O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vida. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de março de 2011

"A ética é a responsabilidade por tudo quanto vive, estendida além de todos os limites"



"O homem só é verdadeiramente ético quando obedece a necessidade de ajudar a toda vida a que pode ajudar e se envergonha de causar dano a todo e qualquer ser vivo. Ele não se pergunta até onde esta ou aquela vida tem valor para merecer participação, nem se, ou até onde, ela ainda é capaz de sentir. Para ele a vida em si é santa. Não arranca nenhuma folha das árvores, não quebra uma flor, e toma cuidado para não pisar nenhum inseto. Quando no veºão trabalha à noite à luz da lâmpada, prefere manter a janela fechada e respirar um ar pesado a ver os insetos caírem um após o outro na sua mesa com as asas chamuscadas.

Quando após a chuva caminha pela estrada e vê a minhoca que se extraviou, ele se lembra de que ela terá que secar ao sol se não tiver tempo de encontrar terra em que possa esconder-se, e retira-a da pedra mortífera para a grama. Quando passa por um inseto que caiu numa poça, ele trata de estender-lhe uma folha ou um talo a fim de o salvar

Não teme que zombem dele como sentimental. É este o destino de toda a verdade, que antes de ser reconhecida ela seja objeto de riso. Antes passava por loucura admitir que os homens de cor seriam verdadeiros homens, e que teriam que ser tratados humanamente. A loucura passou a ser sabedoria. Hoje é considerado como um exagero estender até suas formas ínfimas a contínua atenção a todo ser vivo, como uma exigência da ética racional. Mas há de chegar o dia em que se há de julgar estranho que a humanidade tenha precisado tanto tempo para entender o dano inconsiderado à vida como incompatível com a ética.

A ética é a responsabilidade por tudo quanto vive, estendida além de todos os limites"

- Albert Schweitzer, A ética da veneração diante da vida (1955), in Leonardo Boff (com a colaboração de Werner Müller), Princípio de Compaixão e Cuidado. O encontro entre Ocidente e Oriente, Petrópolis, Vozes, 2000, pp.88-89.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mais uma de António Maria Lisboa: "Cadame" (excertos)

A vida é bela   •    comecemos

Primeiro: o maior descanso
Segundo: a maior liberdade
Terceiro: o tratar-se dos pés
Quarto: queimar

António Maria Lisboa (em co-autoria com Mário Cesariny), excertos de "Cadame", in Poesia de António Maria Lisboa, Assírio & Alvim, Lisboa, 1977, pág. 124.  

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ciência e Vida

"Sentimos que, mesmo que todas as questões científicas possíveis houvessem recebido uma resposta, os nossos problemas de vida não teriam sido ainda abordados"

- Wittgenstein, Tractatus, 6.52.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

mulher






"Tu és pura e imaculada,
Cheia de graça e beleza
Tu és a flor minha amada,
És a gentil camponesa.

És tu que não tens maldade,
És tu que tudo mereces,
És, sim, porque desconheces
As podridões da cidade.
Vives aí nessa herdade,
Onde tu foste criada,
Aí vives desviada
Deste viver de ilusão
És como a rosa em botão,
Tu és pura e imaculada.

És tu que ao romper da aurora
Ouves o cantor alado...
Vestes-te, tratas do gado
Que há-de ir tirar água à nora,
Depois, pelos campos fora,
É grande a tua pureza,
Cantando com singeleza,
O que ainda mais te realça,
Exposta ao sol e descalça,
Cheia de graça e beleza.

Teus lábios nunca pintaste,
És linda sem tal veneno,
Toda tu cheiras a feno
Do campo onde trabalhaste,
És verdadeiro contraste
Com a tal flor delicada
Que só por muito pintada
Nos poderá parecer bela,
Mas tu brilhas mais do que ela,
Tu és a flor minha amada.

Pois se te tenho na mão,
Inda assim acho tão pouco,
Que sinto um desejo louco:
Guardar-te no coração!
As coisas mais belas são
Como as cria a Natureza,
E tu tens toda a grandeza
Dessa beleza que almejo,
Tens tudo quanto desejo,
És a gentil camponesa"

António Aleixo

É tempo

A vida das nações, e sobretudo dos Estados, divorciou-se completamente das aspirações mais fundas do ser humano, que dificilmente se revê em manipulações contabilísticas, no cinzentismo burocrático e num politicamente correcto que nada dizem a quem assume a existência como aventura de conhecimento e comunhão amorosa com os outros e com tudo. É tempo de surgir uma alternativa social e cívica que nos remova do indiferentismo e da clausura na vida privada, dando outra cor e alento à vida pública.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Clarice Lispector: Toda vida é uma missão secreta

Aquilo de que se vive - e por não ter nome só a mudez pronuncia - é disso que me aproximo através da grande largueza de deixar de me ser. Não porque eu então encontre o nome do nome e torne concreto o impalpável - mas porque designo o impalpável como impalpável, e então o sopro recrudesce como na chama de uma vela.

A gradual desenraização de si mesmo é o verdadeiro trabalho que se labora sob o aparente trabalho, a vida é uma missão secreta. Tão secreta é a verdadeira vida que nem a mim, que morro dela, me pode ser confiada a senha, morro sem saber de quê. E o segredo é tal que, somente se a missão chegar a se cumprir é que, por um relance, percebo que nasci incumbida - toda vida é uma missão secreta.

A desenraização de mim mesma está minando subterraneamente o meu edifício, cumprindo-se à minha revelia como uma vocação ignorada. Até que me seja enfim revelado que a vida em mim não tem o meu nome.

E eu também não tenho nome, e este é o meu nome. E porque me despersonalizo a ponto de não ter o meu nome, respondo cada vez que alguém disser: eu.

A desenraização é o grande fracasso de uma vida. Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair - só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Minhas civilizações eram necessárias para que eu subisse a ponto de ter de onde descer. É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. Só então minha natureza é aceita, aceita com o seu suplício espantado, onde a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos. E é aceita a nossa condição como a única possível, já que ela é o que existe, e não outra. E já que vivê-la é a nossa paixão. A condição humana é a paixão de Cristo.

Ah, mas para se chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa. A realidade antecede a voz que a procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio.

Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.

E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.

Desisto, e terei sido a pessoa humana - é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço - viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.

Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente me votando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim - eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisto e quanto menos sou mais vivo, quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única missão secreta é a minha condição, desisto e quanto mais ignoro a senha mais cumpro o segredo, quanto menos sei mais a doçura do abismo é o meu destino. E então eu adoro.


Clarice Lispector, in A Paixão Segundo G.H.

sábado, 17 de outubro de 2009

"A vida é uma caçada..."

"A vida é uma caçada interessante e, ora caçadores, ora caçados, os seres disputam uns aos outros os retalhos desse horrível despojo: é uma espécie de história natural da dor" - Schopenhauer, O Mundo como Vontade e como Representação.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Aquiles entre a Glória e os Vivos (Mortos)


Imagem: Google Imagens

A Ilíada é um poema sobre a morte e as suas personagens são dominadas pela compulsão de matar ou morrer. A história avança inexoravelmente para a inevitável extinção: as mortes de Pátroclo, Heitor e Aquiles e mesmo da bela cidade de Tróia. Também na Odisseia, a morte era uma transcendência tenebrosa, inefável e inconcebível. Quando Ulisses visitou os infernos, ficou horrorizado perante a visão das multidões desnorteadas e balbuciantes, cuja humanidade se desintegrara obscenamente. Porém, quando encontrou a sombra de Aquiles, Ulisses implorou-lhe que não se lamentasse: «Nenhum homem foi outrora, nem o será no futuro, mais feliz do que tu. Antigamente, quando vivias, nós, os Argivos, honrávamos-te à semelhança dos deuses, e, agora que aqui estás, reinas sem contestação sobre os mortos; por isso não te aflijas por ser defunto, Aquiles.» Mas isso não interessava a Aquiles. «Não me consoles assim da morte», ripostou com palavras que contrariavam totalmente o ethos aristocrático do guerreiro. «Preferia, como servo ligado à gleba, estar ao serviço de outrem, de um homem sem património, desprovido de quaisquer meios, em vez de reinar entre os mortos, que já nada são!» Havia um vazio temível no âmago do ideal heróico.

Karen Armstrong, Grandes Tradições Religiosas, Temas e Debates, 2009, p.115

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Corpo


O corpo é um bocado de carne. O corpo vivo é algo diferente disso, porque sente. Na morte, algo sai do corpo e este assume a sua natureza puramente carnal - ou morta? Um bocado de carne, insensível e inerte como uma pedra. Apercebemo-nos de que ele é carne. Tantas e tantas vezes absortos do corpo, não pensamos nele, daí não pensarmos nele como carne: a consciência do corpo torna-se audível sobretudo nos momentos de dor. Aí dizemos - eu sou isto. Carne. E desaparecem as vãs esperanças e ilusões sobre a nossa suposta espiritualidade enquanto entes. Pois em nós o próprio ser espiritual está misturado com o ser corporal e são, possivelmente, indistintos. O espírito sente o que acontece ao corpo e o corpo não se revê nos cantares do espírito, que aparentemente tudo comanda. Mas o espírito revê-se no pranto do corpo. Ante a ferida aberta, o espírito agoniza e perde-se em orações e rezas, escapes e fugas da dor. Aí dizemos - faz isto passar. Anestesia.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Esfera Armilar - A grande questão e a grande encruzilhada

"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material"

- Agostinho da Silva, "A Comédia Latina" [1952], Estudos sobre Cultura Clássica, organização e introdução de Paulo Borges, Lisboa, Âncora Editora, 2002, p.307.

Querendo dominar e avassalar o mundo, adoecemos e destruímo-nos, física, emocional e mentalmente. Pondo-nos ao serviço do bem do mundo e de todas as formas de vida, humanas e não-humanas, curamo-nos e libertamo-nos. Esta é hoje a grande questão e a grande encruzilhada.

O que escolhes? E que escolha gostarias que fosse a de Portugal e dos países lusófonos?

Qual a escolha digna de uma Esfera Armilar, de um Abraço ao Universo, de um Coração do tamanho do Universo?

domingo, 31 de maio de 2009

Virgílio Ferreira, in Aparição

Pela última vez, durmo na casa do Alto. É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas. Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminávelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos. Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razâo sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa? A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.

Lembra-me imagens da guerra, de cidades bombardeadas. Alguém deve ir pegando o fogo por sectores, estabelecendo linhas de chamas que o vento vai impelindo. O campo arde vastamente, como uma destruição universal. Quase ouço o crepitar das chamas como o fervor final de uma inundação. Sinto-me só e nu, escapando ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possivel construir uma cidade como a imagino, a cidade do Homem? Acaso não dura ela em mim, no meu sonho, apenas porque a penso sem consequências, a imagino, a não vivo, lhe não exijo responsabilidades? Não o sei, não o sei...

Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita.