O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A vocação lusófona

De política externa. Ao que nós todos tendemos, os da Língua Comum — angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guinéus, mauberes, moçambicanos, portugueses, sãotomenses, (será que poderia acrescentar galegos ?) — , é fazer do mundo a cidade de todos e para todos, a polis global, que daí vem política e meta lhe deve ela ser. Política externa que sempre seja a interna virada para fora, aos de dentro tratando com a largueza humana que para os de fora se requer. Com Povo algum deixaremos de ter relações de coração, que tal é o étimo de cordial, embora com seus governos tenhamos as elementares precauções que se têm com vespa ou com bicho, ainda que doméstico, de retráctil unha. Toda a economia será de cooperação, para que assim nossas metafísicas, teológicas ou não, passem dos professores de filosofia ao quotidiano de nossos procedimentos. Caminhará a educação para ser o pleno entendimento de nossas culturas peculiares, vendo a todas as outras como suas irmãs, pois que humanas, ainda que não gémeas. E à metafísica ela própria ? Acima de tudo ecuménica, mas, na verdade, para além de ecuménica, que só quer dizer do que, nosso conhecimento, é habitado: no fim de tudo a desejamos cósmica. Talvez um amplo abraço de Aristóteles e Platão, desde tão longe adversos: que faça as pazes o leão do céu com o da terra; e quem sabe se não teremos para isto de acabar firmando nossos pés naquele para além de tudo ou nada que já anda no Buda e se apura nos mestres zen; ou, se preferimos as linguagens de hoje, nos melhores dos físicos: para além dos que muito a sabem os que, parece, melhor a entendem. Como estamos em todos os continentes, de firme planta como na América, ou irredentos como em Timor, nos caberão tarefas várias: por exemplo, na Europa, e com nossos coabitantes da Ibéria, renovarmos a salvação que levámos aos transpirenaicos quando os trouxemos das ideias puras ao firme chão da mortal existência, ou quando lhes comunicámos o descoberto; do outro lado do Atlântico, agregando a poeira de nações que saíram da intransigência castelhana; na África, pensando de novo no mapa-cor-de-rosa, agora para sempre independente do Terreiro do Paço; no Índico e Pacífico, lançando ponte de poldra a poldra do que ainda é a Língua ou do que jamais deixará de lhe ser lembrança. Talvez Ela, o que mais nos liga, não seja o veículo de pregar Evangelho Português, como o teria pensado Fernão Lopes: mas quem sabe se não será bem adequada para entender e praticar o Outro; alargado, porque Deus pai universal, a todos os teísmos ou ateísmos do mundo - Agostinho da Silva, 82: Semanário do mês de Santiago o qual lhe aparecendo pensado compôs em linguagem Agostinho e assim o enviou a seus Amigos [1982], in Dispersos, 1989 (2ª edição), pp.745-746.