O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 19 de maio de 2010

-a caminho da cidade-




“… Vem comigo! Vou mostrar-te
o caminho que leva à Cidade do Sonho...
De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho.

Vai por entre rosais, sinuoso e macio,
Como o caminho chão duma aldeia ao luar,
Todo branco a luzir numa noite de Estio,
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
…

Vistos dessa eminência, o mundo e as suas
sombras,
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol,
O mais estéril chão atapeta-se de alfombras,
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol.

Nela mora encantada a Ventura perfeita
Que no mundo jamais nos é dado sentir...
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
A própria Dor começa a cantar e a sorrir!

Que importa o despertar? Esse instante divino,
como recordação indelével persiste,
E neste amargo exílio, através do destino,
Ventura sem pesar só na memória existe...”

António Feijó, A Cidade do Sonho

domingo, 16 de maio de 2010

breve infinito urbano




"Pela que a cidade muita certeza tinha
De se livrar de toda a corrupção
Do ar impuro e da infecção
Que causam muita, por sua violência
Mortalidade e grande pestilência"

Lydgate, 1339

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Estar enraízado na ausência de lugar" ou da desterritorialização de Portugal

"Não há que ser eu, mas ainda menos há que ser nós.
A cidade dá o sentimento de estar em casa.
Assumir o sentimento de estar em casa no exílio.
Estar enraízado na ausência de lugar"

- Simone Weil, La pesanteur et la grâce, Presses Pocket, 1991, p.50.

Novalis escreveu que a filosofia não era senão saudade de estar em todo o mundo em sua casa. Penso ser essa a maior aspiração dos portugueses. Há que desterritorializar o nosso sentimento de Portugal, que na verdade, pelo menos desde os Descobrimentos, não é propriamente um território, mas antes um estado de espírito, um estado de universalidade. Essa é a verdadeira Pátria, que apenas indirecta e relativamente se expressa numa terra, numa língua, numa cultura e numa história. Não perceber isso é não perceber Portugal, cuja identidade é o próprio universo.

umoutroportugal.blogspot.com

domingo, 31 de maio de 2009

Virgílio Ferreira, in Aparição

Pela última vez, durmo na casa do Alto. É uma noite sem lua mas com um céu vivo de estrelas. Mas a minha atenção prende-se à cidade, à planície. Para os lados da estrada de Viana descubro um espectáculo extraordinário que me alvoroça, que me fascina: numa vasta extensão de terreno, um incêndio lavra interminávelmente, iluminando a noite. É uma "queimada", suponho, o incêndio do restolho para a renovação da terra. Alinhadas pelos sulcos, as chamas avançam como um flagelo inexorável. E aos meus olhos saqueados é como se uma cidade ardesse, uma cidade fantástica, aberta de quarteirões, de praças, de sonhos. Cidade, minha cidade... Que a terra tenha razâo sobre ti, que essa força que mal sei te absorva, te revele em cinzas, tire delas outra fecundação e outro ignorado recomeço - que me importa? A minha vida é "a" vida, só existe o que sou: não se imagina quem se não é..
Acendo um cigarro, fico-me a olhar o incêndio.

Lembra-me imagens da guerra, de cidades bombardeadas. Alguém deve ir pegando o fogo por sectores, estabelecendo linhas de chamas que o vento vai impelindo. O campo arde vastamente, como uma destruição universal. Quase ouço o crepitar das chamas como o fervor final de uma inundação. Sinto-me só e nu, escapando ao desastre. Mas esta nudez que eu algum dia julguei possivelmente coberta pela compreensão dos outros, esta redução extrema às minhas raízes, esta solidão inicial de quem não pode esquecer a sua pobre condição é o sinal humilde e amigo de que à vida que me deram a não repudiei, de que cuidei dela, a não perdi, a levo comigo nesta viagem breve, a aceito ao meu olhar de fraternidade e perdão... A noite avança, a minha cidade arde sempre. Vou fundar outra noutro lado. Mas não sabia eu que ela devia arder? Acaso será possivel construir uma cidade como a imagino, a cidade do Homem? Acaso não dura ela em mim, no meu sonho, apenas porque a penso sem consequências, a imagino, a não vivo, lhe não exijo responsabilidades? Não o sei, não o sei...

Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Apelo a uma reflexão sobre a vida na cidade

Como o fiel leitor já deve ter reparado, encontro-me, neste momento, na cidade; e a cidade desperta em mim esta sensação de vazio, de nada ser, mas não do vazio de nada-tudo ser que liberta, como quando nos libertamos com um simples expirar, mas o vazio niilista, a queda abrupta de todos os valores, se tal é possível, para o abismo da arrogância e do esquecimento.

Como deve também ter reparado, já tenho computador com internet em casa e, por isso, digno-me a escrever estes posts pouco dignos do portento inicial e iniciático deste espaço, não obstante contudo estes posts que outros, noutros lugares, denominam "os posts irritados", serem limiares, porventura os da sanidade e da estupidez humana, ambos casos a estudar.

Que a cidade desperta em mim algo de completamente cáustico é por demais evidente, embora não seja tão evidente que, segundo o meu pouco importante pensamento, julgo necessária uma reflexão séria, por parte do utilizador, da vida que leva. Penso que está chegada a hora de reflectirmos muito profundamente, enquanto seres humanos que quanto saibam têm esta vida apenas, este lugar, esta contemporaneidade, os nossos objectivos de vida, quiçá redefini-los, em função de maior qualidade de vida.

O capitalismo, a meu entender, precisa de ser travado ou alterado (em certa medida, já está a sê-lo, com as possibilidades abertas pela internet).

A reflexão a que me refiro, muito embora tenha um forte peso sociológico (lá estou eu a pensar que sei tudo... tiques), deverá ser efectuada pelo cidadão comum que, embora o ritmo mais que muitas vezes trepidante e frenético da carruagem em que viaja possa não permiti-lo (e isso não é mau, é muito mau), pensa.

Que haja tempo para reflectir, nem que seja sobre as nossas caras enjoadas de parvos, com laivos de cachorrinhos perdidos, nos transportes públicos à hora de ponta.

Há que reflectir sobre o que é, hoje, viver na cidade. E isso talvez seja muitas coisas, dependendo muito do poder económico de quem falamos. E talvez todas as reflexões sejam úteis. Mas penso que a da maioria é a mais importante, porque reflecte melhor o que é, hoje, viver na cidade.

Morte às ambições

Regressei da minha querida paz alentejana para o bulício, que detesto, da cidade. Por questões profissionais, bem vistas as coisas, ainda não tinha arranjado trabalho no Alentejo. A cidade é o lugar onde todos querem enriquecer e um lugar que nasce não da procura do encontro de culturas e mundividências, mas da vontade de sobrevivência. Por isso, é um lugar repleto, infestado, de ganância e ambição carreirista, que a mim passam ao lado, até ao dia em que seja infectado por tão portentoso vírus. Não me sinto triste, porque a cidade não dá azo a grandes tristezas mas, simplesmente, fodido - deixem-me fugir da hora de ponta, esse limiar representativo de tudo o que é mau, sensorial e inteligivelmente, e viver o sonho de uma imensa cidade pacificada pela deserção. Morte às ambições!