve a maturidade suficiente para discutir o assunto e, quem sabe, juntos chegarmos à verdade, ou dela mais nos aproximarmos.
E isso deixa-me bastante triste, porque vejo que as pessoas não estão preparadas para discutir ideias mas, apenas, a aceitar de bom grado aquilo que vai de encontro às suas expectativas e, nesse sentido, estão muito apegadas às mesmas.
Triste, mas não mortal.
