O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 13 de março de 2008

Sobre o apego e a fruição da realidade

Muito neste blogue se tem falado do apego.

Supostamente é uma coisa má.

Pergunta-se: como viver sem apego?

Respondo que não sei mas que, para que vivamos desapegados, teremos de viver desapegados da ideia do desapego, caso contrário estaremos apegados a ela e perguntaremos, a cada passo que dermos: estarei apegado?

A solução não é viver com a ideia do desapego na cabeça mas, penso, viver sem ideia alguma pré-concebida na cabeça.

Fruir o tal sabor, que é saber, da realidade que não é "realidade" mas algo indizível.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Sobre o amor e as paixões

Sobre o amor e as paixões. Haverá diferenças? Compreendo o que é uma paixão momentânea, um fogo que se extingue num ápice, ao contrário do amor, que dura e, inclusivamente, nos responsabiliza perante o amado, porquanto assim nos sentimos. Mas não será o amor uma forma de apego?

Julgo que aprendo bastante com o meu cão, que amo profundamente, sentindo, de momento, uma enorme tristeza por não poder estar com ele, mais do que alguma vez senti por alguém. Posso estar a dizer uma enorme heresia, um absurdo, mas amo o meu cão mais do que amo a maioria das pessoas; a questão, que queria focar neste post, é que me sinto bastante apegado a ele, tal como penso que ele, que julgo amar-me, se sente.

Penso que o amor, apaixonado e duradouro, gera um forte apego e sofrimento, porquanto sentimos saudade quando estamos longe do amado. A própria saudade é sinal de apego. Mas, por causar apego e sofrimento, poderemos dizer que o amor é mau? Não, tal seria um absurdo ainda maior do que afirmar que estou apaixonado por um cão, esse ser tão especial. Afinal, é o amor que faz a vida valer a pena. Penso que não há palavras que o descrevam adequadamente.

Sem nenhuma paixão?

Considero intuitivo, mas superficialmente, que valha a pena viver sem aversão; afinal, a aversão é quase uma espécie de medo e uma forma de apego: ao detestar, ao odiar, ao repugnar. Mas valerá a pena viver sem nenhuma espécie de apego? Sem nenhuma paixão? É uma questão que fica no ar. Provavelmente, valerá, embora eu ainda o não saiba. Paz e amor para todos.

Um texto sobre o apego e o amor

Realmente, o apego e a aversão são duas das maiores constantes nas nossas vidas. Pergunto-me se será possível viver sem ambas. Gostaria de viver sem aversão e, na verdade, que me lembre, tenho aversão por poucas coisas; não sou daquelas pessoas que dizem constantemente que adoram ou detestam isto ou aquilo.

Este texto surge a propósito da palestra sobre o Budismo, a que assisti ontem, proferida por Paulo Borges, o dono deste blogue. É que considero o amor uma das grandes libertações, se bem que tantas vezes nos prenda, a nós e aos outros, desta vida, porque algo intuitivamente bom... afinal, quem não gosta de se sentir acarinhado, um pouco de ternura, em suma, amado?

A minha questão, que deixo para o leitor e para os comentadores, é a seguinte: será o amor uma forma de apego? E, se todo o apego é mau, e sendo o amor uma forma de apego, o amor é mau? Ou nem todas as formas de apego são más, a saber, o amor, se for uma forma de apego?

A tese intuitiva e mais superficial é a de que não vale a pena odiar e que vale a pena amar. Mas a tese é superficial: afinal, não vale a pena odiar alguém como Hitler? Quem, no seu perfeito juízo, não odeia, detesta, sente aversão por, Hitler? Quanto a valer a pena amar, parece que é intuitivo que assim é, na medida em que, intuitivamente, é o amor que nos liberta da nossa condição de semi-escravos de um trabalho e subsistência tantas vezes desumanos.

Afinal, não seria muito melhor que a menina do texto de Ana Margarida Esteves fosse amada pela mãe ao invés de ser maltratada? O amor, o carinho, a ternura, não são intuitivamente bons? Penso que sim. Mas não serão também formas de apego? Poderemos amar alguém sem que nos apeguemos a essa pessoa? E esse apego, a existir, é mau? No fundo, estou apenas a repetir as questões do terceiro parágrafo.