O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A Plenitude

Instantes há em que, desprevenidos e sem intenções, livres dos hábitos mentais e emocionais, subitamente nos surpreendemos trespassados de um inefável sentimento de infinito, plenitude, felicidade, potência, luminosidade e liberdade. Não somos senão isso que sentimos e sabemos então, pela mais simples evidência, ser essa a realidade e verdade primeira, última e eterna de tudo. Porque nesses instantes a plenitude que sentimos é a plenitude, não a nossa irreal plenitude, mas a plenitude de todas as coisas. A plenitude que se sente sem cisão sujeito-objecto, a plenitude que se vê sem conceito, a plenitude em que corpo, sentidos, mente e consciência são tudo a testemunhar e celebrar sua eterna infinidade, perfeição e esplendor. Uma plenitude sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem proprietário nem destinatário. Uma plenitude sem porquê nem para quê. A plenitude.

Paulo Borges, Da Saudade Como Via de Libertação, QuidNovi, 2008, p.87

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Herberto Helder: Trabalha naquilo antigo

Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move para o centro de si mesmo, como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A saudade no vasto oceano da mente

A saudade tem o seu quê de angústia. É amor, memória e desejo - isso já todos sabemos (se eu dissesse algo de novo é que seria de estranhar). Mas o que é a angústia? Não sei bem se é angústia, se a sensação de um vazio interior, a falta do sujeito amado. É tristeza, pela falta do sujeito amado, uma armadilha em que caímos ao querermos, continuamente, relembrar o objecto do nosso amor. Talvez não queiramos, mas sejamos espontaneamente impelidos a tal, tal como espontaneamente imaginamos o que quer que imaginemos. Sim, creio que a mente é como o vasto oceano e os pensamentos ondas que, a tempos, aparecem para perturbar a paz mais ou menos reinante. A saudade tem a particularidade de ser uma onda antagónica, na medida em que é, simultaneamente, prazer e sofrimento e, mesmo mas já não na antagonia, ilusão. Porque, por momentos, iludimo-nos ao pensarmos que estamos com o objecto amado, como quando saímos deste mundo para os imaginados, o que causa um prazer momentâneo, alegria, que tem como pano de fundo um desprazer, tristeza, que não é senão a consciência da falta do objecto amado. Isto não é nada de novo, mas apenas expressão do que estou a sentir - por causa do meu amor louco por um animal! Se nos ensinam...