O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Intervencões

I

O pobre tolo que fala e escreve somente sabe abrir um esgoto onde os ratos e as baratas se multiplicam.

II

Utopistas e Realistas: ambos não conseguem deixar de assassinar.

III

A raiva e o vinho: dois amigos do aforismo.

IV

O meu campo de batalha somente conta um cadáver: Eu.
O resto morre nos seus campos sozinho.

V

Europa, meu querido pesadelo
o Paraíso encontra-se além do mar
mas nunca te deixo de me deixar
Europa, meu querido pesadelo

Mestre Eckhart ou “o homem de quem Deus nada escondeu”

É com funda emoção que prefaciamos esta primeira publicação em Portugal de uma antologia de tratados e sermões de Mestre Eckhart (1260 ? – 1328) , o teólogo, filósofo e pregador dominicano cuja profundidade e subtileza espiritual e “mística” o tornam cada vez mais uma referência fundamental para todos os que, independentemente da sua cultura ou religião, procuram ir ao fundo das possibilidades da vida, da consciência e da existência, sem se contentarem com a mera especulação intelectual sobre o seu sentido. Com efeito, em Eckhart dá-se a rara e feliz conciliação de uma sólida erudição universitária com a radicalidade da experiência espiritual que rompe e inova as categorias do pensamento da sua época e da sua tradição, fazendo dele um “Leben Meister” (“Mestre de vida” e não só de doutrina) que influiu decisivamente em gerações de discípulos e tem inspirado um significativo e crescente número de pensadores, psicólogos, escritores, poetas, pintores e músicos contemporâneos.
Consagrado pela posteridade como “o homem de quem Deus nada escondeu”, Eckhart assume de facto a sua visão e discurso como “uma verdade não encoberta, que veio directamente do coração de Deus” . “Voz” vinda “da eternidade”, mas não compreendida senão nos limites do tempo, como o disse Tauler, seu discípulo, acabou por ser objecto de um processo e de uma Bula papal que condenou vinte e oito afirmações suas como heréticas ou “mal sonantes, ousadas e suspeitas de heresia”. Todavia, se Eckhart ousa transgredir o plano teológico-filosófico e doutrinal para falar em nome de uma experiência imediata de Deus, esta fuga à norma da sua própria tradição institucionalizada pode noutro sentido ser vista como fidelidade a uma experiência cristã mais profunda, em que a resposta à questão tradicional – Cur Deus homo; Porque se fez Deus homem ? – é a de que Deus se faz homem para que cada homem “seja engendrado como o próprio Deus”, sendo “a abissalidade [Abgründigkeit] do ser divino e da natureza divina” inteiramente gerada “no seu Filho unigénito” para que “nós próprios sejamos o mesmo Filho unigénito”. Cristo, o Filho único de Deus, não é assim somente considerado uma pessoa individual e distinta, designando sobretudo a suprema possibilidade, histórica e trans-histórica, comum a todo o ser humano, cumprida no acesso de cada um ao estado de unção espiritual que esse nome designa.
Se a pregação eckhartiana tem dois temas capitais - o nascimento de Deus na alma e o trespasse do espírito na Divindade - , é neste último que se torna mais sensível a sua inovação e radicalidade. Bernard McGinn usa a expressão “mística do fundo” para designar a nova forma de experiência espiritual iniciada ou redescoberta por Eckhart, seus contemporâneos e seguidores , sintetizada na afirmação: “o fundo de Deus e o fundo da alma são um fundo”. Grunt (forma antiga do moderno termo germânico Grund) abre assim um “campo de palavra místico”, constituindo uma “metáfora explosiva” (Blumenberg), enquanto “expressa de modo concreto o que não pode ser capturado em conceitos” e “trespassa anteriores categorias da linguagem mística para criar novos modos de apresentar um encontro directo com Deus”. Dos vários sentidos que Grunt assume no alemão medieval, destaca-se em Eckhart o do “mais íntimo” e “oculto” de um ser, “a sua essência”, referindo-se quer ao “mais íntimo da alma”, quer às “profundezas ocultas de Deus”, para designar a radical unicidade desse seu fundo único. Univocamente comum a Deus e à alma, o fundo transcende-os enquanto “Deus” e “alma” surgem como algo distinto em si mesmo e na sua relação mútua. Com efeito, metáfora do infinito e do absoluto livre de todo o limite e referência, o fundo é “sem fundo” e “um único um” que transcende o Deus pensado pelo homem “enquanto causa eficiente do universo” e diferenciado nas pessoas trinitárias: como diz, a origem do ser divino e de todas as coisas reside nesse “fundo simples” e “imóvel” ou “deserto silencioso onde jamais a distinção lançou um olhar, nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo”. Sendo a “indistinção” e a ausência de características a “característica distintiva de Deus” como fundo, este é “nu, livre, vazio, puro”. Daí a relação da metáfora do fundo com as do “deserto”, do “mar” e do “abismo” [Abgrund], imagens de espaços vastos, uniformes e desobstruídos, sem limites nem entidades. Referindo também o incondicionado que há na alma, esse “algo incriado” que nela reside, o fundo é a mais poderosa metáfora que Eckhart usa – a par de outras, como a “pequena centelha” e a “cidadela” – para indicar a presença em cada ser do absoluto e infinito, isso que transcende e identifica o humano e o divino: “Aqui o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo o fundo de Deus”.

[excerto do prefácio de Mestre Eckhart, O Abismo Eterno, antologia de tratados e sermões escolhidos e prefaciados por Jorge Telles de Menezes e Paulo Borges, tradução do alemão de Jorge Telles de Menezes, Lisboa, Paulinas, 2009 (no prelo)]

3 estados


Dúvidas

Certo dia, como lhe era habitual, a Dúvida despia as suas roupas e, porque o tempo assim o permita, lançava-se ao rio para se dedicar horas a fio aos prazeres da natação...
Descalçava as pequenitas sandálias despia a linda túnica branca soltava os longos cabelos azuis enrolados atrás da nuca e, de um movimento apenas mergulhava fundo nas águas profundas deste rio. O Rio que tão bem a conhecia. Mas um dia houve em que a Dúvida, após andar horas a fio rio abaixo rio acima sentiu necessidade de regressar à segurança da Margem... Nesse preciso momento percebeu o quão longe estava dela, o rio tornara-se demasiado largo à medida que avançava até ao Mar. Reuniu todas as forças que lhe restavam, traçou um rumo seguro para evitar a corrente e seguiu este caminho; quase já sem energia. O vento estava de feição, a corrente abrandara e a Dúvida, agora banhada por lágrimas de alegria viu a sua Vida andar em frente, rumo à escarpada Margem que lentamente ia crescendo a seus olhos... e gritou alto. Muito alto gritou a Dúvida para que a Margem lhe desse a mão. Os últimos pedidos de socorro roubaram-lhe o que restava da mínima energia reservada. E a Dúvida sucumbiu descendo lentamente em direcção ao fundo... profundo Rio que a recolheu em seu leito. Silhueta azul que até hoje aí descansa... Moral da história? Não há Margem para...
As suas águas trazem a lembrança de um amor perdido algures nas águas turvas e profundas imbuídas de tristeza.
As duas vozes
VT & Nas asas de um anjo

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Curso de Introdução a Mestre Eckhart - 6ª feira - dia 7

Introdução a Mestre Eckhart,
"o homem de quem Deus nada escondeu"

"[…] o fundo de Deus é o meu fundo e o meu fundo o fundo de Deus"

O curso oferece uma introdução ao pensamento e experiência espiritual
de Mestre Eckhart (1260 ? – 1328), teólogo, filósofo e pregador
dominicano cuja profundidade e subtileza o tornam uma crescente
referência fundamental para todos os que, independentemente da sua
cultura ou religião, procuram ir ao fundo das possibilidades da vida,
da consciência e da existência, sem se contentarem com a mera
especulação intelectual sobre o seu sentido. "Leben Meister" ("Mestre
de vida" e não só de doutrina), influiu decisivamente em gerações de
discípulos e tem inspirado um significativo e crescente número de
pensadores, psicólogos, escritores, poetas, pintores e músicos
contemporâneos.

Serão disponibilizados e comentados textos de uma tradução ainda
inédita de Jorge Telles de Menezes, de uma antologia a publicar pelas
Paulinas, em 2009.

O curso é dado por Paulo Borges, professor de Filosofia da Religião na
Universidade de Lisboa

6ªas feiras, 18-20 h, 7, 14, 21 e 28 de Novembro

Inscrição: 40 euros
Associação Agostinho da Silva, Rua do Jasmim, 11, 2º andar – 1200-228 Lisboa;
E-Mail: AgostinhodaSilva@mail.pt; Tel.: 21 3422783 / 96 7044286; http:
www.agostinhodasilva.pt

paris - inverno

Paris



Paris é um Sol de outono.

Um Sol que se pode sentir no irrespirável calor de verão
e na noite mais escura de um vigoroso inverno. E em qualquer ponto do mundo.
É um état d’esprit:

uma certa nebulosidade confortável do mistério humano que invade sem ferir, trazendo uma introspecção amorosa e melancólica e uma feliz contemplação das emoções desprendidas do tronco das inquietudes, como folhas pelo vento;
uma frescura que inspira ao aconchego de um pensamento aveludado,
ao calor romântico do existir,
ao questionamento sentimental,
à sensualidade da alma,
ao enroscar no corpo.

Um Sol outonal, delicado,

um arrepio que a luz conforta numa cadência própria e imperturbavelmente precisa.

Hoje, 8º Encontro Inter-Religioso de Meditação

4ªfeira, 5 de Novembro 2008 às 19,15h (recepção)
- Centro de Estudos da Ordem do Carmo - R. de St. Isabel, 128-130 (ao Rato)

É com muita alegria e empenho que a Comunidade Mundial de Meditação Cristã anuncia a realização de mais um Encontro Inter-religioso de Meditação. Com alegria por esta iniciativa ter sido tão bem acolhida, apoiada e desenvolvida por várias outras comunidades religiosas. Com empenho no sentido de sensibilizarmos mais comunidades a juntarem-se a nós neste próximo encontro.
Assim, convidamos todos os membros da CMMC, bem como os membros de outras religiões ou tradições a viverem a experiência de procurarmos em conjunto e no mais profundos silêncio e quietude o encontro com o que, para cada um, for o mais sagrado e mais pleno.


“A quietude é a nossa peregrinação e o caminho do peregrino é o mantra”.
John Main


A sessão iniciar-se-á às 19,30h, com breves leituras de textos espirituais de cada tradição intervaladas por 2 min. de silêncio, seguindo-se 25 minutos de meditação silenciosa. Terminaremos com uma pequena prece colectiva pela paz e pela união entre todos.



A Comunidade Mundial de Meditação Cristã

Email: mcristinags@netcabo.pt
Tel: 218488259/Tm: 919264907
http://meditacaocrista.weebly.com/index.html

Rasgo o silêncio e digo...

Amo-te.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Destinos

Aonde podemos ir, então, nós que sofremos de insónia e passeamos nas ruas até ao nascer do Sol?
VT

de amor e alguma circunstãncia

que nunca amar nos canse
e o mundo mude

e cada um de nós ajude
e o mundo avance

e cada um de nós avance
e o mundo ajude

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Publicidade Enganosa ao novo Livro de Paulo Borges

9.

Met de ZuiderZoon vertrekken

Nooit

zal ik met de ZuiderZoon heimbarend ween.

Saudade is maar een
klank
die geen gedichtsel
voorschrijft.


(work/saudade in progress, a aparecer na Emparedada: Uit de Muur, 2009)

da desasida discipula.

mapa cor de rosa

A vocação lusófona

De política externa. Ao que nós todos tendemos, os da Língua Comum — angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guinéus, mauberes, moçambicanos, portugueses, sãotomenses, (será que poderia acrescentar galegos ?) — , é fazer do mundo a cidade de todos e para todos, a polis global, que daí vem política e meta lhe deve ela ser. Política externa que sempre seja a interna virada para fora, aos de dentro tratando com a largueza humana que para os de fora se requer. Com Povo algum deixaremos de ter relações de coração, que tal é o étimo de cordial, embora com seus governos tenhamos as elementares precauções que se têm com vespa ou com bicho, ainda que doméstico, de retráctil unha. Toda a economia será de cooperação, para que assim nossas metafísicas, teológicas ou não, passem dos professores de filosofia ao quotidiano de nossos procedimentos. Caminhará a educação para ser o pleno entendimento de nossas culturas peculiares, vendo a todas as outras como suas irmãs, pois que humanas, ainda que não gémeas. E à metafísica ela própria ? Acima de tudo ecuménica, mas, na verdade, para além de ecuménica, que só quer dizer do que, nosso conhecimento, é habitado: no fim de tudo a desejamos cósmica. Talvez um amplo abraço de Aristóteles e Platão, desde tão longe adversos: que faça as pazes o leão do céu com o da terra; e quem sabe se não teremos para isto de acabar firmando nossos pés naquele para além de tudo ou nada que já anda no Buda e se apura nos mestres zen; ou, se preferimos as linguagens de hoje, nos melhores dos físicos: para além dos que muito a sabem os que, parece, melhor a entendem. Como estamos em todos os continentes, de firme planta como na América, ou irredentos como em Timor, nos caberão tarefas várias: por exemplo, na Europa, e com nossos coabitantes da Ibéria, renovarmos a salvação que levámos aos transpirenaicos quando os trouxemos das ideias puras ao firme chão da mortal existência, ou quando lhes comunicámos o descoberto; do outro lado do Atlântico, agregando a poeira de nações que saíram da intransigência castelhana; na África, pensando de novo no mapa-cor-de-rosa, agora para sempre independente do Terreiro do Paço; no Índico e Pacífico, lançando ponte de poldra a poldra do que ainda é a Língua ou do que jamais deixará de lhe ser lembrança. Talvez Ela, o que mais nos liga, não seja o veículo de pregar Evangelho Português, como o teria pensado Fernão Lopes: mas quem sabe se não será bem adequada para entender e praticar o Outro; alargado, porque Deus pai universal, a todos os teísmos ou ateísmos do mundo - Agostinho da Silva, 82: Semanário do mês de Santiago o qual lhe aparecendo pensado compôs em linguagem Agostinho e assim o enviou a seus Amigos [1982], in Dispersos, 1989 (2ª edição), pp.745-746.

domingo, 2 de novembro de 2008

anjo emplumado

uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

Dedicado a "Maria da Conceicao"

http://bardotodol.blogspot.com/2004_08_01_archive.html

Terça-feira, Agosto 31, 2004

Sempre a Bombar, querida Mahakala
“EU SOU A MAHAKALA NEGRA! E A MINHA BANDA CHAMA-SE A FÚRIA NEGRA. FECHEM OS OLHOS, RESPIREM FUNDO, E NÃO PENSEM EM NADA — PORQUE EU VOU ESMAGAR-VOS A CABEÇA ENTRE OS MEUS DENTES!!!” Mahakala, uma mulher negra, de pele brilhante como petróleo, é uma deusa irada, uma vocalista punk-hardcore straightedge, que na total força e pujança da sua fúria dá, assim, inicio ao concerto da noite. A tempestade chegou. O fim do mundo começou. Este é o som da noite, duma noite rubra. “Querem som da pesada? Eu dou-vos da pesada!” E é da pesada mesmo. A bateria começa a metralhar sem misericórdia, é uma locomotiva descontrolada, o som explode do palco e acerta no público, uma massa louca, em êxtase. O baixo, sempre a bombar faz disparar os corações em taquicardia, comprime as costelas; enquanto as guitarras, furam como uma broca de diamante pelos tímpanos, atravessam o osso, electrificam o crânio mandando choques e faíscas pelas cabeças até à medula. O microfone é esmagado entre os dedos da Mahakala. Os movimentos dela são ondulantes, os braços como chicotes, suados e negros, e a voz rasgada, grossa, ecoa vinda do mais profundo dos infernos. “Eu sou a Mahakala negra! E a minha voz é voodoo, a minha voz acorda mortos! Acordem!” E essa é, no fundo, a essência do punk-hardcore straightedge e fusão: acordar os mortos e os adormecidos da nossa sociedade. E quem são estes necromantes do mundo moderno, que estão a tentar acordar os mortos — quem são os punk-hardcore straightedgers? Eles são os sobreviventes duma raça de amantes do metal duro e música rápida. Eles são mutantes, querem mudar o mundo, são loucos, e muitos são veganos. A sua adrenalina, o seu desporto radical de vida e de morte, é tocar música pesada. A sua música é rápida, potente, cheia de energia e de letras filosóficas, cheias de pensamento e reflexão. As suas músicas e letras são contra a discriminação racial, álcool, drogas, consumismo e exploração dos animais. Explicando em poucas palavras o movimento punk-hardcore straightedge e fusão, estes são movimentos e projectos musicais com algumas ligações aos estilos de música punk, hardcore, metal, ragga, rap, e tudo mais — desde que o resultado seja pesado. No entanto, se bem que haja semelhanças nos estilos e no som, há diferenças fundamentais entre estes grupos, muitos especialmente nas atitudes e posturas em relação à vida. Vamos, então, ouvir o que alguns punk-hardcore straightedgers dizem acerca destes movimentos: “A nossa postura na vida tenta ser diferente e criativa. Nós não concordamos com a atitude hedonista e auto-destructiva que contamina a nossa sociedade, isto incluindo a juventude e as banda de música. Nós estamos, de facto, muito conscientes de alguns dos problemas fundamentais que estão a causar sofrimento e a destruir a nossa sociedade, por isso nós fortemente desaconselhamos o álcool, drogas, produtos resultantes da exploração de animais, e as relações casuais.” (Emma “Fire-Dragon”, guitarrista dos Merchant of Menace). “Nós somos contra a violência e a guerra em todas as suas formas. Por isso nós também somos contra as drogas e o álcool, que são produtos tóxicos que trazem guerra para dentro do nosso corpo. Talvez nós não consigamos, directamente, parar com as grandes guerras que estão a acontecer por esse mundo fora. Mas podemos, seguramente, evitar aquelas que começam dentro de nós. O que significa que devemos ser cuidadosos com as coisas que trazemos para dentro de nós mesmos, isto se quisermos evitar “guerras civis” nos nossos corpos e mentes. Nós somos a favor de um estilo de vida sem crueldade. E isso está relacionado com o que consumimos, comemos e até vemos na televisão!” (Josephine Linqvist, baterista dos Nomad). “Nós gostamos de tocar música muito forte e potente. A rasgar mesmo. É uma maneira de acordar as pessoas. Nós queremos mostrar-lhes como é destrutiva a maneira como certas coisas são feitas na nossa sociedade de hoje em dia. E a música é uma muito boa maneira de chamar as atenções. Demasiadas pessoas, animais e seres vivos estão a sofrer — AGORA! Ouçam: as florestas estão a ser destruídas, os animais estão a ser dizimados, e as pessoas estão a ser intoxicadas! Nós temos, de novo e sempre, de ganhar responsabilidade sobre as nossas próprias vidas. Temos de ser o BOSS, o patrão das nossas vidas. Cada membro desta sociedade tem de aprender a respeitar O TODO! Os problemas no mundo só irão diminuir quando nós pararmos de contribuir para eles. Nós temos de dar o primeiro passo.” (Afro-Spider, baixista de Don´t Panic it´s Organic). “Eu não pertenço a nenhum grupo, nem religião, nem partido organizados. Não pertenço a nada, nem a ninguém. Sou livre. Apenas amo a música e para isso não preciso de pertencer a nenhum partido, nem nacionalidade, nem gang. A minha pacifica tribo sou só eu, e a minha religião é o pôr-do-sol, a lua que rasga as nuvens na noite, e o vento quente que sopra para fora da minha boca e do meu nariz. Sou um nómada dos tempos modernos, mas no fundo nunca estou sozinho, pois sou um irmão deste mundo, filho de todo este universo. O meu coração e o coração deste universo batem ao mesmo ritmo, como um só. ONE HEART, ONE LOVE como dizia o grande SHAMAN. Para mim o punk hardcore e o straithedge são atitudes na vida que nem precisavam de ter nome. O importante é sentir o ENCARNADO do sangue e da coragem a correr forte nas veias. O importante é sentir o DOURADO da inteligência a arder forte que nem um sol nas nossas mentes. O importante é tocar o VERDE da paz a unir-nos às nossas raízes, à natureza e a todos os seres vivos que são nossos irmãos. O importante é aceitarmos o nosso destino como seres interdependentes desta vida, deste cosmos. Somos todos um só. Não há fuga possível”. (Coração-Preto, ex-vocalista dos Fusão-Empática). “Uma FORÇA quer-te neste mundo. Uma FORÇA bombeia o teu coração e dá brilho aos teus olhos. Uma FORÇA desenha o teu destino, tal como risca a noite com cometas, estrelas candentes e uma lua que é um espelho da tua alma, do teu espírito. Tu isto sabes, tal como sabes que existes. Sente: EU EXISTO!!! E essa consciência, essa FORÇA, é um reflexo desse algo maior, duma vida que brilha como as supernovas que explodem pelos céus, na noite eterna. Não te queixes, não te preocupes. Sofrer faz parte. Porquê, não sei. Talvez para nos fazer querer encontrar aquilo que já somos — mas não sabemos.... A FORÇA. A vida magoa-te, tortura-te? Então grita, grita da tua cruz, do teu palco — grita até que os amplificadores peguem fogo, as colunas levantem voo e o microfone fique feito em migalhas de luz. E se o mundo é estúpido cabe A TI fazer a diferença, viver a diferença. O direito à diferença. Esse é o direito que mais me interessa — nem é o direito à igualdade, mas sim O DIREITO À DIFERENÇA!!!!” (Mahakala, vocalista dos Fúria Negra). “Diz assim lá no I CHING: “Sê inocente, esse é o supremo sucesso da tua vida. Se fores paciente a vida levar-te-á onde deves chegar. Se uma pessoa não for ela mesma, então encontra o infortúnio, a tristeza...Se tiveres confiança no espírito que está dentro de ti, e que contigo nasceu, então atingirás a inocência pura que te guiará os passos para o que é certo, com uma certeza instintiva sem qualquer pensamento de recompensa ou proveito pessoal...” Estás a perceber? Há muitos anos atrás escrevi uma música para a minha banda que se chamava: À sombra do carrasco. E o carrasco, o torturador, dizia a música, está dentro de nós, somos nós mesmos. Frequentemente, nós somos o nosso próprio pior inimigo. Também, durante anos, a pessoa que mais odiei neste mundo foi a mim mesmo. E porquê? Porque nos sentimos errados, inadequados, incompletos. Achamos que tudo o que tocamos fica destruído, sem sentido - nem que seja porque pousámos os nossos olhos sobre uma flor, ela irá murchar. Mas um dia algo aconteceu... E assim a vida muda. A atitude muda. Um acontecimento, uma palavra, alguém que aparece no nosso destino.... E a vida muda-nos, algo novo aparece para nos mostrar outro caminho. Queres ver outra vida? Outro mundo? É preciso recuperar confiança, não em nós mesmos porque isso não chega, mas sim na VIDA. Confiarmos no instinto, no nariz, saber dizer não às coisas destrutivas e às mentiras que a maior parte do mundo nos quer enfiar pelas orelhas. Quando é a vida a falar, e não a nossa cabeça, então o nosso instinto sabe o que devemos e não devemos fazer. O nosso nariz e o nosso coração têm muito instinto, e por isso podem ser puros, inocentes. Cheiram a merda ao longe e afastam-se. O mal não está em ti. Está no facto de que esta nossa sociedade faz as pessoas morrerem à fome dentro da sua alma. Aquilo que nos é oferecido é pouco, muito pouco e muito poluído e impuro. Por isso, mesmo quando se tem “tudo” aquilo que a nossa sociedade acha de importante, e que nos devia fazer feliz, mesmo assim não nos faz felizes — mesmo assim tu, eu e mais algumas pessoas deste mundo, não nos sentimos felizes com o que nos dão. Depois dizem-nos: nunca estás feliz com nada! E não estou!!! Com as vossas drogas, televisões, guerras, modas, carnavais, "estórias de amor", tudo isso é uma treta. Vou viver para quê? Para o dinheiro, o carrão, a discoteca, a telenovela, o divorcio e o corno, a paródia e o vazio ao ver o rosto no espelho? Isso não me contenta. Não me chega, não me chega. Estás a perceber?! Queres sentir a vida? Abre bem as mãos da próxima vez que sentires o vento, e deixa-o soprar-te por entre os dedos. Aí não saberás se és tu que corres no vento, ou se é o vento que corre em ti.... E lembra-te do que o Buda disse: NÃO HÁ CAMINHO PARA A FELICIDADE. A FELICIDADE É O CAMINHO.” (Macraft D’Rassing, guru dos Fúria Negra). Bandas de referência do straightedge e fusão: Fúria Negra, Soulfly, MasMorra Podre, Youth of Today, 108, No Use For A Name, Shelter, Fugazi, Propagandhi, Asiandubfoudantion, Clawfinger, etc.

Porque





Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.



Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.



Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.



Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não



Sophia de Mello B. Andersen