
- Pieter Brueghel, Combate entre o Carnaval e a Quaresma (1559).
O jogo tensional dos contrários estrutura o mundo e as nossas vidas como manifestação do incondicionado que os unifica. Este combate (o pólemos heraclitiano) entre o espírito carnavalesco - de folia, liberdade e desordem, metamorfose, excesso e fruição - e o espírito ascético - que privilegia a razão, a autoridade e a ordem, a identidade, a medida e a renúncia - , não é tanto um confronto entre potências irredutivelmente antagónicas e exclusivas, mas antes a dinâmica coincidência dos opostos, o sempiterno abraço de Apolo e Dioniso, do Caos e do Cosmos, o Caosmos. O que todavia tanto mais intenso será quanto mais houver uma nítida demarcação das duas polaridades, que se excitam mutuamente pela sua diferença, distância e oposição, como na tensão erótica.
Daí que, em épocas civilizacionais como a nossa (no Ocidente), em que a vida mental e social se carnavaliza em muitos aspectos (pelo menos ao fim de semana) e a ordem dominante integra ao longo de todo o ano a experiência carnavalesca, sobretudo ao nível de um hedonismo mais imediato e grosseiro (a fruição sexual e alimentar nas suas dimensões menos subtis), haja tendência para se esbater a pujança iniciática e transformadora do Carnaval tradicional, momento de regeneração do Cosmos pelo regresso ao Caos. Atenuando-se ou dissolvendo-se os interditos, como experimentar o sentido libertador da transgressão ? Neste sentido interrogo-me se, no nosso caso, a verdadeira experiência do mundo às avessas e a verdadeira revolução transgressora não passaria por reintroduzir o espírito de ascese e renúncia nas dimensões da vida de onde foi expulso e tornado interdito em nome de uma fruição unilateral do seu contrário. Poderíamos então reencontrar um Carnaval mais autêntico, não reduzido a mero espectáculo e subproduto da sociedade de produção e consumo.