O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 17 de maio de 2009

Filosofia e Estudos Orientais - Inscrições abertas


Filosofia e Estudos Orientais
Curso de Especialização
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Objectivos: Curso de especialização que visa estudar e aprofundar os princípios e temas fundamentais do pensamento e da cultura oriental (da Índia ao Japão).


Sinopse do curso: Este curso permitirá uma introdução às tradições filosóficas e culturais cultivadas na Ásia (Hinduísmo, Budismo, Confucionismo, Taoísmo, entre outras) possibilitando o conhecimento dos seus principais ensinamentos filosóficos, bem como das suas diferentes práticas, em particular aquelas que se reflectem na vida artística dessas comunidades. Será igualmente dada importância ao modo como o pensamento e a sabedoria oriental reequacionam a relação do homem com o mundo, criando soluções novas para os dilemas com que as sociedades e os indivíduos hoje se confrontam, e serão abordados aspectos fundamentais da relação da cultura e da filosofia portuguesas e ocidentais com as culturas orientais.


Público-alvo: este curso destina-se a todos os que pretendam compreender o fenómeno de ressurgimento e popularização do interesse pela cultura oriental e queiram desenvolver o diálogo intercultural.


Responsáveis científicos: Carlos João Correia; Paulo Borges
Equipa de docentes: Paulo Borges; Carlos João Correia
Outros Docentes: Filipa Afonso, Ana Cristina Alves, Fabrizio Boscaglia, Duarte Braga, Antonio Cardiello, Bruno Béu Carvalho, Renato Epifânio, Paulo Guedes, Miguel Gullander, Dirk Hennrich, Beatriz Lobo, Rui Lopo, Joana Luís, Vasco Marques, Paula Morais, Lavínia Pereira, Amon Pinho, Romana Pinho, Ricardo Ventura.


Seminários:


1. Filosofia Clássica Indiana (1ºsemestre)
2. Introdução ao Budismo (1ºsemestre)
3. Oriente/Ocidente: diálogos e cruzamentos (2ºsemestre)
4. O Budismo e o Extremo-Oriente (2ºsemestre)


Unidades de Crédito: 60 UC
Horário do curso: pós-laboral
Propinas: a serem definidas pela Universidade de Lisboa
Data-limite das candidaturas: 28 de Agosto de 2009


Para mais informações:
http://www.carlosjoaocorreia.com/oriente


Contactos:
Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Tel: 21 7920050
Fax: 21 7960063


E-mail:
pauloaeborges@gmail.com;
carlosjoaocorreia@gmail.com;
filomena.martins@fl.ul.pt

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Zeitgeist: The Movie

http://www.zeitgeistmovie.com/

A Renúncia

Por isso eu digo: quando o homem renuncia a si mesmo e a todas as coisas criadas - quanto mais amplamente o fizer, tanto mais amplamente será unido e abençoado na centelha da alma, que é intangível tanto pelo tempo como pelo espaço. Esta centelha contradiz todas as criaturas e nada mais quer senão Deus, desvelado, como Ele é em si mesmo.

- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p. 260

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.

Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.

Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.


Teixeira de Pascoaes
Sempre (1898)
In Poesia de Teixeira de Pascoaes
Org. de Silvina Rodrigues Lopes
Lisboa, Editorial Comunicação, 1987

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pétalas ao vento


quisera voar livre, como o vento...
sentir o odor dos pastos, do mar e da cidade
ainda que impregnada de vultos vazios

reenergizar-se em trespasse de luz
dança de mil e um sons
encantamento de natureza
sempre vislumbre de pureza

as suas asas eram pétalas de rosa
feminilidade ao luar
maciez ao tocar

um desejo
um suspiro
uma recordação
eis a essência de seu coração

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Cá nesta Babilónia

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Repouso de anjo

imagem google


as estrelas sussurravam um embalo d'alma

o anjo repousava em núcleo de lótus

dormia, e sorria

agraciava-o a lua

em luz de sol secreto

e o noctívago odor a jasmim exalava

na penumbra dos amantes

cálido desejo, refreado anseio

Mal

domingo, 10 de maio de 2009

Um traço - Continuidade textual e fulgurações


(Para a Luiza, o Paulo, a Isabel, Lapdrey, José António Lozano e para todos os serpentíneos, em fim de tarde de "llansolianos" maios)
_______________A música é uma maneira de estar à escuta sobre a superfície sonora do papel. O que se eleva é uma partitura lançada sobre a montanha dos nomes do passado. Cada rosa é um canal de uma Veneza esquecida; cada nome é um segredo no sustenido da hora. Amplificar a hora poderia ser esta visão de um texto suspenso no ar, um texto como um agasalho para a nudez do pintor. Nos olhos da bailarina havia um fio que se prolongava até ao rio. Esse rio era frio. A música era um piano a escorregar da nota; a palavra a cair na pauta de um canto em Parasceve. Como um bosque o teu sorriso tinha a cor do espaço edénico de um fim que não tinha início em nenhum tempo preciso. E contudo do teu pescoço alto e dos teus olhos a fogo pintados na paisagem da ausência saia uma luz que se assemelhava às folhas em branco dos cadernos do fim da tarde. A imagem de uma girafa a arder. Isabel passeava pelo jardim com um ramo de palmeira nas mãos. Esperava a Primavera no desejo da luz que trazia nos lábios. Num espaço que não era deste mundo e se desvanecia no pó de milhares de estrelas, a cantora leitora derramava-se na beleza do azul. O mar e a montanha chamavam Camus e Vergílio para o deserto e para a montanha da geografia do texto. Je fixe mon attention sur ce feuillage, et sur les cheveux bien fournis qui sous la lumière... E o homem debruçado sobre o piano tinha os dedos-pássaros poisados no indimensionado piano do tempo. Havia um céu que descia para os pés do homem. As asas estavam escondidas, cobertas pelos ramagens das árvores. O homem pronunciava um som que era como a chuva a cair no sino da aldeia onde se perdeu a mágica partitura de uma palavra transparente. Uma gota a bater na tarde do sino. Je me transforme en (...) musiquante e ofereço um segredo aos amantes sem voz. Eu sou um traço. Não de silêncio, mas a continuidade de uma abertura ao espaço da epiderme das rosas. Ao espaço da minha pele, à libido da minha intocada sede. O espaço de uma palavra viva. A escrita que se abre como um rosto aceso nos olhos da escrita viva. A intensidade de um jardim fulgurante, vivido.

Quem é Satanás?

sábado, 9 de maio de 2009

O Encoberto

(...) o Sol brilha sem cessar; porém, quando uma nuvem ou nevoeiro está entre nós e o Sol, então não nos apercebemos mais do brilho da luz. O mesmo se passa quando o olho está, ele próprio, doente e se mirra ou tolda; então ele também não reconhecerá o brilho. (...) quando um mestre faz uma imagem de madeira ou de pedra, ele não leva a imagem para dentro da madeira, senão que ele talha as aparas que tinham ocultado e encoberto a imagem; ele nada dá à madeira, mas tira e aplana-lhe a cobertura, afasta a ferrugem, para que depois resplandeça o que estava oculto por baixo. Este é o tesouro que estava escondido no campo, de que Nosso Senhor fala no Evangelho (Mt 13,44).

- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p.169

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Peço desculpa por açambarcar o espaço da Serpente, mas dado que ninguém publica, publico um poema que escrevi há pouco. É um pouquinho deprimente, mas apenas um poema. Espero que não se siga de comentários anónimos desagradáveis, como tem acontecido em alguns posts da Serpente.

Dor

Toda a vida sofri
A dor de não haver
Quem me quisesse aqui
Restando-me morrer.

Toda a vida sofri
A dor de não ser querido
Por isso morri
Só sem nenhum amigo.

Toda a vida sofri
A dor do detestado
Eis porque choro assim
Do mundo abandonado.

Toda a vida sofri
A dor que trago ao peito
Hoje adormeço aqui
No derradeiro leito.

Acrescento-lhe outro que saiu agora:

Fado suicida

Sofro desde um tempo
Que não tem memória
Com um ou outro momento
Em que virei a história.

Sofro desde um tempo
Que terá tido começo
Mas hoje sem alento
Já frio me despeço.

Sofro desde um tempo
Que habita na escuridão
Nos nuncas do vento
Nos nadas da paixão.

Sofro desde um tempo
Que sofrido foi sonhado
Eis que chega o momento
De cumprir o meu fado.

Outro:

Imo negro

Fria e escura realidade
Adormecida insanidade
Infundo corta o inexistir
Vislumbre eterno vou partir.

Cinza vento eis o dia
Anoitece a manhã fria
Alva a noite não se cura
Espinho lento nada dura.

Fria e escura ansiedade
Não nascida sem idade
De nenhures de um confim
Onde late um motim.

Ardente negra a porta
Grito escuro à minha volta
Do outro lado o abismo
Para onde me dirijo.
Aperto

A memória
Aperta o coração
Sufoca a garganta
Traz lágrimas submersas
Reais e não choradas
Vertidas na consciência
Que lembra
A táctil música-espaço
Que anseia o impossível
Tactibilidade selvagem perdida
No horizonte
Sonhado para além
Da negridão para além
Da brancura para além de
Tudo és. Além
Ausente buraco negro
Sem fundo coração - tudo
Tocas, perscrutas
Se te perscruto na sabedoria
Nunca sabida oração até
Que os músicos da saudade
Silenciem a mente tua
Abandonada no mais frio
Imaculado nada.


João Darque, Pautas para uma obra imaginária, Livreira Nocturna, 1999.

Serenos Sobressaltos - "Basta pôr fim às visões falsas"

"Não é necessário procurar a verdade. Basta pôr fim às visões falsas"

- Sin-sin-ming, 3º Patriarca do Ch'an.

Que serão as "visões falsas"? Diria: as visões.

Esvaziar a Alma

Se o homem estivesse em condições de poder esvaziar completamente um copo e de o manter vazio de tudo o que consegue encher, mesmo do ar, o copo renegaria e esqueceria sem dúvida a sua natureza, e o vazio levá-lo-ia para cima até ao céu. Igualmente o ser simples, pobre e vazio de todas as criaturas eleva a alma para Deus.

- Mestre Eckhart, Tratados e Sermões

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Eco

Estou na escuridão
Envolvem-me eternos nadas
No passeio há folhas caídas
Os meus passos silenciosos
Ecoam no infinito e chegam
Aos ouvidos de Deus
Que chora a Sua criação
E ignorante se pergunta:
Meu Deus o que fui fazer?
Mas não obtém resposta
E isolado de tudo na mais
Imaculada solidão
Apercebe-se do nada
Que está para lá de todas
As coisas
Que ecoam ruidosamente
No mais íntimo de Si
E então chora
E envergonha-Se
E sente culpa
Uma culpa tão grande
Que O leva a fechar-Se
Em Si
Num acto suicida
Quando mais nada pode
Que não sofrer a fatalidade
Do Fado que, todo-poderoso
O guia pela rua cinzenta
Onde os brilhos na sujidade são
Deslumbres, meros deslumbres
Que logo passam e que até
O entristecem como a alegria
O entristece ao um dia
Ter vindo a saber
Do seu ser como eco etéreo
Que efémero ecoa no infinito
Longe, como um espelho
Que se quebra no espaço negro
Em alturas imaginadas libertas
De todos os astros que sabe serem
Fogos de artifício que antecedem
A morte que criou, enfeitiçado
Pela Sua própria ignorância impelido
Por uma vontade louca
Que o cegou enquanto se distraía
Na fruição da luz que acabou
Por obscurecê-Lo e transformá-Lo
Em eco no infinito.


João Darque, Pautas para uma obra imaginária, Livreira Nocturna, 1999.