O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 19 de maio de 2010

-a caminho da cidade-




“… Vem comigo! Vou mostrar-te
o caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
…

Vistos dessa eminência, o mundo e as suas
sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol,
O mais estéril chão atapeta-se de alfombras,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.

Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A própria Dor começa a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino,
como recordação indelével persiste,
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...”

António Feijó, A Cidade do Sonho

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

cumprir


Alguns têm na vida um grande sonho e falham a esse sonho.

Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego.



Foto de Carlos Rema.

sábado, 16 de agosto de 2008

Esta noite sonhei

Sonhei que o meu cavaleiro andante viajava pelas dunas
e que me procurava em cada pôr-do-sol…





Viajou milhares e milhares de anos
O caminho era este, a estrada era outra…





Na baínha do casaco trazia um presente para me oferecer





Rosas esculpidas pelo vento e pelo tempo.
Rosas secas, pétalas fósseis guardadas desde o princípio dos tempos





No meu sonho o céu era branco como cal e tinha muitas estrelas coloridas
Outras vezes, o céu era sustentado por colunas muito altas





Havia muitas portas, quase todas de um azul bonito











Um dessas portas esperava, entreaberta, que eu entrasse
Mas eu não entrei.




Escondi-me no alto do minarete
De uma das janelas parecia que se via o infinito
O que parece não acabar nunca. Mas não era o infinito


Era o deserto que me chamava
Era aquele alaranjado que me dizia que fosse, que me dizia que sim
O horizonte da cor do deserto é assim…





Estarrecida, contemplei a beleza e a grandiosidade
que é estar perante aquela areia macia
que nos envolve em todo o redor…
E, em silêncio, ouvir aquelas palavras que a natureza nos diz
quando se mostra assim nua, despida de tudo.





E o Sol desceu…




E a Lua subiu…
Num ritual que se repete pelos séculos dos séculos
Numa sequência de luz e de escuridão iluminada





Nesses momentos,
Há miragens que nos chegam…
Como se fossem espíritos anciãos
Dispostos a dançar connosco uma dança de lua cheia e de fogueira acesa
E nos acenam num adeus.





Acordei.


(leia-se: voltei)

terça-feira, 8 de abril de 2008

sonhos


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo.
Fernando Pessoa