sábado, 14 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Nem Sempre Sou Igual no que Digo e Escrevo
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...
Alberto Caeiro
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIX"
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...
Alberto Caeiro
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIX"
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Todas ridículas...
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"Terrível Bebé:gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco..."
F. Pessoa
"Minha Querida Kitty: e cheguei são e salvo, excepto pelo vazio do meu coração, que tu provocaste, como uma querida e encantadora desmazelada que és. E agora minha querida, querida rapariga! Deixa-me assegurar-te da mais verdadeira amizade por ti..."
Laurence Sterne
"Minha gentil: quem me dera ser uma ave: "arrancaria uma pena às minhas asas e, voando do céu, embebê-la-ia na tinta da aurora, naquela tinta vermelha com que os anjos escrevem cartinhas de namoro às estrelas...Quem me dera escrever-te com uma pena assim, e com uma tinta igual..."
António Nobre
Se não fossem... não seriam... de amor.... ridículas...
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
A Bailarina Cega II
A revisitação do mais puro amor num jardim de Inverno, junto às folhas emurchecidas dos livros e versosSe afasta o rosto é para não mostrar o teu que no seu está, como no fundo de um lago parado, ternamente desenhado; se mostra leveza é para repousar no seu enlevo o teu cansaço triste; se abre os braços é porque dança ainda a clarividência de um sentimento absoluto na asa da borboleta que nasceu no instante em que num só e único olhar te selou em luz e Amar; se para outro tempo se move e com ele se comove, a bailarina cega, é porque contigo se dirige e expande para todos os ramos dourados da eternidade. E se ouvem, no mesmo silêncio que a ti te faz semear e a ela recolher, em botão as flores de amor, é porque uma mesma voz vos reúne no semear e no gerar. Enquanto semeias no seu corpo as flores, margaridas simples, sem outra cor para além do calor, escutam:
Oh, que atónitos olhos nos contemplam
Nos sorriem, nos dizem: sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
Olham por nós na hora que se esvai! (Natércia Freire)
A bailarina cega não sabe, depois de teu secreto aproximar e do teu corpo em seus ramos roçagar, onde ébria de amor deixar seus pés poisar. E o seu sorriso abre em flor, aflora ao corpo, coberta de parras de uma uva pura e branca no seu viçar, é para de ti receber o vinho com que, mulher feita taça a tornas, e a ela como Diónisos te consagrares. Aberto o rosto pelo sorriso, nele corre o teu néctar e o teu fulgor e só nele, então, transcorre o sentimento canto e o encanto do pássaro que vem do teu chamar e edénico modo de a tocar. Repete quando sorri, te sorri, em asas de pássaro, este outro cantar:
Meu rosto, no teu de horizontes, meu corpo, no teu, a flutuar. (Natércia Freire)
E o mar há-de vir para nas vagas brancas de espuma e fúria vos enlaçar. Nas tuas mãos a coroa de flores no corpo abertas e floridas, no seu corpo um só grito para vos confundir às sagradas e antigas águas.
Foi quase morta que, nas margens da sede, jardineiro cego, com um braço em arco, no abraço, à morte uma vez mais a roubaste. O Amor é o dilúvio do tempo. E são ondas onde em canto a enrolas. O Amor é um passo de dança para o mais dentro e o mais fundo do mar. É nas dobras das ondas que a bailarina esconde os sons do teu nome repetido nas vibrantes forças do seu corpo atravessando o vazio do ar.
As ondas são outras bailarinas brancas de braços no ar que ao mais fundo do fundo te vão como a ti, jardineiro cego, visitar. O mar é um jardim vibrante de flores fugazes de luz. É à tua sombra que a bailarina enfeitiçada de braços no ar se vai entregar. Só uma sombra a consegue agarrar…a uma bailarina de braços esticados que vem, do mais remoto tempo, caindo devagar. E tu, estendido em sombra em seu redor vens, com o convite nas mãos e com o canto do pássaro, convidar para em amor dançar. A bailarina veste-se de plumas e corre para te aceitar. Da árvore do paraíso se irão, depois da dança, recordar. Para lá, bailarina e jardineiro cegos, inocentes e dolentes, haverão de regressar. É de lá que vem a unidade que os reúne no dilúvio e no reconhecimento profundo que vem de um certo olhar fechado pelo sentir silente do amar que os arrasta como flores de memória para a espuma cantante do mar.
Depois virá o tempo: a bailarina tomará a palavra para contar e o jardineiro o seu corpo para a evocar num eterno passo de dança nas margens de uma permanente lembrança. O que o jardineiro sabe é que a memória é um jardim povoado por estátuas em estado de dança. Que a lembrança é uma bailarina perdida na duração. É por isso que mesmo distante, o jardineiro a vem, nas margens do mar e dos livros, buscar e salvar. Abraçar. Só o Amor colhe flores no Inverno. Só o Amor, esse jardineiro cego, semeia fores de memória junto às estátuas que em pedra e mármore querem com ele dançar…
paleta de cores para um retrato
Tempo frio
Cinzento
No balcão de zinco da Taberna
Um copo de aguardente
Com reverberações azuis
Afoga
Uma cândida amêndoa
Cor-de-rosa
Cinzento
No balcão de zinco da Taberna
Um copo de aguardente
Com reverberações azuis
Afoga
Uma cândida amêndoa
Cor-de-rosa
Poema de amor
Vasa-me os olhos e eu poderei ver-te
Destrói-me os ouvidos e eu poderei ouvir-te
Mesmo sem pés poderei chegar a ti
Mesmo sem boca poderei conjurar-te
Corta-me os braços adorar-te-ei
Com os braços com as mãos
No coração latejará o meu cérebro
E se incendiares o meu cérebro
Guardar-te-ei ainda no meu sangue
Rainer Maria Rilke
(1875 - 1926)
Destrói-me os ouvidos e eu poderei ouvir-te
Mesmo sem pés poderei chegar a ti
Mesmo sem boca poderei conjurar-te
Corta-me os braços adorar-te-ei
Com os braços com as mãos
No coração latejará o meu cérebro
E se incendiares o meu cérebro
Guardar-te-ei ainda no meu sangue
Rainer Maria Rilke
(1875 - 1926)
Cioran e Pessoa: o levantar-se de haver nascido (em homenagem ao belo aforismo da Luísa)

"Beyond-God and Beyond-Being: Uncreated and Saudade in Fernando Pessoa" (11 de Fevereiro; 16:30-18), na Faculdade de Teologia e Estudos Religiosos. Desta é responsável a Joana Serrado.
"Emil Cioran and Fernando Pessoa: the Leap into the Absolute and the Escape Beyond God", no Colóquio 'Leaps' in literature: On Cioran's philosophical ars saltandi - Workshop em Rijksuniversiteit, 13 de Fevereiro, Academiegebouw, Broerstraat 5, room no. 7.
Organizador: Dagmara Kraus
Resumo desta conferência: "We can find in Emil Cioran and Fernando Pessoa a same urge to transcend existence and recover what's before being born. On the basis of that, this paper intends to compare Cioran's leap in the absolute, connected with the experience of ecstasy and trans-figuration, and Pessoa's evasion from God, leading to be free from being and not-being."
Que Deus me perdoe! E a Maria da Conceição também!
Bill Hicks - Positive Drug Story (Lua Cheia)
"We can explore SPACE, together, both inner and outter, forever, in PEACE"
"Life is a ride..."
"Life is a ride..."
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Pela marinha a vender azeite e farinha.
Cantiga de escarnho de Afonso X o sábio
Non me posso pagar tanto
do canto
das aves nen do seu son,
nen d'amor nen de mixon
nen d'armas - ca ei espanto,
por quanto mui perig(o)sas son,
- come dun bon galeon,
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha
u os alacrães son;
u os alacrães son;
ca dentro no coraçon
senti deles a espinha!
E juro par Deus lo santo
que manto non tragerei nen granhon,
nen terrei d'amor razon
nen d'armas, por que quebranto
e chanto
ven delas toda sazon;
mais tragerei un dormon,
e irei pela marinha
e irei pela marinha
vendend' azeit' e farinha;
e fugirei do poçon
do alacran, ca eu non
lhi sei outra meezinha.
Nen de lançar a tavolado
pagado
non sõo,
se Deus m'ampar,
aqui, nen de bafordar;
e andar de noute armado,
sen gradoo
faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m' ôi-mais guardar
do alacran, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos un recado:
pecado
nunca me pod'enganar
que me faça já falar
en armas, ca non m'é dado
(doado
m'é de as eu razõar,
pois-las non ei a provar);
ante quer' andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algûa terra buscar,
u me non possan culpar
alacran negro nen veiro.
A Senhora Carmen acaba de gravar o seu disco não há muito, tem 82 anos, de Sanguinheda, no Sul da Galiza.
Aqui canta "Na flor dos meus anos"
Aqui canta "Na flor dos meus anos"
Fragrante peugada
Naturalmente dócil, um pasto verde-luxuriante, um toiro. E não poderão ser diferentes as palavras ou pensar num outro qualquer início. Uma Esmeralda em fogo até ao fim de uma consciência ou possível forma de este ser exposto, por estas palavras. Dizer; um esforço… e um campo doirado de Sol e trigo, que o estrídulo das cegarregas levava ao rubro. O bebedoiro da Terra velha. E um toiro, nado e criado na planície ribatejana (de gaiola como um passarinho condenado a divertir a multidão). Foi ímpeto inicial e onda de calor que lhe tapou o entendimento; pronto, já está! Estava na arena… A tremer como varas verdes, olhei à volta; do lado de lá gente, sem acabar... O artista acompanha o seu longo passeio, a plenos pulmões; ilusão da luz, a iluminação e a procura. E nesse toiro, a razão de uma procura. E nesse animal, a minha expressão e humanidade que por um ápice lhe foi concedida, a última vastidão, em impacto. Revejo-o, em uma cigarra feliz, com água limpa de espelhar os olhos, que canta… Depois, um coro de rouxinóis que acompanham Mozart, de mãos dadas, ao último momento deste possível fim. O mundo oferecer-se-te-á para que seja desmascarado

Não é necessário que saias de casa. Fica à mesa e escuta. Não escutes sequer, espera apenas. Não esperes sequer, está completamente quieto e só. O mundo oferecer-se-te-á para que seja desmascarado, não tem outra escolha, serpeará perante ti em êxtase.
- Franz Kafka, Aforismos, 109, edição, apresentação e tradução de Álvaro Gonçalves, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, p.133 [tradução ligeiramente modificada].
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
10 TOUROS
1. A PROCURA DO TOURO
Na pastagem deste mundo, afasto, sem cessar, as ervas altas na procura do touro.
Seguindo rios que não têm nome, perco-me sobre os caminhos que, cruzando-se, penetram as montanhas distantes.
Minha força falhando e exausta a vitalidade, não consigo encontrar o touro.
Só o que ouço é o canto das cigarras atravessando a floresta à noite.
Comentário: O touro anda perdido. Qual a necessidade de continuar a procura? Só por me ter separado da minha verdadeira natureza é que não consigo encontrá‑lo. Na confusão dos sentidos até lhe perco as pegadas.
Longe de cada muitos são os cruzamentos dos caminhos que vejo, mas, qual deles é o caminho certo, eu não sei. A ganância e o medo, o bem e o mal, me atrapalham.
2. DESCOBRINDO AS PEGADAS
Acompanhando a margem do rio debaixo das árvores, descubro as pegadas!
Até debaixo da erva fragrante vejo as pegadas.
Na profundidade de remotas montanhas elas são encontradas.
Estas marcas não podem esconder-se melhor do que o nariz de uma pessoa olhando para o céu.
Comentário: Conforme vou entendendo o ensinamento, vou vendo as pegadas do touro. Aprendo então que, exactamente como muitos utensílios são feitos de um mesmo metal, inúmeras entidades fazem parte do tecido do eu. Se eu não discriminar como é que eu vou distinguir a verdade da não-verdade? Ainda não tendo entrado o portal, todavia já me é discernível o caminho.
3. DISTINGUINDO O TOURO
Ouço o canto do rouxinol.
O sol está quente, o vento é suave, verdes são os salgueiros que orlam a costa,
Aqui nenhum touro se pode esconder!
Qual o artista que pode desenhar-lhe a sólida cabeça, aqueles majestosos cornos?
Comentário: Quando se ouve a voz, pode-se apreender-lhe a origem. Logo que os seis sentidos entram em fusão, entra-se o portal. Seja onde for que se entre vê-se a cabeça do touro! Esta união é como sal em água, ou cor em matéria corante. A coisa mais insignificante não deixa de ser parte do que se é.
4. AGARRANDO O TOURO
Eu o prendo com tremendo esforço.
Sua imensa vontade e poder são inesgotáveis.
Ele lança-se para o alto planalto muito para além da nebulosidade das nuvens,
Ou numa ravina impenetrável ele fica parado.
Comentário: Ele viveu na floresta durante muito tempo, mas hoje eu o prendi! O envolvimento com a paisagem interfere com o seu sentido de direcção. Desejoso de erva mais tenra, ele vagueia errante. A sua mente ainda está obstinada e descontrolada. Se desejar submetê-lo, tenho de levantar o meu chicote.
5. AMANSANDO O TOURO
O chicote e a corda são necessários,
De contrário ele pode perder-se por qualquer poeirento caminho baixo.
Sendo bem treinado ele torna-se naturalmente dócil.
Depois, solto, ele obedece ao seu mestre.
Comentário: Quando um pensamento emerge, outro pensamento se lhe segue. Quando o primeiro pensamento brota da iluminação, todos os pensamentos seguintes são verdade. Por causa da ilusão, tornamos tudo não-verdade. A ilusão não é causada pela objectividade; ela é o resultado da subjectividade. Segura firme o anel do nariz e não admitas nem uma só dúvida.
6. MONTANDO O TOURO PARA CASA
Montando o touro, lentamente regresso em direcção a casa.
A voz da minha flauta canta pela noite fora.
Medindo com a mão o compasso da vibração da harmonia, conduzo o ritmo que não tem fim.
Quem quer que ouça esta melodia juntar-se-á a mim.
Comentário: Esta luta acabou; ganhar e perder são assimilados. Eu canto a canção do lenhador da aldeia, e toco as toadas das crianças. Sentado sobre o touro, observo as nuvens no alto. Para diante eu sigo, não importa quem possa desejar chamar-me para voltar atrás.
7. O TOURO TRANSCENDENTALIZADO
Sentado sobre o touro, chego a casa.
Estou sereno. O touro pode também descansar.
Chegou o amanhecer. Em abençoado repouso,
Dentro da minha casa de tecto de colmo, pus de lado o chicote e a corda.
Comentário: Só existe uma lei, não são duas. Só consideramos o touro um assunto temporário. É como a relação do coelho com a armadilha, do peixe com a rede. É como o ouro e a escória, ou a lua surgindo de uma nuvem. Um caminho de luz clara atravessa o tempo sem fim.
8. O TOURO E EU AMBOS TRANSCENDENTALIZADOS
Chicote, corda, pessoa e touro – todos se fundem no NADA.
Este céu é tão vasto que nenhuma mensagem o pode macular.
Como pode um floco de neve existir num fogo intenso?
Aqui estão as pegadas dos patriarcas.
Comentário: A mediocridade partiu. A mente está limpa da ideia de limitação. Não procuro um estádio de iluminação. Nem permaneço onde não exista iluminação. Como não fico em nenhuma destas condições, os olhos não me podem ver. Se centenas de pássaros espalhassem flores no meu caminho, esse elogio não teria significado.
9. CHEGANDO À ORIGEM
Demasiados passos têm sido dados no regresso à raiz e à origem.
Mais valia ter sido cego e surdo desde o começo!
Permanecendo a pessoa na sua verdadeira morada, sem preocupação com o que está lá fora –
O rio corre tranquilamente e as flores são vermelhas.
Comentário: Desde o começo, a verdade é clara. Em atitude de silêncio, eu observo as formas de integração e desintegração. Quem não se ligar à ‘forma’ não necessitará ser ‘reformado’. A água esmeralda, a montanha anil, e eu vejo aquilo que cria e aquilo que destrói.
10. NO MUNDO
Descalço e de peito nu, misturo-me com as pessoas do mundo.
As minhas roupas estão esfarrapadas e cobertas de pó e eu estou sempre contente.
Não faço uso da magia para prolongar a minha vida;
Agora, ante mim, as árvores tornam-se vivas.
Comentário: Dentro do meu portal, mil sábios não me conhecem. A beleza do meu jardim é invisível. Porquê andar à procura das pegadas dos patriarcas? Vou para o local do mercado com a minha garrafa de vinho e regresso a casa com o meu cajado. Entro na loja dos vinhos e visito o mercado, e todos aqueles para quem olho se tornam iluminados.
- Kakuan (1100-1200), 10 Touros, tradução para inglês de Nyogen Sensaki e Paul Reps, versão portuguesa de Aldegice Machado da Rosa e Agostinho da Silva (manuscrito recolhido por Romana Pinho e Amon Pinho, transcrição de Ricardo Ventura, inédito a integrar a publicação das Obras Reunidas de Agostinho da Silva, a iniciar este ano pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda).
Tenho a alegria de oferecer aos amigos e leitores deste blog a primeira publicação deste texto, totalmente inédito, que ilustra a colaboração dos amigos Aldegice e Agostinho, que saúdo no mundo visível e invisível. Faltam as belíssimas ilustrações de Tomikichiro Tokuriki.
Na pastagem deste mundo, afasto, sem cessar, as ervas altas na procura do touro.
Seguindo rios que não têm nome, perco-me sobre os caminhos que, cruzando-se, penetram as montanhas distantes.
Minha força falhando e exausta a vitalidade, não consigo encontrar o touro.
Só o que ouço é o canto das cigarras atravessando a floresta à noite.
Comentário: O touro anda perdido. Qual a necessidade de continuar a procura? Só por me ter separado da minha verdadeira natureza é que não consigo encontrá‑lo. Na confusão dos sentidos até lhe perco as pegadas.
Longe de cada muitos são os cruzamentos dos caminhos que vejo, mas, qual deles é o caminho certo, eu não sei. A ganância e o medo, o bem e o mal, me atrapalham.
2. DESCOBRINDO AS PEGADAS
Acompanhando a margem do rio debaixo das árvores, descubro as pegadas!
Até debaixo da erva fragrante vejo as pegadas.
Na profundidade de remotas montanhas elas são encontradas.
Estas marcas não podem esconder-se melhor do que o nariz de uma pessoa olhando para o céu.
Comentário: Conforme vou entendendo o ensinamento, vou vendo as pegadas do touro. Aprendo então que, exactamente como muitos utensílios são feitos de um mesmo metal, inúmeras entidades fazem parte do tecido do eu. Se eu não discriminar como é que eu vou distinguir a verdade da não-verdade? Ainda não tendo entrado o portal, todavia já me é discernível o caminho.
3. DISTINGUINDO O TOURO
Ouço o canto do rouxinol.
O sol está quente, o vento é suave, verdes são os salgueiros que orlam a costa,
Aqui nenhum touro se pode esconder!
Qual o artista que pode desenhar-lhe a sólida cabeça, aqueles majestosos cornos?
Comentário: Quando se ouve a voz, pode-se apreender-lhe a origem. Logo que os seis sentidos entram em fusão, entra-se o portal. Seja onde for que se entre vê-se a cabeça do touro! Esta união é como sal em água, ou cor em matéria corante. A coisa mais insignificante não deixa de ser parte do que se é.
4. AGARRANDO O TOURO
Eu o prendo com tremendo esforço.
Sua imensa vontade e poder são inesgotáveis.
Ele lança-se para o alto planalto muito para além da nebulosidade das nuvens,
Ou numa ravina impenetrável ele fica parado.
Comentário: Ele viveu na floresta durante muito tempo, mas hoje eu o prendi! O envolvimento com a paisagem interfere com o seu sentido de direcção. Desejoso de erva mais tenra, ele vagueia errante. A sua mente ainda está obstinada e descontrolada. Se desejar submetê-lo, tenho de levantar o meu chicote.
5. AMANSANDO O TOURO
O chicote e a corda são necessários,
De contrário ele pode perder-se por qualquer poeirento caminho baixo.
Sendo bem treinado ele torna-se naturalmente dócil.
Depois, solto, ele obedece ao seu mestre.
Comentário: Quando um pensamento emerge, outro pensamento se lhe segue. Quando o primeiro pensamento brota da iluminação, todos os pensamentos seguintes são verdade. Por causa da ilusão, tornamos tudo não-verdade. A ilusão não é causada pela objectividade; ela é o resultado da subjectividade. Segura firme o anel do nariz e não admitas nem uma só dúvida.
6. MONTANDO O TOURO PARA CASA
Montando o touro, lentamente regresso em direcção a casa.
A voz da minha flauta canta pela noite fora.
Medindo com a mão o compasso da vibração da harmonia, conduzo o ritmo que não tem fim.
Quem quer que ouça esta melodia juntar-se-á a mim.
Comentário: Esta luta acabou; ganhar e perder são assimilados. Eu canto a canção do lenhador da aldeia, e toco as toadas das crianças. Sentado sobre o touro, observo as nuvens no alto. Para diante eu sigo, não importa quem possa desejar chamar-me para voltar atrás.
7. O TOURO TRANSCENDENTALIZADO
Sentado sobre o touro, chego a casa.
Estou sereno. O touro pode também descansar.
Chegou o amanhecer. Em abençoado repouso,
Dentro da minha casa de tecto de colmo, pus de lado o chicote e a corda.
Comentário: Só existe uma lei, não são duas. Só consideramos o touro um assunto temporário. É como a relação do coelho com a armadilha, do peixe com a rede. É como o ouro e a escória, ou a lua surgindo de uma nuvem. Um caminho de luz clara atravessa o tempo sem fim.
8. O TOURO E EU AMBOS TRANSCENDENTALIZADOS
Chicote, corda, pessoa e touro – todos se fundem no NADA.
Este céu é tão vasto que nenhuma mensagem o pode macular.
Como pode um floco de neve existir num fogo intenso?
Aqui estão as pegadas dos patriarcas.
Comentário: A mediocridade partiu. A mente está limpa da ideia de limitação. Não procuro um estádio de iluminação. Nem permaneço onde não exista iluminação. Como não fico em nenhuma destas condições, os olhos não me podem ver. Se centenas de pássaros espalhassem flores no meu caminho, esse elogio não teria significado.
9. CHEGANDO À ORIGEM
Demasiados passos têm sido dados no regresso à raiz e à origem.
Mais valia ter sido cego e surdo desde o começo!
Permanecendo a pessoa na sua verdadeira morada, sem preocupação com o que está lá fora –
O rio corre tranquilamente e as flores são vermelhas.
Comentário: Desde o começo, a verdade é clara. Em atitude de silêncio, eu observo as formas de integração e desintegração. Quem não se ligar à ‘forma’ não necessitará ser ‘reformado’. A água esmeralda, a montanha anil, e eu vejo aquilo que cria e aquilo que destrói.
10. NO MUNDO
Descalço e de peito nu, misturo-me com as pessoas do mundo.
As minhas roupas estão esfarrapadas e cobertas de pó e eu estou sempre contente.
Não faço uso da magia para prolongar a minha vida;
Agora, ante mim, as árvores tornam-se vivas.
Comentário: Dentro do meu portal, mil sábios não me conhecem. A beleza do meu jardim é invisível. Porquê andar à procura das pegadas dos patriarcas? Vou para o local do mercado com a minha garrafa de vinho e regresso a casa com o meu cajado. Entro na loja dos vinhos e visito o mercado, e todos aqueles para quem olho se tornam iluminados.
- Kakuan (1100-1200), 10 Touros, tradução para inglês de Nyogen Sensaki e Paul Reps, versão portuguesa de Aldegice Machado da Rosa e Agostinho da Silva (manuscrito recolhido por Romana Pinho e Amon Pinho, transcrição de Ricardo Ventura, inédito a integrar a publicação das Obras Reunidas de Agostinho da Silva, a iniciar este ano pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda).
Tenho a alegria de oferecer aos amigos e leitores deste blog a primeira publicação deste texto, totalmente inédito, que ilustra a colaboração dos amigos Aldegice e Agostinho, que saúdo no mundo visível e invisível. Faltam as belíssimas ilustrações de Tomikichiro Tokuriki.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Bildnis eines Schattens / Retrato de uma Sombra
Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.
- Paul Celan (1920-1970), A Morte é uma Flor (Poemas do espólio), tradução, posfácio e notas de João Barrento, Lisboa, Cotovia, 1998, p.19.
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.
- Paul Celan (1920-1970), A Morte é uma Flor (Poemas do espólio), tradução, posfácio e notas de João Barrento, Lisboa, Cotovia, 1998, p.19.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Devaneios de Saudades

Para construir um navio, quantos litros de sal sobre a folha aberta dos dias são necessários para que o mar venha colher à mão do tempo o Amor que lhe sabe, em Saudade. Para a impermanência das horas fomos feitos. Na errância de tudo fazer recolher para o fundo, para lá do navio; para trás do mar. Para cada lado do mar, cruzando as direcções, o corpo escreve o suave gesto de um aceno: a Norte de onde me chegam os pássaros e o coração da Primavera é uma frágil flor no peito do vestido; um aceno ao Sul, ao canto-chão, às vozes que do ventre da noite e da terra desbravam a lonjura em horizontes largos como braços. A todos os lados da impermanência sem dimensão de tudo. A impermanência da dança; a impermanência de nada, a de tudo. Tudo se despedindo de tudo; tudo a ser de outro modo em tudo... A impermanência do amor - tudo como não foi - tudo levado para trás do grande mar.
E o gesto de imitar o vento levantava a brisa nos dedos: o coração virado a oriente, o espírito no deserto, a esperança na montanha. O riso da impermanência do amor e de tudo! A preparação, o separar dos objectos; o acender o fogo; a espera, a eterna espera, em ouro imaginada... o silêncio que se quer a ampliar o silêncio e a dilatar o tempo, a moldar o tempo...
O que fica de tudo o que passa? Nada fica do que nada passou... Continuamos até onde nos levar o que permanente permanece na impermanência de tudo.
Foi preciso ao poema audaciar-se para abrir todas as páginas do caderno de escrever. Impermanecer demorado sob a forma movente dos olhos, reflexo parado do amor que se vai, entre pingos de chuva e memória de beijos até à porta falsa do esquecimento. Ali onde se guarda o que permanece à superfície das águas, como rosas de guardar. Era preciso ao poema transmudar-se, embarcar, naufragar em uma praia de seixos claros e rir até não poder mais do seu mesmo sorriso; Rir de dor do Amor que mal chega ao seu acenar, logo, logo, emudece. Impermanente e errante, como quero que seja o beijo que não demos em nenhum jardim... Fica um gosto de saudade que morre em cada poema tecido ele mesmo da sua impermanência. Da sua substância de pulverizar mundos.
Um dia, construiremos um navio singular, feito de terra e de mar e, quem quizesse lá ficar... tinha de andar léguas em seu pensar....E, bebido o ar e o som, pudéssemos dizer que a sinfonia foi tocada altíssima em vozes colhidas e nascidas da divina colheita do amor. A vide, Iabel, a vide!
Trazei-me o Outono já que o Inverno tarda, para que volte ao que em teia de seu mesmo tear, o manto teça, o manto do seu ser de dor e de saudade. Tomai comigo um cálice, amigos! Que este é o nectar sagrado dos deuses, o perfume enganador dos sentidos, os cantos alegríssimos do vinho. Banquete e mesa posta, em nós, sentados, como se comungássemos dum mesmo dolorido gesto de nascer. Banquete rico de nós, entregues ao pensamento no Egipto do ser. Quem se não sonha por um dia: Cleópetra, Inês, Beatriz, Isolda, Penélope, Isabel ou Saudades? Quem não se sonha Pitonisa, Oráculo, Cálice, Cruz e Rosa e Cristo? Buda ou o Grande Grande Vazio, ou o SILÊNCIO que por ora é um eco. Desde o navio até ao sal do dia, serei a coroa e o anel. A espada está onde o punho a deixou, suspensa da vontade e do merecimento. Sabe-se que terá que ser puro, corajoso e fiel. Por isso a impermanência do Amor sempre será Cálice cheio de quem bebe a sua mesma impermanência. Um brinde ao Amor, meus amigos!
E o gesto de imitar o vento levantava a brisa nos dedos: o coração virado a oriente, o espírito no deserto, a esperança na montanha. O riso da impermanência do amor e de tudo! A preparação, o separar dos objectos; o acender o fogo; a espera, a eterna espera, em ouro imaginada... o silêncio que se quer a ampliar o silêncio e a dilatar o tempo, a moldar o tempo...
O que fica de tudo o que passa? Nada fica do que nada passou... Continuamos até onde nos levar o que permanente permanece na impermanência de tudo.
Foi preciso ao poema audaciar-se para abrir todas as páginas do caderno de escrever. Impermanecer demorado sob a forma movente dos olhos, reflexo parado do amor que se vai, entre pingos de chuva e memória de beijos até à porta falsa do esquecimento. Ali onde se guarda o que permanece à superfície das águas, como rosas de guardar. Era preciso ao poema transmudar-se, embarcar, naufragar em uma praia de seixos claros e rir até não poder mais do seu mesmo sorriso; Rir de dor do Amor que mal chega ao seu acenar, logo, logo, emudece. Impermanente e errante, como quero que seja o beijo que não demos em nenhum jardim... Fica um gosto de saudade que morre em cada poema tecido ele mesmo da sua impermanência. Da sua substância de pulverizar mundos.
Um dia, construiremos um navio singular, feito de terra e de mar e, quem quizesse lá ficar... tinha de andar léguas em seu pensar....E, bebido o ar e o som, pudéssemos dizer que a sinfonia foi tocada altíssima em vozes colhidas e nascidas da divina colheita do amor. A vide, Iabel, a vide!
Trazei-me o Outono já que o Inverno tarda, para que volte ao que em teia de seu mesmo tear, o manto teça, o manto do seu ser de dor e de saudade. Tomai comigo um cálice, amigos! Que este é o nectar sagrado dos deuses, o perfume enganador dos sentidos, os cantos alegríssimos do vinho. Banquete e mesa posta, em nós, sentados, como se comungássemos dum mesmo dolorido gesto de nascer. Banquete rico de nós, entregues ao pensamento no Egipto do ser. Quem se não sonha por um dia: Cleópetra, Inês, Beatriz, Isolda, Penélope, Isabel ou Saudades? Quem não se sonha Pitonisa, Oráculo, Cálice, Cruz e Rosa e Cristo? Buda ou o Grande Grande Vazio, ou o SILÊNCIO que por ora é um eco. Desde o navio até ao sal do dia, serei a coroa e o anel. A espada está onde o punho a deixou, suspensa da vontade e do merecimento. Sabe-se que terá que ser puro, corajoso e fiel. Por isso a impermanência do Amor sempre será Cálice cheio de quem bebe a sua mesma impermanência. Um brinde ao Amor, meus amigos!
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