A espera assume-se como forma de assentar definitivamente todos os objectivos num cadáver, que é futuro. Viver o tempo que resta com a mente focada e alinhada para essa distância, viver de acordo com a projecção sem sabermos o que daí poderá advir, viver para o futuro sem saber como lidar com o presente, viver uma tranquilidade de tempos díspares moldando-os a um só tempo, tudo isto, é esperança. Se a expectativa sobre algo físico ou imaginário é generosamente vivenciada, ultrapassando términos de tudo o que se pensa crível, começa o Homem a visionar, compondo toda a sua vida de acordo com a indicação magnética de que tudo o que daí advém será um fim, ou resultado final tangível. Deste parco realinhamento instado resulta frequentemente um afogo, gracioso desassossego noctâmbulo navegado ao dorso de uma constelação, em breves reingressos à consistência, à vivência e existência de um Eu, à queda de um cavalo.
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domingo, 18 de outubro de 2009
hipparion
A espera assume-se como forma de assentar definitivamente todos os objectivos num cadáver, que é futuro. Viver o tempo que resta com a mente focada e alinhada para essa distância, viver de acordo com a projecção sem sabermos o que daí poderá advir, viver para o futuro sem saber como lidar com o presente, viver uma tranquilidade de tempos díspares moldando-os a um só tempo, tudo isto, é esperança. Se a expectativa sobre algo físico ou imaginário é generosamente vivenciada, ultrapassando términos de tudo o que se pensa crível, começa o Homem a visionar, compondo toda a sua vida de acordo com a indicação magnética de que tudo o que daí advém será um fim, ou resultado final tangível. Deste parco realinhamento instado resulta frequentemente um afogo, gracioso desassossego noctâmbulo navegado ao dorso de uma constelação, em breves reingressos à consistência, à vivência e existência de um Eu, à queda de um cavalo. .
Imagem: photoframe
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quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Uma Musa Para Teixeira de Pascoaes
O teu rosto incendeia-se com a sua nudez. É um ocaso perante a sua aurora carnal. Não estás surpreendido: já estás aí há muito tempo. Aguardando que se dispa, aguardando que se mostre. Estás preparado e só. Ela também não parece ter pressa. Os que se reencontram não têm tempo na alma e no corpo. Esperas mais. Esperas que tudo para ela se recolha e reconverta antes de ti. E tudo se reconverte para a vestir, a sagrar de coroas e pulseiras, ténues véus e um espesso manto. O teu olhar atravessa-a mas não a possui. Ela baixa os olhos para te sinalizar um estremecimento, um atiçamento. Consegues imobizá-la porque ela te sabe aí, mas não te quer suspenso no terror do engano e do desejo. E tu ardes. Ela refresca-te. Preferes ainda assim ouvir nesta distância-dentro, o gotejar das diferentes fontes do seu corpo. Ela inclina-se e trava o abalo das águas que podem corrê-la, transcorrê-la desde outrora, desde sempre. Mostra-te que está preparada: a água que nela corre e transcorre aviva as flores. Despontam mais viçosas na proximidade do seu corpo-leito onde repousarás da espera, da inconsolável individuação e da longa vigília em que nesse mesmo lugar a viste partir e regressar. Acalmarás a febre, o incêndio: é um horto de perfumes e águas. O ar redolente inebria-te. Sentes a derrota do preceito que impuseste à floresta da vontade cheia de sombras e vozes que te arrepiam de medo e fantasia. A ebulição consome a tua passividade convulsa porque, atrás dos olhos, tens o desejo a revelar-se como uma potência divina ou como um raio de Zeus. Os olhos formulam o sussurro do apetite e ela, fingindo não ver, mas ouvindo os vestígios da unidade que se revolvem nas ruínas do teu semblante triste, responde movendo o pé, fazendo que fecha a porta quando ela já não tem chave. E o teu desejo último e primeiro implode com as cores da forja que vos moldou uma só alma em dois corpos distintos-distantes. Ela, intacta ao tempo, não se aflige com as cores estranhas com que a floresta dos afectos te pintou, te envelheceu e te tornou um eremita, etéreo como o vento e a maré. Ela espera-te com incenso: quando entrares pela porta, em cinza juntos no amor-morte, se evolarão pelos céus atrás dos pássaros que perdeste quando ainda eras do tempo e de que ela sabe o rastro intacto. Mesmo sendo silêncio e visão, frémito, grito e fluída evocação. Mulher, terra e mãe que te oferece nos seios, no ventre, nos olhos e nos (a)braços o sentido secreto da tua eternidade lunar. Vem, é a Lua que chama o Ocaso da tua consumação!
Para responder à provocação que muito gostei de um Teixeira de Pascoaes renascido nos comentários ao texto anterior que aqui deixei. Uma musa para Pascoaes é um grande agradecimento ao "poeta" e um pedido de desculpa por ficar tão aquém do que ele merece.
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