A revisitação do mais puro amor num jardim de Inverno, junto às folhas emurchecidas dos livros e versosSe afasta o rosto é para não mostrar o teu que no seu está, como no fundo de um lago parado, ternamente desenhado; se mostra leveza é para repousar no seu enlevo o teu cansaço triste; se abre os braços é porque dança ainda a clarividência de um sentimento absoluto na asa da borboleta que nasceu no instante em que num só e único olhar te selou em luz e Amar; se para outro tempo se move e com ele se comove, a bailarina cega, é porque contigo se dirige e expande para todos os ramos dourados da eternidade. E se ouvem, no mesmo silêncio que a ti te faz semear e a ela recolher, em botão as flores de amor, é porque uma mesma voz vos reúne no semear e no gerar. Enquanto semeias no seu corpo as flores, margaridas simples, sem outra cor para além do calor, escutam:
Oh, que atónitos olhos nos contemplam
Nos sorriem, nos dizem: sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
Olham por nós na hora que se esvai! (Natércia Freire)
A bailarina cega não sabe, depois de teu secreto aproximar e do teu corpo em seus ramos roçagar, onde ébria de amor deixar seus pés poisar. E o seu sorriso abre em flor, aflora ao corpo, coberta de parras de uma uva pura e branca no seu viçar, é para de ti receber o vinho com que, mulher feita taça a tornas, e a ela como Diónisos te consagrares. Aberto o rosto pelo sorriso, nele corre o teu néctar e o teu fulgor e só nele, então, transcorre o sentimento canto e o encanto do pássaro que vem do teu chamar e edénico modo de a tocar. Repete quando sorri, te sorri, em asas de pássaro, este outro cantar:
Meu rosto, no teu de horizontes, meu corpo, no teu, a flutuar. (Natércia Freire)
E o mar há-de vir para nas vagas brancas de espuma e fúria vos enlaçar. Nas tuas mãos a coroa de flores no corpo abertas e floridas, no seu corpo um só grito para vos confundir às sagradas e antigas águas.
Foi quase morta que, nas margens da sede, jardineiro cego, com um braço em arco, no abraço, à morte uma vez mais a roubaste. O Amor é o dilúvio do tempo. E são ondas onde em canto a enrolas. O Amor é um passo de dança para o mais dentro e o mais fundo do mar. É nas dobras das ondas que a bailarina esconde os sons do teu nome repetido nas vibrantes forças do seu corpo atravessando o vazio do ar.