O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Primeiro que tudo

“Primeiro que tudo surgiu o Caos, e depois Gaia (Terra) de amplo peito, para sempre firme alicerce de todas as coisas, e o brumoso Tártaro num recesso da terra de largos caminhos, e Eros, o mais belo entre os deuses imortais, que amolece os membros e, no peito de todos os deuses e de todos os homens, domina o espírito e a vontade ponderada” – Hesíodo, Teogonia, 116-122.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Amor

"Amor vem de uma velha palavra que busca a mama.
Palavra da Roma antiga que curiosamente apela o atributo que caracteriza a classe dos mamíferos vivíparos, surgidos no decurso da Era Terciária, onde se formaram as condições mais singulares do nosso destino. Amor é uma palavra que deriva de amma, mamma, mamilla. Mamário e mamã são formas quase indistintas. O amor é uma palavra próxima duma boca que menos fala do que mama ainda espontaneamente avançando os seus lábios na fome"
- Pascal Quignard, Vie secrète, Paris, Gallimard, 1998, pp.12-13.

Por aqui se sugere, numa certa perspectiva, como o sentido ideal da palavra se transformou, para designar a dádiva desinteressada de si ao outro - "ágape" em grego, "caritas" em latim, "maitri" (amor) e "karuna" (compaixão) em sânscrito - , ao mesmo tempo que a experiência que habitualmente nela se designa permanece próxima do seu sentido original, que parece relevar de uma carência, dependência e apego auto-gratificante. Mas há outras leituras possíveis. Tudo depende de se considerar o que se implica, simbólica e realmente, na fome do seio materno ou da boca/seio/sexo da/do amada/amado: não pode isso, para além do apego, indicar uma saudade veemente, uma fome ardente, de regresso à origem ou ao que está antes dela ?... Ao terrível mistério do que precede a cisão da concepção, do nascimento e do existir, nosso e do mundo, não no passado, mas a cada instante ?... Reconhecido isto, então o amor, no sentido de um eros iluminado, de olhos bem abertos, são asas rasgadas para o infinito. Agora mesmo !

terça-feira, 4 de março de 2008

Sabeis do que falo ?

"Acredita-me, não apresses a volúpia de Vénus. Sabe retardá-la. Sabe fazê-la vir pouco a pouco, com demoras que a diferem. Quando tiveres encontrado o lugar que a mulher gosta que lhe acariciem, acaricia-o. Verás nos seus olhos um trémulo clarão [tremulo fulgore], como um charco de sol à superfície das águas. Virão então as queixas, o terno murmúrio, os doces gemidos, as palavras que excitam" - Ovídio, "A Arte de Amar", II.

Todos procedemos de um instante como o que aqui se anuncia. Todos procedemos do que mais desejamos e tememos. Trazemos na origem a volúpia de uma morte sagrada. A isso se chama pudor. Erótica é a arte de o preservar e aumentar transgredindo-o. Erótica é a arte de cultivar a intensidade do que na exacerbação da vida tange a sua transcendência. Ah, os olhos que nesse instante se reviram para antes da origem !... Se aí se pudessem suspender, o mundo nunca teria sido... Sabeis do que falo ?...