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terça-feira, 14 de setembro de 2010
"Deus espera imóvel no meu sangue o instante de erguer a mão"
"Porque o que nos pertence não é a manhã, a verdade solar, mas o reino incerto da sombra. O que nos pertence é o vazio. Tão longe, porém, do que já foi habitado, que é quase o vazio do universo, antes do primeiro dia da criação. Deus espera imóvel no meu sangue o instante de erguer a mão"
- Vergílio Ferreira, Invocação ao meu corpo.
- Vergílio Ferreira, Invocação ao meu corpo.
sábado, 21 de novembro de 2009
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
O corpo
«A vida de cada um é a sua própria intuição... irrepetível e intransferível... depois da morte vem o vazio. Que vazio? Talvez aquela cavidade oca, como o molde depois de retirada a peça que moldara, aberta no fluído que nos envolve e logo invadida pelo mesmo. O élan vital dissolve-se com o corpo... Nada visível resta». in «Inconformação» ESF
sábado, 3 de outubro de 2009
domingo, 21 de setembro de 2008
"Para escrever tenho que me colocar no vazio"
"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.
[...]
Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue"
- Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações), Rio de Janeiro, Francisco Alves Editora, 1991, 9ª edição, pp.17 e 19.
[...]
Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto - e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue"
- Clarice Lispector, Um Sopro de Vida (Pulsações), Rio de Janeiro, Francisco Alves Editora, 1991, 9ª edição, pp.17 e 19.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
O vazio é o que se chama demónio
No momento em que amarmos a vida tal como ela é, ela muda para nós. Enquanto só quisermos amar uma parte da vida ela não pode mudar, porque a transformação, o nascimento de algo novo ocorre sempre por união de duas partes antagónicas. Bom e mau. Masculino e feminino. Um pólo isolado nunca deu luz. Não existem inimigos, existem amigos perdidos ou vazios. Não existe mal, existe ausência de bem. Não existe morte, existe ausência de vida... (ou mal e morte são ausência). Não existe problema, existe uma solução que ainda está vazia, como a noite é o dia que ainda não amanheceu.
Quando olhamos algo sombrio, olhamos aquilo que ainda não é, mas que tudo pode ser! Olhamos aquilo que será revelação! Olhamos algo que encerra uma infinitude de possibilidades. Só a partir do escuro é que a luz toma o seu máximo esplendor. Estar apagado é um momento solene, como o é o céu da noite, ou os instantes que antecedem o abrir das cortinas de uma peça de teatro, ou o nascimento de um bebé. O vazio é só um tesouro escondido.
Ser mau não é mau, é ser bom demais... Vale a pena reprimir por ser bom demais? Vale a pena gritar ao dia por ele estar a chegar ao fim? Vale a pena quebrar o relógio por ser tarde? Ou vale a pena suspender a expiração? Ou não perdoar?
Vale a pena impedirmos-nos de ser quem somos? Para quê? Para ficarmos a não ser? Para que existimos nós? Para nos trairmos a nós mesmos? Temos medo de quê? De sermos nós? De quê? Do vazio de nós? Do silêncio? Será que o dia tem medo da noite? E o céu tem medo da terra? Será que temos mais medo de nós do que da nossa ausência? Deixemo-nos de caprichos e sejamo-nos de uma vez por todas! Nada há a esconder que não possa ser aceite. Tudo o que vemos e que nos aterroriza, não é o que vemos, é o que esconde o que vemos. Não é esse acto que é horrendo, é o termos de fugir de nós próprios que é horrendo. É o termos vergonha de nós mesmos que dá dó. Não é a notícia que nos devia perturbar, é o que ela não é que nos devia causar náusea. É o que lhe falta que nos devia incomodar. E que nos incomoda. É a FALTA DE AMOR. É esta ausência de nós.
Quando olhamos algo sombrio, olhamos aquilo que ainda não é, mas que tudo pode ser! Olhamos aquilo que será revelação! Olhamos algo que encerra uma infinitude de possibilidades. Só a partir do escuro é que a luz toma o seu máximo esplendor. Estar apagado é um momento solene, como o é o céu da noite, ou os instantes que antecedem o abrir das cortinas de uma peça de teatro, ou o nascimento de um bebé. O vazio é só um tesouro escondido.
Ser mau não é mau, é ser bom demais... Vale a pena reprimir por ser bom demais? Vale a pena gritar ao dia por ele estar a chegar ao fim? Vale a pena quebrar o relógio por ser tarde? Ou vale a pena suspender a expiração? Ou não perdoar?
Vale a pena impedirmos-nos de ser quem somos? Para quê? Para ficarmos a não ser? Para que existimos nós? Para nos trairmos a nós mesmos? Temos medo de quê? De sermos nós? De quê? Do vazio de nós? Do silêncio? Será que o dia tem medo da noite? E o céu tem medo da terra? Será que temos mais medo de nós do que da nossa ausência? Deixemo-nos de caprichos e sejamo-nos de uma vez por todas! Nada há a esconder que não possa ser aceite. Tudo o que vemos e que nos aterroriza, não é o que vemos, é o que esconde o que vemos. Não é esse acto que é horrendo, é o termos de fugir de nós próprios que é horrendo. É o termos vergonha de nós mesmos que dá dó. Não é a notícia que nos devia perturbar, é o que ela não é que nos devia causar náusea. É o que lhe falta que nos devia incomodar. E que nos incomoda. É a FALTA DE AMOR. É esta ausência de nós.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
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quarta-feira, 19 de março de 2008
O vazio (2)
Penso que o reconhecimento do vazio dos fenómenos pode ser fruto do seguinte pensamento:
os fenómenos são contingentes
e, desse modo,
não existirem é uma possibilidade, tão real como a de existirem.
Por isso,
na visualização de um fenómeno, podemos negá-lo (mentalmente, com a outra possibilidade, a de ele não existir),
e ver o que se não pode ver, a saber, o vazio respeitante a esse fenómeno.
O fenómeno comporta, em si, a sua negação (e esta frase daria pano para mangas).
[edit: mas pergunto - serão os fenómenos realmente vazios ou inexistentes? Ou será que a realidade é plena? O que significa dizer que algo é substancial ou insubstancial, num sentido não lockeano de substância? O que é um sentido não lockeano de substância? Não sei a resposta a estas questões... mas penso, normalmente, que o mundo não é cheio/pleno, tal como apregoado nos textos taoístas - o vaso vazio - e que tudo assenta no vazio, isto é, no Nada... que chegamos a um ponto da nossa investigação em que nos deparamos com um Abismo que é coisa nenhuma e que dá para coisa nenhuma - falamos então do incriado, não só como nonada, mas como realmente Nada, Silêncio, Ausência, Não-Ser -, infinito... e isto caso queiramos manter o realismo e não um idealismo como parece ser o caso da doutrina Advaita Vedanta... uma grande questão é que tecemos e nos prendemos a elaboradas teorias que mais não são do que ilusões relativas a um mundo que é absolutamente fenomenal, como se de um sonho se tratasse - pergunto: haverá um mundo, uma existência, por mais ínfima que seja, para lá dos fenómenos? Ou tudo o que temos são fenómenos gerando fenómenos, sonhos gerando sonhos? Em que creio? Ainda não me decidi, mas creio, aparentemente e sem esforço meditativo, no Abismo... ligando este post ao anterior, qual será a melhor religião para mim? Eu, que tanto critiquei os monges, que até já pensei tornar-me num... Penso que tenho e temos de ter mais confiança nas nossas intuições, em busca de uma ontologia verdadeira... Paz.]
os fenómenos são contingentes
e, desse modo,
não existirem é uma possibilidade, tão real como a de existirem.
Por isso,
na visualização de um fenómeno, podemos negá-lo (mentalmente, com a outra possibilidade, a de ele não existir),
e ver o que se não pode ver, a saber, o vazio respeitante a esse fenómeno.
O fenómeno comporta, em si, a sua negação (e esta frase daria pano para mangas).
[edit: mas pergunto - serão os fenómenos realmente vazios ou inexistentes? Ou será que a realidade é plena? O que significa dizer que algo é substancial ou insubstancial, num sentido não lockeano de substância? O que é um sentido não lockeano de substância? Não sei a resposta a estas questões... mas penso, normalmente, que o mundo não é cheio/pleno, tal como apregoado nos textos taoístas - o vaso vazio - e que tudo assenta no vazio, isto é, no Nada... que chegamos a um ponto da nossa investigação em que nos deparamos com um Abismo que é coisa nenhuma e que dá para coisa nenhuma - falamos então do incriado, não só como nonada, mas como realmente Nada, Silêncio, Ausência, Não-Ser -, infinito... e isto caso queiramos manter o realismo e não um idealismo como parece ser o caso da doutrina Advaita Vedanta... uma grande questão é que tecemos e nos prendemos a elaboradas teorias que mais não são do que ilusões relativas a um mundo que é absolutamente fenomenal, como se de um sonho se tratasse - pergunto: haverá um mundo, uma existência, por mais ínfima que seja, para lá dos fenómenos? Ou tudo o que temos são fenómenos gerando fenómenos, sonhos gerando sonhos? Em que creio? Ainda não me decidi, mas creio, aparentemente e sem esforço meditativo, no Abismo... ligando este post ao anterior, qual será a melhor religião para mim? Eu, que tanto critiquei os monges, que até já pensei tornar-me num... Penso que tenho e temos de ter mais confiança nas nossas intuições, em busca de uma ontologia verdadeira... Paz.]
terça-feira, 18 de março de 2008
O vazio
Aqui vai um texto do livro "Conselhos espirituais do Dalai Lama", da editora Verus, pp.54-6, na minha - e porventura nossa - tentativa de melhor perceber o conceito de Vazio, acariciado não só pelo Budismo mas penso que também pelo Taoísmo ou mesmo pelo Hinduísmo, se aplicado aos fenómenos:
"Tentarei explicar a noção budista de sabedoria e seu tipo supremo: a concepção do vazio.
Entre os vários tipos, há a sabedoria de conhecer a variedade dos fenômenos e a de conhecer o modo de ser dos fenômenos. Entre essas duas sabedorias, a segunda - a sabedoria de conhecer o modo de ser ou a natureza final dos fenômenos - é mais importante. Essa é a sabedoria que compreende o vazio.
O que deve ser entendido pelo termo vazio? Há muitas maneiras diferentes de explicar o significado da palavra. Em certo sentido, significa compreender que a pessoa não é permanente, unitária e auto-suficiente. No budismo, todas as escolas concordam com esse tipo de compreensão do vazio. Então, em nível mais sutil, trata-se do vazio da auto-suficiência de uma pessoa, ou seja, a pessoa tem uma natureza, e a mente e o corpo têm naturezas outras além daquela da pessoa. É como um senhor e dois súditos; isto é, em sua natureza, o senhor (pessoa) é distinto dos súditos (mente e corpo). O vazio significa que não existe o estado de pessoa (senhor) separado da mente e do corpo (súditos); que esse tipo de estado é inexistente, ou vazio. Mas há também outro nível de noção errônea quanto à natureza de uma pessoa, no qual vemos a pessoa e a mente e o corpo como sendo da mesma natureza essencial, mas ainda concebemos a pessoa como o chefe, e a mente e o corpo como subordinados que recebem ordens.
Na Escola da Mente Única e na Escola do Caminho do Meio do budismo, também se fala sobre a noção errônea de um 'eu-dos-fenômenos' e sobre uma ausência (ou vazio) de um 'eu-dos-fenômenos'. Nesse sentido, a Escola da Mente Única fala de dois tipos de noções errôneas básicas. Uma é a de que sujeito e objeto são diferentes entidades. A outra noção errônea é a de que os fenômenos existem por meio de seu caráter próprio como referentes de nossas palavras e de nossos pensamentos conceituais sobre eles. Portanto, a Escola da mente Única ensina que há um vazio desses dois tipos de status.
Na Escola do Caminho do Meio, fala-se sobre a noção errônea de que os fenômenos existem de fato ou essencialmente. Como isso é considerado algo que se deve negar, fala-se também, nessa escola, de um vazio da verdadeira existência dos fenômenos. Dentro da Escola do Caminho do Meio, são feitas mais distinções. Uma tradição, a Escola da Autonomia, sustenta que os fenômenos que aparecem para uma consciência não imperfeita - uma consciência que não tem nenhum tipo superficial de erro - de fato existem convencionalmente. Mas então o que eles consideram como verdadeira existência quando dizem que os fenômenos são vazios de verdadeira existência? Para essa tradição, o falso status é que os fenômenos não são firmados à força de se tornarem aparentes para uma consciência não imperfeita, mas são estabelecidos por meio de seu modo exclusivo de ser. Esse status é a verdadeira existência que está sendo negada ou declarada vazia.
Na outra Escola do Caminho do Meio, chamada Escola da Consequência, o pensamento final de Nagarjuna é descrito por Buddhapalita, Chandrakirti e Shantideva. Nesse sistema final, a maneira como os fenômenos aparecem para a consciência não imperfeita - se é que eles existem - é o que deve ser negado no vazio. Na verdade, os fenômenos não existem daquela maneira; existem apenas nominalmente. Assim, o vazio é a ausência desse status exagerado dos fenômenos - como se existissem por conta própria. Portanto, o vazio de tal existência inerente aos fenômenos é a mais sutil não-essencialidade dos fenômenos. E, por fim, esse é o fato percebido pela sabedoria."
"Tentarei explicar a noção budista de sabedoria e seu tipo supremo: a concepção do vazio.
Entre os vários tipos, há a sabedoria de conhecer a variedade dos fenômenos e a de conhecer o modo de ser dos fenômenos. Entre essas duas sabedorias, a segunda - a sabedoria de conhecer o modo de ser ou a natureza final dos fenômenos - é mais importante. Essa é a sabedoria que compreende o vazio.
O que deve ser entendido pelo termo vazio? Há muitas maneiras diferentes de explicar o significado da palavra. Em certo sentido, significa compreender que a pessoa não é permanente, unitária e auto-suficiente. No budismo, todas as escolas concordam com esse tipo de compreensão do vazio. Então, em nível mais sutil, trata-se do vazio da auto-suficiência de uma pessoa, ou seja, a pessoa tem uma natureza, e a mente e o corpo têm naturezas outras além daquela da pessoa. É como um senhor e dois súditos; isto é, em sua natureza, o senhor (pessoa) é distinto dos súditos (mente e corpo). O vazio significa que não existe o estado de pessoa (senhor) separado da mente e do corpo (súditos); que esse tipo de estado é inexistente, ou vazio. Mas há também outro nível de noção errônea quanto à natureza de uma pessoa, no qual vemos a pessoa e a mente e o corpo como sendo da mesma natureza essencial, mas ainda concebemos a pessoa como o chefe, e a mente e o corpo como subordinados que recebem ordens.
Na Escola da Mente Única e na Escola do Caminho do Meio do budismo, também se fala sobre a noção errônea de um 'eu-dos-fenômenos' e sobre uma ausência (ou vazio) de um 'eu-dos-fenômenos'. Nesse sentido, a Escola da Mente Única fala de dois tipos de noções errôneas básicas. Uma é a de que sujeito e objeto são diferentes entidades. A outra noção errônea é a de que os fenômenos existem por meio de seu caráter próprio como referentes de nossas palavras e de nossos pensamentos conceituais sobre eles. Portanto, a Escola da mente Única ensina que há um vazio desses dois tipos de status.
Na Escola do Caminho do Meio, fala-se sobre a noção errônea de que os fenômenos existem de fato ou essencialmente. Como isso é considerado algo que se deve negar, fala-se também, nessa escola, de um vazio da verdadeira existência dos fenômenos. Dentro da Escola do Caminho do Meio, são feitas mais distinções. Uma tradição, a Escola da Autonomia, sustenta que os fenômenos que aparecem para uma consciência não imperfeita - uma consciência que não tem nenhum tipo superficial de erro - de fato existem convencionalmente. Mas então o que eles consideram como verdadeira existência quando dizem que os fenômenos são vazios de verdadeira existência? Para essa tradição, o falso status é que os fenômenos não são firmados à força de se tornarem aparentes para uma consciência não imperfeita, mas são estabelecidos por meio de seu modo exclusivo de ser. Esse status é a verdadeira existência que está sendo negada ou declarada vazia.
Na outra Escola do Caminho do Meio, chamada Escola da Consequência, o pensamento final de Nagarjuna é descrito por Buddhapalita, Chandrakirti e Shantideva. Nesse sistema final, a maneira como os fenômenos aparecem para a consciência não imperfeita - se é que eles existem - é o que deve ser negado no vazio. Na verdade, os fenômenos não existem daquela maneira; existem apenas nominalmente. Assim, o vazio é a ausência desse status exagerado dos fenômenos - como se existissem por conta própria. Portanto, o vazio de tal existência inerente aos fenômenos é a mais sutil não-essencialidade dos fenômenos. E, por fim, esse é o fato percebido pela sabedoria."
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