O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 17 de maio de 2008

Céu e Pedras Falantes - Linguagem Serpentínea e do Sudoeste

Abóboda- Estela de Almodôvar
Estela de Alcoutim

A leveza dos céus peninsulares


Pedras de Santiago de Compostela


Pedra -Se-rune-aspa









arte de nadar

a saudade nao é uma pedra qualquer
no pescoço do nosso ser
mas sim um diamante leve
luz inquebrável do horizonte...

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Gian Lorenzo Bernini

Hora para pensarmos seriamente no nosso "Encontro Serpentino"

Ola Serpentinos e Serpentinas!

Metade de Maio ja la vai, e esta na hora de decidirmos quando e onde vai ser o nosso encontro.

Proponho que seja dia 9 de Junho a noite, vespera do Dia de Portugal, ou entao dia de Santo Antonio.

Proponho tambem que passemos um bom serao na Tasca do Chico, uma casa de Fado Vadio, que fica ali na Rua do Diário de Notícias, nº 39, no coração do Bairro Alto.

Se decidirmos nos encontrar dia de Santo Antonio, poderiamos nos encontrar durante o dia para ver as marchas, e depois marcharmos para a Tasca do Chico para um belo serao de fados e vadiagem.

o que acham:-)?

Novas Lendas – Velhos Alfabetos



Os «sussurradores do cavalo» ReUNiAm-Se para o voo das Serpentes. Os alfabetos traçaram linhas rectas para gravar na árvore o segredo dos ventos e da neve. Livres, desenhavam no ar curvilíneas asas que desapareciam no espaço.Chegaram à margem do Anna, onde Serpes dormia. Deixaram as terras de Ophiuso com lágrimas petrificadas. Ao olhar as águas as letras dissolviam-se no azul. O alfabeto cónio soltava os ventos, as runas desapareciam no mar.
As vozes segredavam mistérios. Avieno repetia:
Diz-se que desde aqui [do Promontório Sagrado/Cabo de São Vicente] até ao rio Ana [Guadiana] há um percurso de um só dia…
Para as Serpentes aladas, era a distância de um segundo. O herói chegou a tempo das primeiras colheitas, tendo como aliado Zéfiro, amigo dos Lysis dessas terras a ocidente da península. Avieno chamou-lhe Ofiusa, “terra da serpente”. Serpentes seria uma antiga tribo de iniciados numa via antiga.
O povo de Apolo, adoradores de Odin, e o povo de Oestrimini não esqueceram o idioma. Mas os Strymonioi foram viver para as terras trácias perseguidos pelas serpentes.
Em Olissipo foi construído um templo em cada colina.
Quando Ulisses iniciou a viagem de regresso, de novo a voz se ouviu:
Se alguém cruza, de barco, o maciço de Zéfiris e se dirige para o Mediterrâneo, é empurrado sem parar pelas rajadas do vento Favónio.
Os povos do Norte e os povos da primitiva escrita cónia conservaram afinidades e cultivaram o seu fascínio pelo mar e pelas viagens.
Ainda hoje se ouve no Cabo consagrado o som do velho «sussurrador de cavalos» que adormeceu sobre a pedra branca do tempo.
A Serpente Emplumada dizia na voz do poeta: «Eu, da raça dos Navegadores, desprezo tudo o que seja menos do que descobrir um Mundo Novo !» E a palavra fez-se caminho.


quinta-feira, 15 de maio de 2008

Nova Águia e MIL - O que se espera de todos e cada um de nós ?

No momento em que a Nova Águia e o Movimento Internacional Lusófono levantam voo, emplumados de mais de meio milhar de sempre crescentes adesões em todo o mundo lusófono e fora dele, o que se espera de todos e cada um de nós ? Mais um movimento de fugazes entusiastas para ficar na história sócio-cultural do país, ser referido nos compêndios escolares daqui a um século e ter deixado tudo na mesma ? Ou um movimento que desde já faça sua a diferença que deseja para Portugal, a comunidade lusófona e o mundo ? Um movimento de pessoas que não se satisfaçam com dizerem que aderiram ou são assinantes disto ou daquilo, com terem o nome numa revista ou num blogue, com porem mais um emblema na lapela ou sentirem que pertencem a um novo clube, mas que realmente estejam dispostas a reflectir, viver e partilhar as ideias contidas nos manifestos da Nova Águia e do MIL, com todo o incómodo e desassossego que isso possa causar aos hábitos e rotinas mentais, culturais e sociais de um país atolado num marasmo de indiferença e conformismo ? Um movimento cujos indivíduos e núcleos tomem iniciativas, organizem encontros, debatam e realizem ideias, assumam a responsabilidade de uma cidadania activa que repense e refunde o sentido de haver Portugal ? Um movimento que, de forma séria, firme e ponderada, com respeito por e em diálogo com todos os que pensem de forma diferente, assuma ser alternativa ao estado actual das coisas ?

Digo isto porque não posso deixar de sentir um contraste entre o crescimento rápido e entusiasta das adesões à Nova Águia e ao MIL e as poucas iniciativas autónomas dos aderentes, que parecem continuar a passividade secular dos portugueses, que tendem a ficar à espera que decidam e pensem por eles. A Direcção da Nova Águia e a Comissão Coordenadora do MIL podem e devem impulsionar e catalisar este movimento, mas ele nunca existirá, como um verdadeiro movimento de renovação, se as nossas iniciativas não encontrarem eco nas iniciativas dos múltiplos núcleos de aderentes espalhados por todo o país e pelo mundo.

Espero que os vários lançamentos da Nova Águia sejam pontos de encontro para aqueles que abraçam este projecto, espero que os aderentes em cada cidade e região tomem a iniciativa de se conhecer e organizar para planearem estratégias conjuntas de divulgação deste movimento, espero que todos se mobilizem e dêem o melhor de si para que estejamos à altura do melhor da nossa história e cultura e daqueles que nos inspiram. Espero que desde já e até ao final das nossas vidas sintamos que estamos realmente a marcar uma diferença e a contribuir para que haja um novo Portugal, uma nova Comunidade Lusófona e um novo Mundo.

"Eu, da raça dos Navegadores, desprezo tudo o que seja menos do que descobrir um Mundo Novo !" - Álvaro de Campos

Hoje - V Encontro Inter-Religioso de Meditação - 18.30

Para que o diálogo inter-religioso se funde no silêncio inter e trans-religioso ! Por um ecumenismo do espírito no jejum das palavras e dos pensamentos !
Para que se cumpra o Portugal-V Império ecuménico, multi e trans-cultural, multi e trans-religioso de Pessoa e Agostinho da Silva !

Não faltes !

Centro de Estudos da Ordem do Carmo – Lisboa, R. de St. Isabel, 128-130 (ao Rato)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Quis saber quem sou...

Estava ontem a ver a excelente série "CSI: Miami" quando, às tantas, a investigadora Duquesne diz, a um pai que abandonou, na rua, o seu filho abatido a tiro, que ele poderia no mínimo mostrar traços de humanidade: "o que poderia fazer?", diz ele, ao que Duquesne responde - "podia ao menos ser humano".

Creio que temos uma ideia errada do que é ser humano e que, não raras vezes, idealizamos o humano como se de um ser querúbico se tratasse, dotado de uma moral inabalável, como se os crimes cometidos por seres humanos fossem cometidos por uma qualquer sua parte inumana. Infelizmente, a realidade aí está para nos mostrar que não é assim e que o ser humano é capaz das maiores atrocidades de que alguma vez tivemos conhecimento, até na própria medida em que é capaz de premeditar os seus actos ignóbeis ou mesmo, no caso do exercício de poder, de prever verdadeiras hecatombes que se abatem, habitualmente, sobre os mais desfavorecidos sem que, no entanto, se demova das suas intenções.

O caso mais público, atroz e revoltante de sempre é, sem dúvida, o de Fritzl. Penso que o humano é o animal mais cruel de todos, na medida da sua própria racionalidade. Exemplos não faltam.

Uma breve reflexão sobre a existência de Deus a partir de uma notícia sobre uma carta de Einstein

Soube hoje, através das notícias, que veio a público uma carta de Einstein em que o génio afirma que a crença em Deus é uma crença infantil e supersticiosa. Creio que o mais fotogénico cientista de sempre está errado, na medida em que não é meramente infantil (como se a infantilidade fosse um mal... vejamos bem a sociedade em que vivemos!), mas simplesmente humano, perguntar pela causa das coisas. E, no que refere a causas, Deus, que desconhecemos, é a causa primeira de tudo. Não digo que Ele seja omnipotente, ominisciente ou sumamente bom mas, apenas, que sei que é a causa, embora O desconheça, tal como sei que o fabricante do computador que neste momento utilizo é a causa da existência do mesmo, embora o desconheça, isto é, não saiba que propriedades tem. Quanto a Deus, se de facto existe ou existiu, tenho em crer que lhe podemos atribuir, com certeza, pelo menos uma propriedade: ser incriado, na medida em que é o primeiro ser, anterior a tudo. Penso que a única boa alternativa à ideia de que Deus existe ou existiu é a de que o Universo não tem princípio temporal e que, portanto, há sempre (infinitos) acontecimentos anteriores a quaisquer acontecimentos. Note-se, porém, que mesmo esta última teoria supõe a existência de algo incriado, na medida em que supõe um infinito de tempo, acontecimentos e, supostamente, objectos (físicos ou outros). Nos meus parcos conhecimentos científicos, creio que Deus é aquilo que é, como disse, anterior a tudo e, por isso, o que existia antes e aquando do Big-Bang, podendo ou não existir depois do Big-Bang. Se podemos comunicar com Ele? Podemos, pelo menos, tentar pensá-Lo...

Uma breve reflexão sobre modelos sociais, o Estado e a condição humana

Quem é contra o liberalismo pela razão mais óbvia é, também, contra o anarquismo, na medida em que essa razão é a de que num modelo social liberal os patrões desrespeitariam todo e qualquer direito dos trabalhadores, visando o lucro, dada a ausência de leis ou regras, ausência também verificada num modelo anarquista, razão suficiente para o mesmo desrespeito, não obstante o facto de os anarquistas defenderem a ausência de patrões.

Acontece que a razão pela qual os anarquistas criticam o modelo liberal é a sua descrença numa suposta bondade dos patrões, o que contradiz a sua teoria de que, educado, o ser humano é capaz de se tornar um animal fraterno porque, afinal, os patrões (nada mais) são (que) pessoas. Assim, só me resta crer que os anarquistas crêem que num modelo - que não o seu - as pessoas não têm escrúpulos e, noutro - o seu -, são maravilhosas e fraternas criaturas acabadas de sair de um colorido conto de fadas, anjos caídos num qualquer paraíso astral.

Tanto os liberais como os anarquistas têm problemas com a autoridade. Os primeiros, supostamente, porque defendem a treta do mercado livre, a auto-regulação, a iniciativa privada, blá blá blá, etc. Os segundos, supostamente, porque as leis são um instrumento opressivo do Estado, criado por um grupo de pessoas maquiavélicas, diabólicas, control-freaks cujo único prazer é o controlo e a instrumentalização dos outros, coitadinhos, pobrezinhos, sem culpa nenhuma.

Na minha opinião, o Estado, essa entidade abstracta à qual oferendamos entidades concretas, é uma entidade importante. Diria mesmo que se o Estado não existisse seria imperativo que o Estado existisse. Mais que não seja, por quatro razões: serviços de saúde, educação, reformas, segurança. Infelizmente, ao contrário dos anarquistas (e sendo momentaneamente caritativo), não creio que as pessoas sejam naturalmente viradas para a bondade, fraternidade e géneros afins. Creio que se não existissem leis e punições a criminalidade seria muito maior do que actualmente é. Penso que essa possível hecatombe, que seria a ausência de leis, não se deveria a uma qualquer falha moral humana, embora possamos tê-las em excesso, mas à nossa própria condição de esfomeados, sedentos e doentes.

Qualquer que seja o modelo socio-natural em vigor, haverão - sempre - pessoas melhor adaptadas do que outras ao mesmo, ou porque são mais inteligentes ou porque são mais fortes ou porque são mais bondosas ou porque... A verdade é que, até que encontremos a pílula-contra-todos-os-males, teremos de trabalhar para comer, beber água, ter roupa, casa, medicamentos, assistência na velhice (se lá chegarmos...) e assim por diante, pois a carência é uma das mais vibrantes propriedades da condição humana.

Nesta medida, penso que, embora hajam modelos sociais mais justos do que outros, o nosso maior problema - a carência, a necessidade - nasce connosco, em cada um de nós, sendo que não se augura solução no horizonte. No entanto, como disse, o mal pode ser parcialmente remediado, através da implementação de um modelo social mais justo do que outros e, a meu ver, esse modelo passa pela existência de um Estado que legisle e que tenha dinheiro, através de impostos, que seja utilizado justamente para cumprir a única função pedida a um Estado necessário: a minoração do sofrimento humano, na senda da melhoria da condição humana.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Diálogo

Abendrot. Ein grüner Wald. Ein schimmernder Fluss. Ein Schloss.

Hölderlin
Wie hast du mich gefunden, der Wald ist grün und dicht
der Fluss ein schimmernder Strom?
Ich lebe hier im Sommer sehr bis dieser Winter sich
in meine Wärme bricht mit einem weissen Tuch
das er den Dingen überzieht wie ein Gewicht
das alles in den Schlummer wiegt und anders färbt

Pascoaes
Dir dank ich für dein Angesicht
Mein Meer ist weit und sieht dich nicht
und meine Sicht ist weiter noch als dieses Herz
der Wein noch dunkler als mein Blut
Ich träume Nachts und auch am Tag
Wie singst du nur von Griechenland
und kennst mich nicht?

Hölderlin
Das Archipel, das nur ein Ikarus erschaut
ist mir ein tausendfaches Spiegelbild
den Göttern Griechenlands bin ich ein Freund
doch was du sagst, mag mich nicht schrecken
Wie ist das Meer, das weiter sich erstreckt
als alle Reisen der Hellenen je sich zugetraut?

Pascoaes
Nichts ist das Meer, das sich an meinen Ufern bricht
Nichts bin ich mehr als Mond und Gruft
der vielen Könige, die längst verloren sind
und noch viel weniger als alle Karavellen,
die den sehnsuchtsvollen Sinn aus Orchideenblüten trinken
und eine unendliche Süsse tropischer Nächte ersinnen
So sind wir fast wie ihr, von einem fernen Indien träumend,
denn unser Indien ist heute euer Indien der Vergangenheit.

Hölderlin
Unser Indien ein verlorenes Zeitalter der Ideen...

Pascoaes
Unser Indien ein verlorenens Land am Rande der Sehnsucht...

usw.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Ophyussae

sou um livro pendurado em ti.

uma leitura cada vez mais simples.
um espaço sem dimensão.


uno. sensível.

e abro-me por ti
na imensidão do amanhecer
infinito.



in Nova Águia

Holderlin e Pascoaes, em Heidelberga

Heidelberga

"Há tanto tempo que te amo já, e gostaria, pra alegria minha,
Chamar-te mãae e ofertar-te uma canção sem arte,
Ó tu, das cidades da pátria
A mais rusticamente bela de quantas vi.

Como a ave dos bosques voa sobre os cumes,
Assim sobre o rio, ao passar brilhante por ti, se lança
Leve e forte a ponte
Que ressoa de carros e homens.

Como enviado dos deuses, um encanto me prendeu
Um dia à ponte, enquanto passava,
E pra dentro dos montes
Me brilhava a lonjura atraente,

E o jovem rio se internava na planície,
Triste-alegre, como o coração, quando, a si demais belo,
Para morrer amando
Se atira pra as torrentes do tempo.

Fontes lhes deras, deras ao fugitivo
Frescas sombras, e as margens todas
C'o olhar o seguiam, e das ondas
Tremia a sua graciosa imagem.

Mas pesado para o vale pendia o gigantesco
Castelo provado do destino, rasgado das tormentas
Até aos fundamentos;
Mas o Sol eterno vertia

A sua luz rejuvenescente sobre a dec
répita
Imagem gigantesca, e em volta verdejava
Hera viva; bosques amenos
Sussurravam por sobre o castelo.

Tufos de flores pendiam até onde no vale ridente,
Encostadas à colina ou inclinadas pra margem,
As tuas alegres vielas
Entre jardins rescendentes repousam."

Holderlin, trad. de Paulo Quintela

Em Heidelberga a ponte é uma ave;
A lonjura está dentro, não está além;
O encanto foi enviado pelos deuses e os deuses escolhem quem atravessa pontes;
O rio atira-se para as torrentes do tempo para morrer amando, em convulsão?
O rio foge não se sabe para onde, para um lugar sem nome,
porque onde o destino mora há fundos fundamentos e luz rejuvenescida do Alto.
À volta do castelo a hera fala com o bosque e as flores brotam e, em torno de tudo, em Heidelberga, há um caminho de filósofos e da Serpente.
Em Heidelberga a ponte liga todos os caminhos: dos poetas e dos filósofos, das aves e das serpentes, da terra e do céu, da vida e da morte, dos homens e dos deuses.
Em Heidelberga há um só caminho para o peregrino: o caminho da saudade.
Em Heidelberga passeia, na ponte que une todos os caminhos, Pascoaes:

"(...) E as flores, na pureza da paisagem,
Exalam seus aromas matutinos;
E neles vão, em misteriosa imagem,
E mesmo em seus aspectos já corpóreos;
Pois cada aroma tem o mesmo talhe
Da flor que o gera e cria, em seu amor...
As mesmas brancas pétalas de neve,
O mesmo gesto vivo e viva cor.

A alma é um corpo em formas espectrais.
O perfume das rosas é uma rosa,
E o perfume dum lírio não é mais
Que um lírio alado, vago, quase espírito...
E assim a nossa alma, irradiação,
Perfume etéreo, ideal, da criatura,
Tem dela o mesmo talhe, o mesmo vulto,
A mesma escura ou lúcida figura.

Mas, de repente, ó cavaleiro, acordas!
E te vestes de flores (lindo enfeite!)
(...)
Galopas! E as florestas se desolam!
Os torvos ares tremem! E das patas
Do teu cavalo, como pó, se evolam
Sombrias, grossas nuvens de tormenta!
Eis porque choro e tremo, em grande abalo,
Quando bates, de noite, à minha porta,
E corro a abri-la, e em alta voz te falo!
E uma voz me responde, voz longínqua
Que vem talvez da negra intimidade
Da treva ou do meu ser...Quem sabe de onde?
(...)"
Teixeira de Pascoaes, A Sombra do Vento

Quem sabe de onde?
De Heidelberga onde Holderlin e Pascoaes moram na negra intimidade
e se passeiam nas margens e na ponte compondo hinos, recebendo as sombras
e escutado as vozes das aves e das serpentes e o poema, como a rosa, se abre no peito de quem tem uma voz alta e longínqua e desponta sempre e sem porquê na alma de quem os relê...


http://ovelhaperdida.wordpress.com/2007/12/29/o-gato-de-agostinho-da-silva/

O gato responde às dúvidas existenciais
do filósofo
com um bocejo
e um olhar íntimo
do alto do sofá vermelho
aconchegado no torpor
da tarde

o gato de Agostinho tem bigodes
e não é homem
aquele olhar sedutor
sem ser mulher

espeta as orelhas para ouvir
a voz sonolenta
do pensador.

Palmela, Dezembro de 2007

© Brissos Lino

sábado, 10 de maio de 2008

noitinha

tardezinha / tardinha

O que acontece quando o músico, o instrumento, a música e o público se fundem?


No espaço de uma semana, três concertos extraordinários:

Apocalyptica

Habib Koité

Death Cab for Cutie






Três culturas:
  
Finlândia

Mali
Costa Oeste dos EUA (Seattle)









Três géneros musicais:

"Metal" Gótico/Clássico

"Pop" Africano com fortes raízes no folclore nacional

"Indie Rock"

Um forte laço une estes artistas aparentemente tão distintos: A capacidade de com a sua música atingirem e envolverem o público em estados de êxtase em que as fronteiras entre artista, instrumento, música e público se dissolvem.

Estado este muito semelhante a formas de oração em que o fiel e O Infinito se fundem. 

Que energia misteriosa é esta que serpenteia nesses estados musicais extáticos? 



Das edelste gebet / A mais nobre oracao

"Das edelste gebet ist, wenn der beter sich / In das, vor dem er kniet, verwandelt inniglich"

"A mais nobre oracao é quando aquele que ora / Se transforma no mais íntimo nisso diante do qual se ajoelha"

- Angelus Silesius, O Peregrino Querubínico, 4, 140.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Pascoaes em Heidelberg e a Festa do Espírito Santo na Arrábida

Estou desde o dia 7 na bela cidade de Heidelberg, coracao da Alemanha romantica (daí as falhas do teclado), em cuja Universidade proferi ontem uma conferencia, num Colóquio luso-alemao sobre "Filosofia e Religiao": "De Deus, o "único ateu perfeito", ao "baile de máscaras" da criacao em Teixeira de Pascoaes". Foi curiosa a reaccao dos professores alemaes: Halfwassen, especialista em neoplatonismo, disse que Pascoaes parecia um romantico negro e um Escoto Eriúgena enlouquecido; outro falou da influencia de Nietzsche; de um modo geral, estao a ficar muito interessados pelo pensamento portugues e pela Saudade, dizendo que nós continuamos até hoje, de forma vivida, a tradicao romantica que na Alemanha foi esquecida. Boa parte destes amigos alemaes sao schellinguianos... Markus Gabriel, grande entusiasta destes encontros luso-alemaes, insistiu para que seja preparada uma antologia de pensamento portugues para ser publicada na Alemanha, o que vou fazer. O tradutor será o Dirk Hennrich (o DH deste blogue), que veio de Basileia para estar ontem connosco e com quem tive o prazer de conhecer uma cervejaria antiquissima e belissima onde servem a cerveja mais forte do mundo (33 graus !). Nao, nao bebi, porque ainda tinha de ouvir uma conferencia sobre o pensamento egípcio... Mas a tentacao, perigosa, é grande. Tao grande como a de me perder nos alfarrabistas, onde aliás encontrei a preciosa edicao de 1952 das Obras completas de Angelus Silesius. E com ele trago Eckhart, Nicolau de Cusa e Jacob Boehme.
Entretanto convidei um jovem doutorando alemao a escrever um artigo para o segundo número da "Nova Águia" sobre a profunda impressao metafísica que lhe causou Lisboa, que ele descreve como a cidade onde identidade e nao-identidade se conjugam plenamente. Segundo ele, Lisboa revela a imperfeicao (no sentido de incompletude) das formas, abertas ao infinito... Concordo plenamente.

Com toda a pena nao poderei estar na Festa do Espírito Santo na Arrábida, no Domingo, dia 11, mas exorto a todos que a nao percam. O programa está na coluna direita deste blogue. Que as Línguas de Fogo do Santo Espírito sobre vós descam !

Um Abraco serpentino e emplumado

Paulo

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Coisinhas

Oa amigos não servem para coisas. Quem serve são os criados.

O problema é: é tudo uma questão de hábito. Uma pessoa habitua-se, o que é uma pena.

Não é que a gente queira morrer, a gente não quer é viver.

Terrorismo é romantismo.

No coiso amoroso é requisito entendermo-nos, não nos estendermos.

Mete a física que eu meto a astrologia.

Embora acabar o que nem sequer começámos?

A privacidade é violada quando não é privada.

As pessoas estão menos modernas, olham para os sozinhos e acham estranho.

As pessoas não permanecem, depois ainda se diz que são comodistas.

Suicídio é fazer ou desfazer qualquer coisa?

Começa-se a ler quando se começa a deixa de saber coisas.

O bom trabalhador é fingidor.

Porque não fugir de mim se eu sou eu?

Nem tudo o que parece é o que não parece.

"Os malucos atraem-se uns pelos outros" - minha mãe.

Antes de o ser já o Herman.

Velha = sem tido juventude.

Não raras vezes me esqueço de respirar.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Notas sobre António Quadros

A propósito de «Ficção e Espírito»*, de António Quadros
A auto-biografia

(...) Porquê a auto-biografia? Porque ela é a possível autenticidade. A impossível verdade. Porque nela se procura a súmula do escritor-autor, porque é a verdadeira existência a exprimir-se e a revelar-se depois da vida, depois do erro, depois da obra. Já não é o livro a construir-se, é a lucidez a confessar-se, é a suma existencial a dizer-se. (...)
*(Livro de António Quadros, de 1971, ainda ensaístico mas entrecortado de páginas memoralistas.)
Existem no arco-íris búzios ancorados

em que ecoam as lágrimas dos homens

que morreram no mar.





in A SEIVA

terça-feira, 6 de maio de 2008

Do fime "Into The Wild"

There is a pleasure in the pathless woods,
There is a rapture on the lonely shore,
There is society, where none intrudes,
By the deep sea, and music in its roar:
I love not Man the less, but Nature more,
From these our interviews, in which I steal
From all I may be, or have been before,
To mingle with the Universe, and feel
What I can ne'er express, yet cannot all conceal.
 
Lord Byron (1788-1824)

Ao nascer, ao pôr do sol, na noite escura

Caspar David FRIEDRICH
Woman before the Rising Sun (Woman before the Setting Sun)
1818-20
Oil on canvas,22 x 30 cm
Museum Folkwang, Essen


Difícil é ser os dois lados da questão, sem demora.
Lembrar tudo o que aprendi, a toda a hora.
Não me deixar envolver no novelo da emoção,
Nem tropeçar no delicado, fino, fio da razão.


Difícil é encontrar o equilíbrio que a roda ordena.
Seguir em frente sempre desperta pra toda a cena.
Olhar prà direita, esquerda, apreciar a aragem,
E, sem cair do triciclo, cruzar tão estreita passagem.


Difícil é fluir como ar ou como água da nascente.
Dar e dar sempre mais, sem temer o secar inclemente
Do Estio, nem comportas, represas, da consciência;
Sem jamais me enfadar, sem perder a paciência.


Difícil é ser assim tão só, tão somente humana,
Nem impassível deusa, nem demónio, nem tropel.
Ver o bem e mal que o todo exala e emana,
Sem atrair o paraíso, sem cair em inferno cruel.


Difícil é rir, rir muito... rir do absurdo de mim...
Desta sede me esquecer, e, enfim...
Sem esperar, presentear-me com um fim!



segunda-feira, 5 de maio de 2008


Uma breve reflexão sobre o estado das coisas a partir do lixo televiso-(des)educativo

A SIC e a TVI passam, diariamente, às tantas da madrugada, respectivamente, os programas "Quando o telefone toca" e "Sempre a somar". Este tipo de programas só é possível porque vivemos, actualmente, em condições de vida cada vez piores.

Diz-se, habitualmente, que vivemos em democracia e que esta é, supostamente, o governo para o povo, para a maioria que elegeu os deputados da Assembleia e os governantes. Mas se, de facto, quem legisla e aplica as leis e directrizes de uma nação, fá-lo para o povo, para a maioria, porque vive esta cada vez pior?

De quem é a culpa? Quais as causas desta crise? A meu entender, os culpados são os produtores e detentores das reservas mundiais de petróleo que, visando o tão almejado lucro, não olham a meios para, dia após dia, aumentar o preço daquele que, nos tempos em que vivemos, é o bem mais necessário para o homem, na medida em que o acesso a tudo o resto (e não é pouco: veja-se o acesso - e a crise de acesso - à comida) depende do acesso ao mesmo.

A verdade é que, desde o malogrado 911, o preço do barril de petróleo já mais do que dobrou, porque, se bem me lembro, estava a cerca de 50 doláres e, hoje, está a cerca de 116. Não é escandaloso? Será que a actual crise tem solução, ou estamos condenados a tornar-nos, cada vez mais, trabalhadores-consumidores descartáveis, sem quaisquer perspectivas de sucesso ou realização pessoal, sem sonhos, incapazes de vislumbrar o infinito, em busca da mera sobrevivência?

Da minha parte, acredito que é possível mudar, e isso passa, invariavelmente, por uma revolução, porventura inicialmente silenciosa, que nos leve, quiçá, para os caminhos da auto-gestão e de uma espécie de (ou aproximação ao) sonhado estado de natureza de Rousseau. O sistema tem de ser sabotado, para que seja mudado. A sabotagem passa por não consumir, por não ceder aos desejos publicitários, por empobrecer os patrões, numa suave transferência de desejo, para que eles próprios mudem.

Embora o liberalismo esteja em (final de) alta, penso que caminhamos para um mundo, uma sociedade, essencialmente de esquerda, da chamada extrema-esquerda, comunista ou mesmo anarquista. Naturalmente, isto não acontecerá em meia dúzia de anos, porque há que esgotar o já quase esgotado modelo capitalista-liberal-opressivo que vigora no mundo ocidental (em expansão para e pela China, Índia e Brasil) e substituí-lo pelo verdadeiro governo para e pelo povo que, actualmente, não passa de uma ilusão.

"Eu sou o meu próprio Comité Central", José Afonso.

Noiva perdida...

Noiva perdida antes de te haver conhecido na distância infindável, que só vens quando não mais te espero, como nesta noite que fulgura por entre estrelas pálidas na foz do Douro antigo como tudo o que separa e une todos os amantes... (Porto,10.10.2007).

Retrato antigo: pinturas e superfícies.


“ O Senhor deu maior inteligência à mulher que ao homem”

“Com suma cautela e zelo honra à mulher; pois é a mulher quem traz à casa a benção de Deus”

“O ódio à mulher própria é um homicídio”

(Extraído de Bellezas del Talmud, de Rafael Cansinos Assens)

“A visão de Deus na mulher é a mais perfeita de todas” (Mohiuddin ibn al Arabi)

“Senhora da noite, erma donzela” (Teixeira de Pascoaes”)

I

Em aquelas tardes eu também adormecia.

Leves as flores respiravam pelos vasos, quando a transpiração da casa descansava ao final de corredores. Adormecia como estranha sonolência da Primavera que se acerca, pois no fundo de aquelas salas e retratos antigos, a rosa que permanecia se guardava numa memória de máscaras ou vozes que se enlenteciam, ou se congregavam. Vozes que atravessavam os tabiques da conversa íntima num murmúrio de ressonâncias e evocações distantes. As vozes de tia Letícia e de minha mãe Aurora, que sem cessar pintava, as vozes e os rumores das ruas de madeira que como uma linda imagem chegavam ao meu coração cansado. Pois, se queréis, a expressão das vozes recriava em mim cada gesto, cada olhar, cada veloz desejo que nascia dos poros subtilíssimos das minhas queridas amigas.

Eu então adormecia. Nos sofás ou na cama de lençóis claros, suava sobre o meu vestido floreado de cujas cores guardo uma memória tonal e rítmica: cores violáceas, amarelas, azúis que se tocavam como notas de piano ou breve luz. Atrás a janela, a janela verde da vida que avançava face mares antigos e longínquas histórias de olhos cálidos e terras luminosas. Sentia, na inquietação de um sono de tardes lentas e abandonadas, as figuras e os gestos, a cadência infatigável de Mago, o ferreiro que mostrava inacabáveis estórias sobre o metal e o ferro fundido; e era agora quando eu sentia, enfebrecida na tarde, o seu bater no metais de Vulcano: a sua velha frágua.

Os meus dedos, a minha fragilidade, o meu sorriso sobre os espelhos que dançavam nas tardes imprimiam em mim a gostosa música do baile: os meus pensamentos, sentidos, clamorosa pele saltava para que as barcas e os sorrisos que sem cessar pintava levassem aguarelas e tácteis óleos à superfície dos dias.

Em aquelas tardes eu também adormecia.

II

Quiçá o íntimo cansaço duma velha mão e um coração gasto se tenha iludido demais ao redor dum fôlego arrastado pelo tempo. Estranha ilusão duma velhice mórbida? Certamente, não responderei eu. Eu?

É preciso aguardar esta pulsão que devém ambígua e cuja devoção cresce nas tonalidades fosforescentes da memória sob o custo, quiçá, dum sem-sentido da escritura, trémula já na voz e no rasgo. Trémula como a vela que alumia os nossos sentimentos e as nossas páginas num sossego e numa calma branca. Luar dos quartos e prata das iluminações quando os passos e as vozes ressoam nova e lentamente atrás, atrás.

- Devo continuar?

- Continua!

- Mas onde estávamos?

- Não lembras? Tu adormecias.

- Como poderia lembrar se adormecia?

- Ah!. Sei lá! Acorda!

Mas eu também acordava na sala de bonecas de porcelana. Dir-vos-ei que me falavam? Cada uma era Laura, Marinha, Olga: a sua extensão e o seu dom.

Atrás, certamente atrás soavam os assobios e os signos que se introduziam pela janela verde da vida: as três esperavam e Mago esperava às quatro.

Sim, eu acordava, e depois de falar com as bonecas e de olhar as minhas aguarelas atravessava as ruas de madeira e casas de pedra antiga e alguns braços erguiam-se como para saudar-me, pois eu penso que muita gente gostava do meu vestido floreado comprado longe, em terras longínquas de nações esquecidas. Em realidade eu devia isto à tia Letícia que, abandonada à sua diletância, desaparecia subitamente durante dias, e até semanas, para voltar esgotada e ávida, carregada de tudo quanto era impossível encontrar.

Marinha, Laura, Olga e eu corríamos leves na tarde inumerável. Tínhamos ido até o cais, tínhamos brincado no dique negro, cantando nas doces barcas para encontrar um novo ritmo e um novo cair, um cair fugidio que reflectia no cais de prata, águas do nosso pensamento turvo.

Os olhos para o céu e os vestidos batidos pelo vento, irreverentes à sensualidade da nossa pele fazia-nos sentir a mais melancólica liberdade, pois o sol descia e vibrava o mar como a produzir ondas brancas: eram as suas piscadelas cúmplices.

Laura, loira, magrinha e de olhos verdes falava ao mar numa linguagem de peixe: Bu! Bu! Bu! e Ah! Ah! Ah! respondíamos todas.

Eram ecos, não é? Ecos duma escura devoção que nos envolvia.

Marinha, pensativa, pintava as unhas de púrpura vermelha vermelha e mais duma vez deixou cair gotas e gotas que choravam nas águas, pois então uma música falava por dentro das cores dum pequeno amor esconso: Marinha corava. Bu, bu, dizia, e uma lágrima cheia de sal deslizava-se, e nós, claro, fazíamos como que não víamos.

Olga era a silenciosa e subtil, indefinível voz dos nossos movimentos ligeiros.

Caminhávamos até ao Mago: esse ferreiro no Mar.

III

Através da febre e da ferocidade, sorrrir a pouco e pouco, a ferocidade dos dias impossíveis que nos traspassam e nos amam, a ferocidade da imaginação desvelada e rítmica que nos invade na ligeireza das estações e dos corpos, a nossa ferocidade, enfim, que a pouco e pouco sorri maliciosamente para abandonar a mão ao silêncio e à audácia: gestos, dias, olhos, vozes, ritmos, e Abril Abril nos nossos corações, nos nossos corações, nos nossos corações...

“...nos corações escravos de Lig e Lung. Porque Lig mata a Lung. Porque Lung mata a Lig.

Um silêncio fugaz envolve-os, uma quietude. E de súbito um resmungar de vozes e de espadas, de arcaicas maldições e de gestos que ocultam os dentes de lume e sangue.

Durante um tempo a luta dá-se num jogo de cegueiras e movimentos automáticos, de intuições precisas e assombrosos encontros marciais. Mas a pouco e pouco chega o declive, a decadência atonal e tudo se volta mais espesso, mais lento, mais insensato e temerário. Tudo se volta gris e perdido nos rostos de Lig e Lung, quando o sol vai perder-se no horizonte, quando tudo se perde definitivamente nos seus corações ecravos.

Porque Lig mata a Lung. Porque Lung mata a Lig”

E aí estava Mago na roda central do mercado, de movimentos astutos voltando a olhar, rápido e fugidio, para os ouvintes. Era o fim do conto. A perversa história dos ódios de Lig e Lung, das suas mulheres Mitsuru e Li –Po caídas na desgraça dos temores sem fim. Amadas personagens da nossa fantasia.

Aí estava Mago, entre as espadas, mostrando a sua ironia cúmplice, de olhar feroz. Contemplava assim a nossa ferocidade delicada e límpida e era então quando a sua boca alumiava o fogo, ele dizia, da sua velha frágua. Sim, sorríamos a pouco e pouco: febre e desvelo dos nosssos corações: do nosso brilho.

O mercado era como um formigueiro de milheiros de cores. Lentamente, ao fundo, chegavam cargueiros vagarosos cheios de centeio e milho, de trigo e chá.

E nós, nós voavamos pelo mercado mentres minha mãe pintava as grandes velas dos barcos, as túnicas estendidas ou os azulejos dos pátios: pintar os veleiros como pequenos homens e os homens como barcas lentos a cantar. Velas, pois, de barcas, e velas de pensamentos. Cores da juventude amaviosa e enfeitizada de minha mãe.

“Partir.Partir

Um feitiço de braços e de vozes. Braços brancos dos caminhos, promesas de estreitos abraços, e braços negros dos imensos buques que, erguidos contra a lua, falam de outros países apartados. E estão estendiddos para dizer-me: estamos sozinhos, vem! E as suas vozes chamam-me, a mim, a seu semelhante, já prontos a partir, agitando as asas da sua exultante e terrível juventude (1)

Assim pintava minha mãe quando nos esquecíamos do pequeno mar dos nossos olhos. Ser náufragas por entre o sal e por entre os barcos sem memória e sem rostos. Partir, como uma ideia, sem rumo fixo. Partir. Perder-se

IV

Laura entoava, como vidro, o seu encantamento:

Lig e lung estão perdidos

e as suas mulheres dormem

sob os seus olhos vadios

em tardes de arroz

e chumbo

Lig e Lung se vão ao fundo

e as suas mulheres dormem.

Tristeza e melancolia e, porém, a mais veloz e súbita felicidade do tempo que não passa. Pensar entre os cantos na amada Mitsuru de olhos oblíquos e nas suas flores: lírios, rosas, açucenas. Pensar em Li-Po, a astuta tecelã: os nossos amados tapetes!

Tapetes e flores que alcançavam e viviam a minha casa. Atravessar os corredores e habitar os quartos na recriação de Li-Po, de Mitsuru, dos seus terríveis homens.

E aí vem tia Letícia com grandes taças de chocolate. Era então quando fazíamos uma improvisada encenação com teias e vestidos passados de moda, papel, cartão, sedas: as nossas ilusões. Marionetes e títeres.

- Podemos começar?

- Adiante

- Quem fala?

- Adivinha com o coração, pensa com as tuas mãos. Respira pela ponta dos pés. Vês com os teus dedos?

- Onde está o meu chocolate?

- Cala e anda, bebe e cala. Fala Clara?

- Calma

- Clara!

- Chama!?

A chama da vela apagava-se. Bela chama que se extinguia numa doce impressão de revolta. Nós estávamos rígidas, tão rígidas como bonécos, tão incompreensíveis como as nossas fabulosas pistas.

Uma vela, um mínimo candeeiro e aí estavam os nossos jogos de pátios azúis e de distâncias de nuvem. Os nossos olhos de carvão e vinho reflecteriam-se nas taças de chocolate de tia Letícia: carvão, vinho (nos nossos olhos, no nosso brilho) e chocolate sobre as colecções de borboletas e cenários de roupas velhas que descem como um conto de falas ligeiras. Como escrever no círculo mágico das horas oblíquas um momento ou a intuição dum momento? Doce, pois, percorre pelos sensos a voz da casa e tudo acorda veloz, veloz como dedos finos, na sua mímica e no teatro do mundo: a nossa pequena estância.

Vagarosamente a tarde decaía e a noite antiquíssima impunha o seu desvelado sonho. Eu crescia com as minhas incomparáveis amigas na mais iluminada das excitações de seda ou antigas varandas. Era eu realmente?

Intuiir um poema e submergir-se, ingenua, no espírito das cousas, agora e antes, como buscando um devir estranho às nossas condições, ao que fomos e ao que somos. Perdidos esses momentos e esses tempos (todos os momentos e todos os tempos) voltam (voltavam) a ressoar em mim as velhas caracolas marítimas, labirínticas e adormecidas como uma sigilosa ventura. Fazer-me tangente ao sistema estilístico no que encontrava inumeravelmente situado na multiplicidade das minhas relações ambíguas e perder-me para sempre entre as personagens vivas e mortas nas que habitava. Absorver-me feroz e febril numa vidência dioturna.

Reparava, na minha imaginação de borboleta anoitecida, nas minhas necessidades expansivas correndo na quase-noite perto da Casa dos Matemáticos ou no Largo dos Filósofos, que nunca apagavam as suas horas de vaga-lume. Criavam um ritual de carácter peripatético para os seus encontros, como velhos animais noctâmbulos e eu ouvia as suas palavras de ressonâncias perdidas, entre arquivoltas e pátios de azulejos. Escrevia um poema, que era a minha cegueira branca ou sorriso de aquarela, e via a minha mãe conversar sobre as cores do mar com o inigualável Mago.

E depois dum tempo de vigílias e efervescências entre pinturas e poemas eu dormia profunda e sossegadamente. Era então quando uma caracola de mar soava aos meus ouvidos, ávida da noite. E imaginava Lig e Lung perdidos nos seus ódios no meio duma tempestade. E a noite era assim.

V

- Navegas sobre as palavras e os rumos incertos? Navegas sobre os dias e os tempos sem direcção nem rosto?

- Aqui estão os despojos do mercado. Como brilha o grande osso, a espinha dorsal da última baleia!

- Estas a fugir nos dias sem rasto. Que estratagema fazes?

- Deixa-me passear o meu pensamento descalço. Deixa-me guiar o diálogo ao vazio. Avançar suave e leve.

- Deixar, deixar. Deverias tomar tu a palavra, querida. Fazer com ela mais do que queixar-te e divagar. Não te lembras do jogo da verdade?

- A verdade? Já chegamos ao ponto de pormo-nos tão sérias? A verdade! Deverias saber que as mulheres nunca dizemos a verdade. A estas alturas!

- Tão desapiedadas somos? Ou é pura piedade?

- Uhm! Este osso de baleia, estas palavras imensas, este esqueleto tao branco: tão belo ao luar! Não sintes uma ligeireza?

- Divagas. Não sei se dizer que já estás senil, ainda que mais bem pareces uma rapariga mal educada. Aos teus anos, minha velha!

- Diria que estou a consentir excessivamente a tua vigilância. Vejo que não me posso descuidar uns breves instantes porque já estás prestes a censurar, para julgar-me. Quem és tu para julgar-me?

- Conheces perfeitamente a minha função: não brinques com a tua ingenuidade. Mas vejo que já nos começamos a entender. Já falas com um pouco mais de senso.

- Tão velha e tão rapariga, como poderia ter senso? Aliás, não vês que há lua cheia?

- Já sabia que hoje não me seria fácil conduzir-te. Senta aqui. Podemos ver muita cousa.

- O cais está como nunca esteve. Esta última baleia brilha com uma sinceridade excessiva. E sentar na sua cabeça a tocar o violino? Gostas?

- Realmente estás impossível. Não sei em que acabará tudo isto?

- Não tenhas mágoa, as mulheres somos realmente desapiedadas e o que seja será.

- Mas deves continuar e não dizes uma só verdade. És tão frívola que sinto vergonha. Que história é esta?

- Olha para aí. Aí está Mago dirigindo-se ao Pavilhão Vermelho. E lá para abaixo as nossas queridas amigas, Marinha, Laura e Olga. Não vês Lig e Lung entre elas? E aquela janela com duas sombras?: são Aurora e Letícia. E ao nosso lado Mitsuru e Li-Po. Como podes dizer que minto?

- Mitsuru e Li-Po, coitadas! Estão tão silenciosas que quase não reparava nelas.

- E nós estamos a falar demais. Realmente, às vezes, es odiosa. Sempre consegues os teus objectivos.

- Ah! Ah! As mulheres somos assim, minha velha!

- Silêncio!

E assim nos entregavamos à noite acesa, a de lantejoulas rápidas. Uma noite breve e desconhecida, de silenciosa soidade. As velhas vértebras da última baleia alumiando no cais deserto as cores de antigos versos demorados.

“E a grande cidade agora cheia de sol

e a hora real como um cais já sem navios” (2)

Ouvir, então, como o violino negro descansa sobre as horas descobrindo as difusas cidades. Ouvir na antiga sombra da melancolia o recanto enunciativo e perverso ancorado nas cordas, abrindo ao leve as janelas do nosso entendimento. Ouvir, mesmo empanhado na vaga luz dos candeeiros o amontoado coração das dúvidas: ferozes e vãs

Ouvir no silêncio...e acordar

VI

Contudo, fica posto o problema da verdade. Os fios mesclam-se e a memória dispersa-se numa penumbra de imagens. A verdade? Quiçá no final tudo seja develado. Mas é possível que haja final?.

O certo é que pensar no final deixa-nos como velhos títeres de fios cruzados.

Mago sempre acaba as suas estórias: esse narrrador perfeito. Escolhe com a elegância do seu espírito delicado o momento exacto para a conclusão. Lança ao chão o seu chapéu como numa dança de espadas e o súbito final aparece , impossível e redondo.

Lig e lung morreram, mas foi esse o final? Continuavam em nós o espírito aberto e infindável de Mitsuru e Li-Po. Entre nós tecíamos estranhas continuações que alimentávamos de rarezas e perguntas.

As cousas têm fim, mas os contos podem ter eles fim?

- Será que a verdade e o final irão unidos?

- Será?

- Tu que pensas, Mago?

Mago já não diz nada em direcção ao Pavilhão Vermelho. Silencioso e oculto.

Era o momento em que podia chover e eu nadava na cor que se definia entre os faróis distantes e a luminosidade de aquarela num verde claro ou num amarelo de fogo. A pele do anoitecer era sensível ao empapado sorriso do meu vestido, quiçá já povoado de olhos que espreitam na esconsa escuridão incontável. Uma noite astuta e vigilante que reescrevia sobre a sua textura as novas casas das marcas e dos corpos.

Os telhados que ardiam e as sílabas pronunciadas pelas vozes ocultas ou inexistentes configurando a nova dimensão da busca. Sim, duma busca nova: entre a perda e o esquecimento.

Aquela noite fugaz e sombria o meu corpo deambulava primeiro pelas telhas acesas, depois pelas praças e pelo chão. Primeira vez em que o corpo, solitário e fraco, se adentrava pelos meandros da solidão e das trevas. Sim, a primeira vez é também o final de algo.

Eu queria ver, imaginava ver, Mago dirigindo-se a uma partida de xadrez perfeita, como uma figura sombria que todas as noites jogava a sua liberdade numa batalha sem par. Ver a Mago dirigindo-se até um fundo cada vez mais encarnado até que se perde num combate inigualável e único. Ver os movimentos de minha mãe Aurora entre os países da sua devoção, a pintar as luzes vagas das noites de todos os povos interiores. Ver as minhas queridas amigas flutuar majestosamente entre lençóis brancos, estendidos e vivos. Ver a nossa juventude e a nossa admiração, a nossa devoção constante e silenciosa num labirinto secreto, profundo, a crescer por dentro. Ver a tia Letícia atravessando os mares para voltar de manhã cedo como se tivesse ido comprar o jornal, entrando nas pontas dos pés. Ver as personagens de Lig e Lung, do conto infindável mover-se em múltiplas combinações e ressurreições, alumiando e alumiados pelo espírito das cousas: a voz dum narrador que os acordasse.

Eu andava lenta, tão sombria como faróis gastos entre as almas que me desconheciam. Eu olhava para a janela verde da vida e via aquela rapariga adormecida entre os lençóis de seda e flores. Vibrar no almejo e nos cristais, vibrar nesse signo, nesses pequenos agoiros era já um lento cair que o tempo deita sobre nós. Ela, a lenta rapariga adormecida, ingénua e sorridente. Era eu realmente?

Por enquanto, caminhar na desolação da verdade, na sua separação infinita. Ver a Mago entre os faróis, perdido, á beira do esqueleto da última baleia, acercar-me a ele, estender a minha mão meiga e nada, nada: não ser reconhecida. Ver à minha tia Letícia e á minha mãe falar sossegadamente e ser invisível à sua beira. Marinha, Olga, Laura esquecidas entre si como se nunca tivessem falado.

Era uma noite só comparável à ferocidade da nossa existência juvenil e altiva. À minha memória acudia o poema escrito na vibração da insónia

Ao caminhar descalça pelas aquarelas

um porto perdido espreita

os pequenos fósforos

pelas aquarelas

e um olhar de criança

é o que me faz pintora

perdida entre os malecões (3)

entre um cais de prata

a pintar

de negro e de negro

o vazio dos barcos

ardendo nos fósforos

pelas aquarelas

Se queréis é o final, com a certeza acutelante do ser e da verdade. O final que me envolve fugidia e tremulenta, quando penso que em aquelas tardes eu também adormecia. Sempre fica essa saudade e essa metáfora, esse salto entre os sentidos e as certezas, essa indagação de uma experiência inexplicável. Sempre fica uma pergunta:

- Quem fala?


1 Um fragmento do livro de James Joyce A Portarit of the Artist as a Young Man.

2 Fernando Pessoa

3 Diques

domingo, 4 de maio de 2008

Acorde(m)

A verdadeira serpente é lusa
tem a saudade como musa
e o ensejo de progredir

Porque o progresso real
esconde-se neste pantanal
como graal a descobrir...

Somos, como povo, os eleitos
que das cinzas hão-de ir
percorrendo redutos imperfeitos
tal qual reluzente eremita
que expande e excita
quem dele soube rir.....

A luz cega de Lisboa
emerge ávida da escuridão
tal o seu fado entoa
a tristeza alegre da solidão

Quem, nau do Tejo, se atreveu
a voar por mares escondidos
e do antigo quadrado bebeu
perfumes redondos esquecidos?

A nossa serpente tem asas
maiores que o inconsciente
e tu, corvo eminente,
porque endeusas tábuas rasas?

é que tu és mais vasto que tu
e ninguém a não ser tu
responderá ao teu caos
senão embarcares nas naus



Miguel Barroso

(Título da fotografia: Anjo sem asae)

Se voares

tudo não voa contigo

para que voar seja a tua amálgama de tudo

a tentar conquistar o sol

e a treva que dardeja do interior do mundo de fora

promete-te

a frescura das ervas à sombra da elevação estival

da música de depois nos interstícios do canto das cigarras

e na queda

as asas do anjo

rasgarão as dimensões sem nome

de seres o gume e a carne em flor

e outra vez de novo

a verdade é espuma e vento

ossatura de não estares aqui

sábado, 3 de maio de 2008

A "Nova Águia" prepara-se para levantar voo

A reportagem da RTP 1 sobre a conferência de imprensa de apresentação da "Nova Águia", que será lançada no dia 19 de Maio, pelas 21.30, na Fundação José Rodrigues, no Porto (Rua da Fábrica Social).

Nova Águia, Serpente Emplumada, golpes d'asa a partir das entranhas... A ver se ressuscitamos.

Clicar AQUI

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O cuco


Seja na Cidade ou no Campo, há vários sítios onde sempre volto, para estar. Sob a mesma árvore, sentada na mesma pedra, a olhar o mesmo vale, a escutar, a observar. Têm as histórias que o Vazio proporciona e a memória não é de lembrança nem se descreve. São sítios de saudade, miradouros do tempo que a frequência e os anos tornam intemporais.
O que me surpreende infinitamente como uma terna explosão é a consciência de estar a existir no momento em que me dissolvo ante a beleza do mutável. As estações são o meu fascínio, parece que tudo se repete uma e outra vez e nunca encontro as mesmas cores, as mesmas flores, os mesmos frutos; os sons, os pássaros, os cheiros, a familiaridade do novo, ciclicamente novo.

Mal desci a ladeira, eis o cuco. Não o vejo, só o escuto. Ah… e tudo se transforma em cucar, os véus de nuvens, o sol que se abre, a vinha do pai, o rosmaninho, as giestas, tudo o que é passível de diferenciação e encanto próprio fica submerso no cucar do cuco. E a Manhã é pura sonoridade.

"Vocês aí dentro são muitos ?"

"Vocês aí dentro são muitos ?": palavras de um internado no Hospital Júlio de Matos, dirigidas através das grades a um transeunte.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Eros e palavra no feminino

(Estou a escrever isto do departamento, hihihihihi;-)...)

A menina que aos 10 anos queria ser freira acabou ontem de ler o delicioso "Contos de Escarnio/Textos grotescos" da escritora Brasileira Hilda Hilst. Este livro e a historia dos amores de Crasso e Clodia e faz uma satira comico-erotica aos costumes e mentalidade do meio intelectual e artistico Paulista.

Neste livro, a genial Hilda Hilst assume na perfeicao um papel masculino - Crasso, um libertino - que bebe a vida e as mulheres a trago ate que se apaixona por Clodia, pintora lesbica que gracas a ele se "converte" a heterossexualidade e abandona a sua anterior especialidade de pintora de vulvas para passar a pintar falos.

Nao obstante o tema picaro (ou talvez gracas a ele), este livro "desce" a niveis bastante profundos de reflexao metafisica - A fronteira dubia entre o sublime e o grotesco, o absurdo da condicao do ser humano, animal eternamente aspirante a qualquer coisa que el@ nao percebe o que e, Eros e Thanatos como os gemeos siameses que fazem o mundo girar, o ridiculo da mentalidade racional-tecnocratica e da tecnificacao do ser humano, o tragico sempre a espreita por detras das maiores realizacoes do espirito humano ...

Um dos aspectos do livro que me chamou a atencao e um traco que tem em comum com toda a literatura erotica escrita por mulheres: As mulheres, quando se referem aos seus amantes masculinos, so sao capazes de passar para a palavra sensacoes, factos, sentimentos, reaccoes a qualquer coisa. Falta as mulheres escritoras a capacidade, para a qual Hilda Hilst teve de se transvestir num personagem masculino - de expressar verbalmente nomes ou adjectivos que exprimem o abismo de volupia e de dissolucao do ego e das convencoes sociais que representa um verdadeiro amante.

Ate agora, pelo menos na lingua Portuguesa, tal capacidade so foi desenvolvida por homens.

O escultor Fernao, personagem do romance "Um Amor Feliz", de David Mourao Ferreira, que entrava em extase e sussurrava "Ah Deusa, ah Putinha", enquanto criava uma figura feminina a partir de um pedaco de barro, ao mesmo tempo que pensava na sua amante.

O personagem Crasso, de "Contos de Escarnio", que ternamente chamava Clodia de "Prostitutissima" e "Putissima amada", possivelvemente em reminiscencia de certas praticas da antiguidade.

E nos, mulheres hetero e bissexuais, com que palavras transgressoras podemos objectivar o misto de sagrado e de lascivia, o assustador extase e o fascinante vislumbre de morte e de um alem que desencobrimos nos nossos amantes masculinos?

Em vez do costumeiro "x fez isto", "y disse isto", "sinto isto por Z", que ternos e obscenos nomes e adjectivos podemos usar para dar forma humana ao abismo de prazer e dissolucao do ego que eles representam enquanto pessoas?

Senhores, querem juntar-se ao debate?

os desenhos de ilda david, ou as nuvens de ilda david, têm em si mesmos uma forma delicada de ser, não nos causam estranheza, apenas um pouco de saudade, e o que em nós fica, por meio de uma queda sensível, é uma agradável sensação, mas não uma imobilidade, é uma enorme vontade de voltar, de saber do caminho de volta, de participar naquela leveza, que mais parece um sonho, transparecendo, ou um movimento, talvez subindo. eis o paradoxo, cuja finalidade não cesso de procurar, isto é, onde, ou quando, e como, podemos nós, ter corpo, ou deixar de o ter, sem cair, ou desaparecer - enfim no espaço, ou por fim no tempo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

medo?



ou esperança?

Dia Mundial da Dança


a música aproxima--nos
a dança também!
fotografia de Alfredo Cunha

4ª feira, dia 30, Porto - Conferência de Imprensa "Nova Águia" e Conferência sobre Pascoaes e Pessoa

Estarei amanhã, 4ªfeira, dia 30, no Porto, às 15h00, para a conferência de imprensa de apresentação da NOVA ÁGUIA. Será na Fundação José Rodrigues (Rua da Fábrica Social).
No mesmo dia, pelas 18h00, darei uma conferência na Faculdade de Letras da Universidade do Porto: "Teixeira de Pascoaes e o saudosismo de afinidades neoplatónicas. Fernando Pessoa e o esoterismo antipositivista".

Aos Amigos que têm andado mais afastados apelo a que não desemplumem a Serpente. De muitas plumas diferentes ela faz as suas poderosas asas.

Abraços !

P.S. - Farei uma apresentação do meu último livro - "Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes" - no dia 20 de Junho, em Amarante, prevendo-se uma visita à Casa-Museu Teixeira de Pascoaes. Quem estiver interessado em vir deixe aqui o seu contacto.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quem temos medo de desiludir?

Gostaria de saber se alguns de vocês sentem o mesmo que eu - Que se sentem melhor quando estão a caminho de algum estado de ser do que quando o atingem. No meu caso, tenho um medo tremendo de ser definida, enclausurada em papéis sociais, e definhar pela limitação do Ser que estes acarretam. Quando atinjo algum objectivo intelectual, profissional ou social, sinto a necessidade de "desfazer" o que fiz e começar uma nova "viagem" com vista a tornar-me noutra coisa qualquer. Ser uma eterna buscadora, e no movimento constante ter as possibilidades sempre abertas, a possibilidade de comunhão com o Infinito ao alcance dos meus sentidos, do meu sentir e do meu intelecto.

"Quero ser para sempre estudante
e agarrar a ilusão de um instante ..."

Diz aquela canção que cantava, primeiro no coro da escola primária, e depois na Tuna da universidade, da qual fazia parte.

E incrível que a palavra estudante rima com renunciante ... Olho com admiração e uma certa inveja as figuras quase sobrenaturais dos "sadus" Indianos ... As tranças precocemente brancas descendo pelas costas abaixo, as peles curtidas pelo sol, os corpos magros e incrivelmente flexíveis, cobertos apenas por um pano em volta do sexo, a errância constante ... Estes homens são mais ricos do que alguma vez foram os mais poderosos marajás, pois não têm nada que possam chamar seu, e por isso possuem não só toda a India, mas também todo o Universo.

Algum de vocês foi à India e teve algum encontro com um "sadu"?

Durante a minha infância fervorosamente católica, à revelia do agnosticismo dos meus pais (sim, acreditem, quase todas as "meninas más" foram fervorosamente católicas na infância;-) ), alimentei o desejo de ser freira. Impressionava-me a limpidez e a luminosidade dos rostos das Irmãs Doroteias da minha paróquia, a simplicidade das suas vestes, as narrações das suas aventuras em África, a liberdade que elas viviam por não terem de entrar no consumismo desenfreado da indústria da "beleza", da "sedução" e do "status", o de estarem livres dos aspectos mais limitadores dos namoros e dos casamentos, e por isso estarem de coração aberto para todos, especialmente os mais transviados ... E por terem Deus como amante e esposo ...

Impressionava-me, e ainda me impressiona a beleza nobre dos hábitos das Carmelitas Descalças, longos veus negros que, na minha infância de maria-rapaz forçada, obrigada pela minha mãe a ter os cabelos sempre curtos, representavam a longa cabeleira e a feminilidade que não me era permitido assumir ...

Mais tarde, já crescida e muito crítica da hierarquia e do dogma católicos, herética em botão, lembro-me de me sentir transportada a um Absoluto quando visitei o claustro das Carmelitas em Bruges, na Bélgica, e de as ter ouvido cantar na hora do "Angelus", os raios de sol entrando pelas janelas altas e se reflectindo no chão como num filme de Kieslowski (ahhhhh, saudades da Europa ...) ...

Durante vários anos alimentei o desejo de fazer parte de uma ordem de renunciadoras. Os meus pais diziam "não te andamos a educar para isso. Para nunca ganhares dinheiro, para não nos dares um genro e netos, para não seres "nada" na vida" ...

A pressão familiar, o crescimento, e o questionar do catolicismo da minha infância fizeram-me abraçar outros sonhos. No entanto, ainda albergo no meu peito, como um bichinho enjaulado a roer as grades da jaula, o desejo de deixar tudo, levar apenas o que cabe numa mochila, e tornar-me uma "sadu" ambulante ... Viver para o silêncio e a contemplação que me permite viver todos os matizes da experiência humana e transcendê-los, correr todos os cantos do mundo e chamá-los "casa" por não ter um lar fixo que me aprisione.

Se ainda não o fiz, se ainda não peguei na mochila e no bastão e me fiz à estrada a caminho do "Oriente mais a Oriente do que o Oriente" é porque tenho medo de desiludir a família, os amigos ... E o meu próprio ego.

Ainda estou naquela espera infantil de que me digam "vai em paz, não nos irás magoar por escolheres ser "nada" na vida, ao seres "nada" irás realizar um potencial muito maior do que aquele que esperamos ver-te realizar na tua profissão. Não temos mais expectativas nem apego. Apenas Amor."

E vocês, do que têm medo?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

NÃO à pena de morte - Campanha Internacional Moratória 2000

Portugal foi o primeiro país Europeu a abolir a pena de morte. Por essa razão, deveriamos dar o exemplo e assinar esta petição, além de a dar a conhecer ao maior número de pessoas possível.Mostremos ao Mundo o melhor de Portugal - O nosso Humanismo.

http://www.santegidio.org/pt/pdm/app.htm

APELO POR UMA MORATORIA MUNDIAL DA PENA DE MORTE

Nós, abaixo-assinados, convencidos de que a pena de morte

* é negação do direito à vida universalmente reconhecido
* é uma pena, cruel, desumana e degradante, não menos abominável do que a tortura
* é incapaz de combater a violência, na realidade é legitimação da violência mais completa: a que destrói a vida humana, em nível de Estados e sociedades
* desumaniza o nosso mundo dando o primado à represália e à vingança, enquanto elimina os elementos de clemência, perdão e reabilitação do sistema da justiça.Convidamos todos, também os que defendem o uso da pena de morte, a refletirem serenamente sobre a necessidade de uma suspensão das execuções.Na verdade
* Hoje, no mundo, mais da metade dos Estados não utilizam a pena de morte, alguns a aboliram totalmente, enquanto outros decidiram, com os fatos, não colocá-la em prática
* As Nações Unidas reconhecem a falta de dados capazes de demonstrar que o seu uso seja um antídoto eficaz contra os crimes mais hediondos
* Há anos os crimes graves não tiveram nenhuma redução significativa nos lugares onde a pena de morte foi reintroduzida
* Existem métodos alternativos de grande eficácia para proteger as sociedades inclusive de quem cometeu os delitos mais horríveis.
* A lógica “vida por vida” é tida como arcaica e inaceitável em grande parte do nosso planeta. Praticamente em toda parte o sistema judiciário procura superar esse modo desumano de tratar pessoas que cometeram crimes, mesmo os mais graves
* Nos países democráticos, o custo da pena de morte é maior do que o da prisão perpétua.

POR TODAS ESSAS RAZÕES,PEDIMOS AOS GOVERNOS DE TODAS AS PARTES DO MUNDOQUE DECLAREM UMA MORATORIA DA PENA DE MORTE

Para assinar, dirijam-se a esta página: http://www.santegidio.org/it/pdm/adesione.htm