O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 20 de abril de 2008

Desafio


Uma das coisas boas dos EUA é a capacidade de auto-critica de alguns dos seus cidadãos. Não obstante a apatia e auto-contentamento da grande maioria dos Norte-americanos, há um honrosa minoria cuja coragem, capacidade de análise e espírito denunciador e interventivo não têm par no mundo inteiro. Um desses exemplos é o escritor "Beat" William Burroughs:


William S. Burroughs - Thanksgiving Prayer

http://www.youtube.com/watch?v=Z7_MYrVzU-Y

Thanks for the wild turkey and the passenger pigeon…destined to be shit out through wholesome American guts.

Thanks for a continent to despoil and poison.

Thanks for Indians to provide a modicum of challenge and danger.

Thanks for vast herds of bison to kill and skin…leaving the carcasses to rot.

Thanks for bounties on wolves and coyotes.

Thanks for the American dream: To vulgarize and to falsify until the bare lies shine through.

Thanks for the KKK.

For nigger-killin’ lawmen, feelin’ their notches.

For decent church-goin’ women, with their mean, pinched, bitter, evil faces.

Thanks for “Kill a Queer for Christ” stickers.

Thanks for laboratory AIDS.

Thanks for Prohibition and the war against drugs.

Thanks for a country where nobody’s allowed to mind their own business.

Thanks for a nation of finks.

Yes, thanks for all the memories…all right, let’s see your arms.

You always were a headache and you always were a bore.

Thanks for the last and greatest betrayal of the last and greatest of human dreams.

(1988)


Quem escreve e declama assim não é um homem cheio de ódio e amargura, mas sim alguém arrebatado de Amor pelo seu país ... Quem não ama está-se nas tintas

Só um@ verdadeir@ patriota pode denunciar os podres do seu país como Burroughs o denuncia.


Por isso, tenho uma sugestão para o 10 de Junho:


Escrevermos um poema colectivo, na linha do "Thanksgiving Prayer", composto por vários versos começados por "Celebro", "Canto" ou "Louvo", "Agradeço", "Orgulho-me" ou "Alegro-me", no qual ironizemos todos os "podres", passados e presentes, do nosso país.


Esse poema seria escrito a várias mãos, publicado neste blogue, e no final poderiamos incluir os nomes (reais, pseudónimos ou heterónimos) de todos os participantes.


Criariamos assim um poema catártico, no qual "queimaríamos" tudo aquilo que oprime Portugal com o Fogo da Palavra, criando assim um espaço interior e energia para que possamos exprimir a alta voz os nossos sonhos.
No final, faríamos uma ode à nossa força interior, de como todos esses factores supostamente opressivos apenas contribuem para nos tornar consciente da nossa própria força, impedem que nos acomodemos e forçam-nos a querermos nos cumprir e transcender a nós mesmos e a tudo o que nos rodeia.


Quem quizer participar, que ponha os seus versos aqui na "Serpente Emplumada".


quem vem lá?

sábado, 19 de abril de 2008

A iniciação do jovem Jean-Yves Leloup à meditação hesicasta

"O velho monge tinha-o bem aconselhado, com efeito, a meditar "como o oceano" e não como o mar. [...] Inspiro, expiro... depois: sou inspirado, sou expirado. Deixo-me levar pelo sopro, como nos deixamos levar pelas vagas... [...] A gota de água mantinha a sua identidade e no entanto sabia "ser una" com o oceano. É assim que o jovem aprendeu que meditar é respirar profundamente, deixar ser o fluxo e refluxo do sopro.
Aprendeu igualmente que, se havia vagas à superfície, o fundo do oceano permanecia tranquilo. Os pensamentos vão e vêm, espumam-nos, mas o fundo do ser permanece imóvel. Meditar a partir das vagas que somos para perder pé e ganhar raiz no fundo do oceano. Tudo isto tornava-se cada dia um pouco mais vivo nele e recordava as palavras de um poeta que o tinham marcado no tempo da sua adolescência: "A Existência é um mar sem cessar cheio de vagas. Deste mar as pessoas comuns não percepcionam senão as vagas. Vê como das profundezas do mar inumeráveis vagas aparecem à superfície, enquanto o mar permanece escondido nas vagas". Hoje o mar parecia-lhe menos "escondido nas vagas", a unicidade de todas as coisas parecia-lhe mais evidente e isso não abolia o múltiplo. Tinha menos necessidade de opôr o fundo e a forma, o visível e o invisível. Tudo isso constituía o oceano único da vida.
No fundo do seu sopro não havia a Ruah [o Espírito divino]? O pneuma ? O grande sopro de Deus ?
"Aquele que escuta atentamente a sua respiração, disse-lhe então o velho monge Serafim, não está longe de Deus.
Escuta quem está lá no final da tua expiração. Quem está lá no final da tua inspiração". Havia aí com efeito alguns segundos de silêncio mais profundos que o fluxo e o refluxo das vagas, havia aí alguma coisa que parecia suportar o oceano..." - Jean-Yves Leloup, Écrits sur l'Hésychasme. Une tradition contemplative oubliée, Paris, Albin Michel, 2003, pp.17-18.

O autor falará sobre este tema na próxima 3ª feira, dia 22, pelas 18 h, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Martinho da Arcada

No Martinho da Arcada
não tem nada
não tem pessoa, nem gente
não tem ninguém que mente

como o poeta nas fotografias
com identidades falsas
que fala de outras vidas
e de mares nunca navegadas

Não tem ninguém de verdade
aqui só existem heterónimos
então bebo e tenho tanta vontade
de inventar um monte de poetas

31.III.08

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Uma experiência de êxtase laico e contemporâneo

"Aí onde penetrei era uma esfera de cristal, onde tudo era luz e silêncio - tudo isso que subitamente veio e me envolveu. Esfera feita duma substância poderosamente dura e frágil. Irradiante e geometricamente definida. Fremente e calma: a verdadeira vida nesse lugar desvendada. Impondo-se por uma potência irresistível, uma autoridade incontestável; mas vulnerável, susceptível de ser posta em fuga à menor falta da minha parte. Vinda expressamente para mim, mas fugaz. Impossível de aprisionar porque indizivelmente livre. Uma só imperfeição existia nesse paraíso, não lhe pertencendo, mas acompanhando-o: a certeza do seu fim inevitável, inelutável, num momento desconhecido mas próximo. Esta apreensão subsistia, tal um ponto negro sobrenadando neste mar cintilante de pura alegria" - Dalila Pereira da Costa, "Três meditações sobre o êxtase", Porto, Lello & Irmão, 1972, p.9.

Dalila Pereira da Costa é uma Amiga, autora de vasta obra, a cuja homenagem será dedicado o III Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade, em 19 e 20 de Maio, no Porto e em Viana do Castelo.

Da "normalidade" como doença

"É o ego que resiste. Tantos combates lhe foram necessários para afirmar-se e eis que agora lhe é exigido que passe ao segundo plano, que dê lugar ao si mesmo. O ego toma isso como um ameaça e tem razão. O indivíduo como ego é ameaçado, é convidado a morrer... Mas o indivíduo que não tem medo, que aceita esta ameaça e que abre mão, torna-se uma pessoa, alguém através do qual o si mesmo, a presença do Ser essencial, pode ressoar e manifestar-se.
A "normalidade" (que eu chamo de "normose" para fazer a conexão com neurose e psicose), mesmo se Freud a chama de "cura ou saúde", pode ser considerada uma doença do Ser essencial. Esta normalidade pode tornar-se um obstáculo no caminho da verdadeira realização; é preciso saber colocar em questão a imagem que cada um tem de si ou que a sociedade nos impõe e, através de uma certa solidão, expressar a maneira única pela qual o Ser quer manifestar-se em nós" - Jean-Yves Leloup, Enraizamento e Abertura, Petrópolis, Vozes, 2003, p.41.

Fernando Pessoa e Jean-Yves Leloup - 21 e 22 de Abril

Caros Amigos,

Chamo a atenção para as conferências que decorrem no Auditório 1 do Edifício 3 da Universidade Católica. Aí falarei no dia 21, 2ªfeira, pelas 17 h, sobre "A Questão de Deus em Fernando Pessoa".
Recordo sobretudo a presença de Jean-Yves Leloup, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Cidade Universitária), no dia 22, 3ª feira, pelas 18 h, para uma conferência sobre "O Peregrino Russo: antropologia do hesicasmo e diálogo entre as religiões". A entrada é livre e haverá tradução para português. A não perder !

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Alexandre Herculano, Século XXI


http://www.wardruna.com/about/index.html


Nas horas do silêncio, à meia-noite,
Eu louvarei o Eterno!

Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,

E os abismos do inferno.

Pela amplidão dos céus meus cantos soem

E a Lua prateada

Pare no giro seu, enquanto pulso

Esta harpa a Deus sagrada.

Antes de tempo haver, quando o infinito

Media a eternidade,

E só do vácuo as solidões enchia

De Deus a imensidade, Ele existia, em sua essência envolto,

E fora dele o nada:

No seio do Criador a vida do homem

Estava ainda guardada:

Ainda então do mundo os fundamentos

Na mente se escondiam

Do Omnipotente, e os astros fulgurantes

Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento

Das mãos sai do Senhor:

Surge o Sol, banha a terra, e desabrocha

Sua primeira flor:

Sobre o invisível eixo range o globo:

O vento o bosque ondeia:

Retumba ao longe o mar: da vida a força

A natureza anseia!

cantiga de amigo

A noite segura-a

Como um barco ao vento.

Dentro dos teus olhos

Acordam as docas

Sacudidas.

E o tempo mastiga

Violento mais um dia

Fragmentos, um braço

Nas garras da espuma

Agitada

Como um barco ao vento

– Sem poder acostar.

Easter (Erotic Poetry)

Em resposta ao comentario da Alumbrada "O Nada é a noite ululante do sexo e do abismo !"

http://www.youtube.com/watch?v=FKu59SMZAAs

"Easter is an erotic poem written by Caeser Pink and an Indian poetess from San Francisco. The words were inspired by the writing of Henry Miller and Anais Nin. The video features New York City singer and dancer Chisa, and Samantha D. Camera work by Louis Mhina Dada Terrier and Caeser Pink. The open music section is based on Stravisnky's The Rite Of Spring. "

Uma versao "Cyberpunk" da Cancao de Salomao?

terça-feira, 15 de abril de 2008

Tantra: O saber Amar como porta de acesso a vacuidade libertadora

A pedido de varias familias, esta de regresso o filme "Sex: The secret gate to Eden". Espero que gostem e, se possivel, facam comentarios construtivos e dem sugestoes de material escrito e audiovisual sobre o tema:

http://video.google.com/videoplay?docid=-6756768187241710929

Nada não niilista e vacuidade

"Lo español y el portugués lo expresan admirablemente sin recurrir a la negación dialéctica: Nada no significa "no-Ser" sino ausencia de Ser (no nacido, non-natum, ajata en sánscrito); pero no la ausencia como una privación, como la negación de algo que debiera ser, como un aborto que aún no ha llegado a ser" [...].
La Nada no es el asat (no-Ser) de las filosofías del atman; es más bien la vacuidad de las filosofías del anatman. Esta nada es el meollo de la experiencia mística. Por algo la dimensión mística de la realidad es más connatural al buddhismo que a las filosofías del Ser - sobre todo si este último se identifica con Substancia" - Raimon Pannikar, De la Mística. Experiencia plena de la Vida, Barcelona, Herder, 2005, pp. 143-144.

"Nada", em castelhano e português, procede da expressão latina "nulla res nata" (nenhuma coisa nascida).

Pelo caminho do nada até ao centro do nada

"Por el camino de la nada has de llegarte a perderte en Dios, que es el último grado de la perfección, y [si] así te sabes perder, serás dichosa, te ganarás y te acercarás a hallar. En esta oficina de la nada se fabrica la sencillez, se halla el interior y infuso recogimiento, se alcanza la quietud y se limpia el corazón de todo género de imperfección. Oh, qué tesoro descubrirás si haces en la nada su morada ! Y si te entras en el centro da la nada, en nada te mezclarás por afuera (escalón en donde tropiezam infinitas almas), sino solamente en aquello que por oficio te toca" - Miguel de Molinos, Guía Espiritual, XX, 191.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Orgulho de irmã

Aqui vos deixo um texto de “Portas da Percepção”, blogue da minha Irmã, que escreve de uma forma muito mais harmoniosa, corajosa e iconoclasta que eu:

http://miz-hyde.livejournal.com/99984.html?view=468368#t468368

"April 12th, 2008

02:16 am - Registo – o filme “I’m Not There”……é dos poucos filmes que consigo dizer “Pá, é mesmo isto”. Acabei ainda há pouco de o ver. Disse isto não em detrimento dos outros, claro. Simplesmente tenho uma mente tão activa, que poucos são aqueles filmes que a acompanham. Tão simples quanto isso. Cada um sente como sabe. Amei o filme. E pouco conheço de Bob Dylan. A sua desintegração integra uma colectividade enorme, mas somente quem se consegue esquecer de si mesmo.“As pessoas dizem que eu tenho uma imaginação extraordinária. Sinto-me só.”Os desempenhos da Cate Blanchet e do Christian Bale foram qualquer coisa de magnífico e… sexy. O meu fetiche pelo Christian Bale não afecta qualquer objectividade. Já pressentia noutros filmes isto, mas neste dá para ver o quanto ele se entrega e ama o que faz. Sinto-me orgulhosa por adorar este menino bonito.

“Um dia destes mostro-te o meu texto sobre Jesus Cristo. Não me sinto melhor ou pior do que as outras pessoas apenas por escrever, jamais, sabes? Às vezes escrevo. As pessoas por vezes não se relativizam, sabes? A escrita e a música nada mais são do que uma expressão individual. É como limpar o rabo, sabes? – pode-se usar papel higiénico, mas também se tem a opção de utilizar uma folha de jornal, ou o cão da vizinha, ou alguma coisa que estimule de modo especial os entrefolhos do olho do cu.”, palavras saíam-me de rompante perante o meu companheiro da sessão, enquanto nos dirigíamos para o carro.

Esqueçamo-nos de nós próprios. Esqueçamos as nossas necessidades de estímulos, de nos sentirmos deuses, especiais. E assim se É. Cada um de nós é um Deus comum. Plagiados de merda por dentro para nos fazer sentir “que bom que sou, nesta causa virtual que segue a minha vida ansiando público e aplausos de quem eu no fundo gostaria de ser e copio, só que carregando mais na maquilhagem para desviar a atenção das traças de uma outra chama para mim” – plagiados de esterco tapador de vazios, motor artificial do interesse banal.

Esqueçamo-nos de nós próprios e besuntemo-nos de vida. Não é preciso esforço, no sentido de espasmo doente. Morte ao antídoto dos vazios. Amemos o plural mais do que nós mesmos. Amemo-nos a nós próprios como a derradeira, desesperada expressão de vida do sentir do carinho e do animal afectuoso. Leoa que vai à caça e tigre que dá turras de amor. Hedonismo com alma, sempre.

sábado, 12 de abril de 2008

I am not like other people. I am burning in hell. The hell of myself. (Henry Chinaski, personagem de Charles Bukowski em "Barfly - Amor Marginal)

Quem nunca levou com um "nunca mais" que atire o primeiro calhau

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y, otra vez, con el ala a sus cristales
jugando llamarán;
pero aquéllas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha al contemplar,
aquéllas que aprendieron nuestros nombres...
ésas... ¡no volverán!

Volverán las tupidas madreselvas
de tu jardín las tapias a escalar,
y otra vez a la tarde, aún más hermosas,
sus flores se abrirán;
pero aquéllas, cuajadas de rocío,
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer, como lágrimas del día...
ésas... ¡no volverán!

Volverán del amor en tus oídos
las palabras ardientes a sonar;
tu corazón, de su profundo sueño
tal vez despertará;
pero mudo y absorto y de rodillas,
como se adora a Dios ante su altar,
como yo te he querido..., desengáñate:
¡así no te querrán!

(Gustavo Adolfo Bécquer)