O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"Vocês são meus prisioneiros, e eu sou prisioneiro da minha ordem" (Jorge Telles de Menezes)


Homem: – Acabou-se. Já somos livres de novo.
Mulher: – Os outros também diziam que nós éramos livres, dentro da ordem deles.
Homem: – Só não nos libertámos de nós mesmos. Somos os mesmos que éramos antes.

Jorge Telles de Menezes, “A Pedra da Esperança – Teatro metafísico II”, in revista A Ideia, II Série – Vol 13 – Nº 68, Outubro de 2010

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Caos

A música é de Vangelis e chama-se Heaven and Hell. Para mim, é uma representação do caos. Agradeço ao autor: gedeon.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Primeiro que tudo

“Primeiro que tudo surgiu o Caos, e depois Gaia (Terra) de amplo peito, para sempre firme alicerce de todas as coisas, e o brumoso Tártaro num recesso da terra de largos caminhos, e Eros, o mais belo entre os deuses imortais, que amolece os membros e, no peito de todos os deuses e de todos os homens, domina o espírito e a vontade ponderada” – Hesíodo, Teogonia, 116-122.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O Carnaval ainda é possível ?



- Pieter Brueghel, Combate entre o Carnaval e a Quaresma (1559).

O jogo tensional dos contrários estrutura o mundo e as nossas vidas como manifestação do incondicionado que os unifica. Este combate (o pólemos heraclitiano) entre o espírito carnavalesco - de folia, liberdade e desordem, metamorfose, excesso e fruição - e o espírito ascético - que privilegia a razão, a autoridade e a ordem, a identidade, a medida e a renúncia - , não é tanto um confronto entre potências irredutivelmente antagónicas e exclusivas, mas antes a dinâmica coincidência dos opostos, o sempiterno abraço de Apolo e Dioniso, do Caos e do Cosmos, o Caosmos. O que todavia tanto mais intenso será quanto mais houver uma nítida demarcação das duas polaridades, que se excitam mutuamente pela sua diferença, distância e oposição, como na tensão erótica.
Daí que, em épocas civilizacionais como a nossa (no Ocidente), em que a vida mental e social se carnavaliza em muitos aspectos (pelo menos ao fim de semana) e a ordem dominante integra ao longo de todo o ano a experiência carnavalesca, sobretudo ao nível de um hedonismo mais imediato e grosseiro (a fruição sexual e alimentar nas suas dimensões menos subtis), haja tendência para se esbater a pujança iniciática e transformadora do Carnaval tradicional, momento de regeneração do Cosmos pelo regresso ao Caos. Atenuando-se ou dissolvendo-se os interditos, como experimentar o sentido libertador da transgressão ? Neste sentido interrogo-me se, no nosso caso, a verdadeira experiência do mundo às avessas e a verdadeira revolução transgressora não passaria por reintroduzir o espírito de ascese e renúncia nas dimensões da vida de onde foi expulso e tornado interdito em nome de uma fruição unilateral do seu contrário. Poderíamos então reencontrar um Carnaval mais autêntico, não reduzido a mero espectáculo e subproduto da sociedade de produção e consumo.